A Maçonaria e o mundo islâmico – um ensaio histórico (Parte I)

islamismo 76tr54eer54Os objectivos do presente trabalho são:

  • situar a presença da nossa Sublime Ordem no norte da África e no Oriente Médio nos últimos séculos;
  • identificar o posicionamento actual do mundo islâmico diante da instituição e as relações entre política e religião em países maometanos, de modo geral e
  • sintetizar o percurso da Maçonaria em 17 países, inclusive a Turquia, a Malásia e a Indonésia pelo facto de possuírem população maioritariamente muçulmana. A relevância do tema decorre do facto de que a população que abraça a fé maometana soma cerca de um bilião de pessoas, isto é, um sexto da Humanidade e apenas interesses de cunho político põem em confronto o Islão e a nossa Ordem. Mas o conflito existe de modo significativo, como veremos adiante..

Dominação socioeconómica e cultural, submissão política e esquartejamento territorial foram algumas das consequências da presença colonial europeia no Norte da África e no Oriente Médio. Este tipo de relação ocorreu, de modo preponderante, durante vários séculos e começou a ter fim após o término da Segunda Guerra Mundial. É bom lembrar que, na segunda metade do século XX, os movimentos de independência de inúmeros povos e países foram acompanhados de violência, movimentos armados e guerras, vitória de grupos políticos e religiosos radicais, com forte tendência antiocidental e rejeição dos valores culturais postos e/ou impostos pelos países europeus. Como resultado, de modo quase generalizado, a percepção dos objectivos da nossa Ordem passou a estar associada, nesta parte do mundo, ao colonialismo e a valores ultra negativos e/ou nocivos difundidos pela retórica fundamentalista, tenha ela inspiração em ideologia política ou religiosa. .

A mais antiga menção ao funcionamento de uma Loja maçónica naquela parte do mundo refere-se ao ano de 1738 e está vinculada ao Império Otomano, mas não há dados precisos relativos ao local de fundação, da Potência europeia que a teria estabelecido ou do período durante o qual teria funcionado. Depois disto, em 1748, uma Loja: britânica foi estabelecida em Alepo, na Síria. Na Ásia, em 1765, ingleses fundaram uma Loja na Indonésia. Como podemos verificar, coube a iniciados europeus, sob os auspícios de uma Potência do Velho Mundo, tentar levar a Luz a estas regiões.

A primeira Loja no extremo sul da Península Arábica surgiu em 1850, em Áden, fundada sob a égide da Grande Loja da Escócia e outra, em 1873. No Iraque, após a Primeira Guerra Mundial, ocorreu o aparecimento de algumas Lojas, mas hoje a Ordem está proibida de funcionar ali. Na actualidade, estariam em actividade uma Loja na Jordânia, sagrada em 1925 pela Grande Loja da Escócia e duas Prince Hall (ambas de militares americanos) no Golfo da Pérsia, mas todas com dificuldades para se reunirem. As Lojas que funcionavam sob os auspícios da Grande Loja Unida da Inglaterra no Iémen do Sul, Iraque e alguns pontos da Península Arábica foram obrigadas, face à pressão político-religiosa, a encerrar actividades. [1]

O Norte da África foi palco de destino similar: a Ordem chegou ao Marrocos por volta de 1860. Uma Loja subordinada à Grande Loja da Escócia foi consagrada em 1902 e, em 1927, uma, pertencente à Grande Loja Unida da Inglaterra. Depois, ambas se mudaram para Gibraltar, território britânico no Mediterrâneo ocidental. Em 1967, apareceu uma autoproclamada Grande Loja do Marrocos, que desapareceria poucos anos depois. A Grande Loja Nacional Francesa, em 1997, concedeu carta a três Lojas. marroquinas, com permissão do governo local, porque ser a única Potência francesa regular. Em 15 de Junho de 2000, surgiu, assim, em Marraquexe, a Grande Loja do Reino do Marrocos, agora em plena actividade.

Líbia, Argélia e Tunísia tiveram Lojas funcionando nos seus territórios, durante o tempo que foram colónias francesa e italiana. O Egipto possuiu, em parte do século XX, uma Grande Loja activa, mas as primeiras Lojas foram implantadas uma centena de anos antes, com cartas fornecidas por alemães e franceses. Na década de 60, do século passado, as Grandes Lojas da Inglaterra e da Escócia e o Grande Oriente da Itália fundaram diversas Lojas em território egípcio. No período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, a Grande Loja da Escócia possuía ali três Lojas e a Grande Loja Unida da Inglaterra, catorze.

