A Maçonaria vem dos Celtas?

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Mas que pergunta mais sem sentido, poderiam muitos maçons fazer neste momento! Porém, se examinarmos mais detalhadamente os elementos históricos relacionados, teremos uma surpreendente surpresa.

A cultura celta difundiu-se pela Europa há mais de 4 mil anos e  é tida como referência no mundo espiritual. A especialista em estudos celtas Ana Elizabeth Cavalcanti da Costa fala no seu livro Sabedoria e Magia dos Celtas – Princípios do Druidismo, pela Berkana Editora, relata-nos sobre a espiritualidade e a sabedoria do povo celta, donde extraímos informações pertinentes no texto que segue, onde acrescentamos os nossos comentários em textos em negrito.

Os povos celtas estiveram espalhados por quase todo o continente europeu. Não possuíam um governo centralizado, nem um determinado império. Não tinham um sistema de escrita e, portanto, a precisão cronológica sobre o seu surgimento baseia-se em escavações e em muitas pesquisas, datando de 1800 a 1500 a.C., na Europa Central e Ocidental, como nas Ilhas Britânicas.

Os celtas estiveram presentes em praticamente todo o continente europeu, que possui fragmentos da sua cultura. O seu habitat inicial era o sudoeste da Alemanha, Europa ocidental e central. Com o domínio da agricultura, tecnologia na cerâmica e no bronze, ao longo de séculos, eles dominavam a França, Espanha, Checoslováquia, sul da Alemanha, Áustria e Grã-Bretanha. A sua história estendeu-se por cerca de dois mil anos (de 1800 a.C. até o final do século I d.C.). A partir de 660 a.C., invadiram a Península Ibérica e, até metade do século II a.C., expandiram para Ucrânia, Grécia, Ásia Menor, Gália e grande parte da Itália.

Quando se fala dos povos celtas, não se fala de um império celta, porque eles viviam em tribos independentes; o poder era dado ao rei, escolhido pelo grupo, e que cuidava do bem-estar da sua comunidade. Quando uma tribo atingia um número determinado de habitantes, ela dividia-se. (muito típico das Lojas Maçónicas actuais).

Uma parte para outro lugar a fim de organizar uma nova aldeia, seguindo o sinal que era fornecido pelas aves totémicas, até chegarem às novas terras. Eles eram organizados política e socialmente em tribos independentes que, ao longo dos anos, se foram espalhando pela Europa. (tal foi o mesmo processo das lojas maçónicas originais na Escócia, Irlanda e Inglaterra antes do evento de formação de Grandes Lojas, lojas totalmente independentes). Não são considerados um povo com etnia homogénea, mas possuíam a mesma língua e religião, que servia como um elo entre os membros das diversas tribos, dando-lhes a característica de “celta”.

Viviam em tribos e, apesar de não possuírem uma etnia homogénea, a língua e a religião representavam o elo entre eles. A sua cultura é repleta de magia, espiritualidade e culto à natureza. Acreditavam que as palavras registadas graficamente comprometiam a realidade e a energia dos factos, podendo criar interpretações incorrectas da verdade.

Baseavam-se em dois grandes princípios: o Respeito à Natureza e na crença da imortalidade. (similar à crença no GADU e a numa vida futura dos Landmarks)

Acreditavam em divindades “elementais” do ar, da água, do fogo e da terra.( elementos presentes e trabalhados ritualisticamente nas cerimónias de iniciação da Maçonaria) Alguns estudiosos atestam o politeísmo do povo celta, outros já o consideram monoteísta e todas as divindades nada mais eram que extensão de uma Deusa-Mãe, (a Grande Natureza forjada pelo GADU). Outros os descrevem como monoteístas, que cultuavam o deus-fogo Beal, ligado ao Sol,  a exemplo de Rá para os egípcios. (Nos ritos ancestrais da Maçonaria figura um Sol no Oriente como tema central e principal. O Rito Juanita preservado pelos húngaros e pelo Rito São João no Brasil possui este Sol no seu Oriente.)

A crença na alma e na vida após a morte está presente no druidismo. Os celtas acreditavam na existência do “Outro Mundo” e construíam-se círculos de pedras, onde eram realizadas as cerimónias religiosas – o mais famoso deles é Stonehenge. (um dos Landmarks da Maçonaria preconiza na crença da imortalidade da alma e numa vida futura.)

