A questão templária na Maçonaria (V / V)

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Da adequação ou inadequação de os Templários serem tomados como símbolos na Ordem Maçónica

Este é o quinto e último artigo do Ensaio em formato de Série que explorou a Questão Templária na Maçonaria a partir de um recorte cronológico bastante específico: nos seus primeiros tempos. Os vínculos entre as Ordens, a Templária e a Maçónica são antigos, de naturezas diversas, por vezes controversos e, não raro, surgem mesclados ao movimento das Cruzadas. Tendo em vista, e os autores são unânimes acerca desse aspecto, que a Ordem do Templo ao longo dos seus quase 2 (dois) séculos de existência passou por inúmeras mudanças, a ponto de não ser exagero dizer que, se a Ordem era “Uma”, passou a ser “Outra” quando consideradas as datas extremas da sua existência, surgiu a questão de pesquisa que motivou este ensaio histórico-crítico: afinal, a qual dos Templários, os primeiros ou os últimos, a Maçonaria elegeu como símbolos, modelos a serem seguidos?

Contribuiu sobremodo para estimular esta investigação, baseada na literatura, a pesquisa de Brum (2022), que revela vínculos estreitos entre os personagens fundadores que coabitaram os espaços-tempo de Troyes (França) e Toledo (Espanha) no início da Baixa Idade Média (séc. XI) e um grupo muito específico ao Oriente, o dos “muçulmanos-nizaris-ismaelitas-drusos”, e isto, é bom lembrar, em meio às Cruzadas à Oriente e à guerra da Reconquista em curso na Península Ibérica.

Embora algumas das ideias de Brum possam ser encontradas aqui e ali, principalmente em Ralls (2004), coube a ele a primazia de reunir os argumentos e as evidências que contestam a informação mais disseminada na literatura: a de que os Templários surgiram como monges-guerreiros para defender os peregrinos e a Terra Santa. Sim, pois na avaliação de Brum, os Templários fundadores, quando sequer ainda eram conhecidos como tal, eram, antes de tudo, filósofos, sem dúvida cristãos dedicados, mas também pensadores cujas mentes abertas e sempre em busca de saberes ignoravam as fronteiras geográficas, religiosas ou culturais, eram eclécticos e, pode-se dizer, ecuménicos; portanto, até onde as circunstâncias permitiam, mais distantes dos dogmatismos da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) e também dos seus interesses político-institucionais seculares mais imediatos.

Esse é o principal mérito do que nesta Série foi denominado “hipótese-Brum”: estimular novas e inusitadas reflexões e estudos sobre um tema em que até então não se supunha haver novidade, afinal, a maioria dos autores repete as velhas informações – o mais do mesmo. Em razão das associações já estabelecidas na historiografia, de algum modo e em alguma medida, o que aconteceu na Ordem do Templo, pela via do simbolismo, deveria reverberar no seio da Ordem Maçónica, razão pela qual o tema mereceu as reflexões de um ponto de vista desta última quando lido pelo autor deste Ensaio.

Na Maçonaria, o tema também não é livre de controvérsias, como se nota, por exemplo, na sucessão dos posicionamentos envolvendo as 2 (duas) Ordens – a do Templo e a Maçónica – defendidos por notórios personagens, a começar por Robert de Bruce (1274-1329) e que se estende ao Cavaleiro Ramsey (1686-1743) [1], a Karl Gotthelf von Hund und Altengrottkau (1722-1776) e a Jean-Baptiste Willermoz (1730-1824) que, à excepção do primeiro, eram maçons.

Nem todos os argumentos de Brum foram explorados, como é o caso da vasta análise dos textos estudados, traduzidos (originalmente em árabe, latim, grego ou hebraico), bem como das produções autorais, todas no âmbito da Escola de Tradutores e/ou circunscritas ao Núcleo de Estudos, ambos ao abrigo da Catedral de Toledo. Esse conjunto foi excluído porque, à luz do objectivo desta Série, foi considerado, pela especificidade e relativamente, matéria de menor importância; todavia, é importante ressaltar que essas actividades são peças-chave para a compreensão de que os primeiros Templários eram efectivamente filósofos, e não guerreiros. Ou seja, por certo que a obra de Brum é bem mais completa do que podem sugerir os excertos trazidos aos artigos que organizam o Ensaio; não foi por outro motivo que a sua leitura, na íntegra, foi sugerida.

Já a esta Série foram trazidos e comentados os relacionamentos entre os principais personagens (Hugo I, Hugo de Payens, Geoffrey de Saint-Omer, Bernardo de Claraval, Estevão Harding, André de Montbard e outros) e os eventos (a exemplo da fundação da Ordem de Cister, do Concílio de Troyes, do espaço-tempo de Troyes-Toledo, das Cruzadas, dos Cismas: Ocidente-Oriente e entre os muçulmanos, etc.) no tempo anterior à instituição oficial da Ordem. Finalmente, e também por insights encontrados em Brum e Ralls, o quarto artigo foi dedicado aos Contos Arthurianos e à Lenda (Busca) do Graal, considerados as peças que faltavam ao quebra-cabeça, sobretudo a versão de Eschenbach (1989), poeta, trovador e templário que, em Toledo, teve contacto com a mais alta hierarquia da Ordem, o Colégio de Arcanos. E, por oportuno, é importante esclarecer ao leitor menos familiarizado com o tema que, a exemplo de “A Divina Comédia” (Alighieri, 2020), citada já no primeiro texto (Pinheiro, 2026a), “Parsifal”, de Eschenbach (op. cit.), também pode ser considerada uma obra repleta de elementos Iniciáticos, ambas, portanto, universos à espera da exploração pelos maçons – grosso modo é possível dizer que se tem, aí, os Rituais postos em prática e com lições para o quotidiano.