A história dos Grandes Orientes autóctones, no Egipto, é uma sucessão de cismas e confusões, sagrações e encerramentos. A Grande Loja Nacional do Egipto mantinha Lojas que trabalhavam em árabe, hebraico, grego, francês, italiano e alemão, e teve uma relação espinhosa com a Grande Loja Unida da Inglaterra devido à estreita relação com o irregular Grande Oriente da França. O movimento nacionalista e a ascensão de Gamal Abdel Nasser ao poder determinou a simples supressão da Maçonaria no Egipto. [2] Samir Raafat, autor de um texto a respeito da presença da nossa Ordem no país, explica que textos deixados por Georges Zaidan e Shahin Makarius, ambos maçons e escritores, elogiaram muitos Irmãos e negociantes (inúmeros deles, de fé mosaica) pela sua actuação na tentativa de criar uma economia de mercado no Egipto. Seis décadas depois, esses escritos acabaram sendo utilizados para atacar a Ordem. É o caso de um livro de 660 páginas, escrito por Hussein Omar Hamada, que se dedica às teorias referentes a uma “conspiração maçónica mundial” e outras teses já por demais nossas conhecidas, todas derivadas da obra apócrifa Os Protocolos dos Sábios de Sião, segunda a qual existe uma “conspiração sionista-bolchevista-franco-maçónica” com vistas a “dominar o mundo” (sic!). A verdade, no entanto, é que no início dos anos 60 do século passado, as Lojas perderam membros em grande quantidade, por temor a represálias do governo nacionalista, outras foram simplesmente fechadas. Raafat sublinha que o problema no Oriente Médio e nos países árabes, de forma geral, é a percepção que se tem do que seja a nossa Ordem, mas ele próprio parece imbuído da noção de que entidades como Rotary Clube ou Lions Clube seriam uma espécie de “linha de frente da Maçonaria” (sic!). [3]

O Islão e a Maçonaria

A relação da Igreja Católica Romana com a Maçonaria é bem conhecida, sobretudo desde a bula In Eminenti, do papa Clemente XII, em 1748. No Império Otomano, o sultão Mahmud I baniu a Maçonaria, como reflexo do édito do Vaticano, mas a determinação não parece ter sido obedecida à risca. De qualquer modo, tudo indica que na vasta área dominada pelos otomanos e, portanto, na esmagadora maioria dos países muçulmanos, Maçonaria e ateísmo passaram a ser associados.

Na religião islâmica, não há uma figura que centralize o poder institucional, como o papa, mas nos países muçulmanos existe a figura de consultor legal e religioso oficial, cuja sentença tem peso de lei. Desde a metade do século XIX, houve diversos pronunciamentos a respeito da nossa Ordem no mundo muçulmano. Porém, o Colégio Jurisdicional Islâmico, da Universidade El-Azhar, no Cairo, aparece como uma das mais influentes instituições em termos de interpretação da lei islâmica e ,em 15 de Julho de 1978, este corpo emitiu uma declaração a respeito da “organização maçónica”. O texto, incisivo, parece ter jogado uma pá de cal sobre a qualquer possibilidade de aceitação da nossa instituição pelas autoridades islâmicas superiores.

Em resumo [4], o texto emite as seguintes opiniões:

