A maçonaria na política europeia – séc XVII até hoje (III)

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mapa da europa, maçonaria

Actividade maçónica durante a primeira guerra mundial

Entre 1914 e 1918, o mundo debatia-se na Primeira Grande Guerra, eclodida a 28 de Julho de 1914, entre a Sérvia e o Império Austro-Húngaro, logo alastrando pela Europa e pelo mundo, tendo, de um lado, além do Império Austro-Húngaro, as potências centrais da Europa, principalmente a Alemanha, e, do outro lado, os Aliados, que contavam, principalmente, com a França, a Inglaterra, a Rússia, a Itália e os Estados Unidos. Calcada na rivalidade comercial entre os grandes estados europeus do século XIX, o conflito estender-se-ia por quatro anos, com a participação do Brasil, a partir de 26 de Outubro de 1917.

Em Março de 1915, as Obediências maçónicas de países neutros recebiam, do Grão Mestre do Grande Oriente dos Países Baixos, HUGO VAN GIJN, uma carta, enviada de Haia, onde aquela Obediência maçónica, depois de lamentar as inimizades entre irmãos, provocadas pela guerra, fala do papel que seria exercido pela Maçonaria, no pós-guerra, convidando as Obediências dos países neutros a participar desta cruzada, nos seguintes trechos principais:

“… eis quando sobre nós se (Publicado em freemason.pt) desencadeia a grande guerra mundial, destruindo todos essas belas ilusões e sublimes ideais, parecendo até que os Irmãos de diversas nacionalidades estão mais separados do que nunca; ao mesmo tempo em que as expressões de inimizade que se observam na própria imprensa maçónica, demonstram um ressentimento nacional de amarga existência entre as nações beligerantes, tão violento e apaixonado, que se chega a duvidar do restabelecimento das relações fraternais entre eles.
(…) As perdas materiais que a guerra actual tem produzido no mundo inteiro, são incalculáveis; não são, porém, menores as expressões deprimentes de carácter espiritual e moral que se ouvem, mesmo nos países neutros.
Depois da conclusão da paz, será necessário, mais do que nunca, que se encontre uma Instituição que oriente a opinião pública e olhe para a frente, mesmo no meio da maior perplexidade, a um melhor futuro, , na firme convicção da vitória dos mais elevados ideais de moral, de humanidade e de progresso, embora tais ideais sejam de difícil reconhecimento, impalpáveis como se tornaram, justamente agora, pela perplexidade do carácter nacional e pessoal.
Esta Instituição não pode ser outra senão a Maçonaria.
A sua primeira tarefa será tomar as medidas necessárias para que, antes de tudo, se estabeleçam relações duradouras entre as diversas grandes potências maçónicas, conservando, é bem de ver, cada uma, a sua rigorosa liberdade em cingir-se aos seus pontos de vista em questões de princípios.
Nutrimos, pois, a ardente esperança de ser a nossa Ordem capaz de atingir o fim que almeja, porquanto a guerra, não obstante ser portadora de incalculáveis misérias, pode também trazer esse proveito, que todos os homens bem intencionados e entre os quais, em primeiro lugar, os Maçons de diversos países, há de, finalmente, reconhecer que, sendo, eles, uma união de obreiros, só serão capazes de adquirir mais força e vigor pela mutua estima.
Aos que neste momento empregam todos os seus esforços de corpo e alma, na defesa do seu país, não podemos pedir que se ocupem já do exame da questão do restabelecimento das relações fraternais, actualmente cortadas.
Ficaremos, no entanto, gratos a estes mesmos Irmãos, se não se deixarem levar por tão grandes amarguras e se, vendo essa separação momentânea de Irmãos, declarem que, depois da conclusão da paz, darão o seu auxílio para o reatamento das relações fraternais…”.