O leitor atento percebeu que 2 (dois) fenómenos confluem no tema central: primeiro, as mudanças experimentadas pela Ordem desde a sua fundação até a extinção; segundo, as características prevalentes e identificadoras da Ordem em cada etapa, sobretudo nos primeiros anos da sua existência. No que se refere ao primeiro, a partir das inúmeras citações trazidas por Pinheiro (2026a,b) a conclusão é praticamente unânime entre os estudiosos: a denominação Templários é insuficiente para traduzir o amplo e diverso espectro de características que identificam a Ordem em cada uma das principais fases da sua História. A Figura 1, esquematicamente, distingue as principais fases e oportuniza dar início às considerações:

Figura 1: Da Fundação à Extinção da Ordem do Templo: principais marcos

Fonte: Pinheiro (2026a,b,c). Clique para ampliar

Grosso modo, a imagem do vulgo acerca dos Templários é a de um grupo de cavaleiros-guerreiros medievais, europeus, portadores de uma indumentária na qual sobressai a cruz vermelha sobre um manto branco e que, de algum modo, está relacionado à cidade de Jerusalém e às Cruzadas. Um grupo mais selecto associará o grupo a uma sucessão de eventos no seio da cristandade que, iniciados na célebre reunião entre o Rei Balduíno II e o nobre Hugo de Payens, em Jerusalém, no séc. XII, se estenderão até o séc. XIV, quando a Ordem do Templo foi extinta. Alguns outros e poucos saberão que o marco inicial foi, efectivamente, o Concílio de Troyes, passados vários anos da Primeira Cruzada, e quando a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão recebeu, finalmente, a autorização papal para o seu funcionamento, assim como o seu estatuto – a Regra do Templo – que os reconhecia como monges-guerreiros com dupla ocupação, uma comprometida com o plano secular e, a outra, voltada para o plano espiritual, para a salvação da alma.

Já uma ausculta mais acurada, ao contrário do que à primeira vista se pode ser levado a pensar, revela que a denominação genérica “Templários” não é um construto monolítico e uniforme de significado, pois oculta as grandes diferenças institucionais pelas quais a Ordem passou ao longo da sua existência.

Como produto da primeira observação, largamente registrada na literatura, é possível distinguir 2 (dois) grupos: o dos “verdadeiros templários”, expressão cunhada por Frale (2007) para ressaltar o exercício das funções da Ordem enquanto “milícia cristã”; e o dos que, já revelando a mudança sofrida, actuavam sobretudo como o que ora denomino como “milícia corporativa” – transporte, guarda e aplicação (investimentos) de valores em meio às demais e incontáveis actividades empresariais que directa ou indirectamente se encontravam envolvidos – razão pela qual e dado que não perderam a sua condição original, foram ora também os designo “templários institucionais”. A primeira fase teve início com a fundação da Ordem, recrudesceu a partir da primeira Reforma da Regra e começou a perder ímpeto após a batalha de Hattin; já a passagem para a segunda não tem data precisa, tendo sido, antes, um processo gradual e crescente de distanciamento da primeira fase, circunstância representada na Fig. 1 pela superposição dos colchetes visualizados à direita.

A esses grupos é possível reunir um terceiro, o dos “autênticos templários”, expressão cunhada por Brum (op. cit.) que, tendo como base os ideais e as actividades que desenvolveram, procurou distingui-los da “imagem senso comum”, pois, enquanto “os verdadeiros” actuavam como monges-guerreiros (a milícia cristã), “os autênticos” eram predominantemente amigos, buscadores do saber (filósofos multiculturalistas ecuménicos) e homens de paz. E também aqui, as fronteiras cronológicas não são nítidas, pois tudo é processo permanente, inclusive, como pode ser observado, “os autênticos” começaram a actuar antes mesmo do surgimento da Ordem, têm a sua acção prolongada e coexistem com “os verdadeiros” em alguns espaços-tempo no vasto universo da Ordem, notadamente no eixo Troyes-Toledo.

