Filosofia, Simbologia, Ritos e Rituais Maçónicos

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(…) O verdadeiro Simbolismo não é «inventado» pelo homem: encontra-se na própria Natureza, que é ela também símbolo de realidades transcendentes. A Natureza é realmente símbolo da realidade sobrenatural e esta correspondência constitui o verdadeiro fundamento do Simbolismo – toda a coisa manifestada é símbolo em relação a uma realidade superior[1].

Face ao que vem sendo referido, facilmente concluiremos que “(.) o sistema Maçónico é algo mais profundo do que um código de moralidade elementar (.)” [2], e que, na realidade, a Filosofia, a Simbologia, os Ritos e os Rituais maçónicos se encontram interligados.

De facto, nem mesmo a construção das Oficinas era deixada ao acaso, devendo obedecer a orientações específicas [3][4], relacionadas com esses aspectos, às quais Wilmshurst dedica várias páginas na obra intitulada Maçonaria – Raízes e Segredos da sua História.

Na verdade, segundo Amando Hurtado, a Tradição maçónica recolhe e condensa ensinamentos basilares das tradições iniciáticas clássicas: “desde as pitagóricas, difundidas pelos mestres gnósticos e neoplatónicos, que refundiam e renovavam a experiência iniciática como método de aprendizagem do transcendente transmitida pelos egípcios, já nas mais remotas épocas históricas, até às do esoterismo crístico (procedente da mesma fonte e desvirtuada do dogmatismo cristão), incluindo a tradição hermética, a Gaia Ciência, traduzida pelos alquimistas e recolhida na cultura medieval europeia, pelos construtores de catedrais” [5]. Hurtado advoga ainda que “os cultos «maçónicos aceites» pós-renascentistas, criadores da Maçonaria simbólica, reactivaram e deram perfil a estas contribuições da Tradição imemorial, que a Ordem assumiu e plasmou na sua metodologia ritualizada ao longo do século XVIII” [6].

Explicita Wilmshurst que,

“(.) o progresso na Maçonaria de todo o Irmão admitido nas suas fileiras é gradual, por estádios sucessivos, tal como, aliás, a compreensão dos sistemas e doutrina Maçónica é também uma questão de progresso gradual. Dito nos termos mais simples possíveis, a teoria do desenvolvimento Maçónico estabelece que cada membro admitido na Ordem entra num estado de escuridão e ignorância no que respeita ao que a Maçonaria ensina, e mais tarde é suposto ser conduzido até à luz e ao conhecimento. Pondo a questão noutros termos, entra para a Ordem simbolicamente como uma pedra em bruto, sendo a sua tarefa desenvolver tanto a sua personalidade como a sua compreensão, em resultado do que, face ao aprendido e praticado, ele possa ser um cubo perfeito e acabado[7].

Neste sentido, podemos depreender que os Graus que compõem os vários Ritos maçónicos constituem como que “degraus” que guiam o maçon através de uma espécie de “escada” rumo ao aperfeiçoamento intelectual.

Com vista a uma melhor percepção do que acabámos de referir, compete­-nos, pois, clarificar os conceitos de Ritual, Grau e Rito no âmbito da Maçonaria.

Assim, o Ritual [8] não é mais do que um conjunto de cerimónias (ou rituais) que marcam, cada qual, a progressão do maçon de um Grau a outro, dentro de um mesmo Rito. Isto equivale a dizer, como Bruno Nunes e Frederico de Carvalho, que em Maçonaria existe uma distinção entre Rito (com letra maiúscula) e rito, sendo que o primeiro define o conjunto dos Graus Maçónicos formando um todo, enquanto que o segundo remete para o conjunto de regras que ditam a forma de trabalhar em Loja num aspecto mais cerimonial [9].

De entre os vários Ritos maçónicos, salientamos aqueles que adquirem maior relevo no panorama mundial, nomeadamente no território nacional: o Rito Escocês Antigo e Aceite, o Rito Francês e o Rito Simbólico Regular [10].