Era, na realidade, patente esta inimizade entre irmãos Maçons, mostrada, por exemplo, na carta em que o Grande Oriente Lusitano Unido enviara, a 13 de Dezembro de 1914, à Grande Loja de França, comunicando que rompera relações com as Grandes Lojas de Frankfurt e Hamburgo, prometendo manter essa posição, enquanto a maçonaria alemã não demonstrasse a sua reprovação às incursões bélicas na Bélgica e na França.

De qualquer maneira, na maçonaria dos países democráticos, o apoio aos aliados, na Primeira Grande Guerra era patente, tendo havido, inclusive, manifestações maçónicas a favor da entrada dos países neutros na guerra. Foi o que ocorreu com o Brasil, que, a 26 de Outubro de 1917, declarava estado de guerra com a Alemanha e enviava unidades de combate ao palco bélico. (cruzadores, contratorpedeiros e dez aviadores do Corpo da Aviação Naval). Dos oito países latino-americanos – Brasil, Costa Rica, Cuba, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua e Panamá – que participaram da guerra, ao lado dos aliados, só Brasil e Cuba o fizeram por meio de forças militares.

A resistência francesa durante a segunda guerra mundial

A 1° de Setembro de 1939, com a invasão da Polónia, pelos exércitos nazistas de Adolfo Hitler, iniciava-se a segunda Guerra Mundial, ou segunda Grande Guerra. Depois de ocupar a Dinamarca, o Luxemburgo, a Holanda e a Bélgica (a Áustria já tinha sido anexada antes da invasão da Polónia), as tropas de Hitler procuraram atacar a França pelo norte. E a França, despreparada para uma luta, diante da sua grande instabilidade política interna, foi derrotada, em seis semanas de campanha, pelas divisões “Panzer” alemãs, apesar da protecção da linha Marginot, julgada inexpugnável. A 14 de Junho de 1940, os alemães tomavam Paris, tendo, um grupo de políticos e oficiais franceses, de tendências nazi-fascistas, constituído um novo governo, sob a chefia do marechal Pétain. A Assembleia Nacional Francesa, reunida em Junho de 1940, aprovava, então, o pedido de armistício, concedendo plenos poderes a Pétain, que, durante o restante da guerra, manteria um governo títere , em Vichy.

Logo depois, a 13 de Agosto de 1940, uma lei assinada por Pétain, sob orientação nazista, proibia as Sociedades secretas e determinava o sequestro dos seus bens. Embora as Obediências maçónicas francesas não fossem, juridicamente, Sociedades secretas, sendo sujeitas, como outras associações, aos dispositivos de uma lei de 1901, elas também sofreram as consequências dessa lei.

Seis dias depois, a 19 de Agosto, por decreto do governo títere, eram dissolvidos o Grande Oriente e a Grande Loja da França, enquanto a Grande Loja Nacional Francesa resistia mais algum tempo, vindo a ser dissolvida apenas a 27 de Fevereiro de 1941. Em 1941, ainda, uma lei, de 11 de Agosto, ordenava a publicação, no Jornal Oficial, dos nomes dos dignitários maçónicos, ao mesmo tempo em que aplicava, a eles, o estatuto dos judeus, vedando-lhes o exercício da função pública. A dissolução das Obediências nacionais era apenas a ratificação do efectivo fechamento das Lojas, pelas tropas nazistas de ocupação.

Nesta época, inclusive, era intensa a campanha feita pelos nazistas, com a conivência e o apoio do governo de Pétain, contra a Maçonaria, procurando ridicularizá-la perante o público. Vários filmes foram feitos, nesse sentido, e mostrados, fartamente, nos cinemas franceses. Um deles (Publicado em freemason.pt) mostrava, totalmente, uma sessão de iniciação maçónica e a trajectória posterior do iniciado, quando ele descobria conspirações, complôs e corrupção económica e política entre os seus Irmãos, o que servia para desprestigiar a Maçonaria, publicamente.