Os “autênticos”, conforme visto em Pinheiro (2026b,c), têm origem no Círculo de Troyes-Toledo, um grupo de amigos cristãos e peregrinos, Iniciados e não-Iniciados na Ordem do Templo que, tendo começado as suas actividades (estudos, pesquisas, traduções, etc.) em Troyes (e adjacências: Champagne e Borgonha) e no curso das suas viagens ao Oriente, se deslocaram para Toledo para melhor dar continuidade aos projectos e onde o Círculo ganhou novas adesões – por afinidade e alinhamento de interesses ou por linha de subordinação. Não se têm informações precisas, mas supõe-se que o grupo tenha sido minoritário (quer em efectivo, quer em recursos), tido existência efémera, actuação localizada e, não só deu origem como, gradualmente, foi absorvido pelos “verdadeiros”; e embora tenha deixado um extraordinário legado à cultura e à civilização ocidentais, não logrou sustentabilidade institucional. A passagem da condição de “autênticos” para a de “verdadeiros” foi equivalente à passagem gradual das ideias e projectos pessoais, privados, debatidos e compartilhados em pequeno grupo (o Círculo de Troyes-Toledo) para uma escala maior, mais formal, institucional e hierarquizada (a Ordem do Templo), o que implicou na perda de graus de liberdade dos precursores que, doravante, passaram a ser, pensar e agir antes e acima de tudo como partes de uma engrenagem com largas ramificações e interesses geopolíticos. Em meio a tanto, embora já deva ter ficado evidente, é preciso registrar que a visão de mundo, os valores, as atitudes, os comportamentos e os objectivos dos “autênticos” são, em praticamente tudo, diferentes e, em determinados aspectos, contrários aos dos “verdadeiros”.

Embora seja uma obra de orientação predominantemente cristã, “Parsifal”, de Eschenbach (op. cit.), não se furta a expressar o espírito do multiculturalismo ecuménico (e, aos olhos da ICAR, provavelmente herético) que identifica “os autênticos” (Pinheiro, 2026c,d), os quais, também pelos meios e objectivos, são claramente distintos dos que os sucederam – “os verdadeiros”. Já ao final da obra, Eschenbach (op. cit.), após incontáveis aventuras, esclarece:

A notícia de que o Graal não poderia ser conquistado pela força das armas se espalhou por todos os países, convencendo os cavaleiros empenhados na sua demanda a suspender as buscas. Desde então o Graal permaneceu oculto (p. 392);

Até agora nunca houve o caso de alguém conquistar o Graal pela força. Essa foi a razão por que, de boa-fé, procurei dissuadir-vos de semelhante propósito […] Conquistastes o Bem Supremo. Mas não esqueçais de em meio a todo esse êxito cultivar a virtude da modéstia (p. 400)!

Embora ainda não fosse dia claro Kyot [Duque da Catalunha] reconheceu de pronto o símbolo heráldico do Graal – um grupo de pombas [2] – que todos os integrantes do esquadrão ostentavam nos escudos (p. 401).

A mensagem é clara: após tantos anos de lutas e disputas (Parsifal refere que ficou cinco anos longe da família), internas e externas, o Graal, a conquista maior, só pode ser encontrado (visto) por aqueles que reúnem as condições morais e espirituais indispensáveis para tal, em um efectivo concerto de paciência, serenidade, sabedoria, compaixão e amor.

Todas as questões acima, entre outras, foram apresentadas e discutidas à luz das fontes consultadas e podem ser vistas em Pinheiro (2026a,b,c,d). Esta breve recapitulação, ao passar em revista os elementos do contexto, teve por objectivo facilitar a trajectória do leitor ocasional antes do enfrentamento das questões centrais que deram origem a este Ensaio.

Assim, à luz dos dados levantados e dos propósitos deste ensaio, a primeira conclusão a extrair é a da impropriedade, por falta de precisão conceitual e de informações que permitam o pleno entendimento do fenómeno (tanto pelo vulgo quanto pelo Iniciado), in totum, da alusão aos Templários como símbolo da Maçonaria. Ademais, tendo em vista a quantidade e a diversidade de Ritos maçónicos (Pinheiro e Dutra, 2025), não é próprio, sobretudo em estado de dúvida resultante da impossibilidade de conhecer a totalidade, atribuir ao todo (à Ordem) o que talvez seja próprio (quiçá exclusivo) das partes (Ritos); desse modo, as considerações que se seguem restringem-se à perspectiva do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e do Rito Escocês Rectificado (RER) lidos pelo autor.

Entretanto, há uma questão que é ainda anterior a todas: tendo por base as lições de Santos (1959), quando A toma B por símbolo, sinaliza e espera que um terceiro, C (a exemplo de um leitor, de um Iniciado), tome daquele (B) e atribua ao primeiro (A), seja por associação, analogia, ou outro mecanismo de transferência, intrínseca ou extrinsecamente (quando mediado por metáforas), determinados predicados: propriedades, qualidades específicas, valores (efectivos ou percebidos), propósitos, etc. Assim, de algum modo cujo esclarecimento fugiria ao escopo deste ensaio, C e outros devem, pelo menos assim se espera, perceber em A predicados originariamente presentes em B.

Portanto, os próximos encaminhamentos propõem identificar as características prevalentes em cada um dos Templários-tipo (“autênticos”, “verdadeiros” ou “institucionais”) e, à luz do que é de conhecimento público, se elas atendem ou não às expectativas simbólicas do REAA e/ou do RER.

