Quando há vinte anos me comecei a debruçar sobre mitologia antiga, especialmente sobre os mitos que colocam uma divindade a morrer e, posteriormente, a regressar ao mundo da Vida, estava longe de vir a fazer a constatação que viria a marcar o meu trabalho (ARAÚJO, 2005). De facto, a profusão de aventuras, os detalhes por vezes ora rocambolescos, ora épicos, ora ainda dramáticos, da vida, das venturas e das desventuras dos deuses quase não me davam espaço mental para verificar o óbvio: o lugar da Humanidade era quase inexistente nessas narrativas (CAILLOIS, 1994).
Quanto muito, a Humanidade era chamada a ações e a tarefas de efetiva subalternização, de quase escravatura, situação que definia uma condição humana degradante face ao universo dos deuses, possível imagem do que acontecia nas relações entre as elites nobres e o grosso da população, naturalmente, desfavorecida. O Homem fora criado para servir os deuses, não se vislumbrando nos textos mitológicos mais antigos, sumérios, acádicos, babilónios, nada de reconfortante, de retribuição, de expectativas que nos remetam para um futuro positivo (BODINE, 1994).
Esse espanto pela ausência da Humanidade foi-se reforçando na minha leitura à medida que percebi uma mudança de paradigma que a custo foi tendo lugar, na passagem do II para o I milénio A.E.C.
O lugar literário e mitológico onde pela primeira vez essa tensão entre uma visão antiga e uma nova, que se aproxima e pede lugar, ocorre é no Ciclo de Baal, um texto possivelmente do século XV A.E.C., escrito e encontrado na cidade de Ugarir, hoje Ras Shamrá, na Síria (BOTTÉRO, 1994).
Além do conteúdo em si, este texto comporta ainda duas inovações tremendas que conjugadas com o conteúdo ganham um alcance único: por um lado, é um dos primeiros textos escritos com o alfabeto, quase tal como o temos hoje, fora do horizonte do ideograma, liberto do desenho para passar conteúdo; por outro lado, é o primeiro texto assinado – temos, na última placa de argila, o nome de quem copiou o texto. Ilimilku, de seu nome, é o primeiro autor da História Literária do mundo, dando um valor ao indivíduo nunca antes visto.
E é de lugar ao indivíduo e de capacidade de abstração que este mito importa no que ao humano diz respeito. O lugar do Homem neste ciclo mitológico encerra algumas dúvidas antropológicas de grande peso. A condição humana não é clara e remete-nos para breves vislumbres por vezes alucinantes; mas a Humanidade surgia de forma significativa: na abertura do ciclo, seguindo a ordem das tabuinhas consensualmente mais difundida, o Homem é remetido para um lugar de ignorância. A forma do deus cimeiro, El, apresentar a ação que decorrerá tem um claro sabor ao que iremos encontrar milénio e meio depois nos textos gnóstico, nomeadamente na abertura do Evangelho, dito de apócrifo, de Tomé. Diz o deus El:
é um assunto que não compreendem os homens, nem entendem as multidões da terra.
O Ciclo de Baal, sendo constituído por três mitos, apenas me interessa aqui no seu terceiro, designado como A Luta de Baal com Morte. Se a palavra «baal» quer dizer rei ou senhor, o nome do deus com quem Baal luta chama-se, de facto, Morte. Poderia ser, em tradução dos nomes, A Luta do Senhor com a Morte(BRICHTO, 1998).
Neste terceiro mito, a narrativa vai colher muito a um vasto grupo de mitos anteriores e contemporâneos. O modelo é simples e perdurou até hoje, seja através do Cristianismo, seja através de um sem número de rituais iniciáticos: Num primeiro momento, após uma refeição sacrificial, o Senhor (Baal), é comido e morto pelo deus com o nome Morte; num segundo momento, dá-se uma busca, uma procura pelo corpo, encontra-se o corpo, chora-se a morte; por fim, vencido o deus Morte, vencida a morte, o Senhor (Baal) regressa à vida e retoma os seus poderes como o deus gestor do universo, o Rei do mundo.
Mas este mito leva a situação a uma dimensão nunca antes registada em nenhum outro texto antigo. O centro dramático deste ciclo mitológico está, sem qualquer sombra de dúvida, no momento em que, neste terceiro mito, se dá a morte de Baal e, momentaneamente, todo o universo fica suspenso no drama que pode resultar de tal ação. O texto é claro no quadro que instantaneamente os deuses vislumbram: os deuses, começando por El, o topo do panteão, o deus criador, carpem, choram, enlutam-se e, acima de tudo, questionam o que vai ser da humanidade. Esta é a maior novidade deste texto. Diz o deus El:
Baal está morto! Que vai ser do povo?
Morreu o filho de Dagãnu! Que será das multidões?