No entanto, estudos recentes defendem que estes círculos de pedra, na verdade, eram usados como observatórios astronómicos e não como construções religiosas. (tais pilares de pedra estão com o seu simbolismo preservados na Maçonaria nas duas colunas J e B que são as representações dos pontos solsticiais na Loja, como nos ensinam as instruções maçónicas nos nossos rituais)

O celta percebia que todo homem pertence à grande teia da natureza, e que a vida é uma sucessão de novas experiências e descobertas. Alguns lugares eram considerados sagrados por possuírem uma energia especial, da mesma forma que algumas épocas do ano (estações) eram festejadas com os famosos sabás. (da mesma forma o Maçom respeita o espaço reservado para os seus trabalhos ritualísticos e cuja decoração de tal espaço não é outra senão a reprodução da Natureza)

A primeira grande lição que os celtas nos dão é a da observação e do respeito pela natureza. Levavam sempre em consideração a Roda do Ano (estações), os elementos da natureza, os pontos cardeais, o Sol, a Lua, e valorizavam a energia de tudo o que os rodeava. ( o mesmo faz o Maçom no seu Templo que está orientado conforme os pontos cardeais, possui no Oriente a representação do Sol e da Lua, e trabalham nos seus rituais os ciclos da natureza a saber: nas sessões económicas semanais rendem o culto do ciclo diário do Sol com os seus trabalhos do meio dia a meia noite, através das comemorações semestrais com banquetes, rendem o culto ao ciclo anual do Sol ou seja de translação da Terra em relação ao Sol gerando as estações do ano, comemorando os Solstícios de Inverno e Verão, ou dos dois São Joãos)

Eles reconheciam a energia dos elementos da natureza. A terra, o ar, o fogo, e a água são representações e formas diferentes de energia, e a partir destes elementos todas as coisas são formadas. É o que chamamos de energia elemental, seres do mundo espiritual cuja tarefa é dirigir o poder divino para as formas da natureza. (a Maçonaria também exalta o poder energético dos elementos ao utilizá-los para as devidas purificações dos candidatos submetidos à iniciação nas suas cerimónias)

As pedras, por exemplo, eram consideradas como as energias espirituais mais antigas da Terra, e guardavam ensinamentos profundos, que eram revelados quando eram reverenciadas. Toda a Bretanha, Irlanda e Grã-Bretanha possuem pedras verticais espalhadas por diversas regiões, com tamanhos diversos. (tal reverência às pedras está muito bem expressa na Maçonaria com a presença da Pedra Bruta, da Pedra Polida e da Pedra de Ponta presente nos templos maçónicos e que guardam o mais profundo conhecimento para o desenvolvimento do homem)

O pentagrama, por exemplo, surge como símbolo de paganismo moderno, e não é um símbolo de origem celta até onde sabemos, mas usado pelos wiccas. Ele era usado na Mesopotâmia por volta de 3.500 a.C. e, através da cultura judaica da cabala, acabou fazendo parte dos rituais da tradição Wicca. Outro exemplo que posso citar é o uso do athame ou punhal nos rituais wiccanos, como canalizadores de energia, facto desconhecido na religião celta. (o Pentagrama é um dos símbolos mais importantes na Maçonaria, e estudado em profundidade no segundo grau da Loja de São João, grau de Companheiro Maçom, preservando as mais antigas tradições ligadas a este símbolo)

Em todos os conceitos celtas encontramos grandes lições que nos podem auxiliar a viver melhor. Um dos seus mais sábios conceitos é o de que o tempo está e estará a nosso favor, no oferecendo oportunidades que, muitas vezes, devem ser compreendidas em alguns segundos, mas que podem transformar qualquer coisa. (não faz outra cousa a Maçonaria a não ser incentivar os seus membros a viver melhor e mais harmonicamente com a natureza)

A filosofia de vida celta era muito simples: observar as grandes lições da Mãe Natureza, o que é uma grande dificuldade para o homem moderno. Para eles, a vida era um eterno movimento cíclico de transformação permanente: nascemos, crescemos, morremos e renascemos. Há o momento certo para cada coisa: arar a terra, semear, colher. As estações do ano são a prova da Natureza de que sempre, após um Inverno rigoroso, há a chegada da Primavera. Eles mostram-nos que é preciso aprender a perder para ganhar depois. (tal lição encontramos também na Maçonaria na Lenda do Terceiro Grau ou Lenda Hirâmica onde várias interpretações são feitas com o ciclo da natureza assim os celtas entendiam)