Concluídas essas preliminares e com o risco que é inerente a todas as sínteses [3], a partir de algumas variáveis consideradas chaves, a Tabela 1 é um esforço no sentido de realçar as características discriminadoras mais importantes entre os grupos identificados:

Tabela 1: Características predominantes e identificadoras, porém não exclusivas, em cada fase da História dos Templários

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Assim, embora o pano de fundo seja o mesmo, a geopolítica da cristandade medieval, a Tab. 1 ilustra os perfis dominantes em diferentes momentos da história da Ordem do Templo. É importante frisar que se trata de uma Tabela impressionista, que se vale de poucas categorias para, por meio de uma imagem em perspectiva, chamar a atenção para a diversidade interna do que, à primeira vista, se apresenta como uma peça monolítica e uniforme de significados.

Embora a literatura, unanimemente, refira aos Templários como “monges-guerreiros”, optou-se por identificá-los como “guerreiros-monges”, uma inversão que não é nada isenta de significado, pois chama atenção para o facto de que esta mesma literatura, quando relata os seus actos e feitos, salienta maioritariamente, quando não exclusivamente, o seu papel nas Cruzadas e enquanto guerreiros; ao contrário, por exemplo, de quando refere à Ordem dos Hospitalários, cujos integrantes também exerceram importante papel como guerreiros. Assim, as contradições internas entre “o discurso vs. a prática”, entre outros aspectos discutidos em Pinheiro (2026a,b), comprometem a perspectiva de vê-los primeiramente enquanto monges; já a literatura dos Contos Arthurianos, combinada à da Busca pelo Graal (Pinheiro, 2026d), mais do que o equilíbrio dual (guerra-paz, matéria-espírito, Jerusalém terrestre-celeste, etc.) representado no Selo Templário (os 2 (dois) cavaleiros sobre o mesmo cavalo) aponta para a primazia do intangível, do inefável, do espiritual em detrimento do secular como norte e directriz condutora das actividades quotidianas.

Tanto das condições objectivas já apresentadas quanto das entrelinhas dos textos de História, é possível depreender que se as condições da vida monástica não eram necessárias (provavelmente para Bernardo de Claraval eram indispensáveis), constituíam-se na melhor forma organizacional para desenvolver a rígida disciplina, a obediência e a vida ascética indispensáveis ao êxito nas frentes de guerra. Mutatis mutandis, os paralelos com Pressfield (2017, 2020) são notáveis.

De outro lado, como é sabido, o REAA está organizado em 33 Graus, todos detalhadamente analisados por Ismail (2020) e, entre eles, o templarismo encontra-se disperso. O que, por alguns, é apontado como a sua riqueza, a diversidade de fontes (as Escrituras Sagradas do Ocidente-Oriente, as ciências ocultas, o pitagorismo, a filosofia grega, a oriental, a ciência moderna, etc., tudo em sucessão histórica) que estimula interpretações caleidoscópicas, para outros, é a fraqueza do REAA. Assim, dificilmente um tema, a exemplo do templarismo, se apresenta de forma isolada, surge permeado de outros elementos, notadamente colhidos nas Escrituras. Baseado em Ismail (op. cit.), Pinheiro (2026a) já destacara os 4 (quatro) Graus que, a partir das características que reúnem, são reconhecidos como predominantemente Graus Templários: o 17º, o 27º, o 29º e o 30º. Ismail, em forma de Apêndices, apresenta alguns quadros-síntese, entre eles o que relaciona cada Grau às palavras-chave correspondentes às lições transmitidas. O recorte de um desses quadros dá origem à Tabela 2, à qual também se aplicam os esclarecimentos análogos aos da Tabela 1.

Tabela 2: Rito Escocês Antigo e Aceito: Grau (número/denominação), Símbolo e Palavra-chave da Lição

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Em primeiro lugar, parece claro que a escolha dos Templários como símbolo da Maçonaria/REAA ignorou, ou, se observou, não atribuiu maior importância ao papel dos “institucionais” na trajectória da Ordem; com efeito, não foram as realizações destes que fundamentaram a escolha da Ordem como imagem-símbolo que a Maçonaria desejasse ter a si associada – tanto pelo que informa a literatura quanto pelo que ora se pode deduzir a partir das lições de cada Grau à luz do entendimento de Ismail. Por exemplo, os Templários frequentemente são lembrados como hábeis negociadores, diplomatas (razão pela qual prestavam serviços aos governantes) e precursores do sistema bancário, tendo inovado e criado instrumentos financeiros que, mutatis mutandis, ainda hoje são utilizados. Qual a relevância destas habilidades, competências e realizações no contexto da Maçonaria contemporânea, isto é, na doutrina, na ritualística e na liturgia? Nenhuma! Todavia, independentemente das perspectivas, das vontades e dos interesses, “os institucionais – a milícia corporativa” são partes que não podem ser ignoradas, tampouco apagadas, de um longo período (mais de um século) da história da Ordem do Templo [4]. A escolha dos predicados aos quais se deseja associar a imagem, quando selectiva, não só não se revela virtuosa como traz, em si, um risco; se não por uma questão de princípios, por pragmatismo, não é difícil imaginar que mais cedo ou mais tarde, as contradições, reais ou percebidas, ainda que à primeira vista de menor importância, podem mesmo vir a expor a instituição que se desejava enaltecer e preservar.

