O que é a Maçonaria?

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A palavra “Maçonaria” remete-nos para um mundo obscuro e até mesmo perigoso[1].

Aquele que apenas conhece os temas maçónicos sem ter lido o que os maçons escrevem sobre eles, não conhece a Maçonaria[2].

A questão da origem da Maçonaria, tratada no ponto anterior, remete-nos já para uma outra questão fundamental e não menos complexa, sobre a qual nos debruçaremos de seguida: afinal, em que consiste a Maçonaria?

Como muito bem referem Bruno Nunes e Frederico de Carvalho, infelizmente temos por hábito repudiar aquilo que desconhecemos, e no caso da Maçonaria repudiamo-la porque, além de não a conhecermos, o que dela ouvimos só alimenta essa desconfiança [3]. Ainda hoje, no norte mais recôndito do nosso país, sempre que se pretende insinuar que uma pessoa é má diz-se comummente “és maçónico!” [4].

Consciente disto mesmo, Amando Hurtado não hesita em afirmar: “há quem identifique claramente o nosso trabalho como uma forma de culto «luciferino»” [5].

Não será, portanto, de espantar que, mais ou menos amiúde, surjam na imprensa declarações depreciativas, ou mesmo “inflamadas” e nada abonatórias acerca da Ordem, como as recentemente proferidas por Otto Czernin, director da revista Magazine Grande Informação:

a Maçonaria é uma questão de crianças adultas com problemas de infância mal resolvidos, a isto junta-se um fascínio doentio pelo poder, falta de independência de espírito, personalidade fraca e temos o retrato robot do maçon.
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Quem andou à solta na rua, ou em colégios internos sabe do que estou a falar: o gang é tudo, quem está dentro está protegido, os que estão de fora, o melhor é não estorvar.
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Mais tarde os mais práticos passam a mafiosos, os mais intelectuais a maçons, uma espécie de malandro com curso superior e uma cultura acima da média.
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A Maçonaria transforma brincadeiras de crianças em brincadeiras de homens, pequenas ciladas em golpes de Estado, mentiras em campanhas de difamação, segredinhos em conspirações, pequenas aldrabices em fraudes, beliscões em assassínios, e por aí fora, tudo isto envolto num manto de espiritualidade e boas intenções, recheado de aventais e martelinhos, simbolismos que fazem lembrar as colecções de soldadinhos de chumbo da nossa infância. (…)” [6].

Não obstante opiniões como a que acabámos de transcrever, e que nos parece francamente exagerada, o facto é que existem actualmente cento e cinquenta e sete organizações de Maçonaria Regular espalhadas por cinco continentes, estimando-se em, pelo menos, dez milhões o número total de maçons no mundo, como pode ler-se no Jornal de Notícias de 26 de Junho de 2006 [7]. Há mesmo quem aponte para que esse número tenha já sido suplantado em mais de um milhão, o que perfaz um total de mais de onze milhões de Irmãos à escala global [8].

Portugal não ficou indiferente a esta expansão, sendo que, num espaço de apenas cinco anos [9], só a Grande Loja Legal de Portugal quase duplicou o número de membros (que ronda agora um milhar) e cresceu substancialmente na faixa dos vinte e cinco aos trinta anos, evidenciando actualidade e uma estrutura cada vez mais jovem [10]. Desenvolvimento idêntico conheceu o Grande Oriente Lusitano, cujo Grão-Mestre e porta-voz, António Reis, declarou recentemente, em entrevista ao semanário Expresso, que a Obediência por si representada duplicou o número de filiados durante a última década, facto que interpreta como sinónimo de abertura e crescimento [11].

A verdade é que não nos importa aqui emitir quaisquer juízos de valor, pelo que, na tentativa de dar uma resposta séria a esta interrogação (o que é a Maçonaria?), começaremos por analisar etimologicamente o próprio vocábulo.

Assim, e segundo Amando Hurtado [12], a palavra maçon é de origem Frâncica [13] e procede do germânico mattjon, que deriva para metze, em alemão antigo, e para makyon em língua franca, para se transformar em mascun ou machun, em francês antigo. Significava “cortador” ou “talhador”. Steinmetzer era, em alemão, o canteiro ou o trabalhador de pedras.

O vocábulo mais próximo no baixo latim medieval seria massa, se bem que designando “amassilho”, “massa” ou “maço”. O Dicionário da Real Academia Espanhola recolhe o termo mazonero e a palavra mazonar aplicados, respectivamente, ao que faz a massa ou argamassa para unir as pedras de uma construção e a acção que realiza. Deste modo, em espanhol, aquele que amassa poderia receber o nome de mazón ou mazonero.

Com efeito, aludia-se a alguém que trabalhava na construção, mas não a um talhador de pedras. O equivalente espanhol do termo germânico metzer e do frâncico mascun, ainda que sem relação etimológica com eles, seria “canteiro”, palavra provavelmente céltica que surge em castelhano cerca do século XIII, de acordo com Corominas.

Por outro lado, em latim as pedreiras das quais se extraía a pedra denominavam-se latomiae ou lautumiae, e daí que “Latomia” seja uma outra forma de designar a Maçonaria.

Hurtado prossegue o seu raciocínio focalizando a sua atenção no prefixo franco, que, agregado ao termo maçon, parece consolidar-se em Inglaterra no século XIV, para sublinhar a situação social dos maçons que se dedicavam a um tipo de construção qualificado.