Outra coisa muito bonita e importante nos ensinamentos celtas é o valor que eles davam à amizade, coisa rara nas sociedades modernas em que as pessoas sempre se esquivam das outras, por medo de serem “sugadas”. Para esse povo, uma amizade ultrapassava qualquer fronteira, qualquer plano. Existe a expressão gaélica que retrata muito o valor que davam à amizade, anam cara (amigo da alma), que O’Donohue retratou de uma forma encantadora na sua obra. O conceito de amizade deu aos celtas a ideia de companheirismo, solidariedade, fidelidade, amizade profunda e especial. Além dos seus conceitos sobre a vida, o universo mágico celta pode auxiliar-nos a adquirir mais equilíbrio, tranquilidade, vigor, prosperidade, coragem, amor no nosso dia-a-dia, através das suas antigas práticas de magia com elementos da natureza. A natureza está aí: é só accionar a sua energia. (Não há como não comparar os ensinamentos maçónicos com os celtas nesta questão sobre a amizade, a fraternidade a solidariedade entre os seus membros. A Maçonaria é uma das mais raras sociedades que preservam com muito esmero esses valores transcendentais para o homem viver em sociedade)

A autora ainda nos indica que a espiritualidade celta e a sua religiosidade podem ser seguidos por qualquer um. Existe muita gente com “espírito celta”, e nem sabe disso. São aquelas pessoas que respeitam a natureza, compreendem os processos e ciclos da vida e possuem amigos. (e não é outra senão a finalidade básica da Maçonaria)

Ainda dizemos nós:

Como sabemos, a Maçonaria remonta a idades sem conta no seu aspecto doutrinário ou filosófico e traz nos seus ensinamentos, a herança dos primórdios da civilização humana. O homem primitivo vivia e convivia em meio a Natureza, dela participava e dela sofria as adversidades das suas intempéries. Fácil é de se concluir que os seus sentimentos e pensamentos se achavam directamente relacionados e focados com os fenómenos da Natureza. Afinal, da Natureza dependia a sua sobrevivência, quer fosse das plantações como das criações, e paulatinamente percebeu quão importante seria poder conhecer os seus mistérios, pois poderia assim melhor aproveitar dos seus benefícios e evitar as suas adversidades. Assim, ao mesmo tempo que surgiram sentimentos de grande respeito e adoração aos Espíritos que comandavam a Natureza e os elementos que influenciavam a sua vida, surgiram também indagações e consequentemente observações sobre os fenómenos que a cercavam. E assim, grandes esforços foram despendidos para minimizar os efeitos adversos.

Dentre os diversos elementos da Natureza que o rodeava, um sem dúvida alguma, era o maior responsável pelas mutações naturais, o “Sol”. O Sol marcava sensivelmente a sua vida, já por ser o responsável pelos ciclos dos dias e das noites, da luz e das trevas, mas também pelo ciclo das estações que afectavam as suas culturas de sobrevivência. Com isto, seria de grande valia e importância que o homem soubesse quando os ciclos iriam ocorrer, para poder rogar aos Espíritos directores da Natureza, a protecção e a fartura das suas culturas nos ciclos que se descortinassem, assim como se preparar e agir apropriadamente em cada estação.

Os antigos tinham a Natureza como se fosse um grande templo onde habitavam os homens e o Grande Regente. O Grande Espírito Director, que castigava ou premiava os seus vassalos de acordo com os seus méritos. Com a evolução da arte da construção, os homens passaram a representar a Natureza e os seus fenómenos na sua arquitectura, assim como nas suas cerimónias e nos seus rituais. As construções sagradas sempre procuraram exaltar e representar a Natureza com as suas leis e princípios.