Ao nível pessoal, talvez em um conjunto restrito, sobretudo quando devidamente paramentado (nas liturgias e ritualísticas), desperta um sentimento de vaidade e orgulho ao ter a sua auto-imagem (e, por suposto, a formada pelos seus pares) associada a um grupo que, in totum e de acordo com a narrativa mais difundida, ficou notabilizado pelos bons feitos. Por oportuno, o entendimento atribuído a “bons” requer a definição da perspectiva, debate já levado a efeito em Pinheiro (2026a) – poucos, muito poucos, têm em conta que os Templários também (a depender do interesse do narrador, pois elementos não faltam) podem ser associados à imagem do fracasso.

De outro lado, como ilustra o Quadro 1, o diálogo entre a Maçonaria/REAA e os “verdadeiros templários” é franco e aberto.

Quadro 1: Predicados Comparados:
“Verdadeiros Templários” vs. Graus Templários no REAA vs. “Autênticos Templários”

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Se, de um lado, o predicado “humildade, paciência e renúncia” não apresenta associação directa com os “verdadeiros templários” enquanto guerreiros, do outro, não menos importantes são os 3 (três) votos para o ingresso na Ordem, com os quais o predicado mantém alinhamento.

A matriz cultural multivariada que dá forma e conteúdo ao REAA ora autoriza percebê-lo como deísta, ora como teísta (o que é manifesto, sobretudo, pelo comportamento dos quadros) e, sendo perspectivas conceituais e metodológicas distintas, apontam para caminhos igualmente distintos que, circunstancialmente e conforme a exigência lógica, podem levar a aporias ou a paradoxos quando frente, por exemplo, a dilemas morais e/ou questões existenciais – temas que, sobremodo, interessam à Maçonaria, a exemplo do aborto, da pena de morte, das relações homoafetivas, suicídio, culpa, dor e sofrimento, sentido da vida e outras. No caso ora em lide, chama a atenção o facto de que nenhum dos predicados relacionados por Ismail vai ao encontro da dualidade (matéria-espírito) sugerida por um dos seus principais símbolos, o Selo da Ordem, o que revela a dupla luta concomitante: ora para conquistar (ocupar e defender) a Jerusalém terrestre, ora para alcançar a Jerusalém celeste, o que significa lograr a salvação da alma e ir ao encontro das entidades celestiais por ocasião da parusia – dogmas da narrativa teísta. Assim, também por esse aspecto (pela omissão de expressões mais específicas associadas), parece fortalecida a primazia dos guerreiros em detrimento da condição de monges.

Enquanto “altruísmo, humildade e renúncia” guardam relação com “a cristandade dogmática”, a “bravura e a equidade” são predicados que, alinhados com “coragem e honra”, apontam para a promoção da justiça e, com alguma elasticidade e circunstancialmente, podem ser considerados facilitadores do intento de ir ao encontro da “verdade”, leitura que também sugere alinhamento com propostas de modernização da Maçonaria pela secularização dos usos e costumes. Por fim, é importante contextualizar e lembrar que a escolha da Ordem do Templo como um dos símbolos da Maçonaria se deu ao final da Modernidade, auge do Iluminismo, quando o tema fé vs. razão provocava intensos debates, demandava posicionamentos e, muito provavelmente, a Ordem do Templo ainda não havia sido tão escrutinada pelos estudiosos. E se fosse hoje?

E no que tange ao terceiro grupo, o dos “autênticos”, os predicados listados por Ismail na forma de palavras-chave a partir das lições (mensagens) dos Graus Templários no REAA (17, 27, 29 e 30) – mantêm-se à distância, o que causa estranheza, pois:

  1. primeiro, porque os textos maçónicos são unânimes ao apontar para a Filosofia como uma das principais fontes dos saberes buscados pela Ordem, e não se tem notícias de que outros templários, que não os envolvidos com o Círculo de Troyes-Toledo, tenham gerado maior acervo intelectual, seja na forma de traduções ou produções originais, do que estes – “os autênticos”;
  2. em segundo, não há expressão (imagem) melhor para a aludida universalidade da Maçonaria do que as relações multiculturais e ecuménicas promovidas pelo mesmo Círculo; e, finalmente,
  3. dados os elementos veteros e neotestamentários presentes em todos os Graus do REAA (Ismail, cit., Apêndice 3), não teria associação mais afim com a Maçonaria do que a encontrada nos Contos Arthurianos e, sobretudo, nas versões da Busca do Graal – especialmente a de Eschenbach –, produtos que tiveram o apoio do Círculo de Troyes-Toledo.