Neste recentramento do texto dialogado, o drama é total. Nesse momento temos a segunda menção clara ao Homem, como que apontando os holofotes da boca de cena para a plateia – o silêncio, quer se tratasse de uma declamação, ou de uma encenação, qualquer que fosse o grau de participação dos crentes no ritual, deveria ser aterrador neste momento.
Mas o trazer da Humanidade para este texto não se fica por aqui. O Homem aparecerá por uma terceira vez. No processo de regresso de Baal ao mundo dos vivos, dá-se uma luta e Baal vence a Morte, o deus que antes o matara (CAGNI,1982). Volvidos anos, Morte regressa e vai pedir alimento a Baal. Num dos tópicos mais comuns nos mitos desta época, a Morte vai pedir um substituto. Se Baal não ficou no mundo dos mortos, que entregue alguém para ficar no seu lugar. A Morte vai-se lamuriar e exigir:
Dá-me um de teus irmãos para que eu o devore
e me acalme; sou inexorável.
Se um dos teus irmãos saciar a minha sede,
Então eu vou aceitá-lo como substituto.
Até agora a minha comida são os homens,
O meu alimento, as multidões da terra
A condição humana está reduzida a ser o alimento da Morte. A Morte não se satisfaz apenas com este alimento, mas é o que tem.
Baal não vai entregar um irmão para alimentar a Morte. Os deuses serão intocados pela voragem deste deus que se afirma com uma fome imensa. Como consequência, dá-se uma luta final entre Baal e a Morte. Baal vence e, no momento me que iria matar a Morte, ela segue o conselho do Sol e submetesse a Baal, afirmando o seu reino.
Estivera-se quase a vislumbrar a morte da Morte. Se o escriba, o já referido Ilimilku, tivesse tido a tentação de alterar um único versículo do texto, teologicamente, a Humanidade teria obtido a imortalidade. Contudo, ela continuou a ser o único alimento da Morte… Era cedo demais para quebrar as imensas barreiras mentais e religiosas da Idade do Bronze. Mas estava-se quase no momento do início da mudança de paradigma.
No fim do mito e do ciclo, mesmo sem a imortalidade também a humanidade se regozijava da ordem baálica do mundo. Diz o texto na última vez em que a Humanidade é referida: à tua volta [de Baal] estão os deuses e também os homens. Mas ela, a Humanidade, continuaria a ser, por mais um milénio, o único alimento da Morte.
Em Ugarit, na Idade do Bronze, numa sociedade onde a própria monarquia rasava muitas vezes o limiar do divino, o vulgar indivíduo ainda não teria contacto com essa construção teórica que apenas na Idade do Ferro nasceria: a salvação numa direta relação com a descida de uma divindade ao mundo dos mortos e à superação desse drama através da vivenciação ritualizada desse acontecimento.
Esta sociedade altamente hierarquizada, sem qualquer mobilidade social e com os topos a tocar o divino vai ser profundamente alterada na passagem da Idade do Bronze para a Idade do Ferro, do II para o I milénio A.E.C.
A partir do século IX A.E.C. várias revoluções se conjugam para terminar com o modelo anterior de sociedade, dando lugar a um primado do comércio e a uma primeira mundialização, a uma vida fundamentalmente em grandes metrópoles e para uma intensidade de trocas culturais e religiosas nunca antes conseguida.
Refiro-me à monetarização da economia e à invenção da moeda como a entendemos hoje, à metalurgia do ferro e à difusão da escrita alfabética. Este “pacote” de alterações na abertura da Idade do Ferro darão ao mediterrâneo uma nova face em termos de mentalidade, criando uma imensa circulação de pessoas, bens e ideias.
É neste contexto que nascem os quadros legais de vida urbana dos quais somos hoje mais diretos herdeiros, seja na polis grega, seja na cidade estado fenícia, ou a nação hebreia. O nascente cidadão ganha foro de vida ou de morte na exata medida em que se dá a chamada Revolução Hoplita: com uma metalurgia que permite uma produção quase em série de armamento em que todos os hoplitas, a infantaria, têm armas iguais, desaparecem os heróis, qual David que enfrentara sozinho um Golias, ou qual Aquiles que lutara num combate singular contra Heitor, e nascem os cidadãos- soldados que defendem a sua terra, a sua cidade, sendo todos iguais, quer na formação em tartaruga que a Legião vai adotar, quer nas leis civis e no acesso à justiça. A morte de um cidadão-soldado é tão importante como a de outro qualquer. Dá-se uma democratização da morte, uma democratização dos direitos da vida após a morte.
As primeiras religiões de mistérios, com rituais iniciáticos, nascem nesta cronologia e neste quadro geográfico. Ainda sem clara definição do resultado da iniciação, os Mistérios de Elêusis vão-se tornar dos mais populares ritos iniciáticos da Antiguidade.