Estes factos levariam à criação do Serviço das Sociedades Secretas, dirigido por Bernard Fay, iniciando a acção da Resistência no território francês, a qual propiciaria repressões, torturas, deportações e execuções. Os Maçons faziam reuniões clandestinas em Paris, nas demais cidades e até em Vichy, sede do governo títere, chegando, inclusive, a criar uma Loja clandestina, em território alemão, por iniciativa de Maçons prisioneiros de guerra. Um dos primeiros Maçons franceses a ser executado, como refém, pelos alemães, no dia 1° de Agosto de 1841, foi José Rouig.

Na época, diante da situação vigente na França, o general CHARLES DE GAULLE formava, em Londres, o Comité Nacional Francês, que, com o seu grupo de Franceses Livres, procurou manter a resistência francesa à ocupação nazista, tanto na França quanto nas colónias.

O movimento, de carácter totalmente subterrâneo, baseado numa ampla rede de espionagem e de sabotagens, contou com grande

participação de Maçons, não só na França e nas colónias, mas também na Inglaterra, onde o Maçom WINSTON CHURCHILL assumia a chefia do Conselho de Ministros, e mesmo na Alemanha, onde grupos de Maçons, em trabalho altamente secreto, combatia o nazi-fascismo. Um dos grandes nomes da resistência, na França, foi Jacques Mitterrand, Maçom, expoente da Maçonaria francesa, Grão Mestre do Grande Oriente da França e primo de François Mitterrand, que viria a ser presidente da França.

A Inglaterra na segunda guerra mundial

A Maçonaria inglesa, precursora dos agrupamentos maçónicos do mundo, sempre teve alta representação na política, em geral, no Parlamento, em particular, e na Corte, da qual sempre contou, nas suas fileiras, com membros da família real britânica.

Embora, há muito, seja, a política inglesa, relativamente estratificada e calma, algumas ocasiões de crise internacional provocaram, inclusive nas hostes maçónicas, união para enfrentá-la. E a guerra, envolvendo, directamente, as ilhas britânicas, foi uma dessas ocasiões especiais.

A História da Inglaterra, durante a Segunda Grande Guerra, é a própria história de WINSTON CHURCHILL à frente do Gabinete ministerial, como líder inconteste dos britânicos, no período de maiores agruras do confronto bélico com os países do Eixo, formados pela união da Alemanha, da Itália e do Japão.

Nascido em 1874 e iniciado Maçom, através da Loja “United Studholme” n° 1591, a 24 de Maio de 1901 – Companheiro a 19 de Julho de 1901 e Mestre a 25 de Março de 1902 – Churchill iniciou a sua carreira política aos 26 anos, tornando-se, depois, um influente membro da Câmara dos Comuns e participante de diversos gabinetes ministeriais. Notabilizou- se, especialmente, durante o período compreendido entre 1936 e 1938, quando alertava a opinião pública sobre a questão do rearmamento alemão – após breve período de desarmamento, depois da guerra de 1914 a 1918 – e o despreparo da Inglaterra para a guerra, que se prenunciava, protestando, violentamente, quando os gabinetes presididos por MacDonald, Baldwin e Chamberlain adoptaram a política de ceder às ameaças de Adolfo Hitler.

Após a derrota dos aliados, na Noruega, e Abril e Maio de 1940, Chamberlain, sem o apoio popular, foi obrigado a renunciar à chefia do Gabinete ministerial, abrindo o caminho para Churchill, que, naquele momento, era o único líder capaz de formar um gabinete de coligação.

A 13 de Maio de 1940, portanto, ele assumia o governo, apresentando, no seu primeiro discurso, a sua plataforma de governo, em palavras que ficaram famosas e preservadas para a posteridade: “Nada tenho a oferecer, senão sangue, labor, lágrimas e suor”.

Tornar-se-ia, então, um dos maiores homens da História da Inglaterra, porque, mais do que qualquer estadista do passado britânico soube dirigir e encarnar o esforço de guerra, mantendo, com a sua férrea liderança, a determinação e o ânimo do povo, nos momentos mais cruciais do confronto bélico.