Em resumo, quando a trajectória dos Templários é decomposta nos 3 (três) grandes grupos que a literatura permite discriminar – autênticos, verdadeiros e institucionais –, o que se observa é que os chamados Graus Templários do REAA dialogam com maior fluidez e proficiência com o grupo dos “verdadeiros”, cuja imagem corresponde à que, acima, foi atribuída ao vulgo, a de “[…] um grupo de cavaleiros-guerreiros medievais, europeus, portadores de uma indumentária na qual sobressai a cruz vermelha sobre um manto branco e que, de algum modo, está relacionado à cidade de Jerusalém e às Cruzadas”. O corolário é imediato: a imagem e os valores que o vulgo (profano) associa aos Templários não diferem muito dos que o Iniciado apreende a partir dos textos Rituais. Isso é revelador da força da narrativa histórica, capaz, inclusive, de contrariar o corpus (lato sensu) da Maçonaria Especulativa, cujos ideais, quando lidos a partir dos textos complementares, salvo melhor juízo, são melhor comunicados pelo grupo dos “autênticos”, também denominados por Brum (op. cit., p. 96-7) de “templários-cistercienses”:

[…] retomar na Europa o antigo espírito do cristianismo antigo e da vida filosófica contemplativa, sob a influência da tradição neoplatónica e da “teologia negativa” (a mística cristã). Ao mesmo tempo, havia também o contacto e o diálogo com o mundo árabe e com a filosofia do ismaelismo islâmico […] com certeza, esses templários não criaram uma ordem militar nem tinham objectivos semelhantes aos conquistadores francos […] Eles, na verdade, procuravam repetir o exemplo que receberam da Hugo de Payens e Bernardo de Claraval, focando o interesse e o projecto de vida nas questões da alma, e não da política.

O que sucede, de imediato, é a pergunta: qual o motivo desta dissonância cognitiva? Na ausência de estudos específicos, não é possível ser assertivo, mas, tão somente, conjecturar algumas hipóteses, como, por exemplo:

  1. o peso sociopolítico da realeza, da nobreza e da aristocracia militar por ocasião do surgimento da Maçonaria Especulativa na Europa do séc. XVIII;
  2. a Cavalaria, à luz das tecnologias bélicas da época, era uma das principais armas dos exércitos, o que conferia aos seus quadros elevada distinção social;
  3. mesmo derrotados, os Templários gozavam de imagem positiva junto à sociedade – afinal, o discurso oficial os apresentava como intrépidos guerreiros e mártires da causa;
  4. assim, à Cavalaria Templária foi associada e largamente difundida a imagem romântica de vitória e de heroísmo acompanhada das virtudes correlatas (a ex. da coragem, resiliência, justiça, etc.), tornando-a para muitos um “ideal”, um “objecto de desejo” que, se cada vez mais inalcançável em razão das mudanças (sociais, políticas, etc.) em curso, estava ao alcance da representação simbólica e da performance ritualística. Em meio a um ambiente (por vezes, literalmente, um cenário) envolvente pelas emoções que desperta a partir das imagens pré-existentes, não é possível excluir, mas também impossível de aferir, o acometimento de um mix de sentimentos ambíguos e contraditórios dos partícipes: vaidade, orgulho, senso de pertencimento, igualitarismo, entre outros; e, por fim, mas sem a pretensão de esgotar a matéria,
  5. é provável que à época não houvesse o conhecimento histórico análogo, ainda que incipiente, ao revelado por Ralls ( cit.) e, sobretudo, por Brum (op. cit.), que, em síntese, demonstraram ser impróprio pensar a Ordem do Templo como um construto monolítico e uniforme de significado.

Estavam, pois, criadas as condições para que a Ordem do Templo, pela sua expressão até hoje mais conhecida e idealizada, a dos “verdadeiros templários”, fosse tomada como um dos símbolos da Maçonaria Especulativa. Aos olhos de hoje, sem perder de vista que se trata de uma conjectura beneficiada por informações contemporâneas, teria se dado um caso particular de metonímia, a sinédoque: em que a parte, a dos “verdadeiros templários”, foi (equivocamente) considerada representativa do todo. E, curiosamente, talvez a outra parte (“os autênticos”) tivesse sido a mais adequada para representar (simbolizar) os valores pretendidos. Todavia, é possível que em meio às externalidades imagéticas já comentadas (e amplamente conhecidas) relativas aos Templários, quiçá alguém tenha cogitado no simbolismo esotérico que o Selo carrega, mas este, sabe-se, só os olhos preparados saberão compreender.

Fica, assim e em princípio, esclarecido o que a leitura mais atenta e minuciosa da história da Ordem do Templo, enquanto símbolo da Ordem Maçónica, revela: a provável existência de uma dissonância cognitiva que, paradoxal que seja, foi criada e até hoje é mantida pela própria Maçonaria – e não há como, hoje, pensar em mudança. Em que pese a robustez dos achados de pesquisa, inclusive corroborados por outros estudos, não se pode perder de vista que a “hipótese-Brum” continua sendo uma hipótese à espera de novos estudos e que, infelizmente, até agora só logrou divulgação em um espaço muito restrito, o que, então, suscita a pergunta: já não há elementos suficientes para justificar que os estudiosos em geral e os maçons em particular se debrucem com afinco sobre o tema a fim de lograr maior compreensão? E à Maçonaria não caberia motivar, senão pela demanda às Lojas de Estudos e Pesquisas, directamente aos quadros das Lojas Simbólicas para que promovessem reflexões críticas capazes de ampliar o conhecimento e dirimir as dúvidas sobre o tema?