Não se compreende o que obtinha o myste com essa iniciação, tanto mais que até à época imperial, gregos e romanos vão, muitas vezes colecionar iniciações, mesmo quando algumas já afirmam dar a imortalidade aos seus membros.
Não será por acaso que a datação dos níveis arqueológicos mais antigos deste santuário em Elêusis, dedicado a Deméter, à letra «a mãe», é da ápoca da redação do Já referido Ciclo de Baal, séc. XV A.E.C. Contudo, os ritos de iniciação devem ter sido estabelecidos já na Idade do Ferro, no séc. VII A.E.C.
Pouco se sabe sobre o que se passava com quem era admitido a entrar no templo nos dias de iniciação. O cortejo era longo, desde Atenas, e está muito bem documentado. Mas o que se passava no interior apenas nos surge através de uns dados imprecisos. Era vivenciado o drama da vida da deusa, nas duas facetas da morte da filha, Perséfone, e na tentativa de dar mortalidade ao jovem Triptolemos que adotara para substituir a filha desaparecida. Espelhos, guizos, espigas eram alguns dos artefactos, das peças que ajudavam a viver o psicodrama.
Da mesma forma, os cultos iniciáticos em torno de Dionísio centrar-se-iam em torno do vivenciar do drama da perseguição que enquanto recém-nascido sofrera. Viver, cenicamente e ritualmente essa morte, era partilhar dela a sua essência, o que fazia com que o deus a superasse. Contrariamente aos Mistérios de Elêusis, as iniciações dionisíacas vão ter a liberdade e a plasticidade permitida por não ocorrerem apenas num lugar. Ao não estar agarrada a um templo exclusivista na iniciação, esta vai-se alterar e evoluir imenso ao longo dos séculos seguintes, especialmente até ao séc. IV D.E.C.
Mas o grande salto dá-se fora dos espaços culturalmente de matriz grega. É para as regiões de confluência entre a Grécia, a Pérsia, a Fenícia e o Egipto, especialmente nas ilhas gregas e italianas e, sobretudo, no Norte de África e na Fenícia, que vai surgir a geração seguinte de ritos iniciáticos.
Muitas vezes desenraizados, a viver em megacidades, já após as conquistas de Alexandre que fomentarão ainda mais a mundialização na bacia oriental do Mediterrâneo, os cultos iniciáticos dão novo avanço na conceção do Homem.
Mitra, Ísis e Osíris, Adónis, Dionísio e Cristo, afirmarão aos seus iniciados que a mortalidade conseguida por eles se pode plasmar em todo o Humano mediante a iniciação e o cumprimento de códigos de vida subsequentes.
Agremiados agora na época helenística em corporações muitas vezes profissionais, em cada cidade cada culto organiza-se numa geografia e em torno de uma profissão.
O célebre processo das bacanais em Roma, em 186 A.E.C., em muito assenta na dimensão fraterna, mas económica, das confrarias. Os irmãos coletavam-se, entreajudavam-se, fugiam ao “estado”. Para além de acreditarem que a iniciação lhes tinha dado algo mais a nível existencial, praticavam a fraternidade no dia-a-dia, criando em torno da vida da congregação uma outra ordem social. A congregação fraternal criara um microcosmos que rivalizava com as instituições da cidade e a elas se sobrepunha, onde o iniciado acreditava vivenciar um prelúdio do que iria encontrar no além.
Fonte
- Revista Relicário (revista do Museu de Arte da Diocese de Uberlândia)
Referências
- ARAÚJO, Luís Manuel de. Mitos e Lendas – Antigo Egipto. Lisboa: Livros e Livros, 2005.
- BRICHTO, Herbert Chanan. The Names of God: Poetic Readings in Biblical Beginnings.
- Oxford: Oxford University Press, 1998.
- BODINE, Walter R., “Sumerians”. In: Alfred J. Hoerth, Gerald L. Mattingly & Edwin M.
- Yamauchi (eds.). Peoples of the Old Testament World. Grand Rapids: Baker
- Books, 1994, p. 19-42.
- BOTTÉRO, Jean & KRAMER, Samuel Noah. Lorsque les Dieux Faisaient l’Homme.
- Mythologie Mésopotamienne. Paris: Gallimard, 1989.
- CAGNI, Luigi, “Misteri a Babilonia? Esempli della tematica del dio in vicenda nell’antica
- Mesopotamia”. In: Ugo Bianchi e Maarten Jozef Vermaseren (eds.). La
- Soteriologia de Culti Orientali Nell’Impero Romano. Leiden: E.J. Brill, 1982, p. 565-613.
- CAILLOIS, Roger. Le Mythe et l’Homme. Paris: Gallimard, 1994.

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