  1. “A Maçonaria é uma organização clandestina, que, dependendo das circunstâncias, oculta ou revela a sua estrutura. Os verdadeiros princípios são ocultados dos membros, com excepção daqueles colocados nos mais altos graus;
  2. Os membros, no mundo inteiro, são constituídos por homens, sem preferência de fé, religião ou seita;
  3. A instituição atrai as pessoas sob o argumento de que obterão benefícios pessoais. Incita-as a serem politicamente activas, mas os objectivos são injustos;
  4. Os novos membros participam de cerimónias de diferentes denominações e com símbolos distintos, e são atemorizados, para que não desrespeitem os regulamentos e ordens;
  5. Membros preferidos são livres para praticar a sua religião, porém apenas os ateus são promovidos aos altos graus, baseados no facto de quanto desejem servir os perigosos princípios e planos da entidade;
  6. Trata-se de uma organização política: serviu a todas as revoluções, transformações militares e políticas e todas as mudanças perigosas;
  7. É uma organização judaica, nas suas raízes. O corpo administrativo internacional é composto por judeus e promove actividades sionistas;
  8. Os seus objectivos primários são desviar as pessoas de todas as religiões e desviar os muçulmanos do Islão;
  9. Tentam recrutar pessoas das esferas política, científica, financeira e social, a fim de utilizá-las. Não aproveitam candidatos que não possam ser usados. Recrutam reis, ministros, altos membros de governos;
  10. Dispõe de ramificações sob diferentes nomes como forma de camuflagem, a fim de que as pessoas não sejam capazes de rastrear as suas actividades, sobretudo se o nome Mac.ia tem oposição em algum lugar. Os seus ramos ocultos denominam-se Lions, Rotary e assemelhados. Possui princípios que contradizem as regras do Islão. Há uma clara relação entre Mac.ia, Judaísmo e Sionismo internacional. Tem controlado a acção de oficiais árabes no conflito palestino. Limita todas as obrigações e actividades, a fim de beneficiar o Judaísmo e o Sionismo internacional. Visto que a Mac.ia, em si própria, envolve actividades perigosas, o Sínodo Jurisdicional determina que se trata de uma organização destrutiva e perigosa. Qualquer muçulmano que se filiar a ela, conhecendo-lhe os verdadeiros objectivos, é um infiel diante do Islão”.

Evidentemente, convém relembrar, o passado colonial, a ascensão de determinados grupos religiosa e politicamente radicais aos governos de diversos países islâmicos e a tendência distorcida e equivocada de associar a nossa Ordem aos conflitos do Oriente Médio (como uma espécie de “braço” do Sionismo e, ainda por cima, anti-islâmico…) muito parece ter contribuído para criar um profundo hiato do mundo do Islão em relação à Maçonaria.

Em contrapartida, estudos mais sólidos chegaram a ser publicados, como é o caso do livro Freemasonry, Ancient Egypt and the Islamic Destiny (Francomaçonaria, o Egipto Antigo e o Destino Islâmico), de Mustufa El-Amin [5]. Em diversas passagens da sua obra, El-Amin chega a citar o facto de que, de facto, encontrou alguns pontos em comum entre os objectivos de nossa Ordem e os preceitos do Islão, mas logo sublinha que a “busca da Verdade deve ser feita com base nas revelações do profeta Maomé”. E também observa que diversos aspectos ritualísticos da Mac.ia “zombam do Islão” (sic). Mas faz uma distinção entre a religião oficial dos países árabes e o nacionalismo árabe, lembrando: “O nacionalismo árabe escraviza, nega direitos às mulheres, é racista, ao passo que o Islamismo é universalista, não nacionalista[6]. Ou seja, assume uma postura ambígua.

Como podemos verificar, parece haver uma permanente confusão e desconhecimento dos reais objectivos da Maçonaria, como, por exemplo, desconhecimento do respeito absoluto às religiões quaisquer que sejam, a todas as pessoas de qualquer origem etnolinguística e social.

Aleksandar Jovanović

(Continua na parte II)

Notas

[1] Rich, Paul. Masonry and the Middle East. www.paulrich/net/ Consulta em 28, 29 e 30 Julho 2018.

[2] Raafat, Samir. “Freemasonry in Egypt: is still around?”. In: Insight Magazine. March 1, 1999. www.egy.com/community/99-03-01.shtml. Consulta em 30 Julho 2018.

[3] Vide também: www.egyptiangazette.net.eg/gazette/index.shtml. Consulta em 28 Julho 2018.

[4] “The curse of Freemasonry”. In: Questions of faith. The Saudi Gazette, 13 January 1995. www.saudigazette.com.sa. Consulta em 27, 28 e 29 Julho 2018. Vide também : a) Transactions, Victorian Lodge of Research, 24 November 2000. Australia; b) Layiktez, Celil – Freemasonry in the Islamic World, Istambul: Tesviye (O Nível), 51: 2001.

[5] El-Amin, Mustufa. Freemasonry, Ancient Egypt and the Islamic Destiny. New Jersey: New Mind, 1988. Apud: Rich, Paul, op. cit.

[6] idem, p. 155.

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