Antes de passar às considerações sobre a Maçonaria Rectificada (RER), considerando as especificidades do Rito, alguns esclarecimentos prévios se fazem oportunos; ademais, o leitor que desejar um conhecimento mais aprofundado, mas ainda introdutório, poderá encontrá-lo em Pinheiro (2022), seguido de Ursin (2014) e, finalmente, ir às fontes originais a partir de Barragán (2023), e é deste último que foram extraídas as seguintes citações:

Entre 1774 e 1782 […] Podemos dizer que a arquitectura do Regime foi obra de Willermoz [que] parte de três origens históricas e de duas fontes espirituais para dar forma a este Regime. Quanto à estrutura e simbolismo, tanto maçónico quanto Cavaleiresco, as três origens históricas são:

  1. a Maçonaria Francesa […] uma vez purificada seria estruturada por volta de 1786-87 em um sistema que mais tarde tomaria o nome de “Rito Francês” […] o que veio a ser chamado de “escocismo”;
  2. o sistema próprio de Martinez de Pasqually […] chamado de “Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohen do Universo […];
  3. a Estrita Observância Templária (EOT), também chamada de “Maçonaria rectificada” ou “Reforma de Desde”, sistema alemão onde o aspecto cavaleiresco absolutamente prevalecia sobre o aspecto maçónico e que pretendia ser herdeira da antiga Ordem do Templo;

As duas fontes espirituais são:

  1. a doutrina “esotérica” de Martinez de Pasqually, cujo conteúdo essencial versa sobre a primeira origem, a condição actual e o destino último do homem e do Universo;
  2. a tradição cristã universal, nutrida pelos Padres da Igreja (Barragan, cit., p. 8)

Conforme pode ser observado, anteriores à organização definitiva do REAA, desde as primeiras notas compilatórias já é possível identificar as afinidades do RER com os valores cavaleirescos: de um lado, a herança da Ordem dos Cohen do Universo, na qual a expressão “cavaleiro” já surge carregada de simbolismo; do outro, a EOT, cuja génese, que remete à rectificação, per se, exprime o juízo de valor subjacente e prevalente aos valores maçónicos propriamente ditos. Essa última chegou a alimentar a pretensão de ser reconhecida como a plena legatária da Ordem do Templo, objectivo que foi abandonado quando a EOT foi absorvida pelo RER.

O que aparentemente é para ser considerado como um detalhe, pois está em Nota do Tradutor ao pé da página (op. cit., p. 9), na verdade, penso, é de grande importância, senão, vejamos:

Padres da Igreja: os primeiros fundadores da Igreja Cristã que também eram conhecidos como Padres Apostólicos ou mesmo Pais da Igreja (dentro de duas gerações após os Apóstolos de Cristo), são normalmente chamados de Padres da Igreja.

A designação Padres da Igreja abrange um grande conjunto de pensadores e exegetas (nem todos padres no sentido contemporâneo) que, por terem vivido desde o tempo dos Apóstolos de Cristo até o séc. VIII (Hamman, 1995; Liébaert, 2013; Spanneut, 2013), portanto, bem além das 2 (duas) gerações mencionadas, contribuíram decisivamente para formular as bases da doutrina cristã, tornada católica, razão pela qual fizeram jus ao epíteto – pais. Apenas para ilustrar, 2 (dois) grandes vultos que fogem à primeira definição: Sto. Atanásio de Alexandria (292-373) e Sto. Agostinho de Hipona (354-430). Já os Padres Apostólicos, estes sim, como a própria denominação esclarece, viveram no início dos tempos que Chevitarese (2024, p. 47) chama de “Movimentos de Jesus Sem Jesus”.

Nesse caso, sendo o RER um Rito Cristão, a localização cronológica não é de menor importância, pois o período dos Padres da Igreja abrange os grandes divisores de águas: os Concílios – Niceia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431), Calcedónia (451) e outros – que, pouco a pouco, superando sucessivos impasses teológicos, estabeleceram a doutrina da “autoproclamada ortodoxia cristã” (Chevitarese, op. cit., p. 95). Uma vez estabelecida a ortodoxia, os demais cristianismos, sim, pois havia vários grupos que se reconheciam como cristãos (Chevitarese e Silva, 2026), passaram a ser perseguidos como apóstatas, hereges ou pagãos e, após Niceia, com o apoio repressor do aparelho estatal. É importante ter em conta os acontecimentos desse momento histórico, bem como o facto de que, ainda hoje, há cristianismos, e que o diálogo que alguns estabelecem a partir de pontos de convergência não se estende a todos. Frente às ambiguidades e aos debates: afinal, de qual cristianismo o RER é legatário? O leitor mais atento observará que parte da literatura aponta no sentido do cristianismo católico, enquanto outros exegetas são mais flexíveis – tema para outro ensaio, pois aqui também os posicionamentos têm consequências distintas. Sem perder de vista as reservas já apontadas, sobretudo quanto à sinédoque, a pergunta pode ser estendida: e a Maçonaria? De um ou de alguns (neste caso, quais?) dentre os movimentos gnósticos [5] que se consideravam cristãos, do que segue o Credo Niceno-Constantinopolitano, do Ortodoxo (nos termos do Cisma de 1054) ou de um dos cristianismos Reformados (pós-Lutero)? E, para os adeptos mais radicais da modernização da Maçonaria, não é possível desconsiderar os movimentos posteriores, como o neopentecostalismo.