Apoiado pela fortíssima maçonaria inglesa – que também participou da resistência – e contando com as simpatias fraternais da Maçonaria norte-americana, tão forte quanto a inglesa, ele devotou-se, de corpo e alma, à concretização e preservação da Grande Aliança com os Estados Unidos, mantendo (Publicado em freemason.pt) um estreito entendimento com o presidente norte- americano FRANKLIN DELANO ROOSEVELT, também Maçom – iniciado a 10 de Outubro de 1911, através da Loja “Holland” n° 8, de Manhattan – durante todo aquele período de crise – os Estados Unidos tinham entrado na guerra, após o ataque japonês a Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941 – até à vitória final sobre os exércitos alemães, em 1945, o que lhe traria imenso prestígio popular.

As tropas de Adolfo Hitler não chegaram a invadir a Inglaterra, que ficara como o último grande bastião de pé, depois da tomada da Áustria, da Polónia, de Luxemburgo, da Holanda, da Bélgica e da França, pelos alemães. Foi a partir desta que Hitler tentou tomar a Inglaterra, concentrando a sua artilharia pesada em Calais, para bombardear as costas inglesas, visando, com isto, o domínio do Canal da Mancha, para que as suas tropas o atravessassem. A 11 de Agosto e a 7 de Setembro de 1940, foram realizados terríveis ataques aéreos a Londres, ocasionando grandes baixas entre a população civil e enorme destruição. Não foi possível, porém, tomar o Canal, já que a mesma população civil, aliada aos pilotos da Royal Air Force, com a sua bravura, impediu que isso se concretizasse. As devastações, em toda a Inglaterra, prosseguiram até 1941, quando Hitler desistiu de invadir as ilhas.

José Castellani

Notas

[1] Bertelot, J., in “Les Francs-Maçons Devant l’Histoire” – Paris: Monde Nouveau ; 1949.

[2] Jacobitas: os partidários do rei deposto Jaime II, da Inglaterra que pretendia recriar uma dinastia católica ao trono da Inglaterra. A sua denominação deve à raiz latina do nome de Jaime – Jacobus – originando a partir daí o nome dos aliados dos Stuart no exílio. (N. E.)

[3] Naudon, P., La Franc-Maçonnerie – Paris: Presses Universitaires de France; 1958.

[4] Bord, G. “La Franc-Maçonnerie en France des Origines à 1815” – Paris: S.E. ; 1908.

[5] Na realidade, a Bastilha estava sendo desactivada e, nela, nessa época, havia apenas sete prisioneiros. A tomada da prisão não foi, portanto, uma medida que visasse à liberdade dos encarcerados, sendo, por esse ponto de vista, medíocre. Mas a sua importância está na derrubada de um símbolo, de um ícone do despotismo real e aristocrático. (N.A.)

[6] Alguns autores têm cometido a injustiça de atribuir, ao Dr. Joseph-Ignace Guillotin (1738-1814) a invenção da guilhotina – instrumento de execução – como se fosse, ele, um mero sanguinário. A verdade é que a sua intervenção, que gerou este erro, foi uma solicitação feita, em 1789, no sentido da “igualdade perante o carrasco”, ou seja, uma única maneira de execução; e a guilhotina foi adoptada, dentro de um espírito humanitário – se é que se pode falar em execução humanitária – para substituir os antigos suplícios aos condenados. (N. A.).

[7] Mellor, A. “ Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie et des Francs-Maçons” – Paris : Belfond; 1971.

[8] Anexo: Declaração dos Direitos do Homem e dos Cidadãos.

[9] Seita cristã, que fora fundada na Inglaterra, no século XVII, como variante do puritanismo e que entrava em choque com os governantes, porque os seus membros recusavam-se a pegar em armas. A partir de 1681, difundiu-se nos Estados Unidos, para onde emigraram muitos puritanos, forçados por perseguições dos Stuart. (N. A.)

[10] Taunay, A. E. “Subsídios para a História do Tráfico Africano no Brasil” – in Anais do Museu Paulista, Tomo X, pág. 06; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado; 1941.

[11] Apud Taunay, A. E., in op. cit – pág. 260

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