Explicita Hurtado que no que respeita à origem desta designação existem, pelo menos, dois critérios: o dos historiadores que defendem o surgimento da palavra Freemasons [14] (maçon livre ou franqueado) relacionando-a com o trabalho da free-stone (pedra livre ou calcária, de fácil cinzelação), por oposição ao roughmason que realizava trabalhos mais elementares (com pedra dura); e a daqueles que consideram, sem dúvida apoiando-se em dados históricos deveras consistentes, que a “franquia” para que remetia a expressão “franco-maçon” ou “maçon franco” era a usufruída pelos artesãos que não se encontravam estritamente sujeitos a regulamentações municipais ou reais, obrigatórias para os praticantes de ofícios na Idade Média [15].

Oferece ainda mencionar que o termo maçon foi introduzido na Península Ibérica durante o século XVIII para designar especificamente os membros da Ordem Franco-maçónica. Por este motivo, em português como em espanhol, o uso do prefixo “franc” (franco, livre) para aludir aos Irmãos maçons torna-se redundante, diferentemente do que ocorre, por exemplo, nas línguas inglesa e francesa, em que os vocábulos mason e maçon, sem prefixo, designam alvanéis [16], recebendo o nome de freemason ou franc-maçon apenas os iniciados como construtores simbólicos, ou seja, os maçons pertencentes à Ordem Maçónica moderna.

Por seu turno, A. H. de Oliveira Marques revela-se bastante mais sucinto nesta matéria. Explica o autor que o termo “Maçonaria” provém do francês “Maçonnerie”, significando uma qualquer construção levada a cabo por um pedreiro, o “Maçon” [17].

Por conseguinte, “a Maçonaria terá (.) como objectivo essencial (.) a edificação de qualquer coisa. O maçon, o pedreiro-livre em vernáculo português, será portanto o construtor, o que trabalha para erguer um edifício[18].

A referida análise etimológica vai, pois, ao encontro da origem operativa, ou de Ofício da Maçonaria.

Porém, como tivemos oportunidade de verificar, esta Maçonaria operativa foi, por meio de uma transformação que levou séculos, e em larga medida devida à aceitação de novos membros exteriores ao ofício da construção, assumindo um cariz cada vez mais acentuadamente especulativo, abraçando objectivos éticos. Daí que, no entender de António Arnaut, a palavra “maçon” possa, modernamente, ser traduzida por “livre-pensador”, em nome de uma Maçonaria filosófica, ou especulativa [19].

Será, pois, a esta Maçonaria especulativa que dedicaremos a nossa atenção ao longo das próximas páginas.

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

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Notas

[1] PIZARRO, Paulo, “Outro Mistério, outro olhar sobre a Maçonaria”, in: Magazine Grande Informação, N° 7, Junho de 2006, p. 31.

[2] Álvaro Carva, Grão-Mestre da Grande Loja Nacional Portuguesa, no prefácio a HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 13.

[3] Cf. NUNES, Bruno Miguel, CARVALHO, Frederico Bérnard de, Do Secreto ao Discreto – Maçonaria em Portugal. Lisboa, Produções Editoriais, Lda., 2006, p. 9.

[4] Cf. op. cit., p. 16.

[5] HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 25. Itálico nosso.

[6] CZERNIN, Otto, “Soldadinhos de chumbo e jogos de poder”, in: Magazine Grande Informação, N° 7, Junho de 2006, p. 6.

[7] Cf. CARDOSO, Inês, “Congresso – Maçonaria duplicou membros e ganhou faixas mais jovens”, in: Jornal de Notícias, Edição Nacional, N° 25 ano 119, Segunda-feira 26 de Junho de 2006, p. 15.

[8] Cf. http://www.maconaria.net/organizacao.shtml.

[9] De 2001 a 2006.

[10] Cf. CARDOSO, Inês, “Congresso – Maçonaria duplicou membros e ganhou faixas mais jovens”, in: Jornal de Notícias, Edição Nacional, N° 25 ano 119, Segunda-feira 26 de Junho de 2006, p. 15.

[11] Cf. LOPES, Isabel, Entrevista a António Reis – “Os maçons ajudam-se uns aos outros como numa família”, in: Única, 5 de Maio de 2007, p. 74 – 88, Expresso, N° 1801, 5 de Maio de 2007, p. 84.

[12] Cf. HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 33 – 34.

[13] A língua germânica dos Francos, antes de ter sido latinizada e convertida em francês.

[14] Ou free-mason. De facto, considerando o nosso corpus de referência, esta palavra surge hifenizada em algumas obras, o mesmo não sucedendo noutras, que seguem a tendência que actualmente se verifica na língua inglesa.

[15] Na Escócia, aqueles que ostentavam o título de “mestre” nas associações corporativas

[16] O vocábulo “alvanel” é de origem árabe, procedendo do termo ballasa (de balis, que significa “tragar”) e designava, entre os muçulmanos espanhóis da época medieval, os poceiros e construtores de encanamentos para esgotos, tendo-se, posteriormente, alargado aos construtores de outras edificações.

[17] Em francês franc-maçon, em inglês freemason, em alemão freimaurer, designando sempre o maçon, pedreiro-livre (que tem liberdade de trabalhar por conta própria).

[18] MARQUES, A. H. de Oliveira, A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1995, p. 17.

[19] Cf. ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria. 5a ed.. Coimbra Editora, 2006, p. 15 e p. 28.

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