Com efeito, relativamente a esta questão, bem como aos sinais, gestos, toques, palavras, figuras, mitos e objectos simbólicos da Maçonaria, poderíamos citar diversos excertos, mais ou menos extensos, das várias obras que compõem o nosso corpus de referência [11].

No entanto, uma vez que os objectivos do nosso trabalho não incidem sobre tais aspectos, optámos pela transcrição em anexo (ainda que com algumas supressões devidamente assinaladas) de uma passagem da obra intitulada A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo, da autoria de A. H. de Oliveira Marques, que nos pareceu particularmente detalhada e interessante [12].

Por ora, e sintetizando, a este respeito ser-nos-á suficiente reter que na Maçonaria simbólica existem três Graus iniciáticos fundamentais que se mantêm, independentemente das variantes inerentes a cada Rito: o de Aprendiz, o de Companheiro e o de Mestre, que ocupam, respectivamente, o primeiro, segundo e terceiro lugares na hierarquia maçónica [13].

Em jeito de conclusão, e tendo em mente uma definição de Maçonaria ditada pelo Congresso de Grandes Mestres, celebrado em Estrasburgo em 1952, como sendo esta uma instituição para a iniciação espiritual através de símbolos, há a referir que cada um dos graus que compõem um determinado sistema ou Rito maçónico possui uma temática própria, dentro de um denominador comum: a busca da Verdade, como meta do Dever de aperfeiçoamento em fraternidade. Propõe-se em cada Grau, mediante símbolos, uma possível forma de percepção pessoal do sagrado, do transcendente, como etapa do progresso espiritual, cujo objectivo último é o Conhecimento [14].

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

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Notas

[1] CARVALHO, António Carlos, Para a História da Maçonaria em Portugal 1913 – 1935. Col. Janus, 2a ed.. Lisboa, Vega Lda., 1993, p. 27.

[2] WILMSHURST, W. L., Maçonaria – Raízes e Segredos da sua História. Lisboa, Prefácio – Edição de Livros e Revistas, Lda., 2002, p. 55.

[3] Vide Anexo I – Planta de Uma Loja.

[4] Vide op. cit., p. 86 – 90.

[5] HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 87.

[6] Loc. cit..

[7] WILMSHURST, W. L., Maçonaria – Raízes e Segredos da sua História. Lisboa, Prefácio – Edição de Livros e Revistas, Lda., 2002, p. 56 – 57.

[8] Ou rito (com letra minúscula).

[9] Cf. NUNES, Bruno Miguel, CARVALHO, Frederico Bérnard de, Do Secreto ao Discreto – Maçonaria em Portugal. Lisboa, Produções Editoriais, Lda., 2006, p. 156.

[10] Para informações acerca de outros Ritos aceder a http://www.maconaria.net/secxix.shtml.

[11] Vide: ANES, José Manuel, Maçonaria Regular. Lisboa, Hugin Editores, Lda., 2003, p. 76 – 92; Diálogos com a Maçonaria, Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 75 – 98; ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria. 5a ed. Coimbra Editora, 2006, p. 45 – ; Lyon Carrefour Européen de la Franc-Maçonnerie – Musée des Beaux-Arts de Lyon, 28 Juin – 22 Septembre 2003. Mémoire Active. HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 89 – 158 ; p. 231 – 249; MARQUES, A. H. de Oliveira, A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1995, p. 26 – 33; NUNES, Bruno Miguel, CARVALHO, Frederico Bérnard de, Do Secreto ao Discreto – Maçonaria em Portugal. Lisboa, Produções Editoriais, Lda., 2006, p. 141 – 156; PIZARRO, Paulo, “Outro Mistério, outro olhar sobre a Maçonaria”, in: Magazine Grande Informação, N° 7, Junho de 2006, p. 36 – 37.

[12] Vide Anexo II – Graus e Ritos Maçónicos.

[13] Para obter informações mais pormenorizadas acerca deste assunto vide HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 120 – 134.

[14] Cf. Op. cit., p. 89.

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