“Quanto a mim, estive mentalmente ocupado com um novo conceito: a caridade da técnica. Julgo que me entenderam, mas eu explico melhor: a natureza é um logro, a armadilha original, que temos a obrigação de rasgar pela guerra e pelo amor. E nisto a técnica ajuda muito. Sim, também no amor devemos ser como amáveis pedreiros”
Pedro Paixão, A Noiva Judia, p. 31.
É, em termos existenciais, cada vez mais complexo definir o que é a atividade maçónica. A Maçonaria é, sem sombra de dúvida, um “saber fazer”, correspondente a um grupo de rituais com palavras e gestos, que apenas os sabem fazer quem detém um conhecimento técnico aprendido num meio fechado. De facto, uma ritualidade, na medida em que tem como base a realização de um ato com um figurino muto rígido, é uma técnica, é um saber de que domina os gestos e os conhece para os reproduzir.
Mas, ao mesmo tempo, a própria definição de ritualidade não se esgota na capacidade de repetir e, assim, demonstrar que se dominam os ditos gestos e palavras. A esses formulários de ação muito bem codificados, o maçom corresponde um significado existencial na sua cosmovisão. Mais que repetir um gesto porque se domina uma técnica, repetem-se os gestos porque se acredita que eles unem a quem antes os realizou e, mais, porque eles são criadores de realidade. São alquímicos.
Na sua génese, a Maçonaria moderna te muito de técnica na sua formulação. A própria noção de Grande Arquiteto do Universo vai ao universo mecanicista, que tentava explicar o cosmos na passagem do século XVII para o XVIII, buscar materiais. Numa junção entre o espírito Iluminista e o legado Humanista, as Artes Liberais terão um peso muito grande no imaginário mecânico da Maçonaria, especialmente no Grau de Companheiro.
O ato de trabalhar a pedra a que o Maçom é chamado é profundamente técnico e precisa dessas Artes Liberais para recolher as ferramentas próprias. Esquadros, compassos, fios de prumo ou níveis, tudo nos remete para a τέχνη, téchnē. Mas onde se cruza, complementando-se ou opondo-se, a dimensão técnica do ritual com o trabalho espiritual que é o fim em si da Maçonaria?
A ideia de «caridade da técnica» como ato de «amor [dos] amáveis pedreiros», nas palavras de Pedro Paixão, encerra a dimensão erótica de um gesto e de uma interiorização. O eros é, na assunção da materialidade, a anima, a força vivente, a potência criadora, que desperta a capacidade do interior. O gesto, no, e com, o corpo, faz participar e permite viver o mito e o símbolo. Assim, a técnica é instrumental na possibilidade de chegar ao espírito. O ritual é do campo do eros, mas a sua alquimia é da natureza do logos.
Hoje, a questão coloca-se no universo das novas técnicas na panóplia de instrumentos que temos à mão. É possível viver o rito, o símbolo e o mito com novas parafernálias? É possível viver o rito com símbolos e com mitos que já não se entendem e não “re-ligam” a nada? Estas questões são, inevitavelmente, fortalecidas e tornadas ainda mais pertinentes em tempo de pandemia, em tempo onde o gesto na proximidade quase desapareceu.
A redescoberta do símbolo e do mito; a reconstrução do pensamento simbólico passará apenas pelo ato potencialmente revivalista de recuperação dos símbolos clássicos, ou abriremos a porta a novos signos num quadro valorativo?
No limite, e se hoje se desse o ato genesíaco de 1717, que instrumentos técnicos iríamos buscar como símbolo?
Fonte
- Página no Facebook da Quatuor Coronati Correspondence Circle Portugal

- O que é a Maçonaria?
- Fernando Pessoa – uma apologia da Maçonaria portuguesa (Parte II)
- A Maçonaria: tecnologia avançada (I)
- O Aprendiz Estóico
- Portugal Culto e Oculto – A Maçonaria