Através da Geometria Sagrada, os construtores iniciados da antiguidade procuravam nas suas obras, manter a harmonia e a beleza que existe na Natureza, resultado da obra do Grande Arquitecto do Universo. Esses construtores constituíram um grupo especial dentro da sociedade comum, pois detinham os grandes conhecimentos das leis naturais e sabiam como aplicá-las nas suas obras. Sob o arquétipo dessa classe de sábios iluminados é que a Maçonaria, fundamentou a sua doutrina através da alegoria da construção do Templo de Jerusalém, idealizado por David e executado pelo seu filho Salomão, com a cooperação dos artífices fenícios, donde apareceram as figuras de Hiram, Rei de Tiro, e do metalurgista Hiram Abiff.

O Templo Maçónico com a sua decoração singular é a representação da Natureza, e os seus rituais estão repletos de simbologia considerada pagã dos fenómenos da Natureza. A orientação do Templo faz-se de acordo com os pontos cardeais e em referência com o nascer, zénite e por de Sol. Os oficiais dirigentes de uma Oficina são denominados Luzes, como verdadeiros representantes do Sol nos seus diferentes pontos na revolução diária. Estão colocados nos pontos cardeais correspondentes ao nascer, no Oriente ou Leste; no ocaso, no Ocidente ou Oeste; e no seu apogeu ou zénite, no Sul.

Os antigos observaram também que o Sol não nascia durante o ano, no mesmo lugar todos os dias, no transcorrer do ano o Sol nascia em posições diferentes, como um bailado ou serpenteado em torno de um ponto central. Desta observação, houve marcação com colunas de pedra, como um registo dos pontos de maior afastamento que o Sol alcançava de um lado e de outro, resultando imediatamente o ponto central do bailado de nascer do orbe solar. Através destas colunas, podiam observar e verificar as estações do ano e os pontos de solstícios e equinócios e, assim poder rogar aos deuses do período a protecção as suas famílias e criações. A tradição dessas duas colunas está também nos nossos Templos nas colunas J e B, que representam os pontos solsticiais ou de máxima posição solar ao norte e ao sul. Por entre elas passam todos aqueles que, ansiosos pela Luz ou conhecimento solar, procuram no espelho da natureza templária, identificar-se com os mais altos princípios do Universo.

Os trabalhos Maçónicos começam ao meio-dia e terminam à meia-noite, sendo mais uma alusão ao princípio da Luz e Trevas que está sob a influência solar. Os antigos consideravam o período de meio-dia a meia-noite propício as coisas do espírito, enquanto da meia-noite ao meio-dia, propício para as cousas da matéria. Isto porque da meia-noite ao meio-dia cresce a influência objectiva do Sol, enquanto do meio-dia a meia-noite cresce a influência subjectiva do Sol, propiciando assim os estudos espirituais. O Sol está representado nos Templos e rituais sob muitas formas e maneiras, cada qual referindo-se a um dos seus aspectos: no altar do Venerável Mestre, no tecto da Oficina, no tapete ritualístico, de forma implícita na circulação do Mestre de Cerimónias em Loja, entre outros. No altar do Venerável Mestre acha-se o Sol acompanhado da sua parceira a Lua, contudo neste assunto existem muitas controvérsias sobre qual a posição correcta de cada um dos luminares em relação ao trono, existindo e sendo válidas as duas versões.

A Maçonaria exalta na sua ritualística a grandiosidade da Natureza e seus elementos. Desta forma é importante que o obreiro se torne consciente desses princípios, para que trabalhe em harmonia com a Natureza Universal, procurando alcançar a Sabedoria, a Força e a Beleza da sua natureza interior em sintonia com a Natureza ou o Macrocosmo. Assim, é possível observar que na Maçonaria são fundidas a tradição pagã antiga cultuada pelos celtas com a Arte Construtora Sagrada, assim como a tradição hebraica, aliando a lenda do construtor na figura de Hiram. De acordo com essa ritualística, temos um carácter judaico hiramítico pagão. Deve assim o Maçom especulativo, iluminado pelas leis judaicas expressas no Livro da Lei, sob o modelo da alegoria do Construtor Sagrado e auxiliado pelos conhecimentos da tradição pagã da antiguidade celta, erguer o Templo interno da sua Personalidade, a fim de abrigar a individualidade Superior Divina, para a Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Alberto Feliciano, MI, 33º REAA

Bibliografia

  • Ana Elisabeth Cavalcanti da Costa, autora de Sabedoria e Magia dos Celtas – Princípios do Druidismo, o seu sétimo livro publicado pela Berkana Editora

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