Fazer corresponder os Padres da Igreja aos Padres Apostólicos implica delimitar pessoas e temas, o que não é claro e tampouco há unanimidade na literatura. Fugiria, em demasia, do escopo deste ensaio tecer considerações mais a fundo sobre a matéria, mas é importante tê-la em consideração quando se toma como símbolo uma Ordem que, embora a literatura não seja conclusiva, teria perseguido e combatido os cátaros, considerados cristãos puros e legatários dos gnósticos (Salomó, 2018) que antecederam a autoproclamada ortodoxia cristã. Miranda (2018, p. 30), por exemplo, afirma:

[…] não é ao catarismo que deve ser atribuída a pecha infamante da heresia. O que os cátaros desejavam era precisamente resgatar os ensinamentos de Cristo há muito soterrados em considerável massa de entulho deformador e de pesados interesses terrenos.

Qualquer que seja a delimitação atribuída ao “cristianismo RER”, se pré ou pós à autoproclamada ortodoxia cristã, a Maçonaria, enquanto Ordem que tanto abriga o Rito quanto é lastreada em múltiplas fontes, enfrentará dificuldades lógicas e conceituais que, inexoravelmente, conflitarão com as orientações práticas.

Var (2023), que analisou as exposições e os argumentos de Willermoz (1782a,b), sintetiza:

I – Que era necessário proscrever para sempre a reivindicação de filiação temporal sobre a Ordem do Templo e a fortiori da sua restauração;

II – Que, em troca, era necessário manter uma “conexão íntima” entre a Ordem do Templo e a Ordem Maçónica, a fim de dar à segunda acesso ao “conhecimento científico” da primeira;

III – Que estes conhecimentos não tinham sido o privilégio exclusivo da Ordem do Templo, sendo muito mais antigos e universais, mas que, no entanto, eles deviam a essa Ordem a sua forma actual (op. cit., p. 105-6).

E, em nota de rodapé, esclarece que: “a palavra “científicos” é relacionada, não só por Willermoz, mas por todos os que intervêm no convento de Wilhelmsbad, com “altas ciências” e não com “ciências vulgares”. E, a seguir, conclui:

[…] Willermoz […] nas seguintes passagens […] resumem claramente o seu pensamento: “A ciência que agora chamamos de Maçónica teve de ser professada em momentos diferentes e sob diferentes denominações. Se foi dado ao homem por suas necessidades, deve ser tão velha quanto a sua existência temporal e tomar a sua origem da própria fonte de coisas temporais […] A ciência maçónica […] não se concentrou exclusivamente em um determinado momento na Ordem do Templo ou qualquer outra Ordem moderna […] A ciência maçónica passou pelos Cavaleiros Templários à medida que alguns rios passam pelos grandes lagos sem se perder totalmente ou confundir neles, de onde saem retendo talvez algumas qualidades e propriedades particulares do lago que atravessaram [havia outros] canais particulares que também foram capazes de receber a mesma ciência, modificados talvez de forma diferente [e por isso é conveniente] examiná-los também (op. cit., p. 106).

Penso que mais não é necessário [6] para deixar claro que a relação do RER com a Ordem do Templo não só não é da mesma natureza da mantida pelo REAA como, sob determinados aspectos, é completamente diferente: por exemplo, na perspectiva Rectificada, desde priscas eras existe uma “ciência maçónica” (também referida como “alta ciência”) que antecede a Ordem do Templo, razão pela qual por ela não teria mais do que transitado, quiçá adquirido “algumas qualidades e propriedades particulares” no curso desta passagem. Tendo em vista que a “ciência maçónica” não se confunde com a que identifica como “ciência vulgar” – por suposto, a ciência ordinária, a orientada pelo método científico – o espaço que lhe corresponde é o que, então, é conhecido como “ciências ocultas”, um largo espectro que abrange “[…] pesquisas e práticas relativas à astrologia, à magia, a alquimia e a cabala” (Faivre, 1994, p. 30), às quais, como informam inúmeras referências, podem ser reunidas a mística gnóstica, a numerologia e, até mesmo, a necromancia. A “ciência maçónica” remonta, pois, à aurora da humanidade, quando das primeiras especulações do Homem, às chamadas 3 (três) questões fundamentais, também referidas como existenciais: as pertinentes à sua própria natureza, ao universo no qual se encontra imerso e ao sentido da vida.

É importante não perder de vista, alerto novamente, que o RER, assim como outros tantos Ritos (Pinheiro e Dutra, 2025), surgiu na efervescência dos debates que marcam o fim da Modernidade e do Iluminismo, entre ideias em conflito, o (duplo) Renascimento Humanista, em síntese, entre a fé e a razão – sobre o tema, entre tantos, sugere-se Yates (1995) e Rossi (1992). Nesse caldeirão polarizado, o RER surge com uma posição bem definida, o que não significa (como já apontado acima) que inexistam contradições internas [7], originárias principalmente do esforço de Willermoz, cristão convicto, mas provavelmente dividido e ainda preso às lições do seu mestre, o notório teurgo Martinez de Pasqually, no sentido da cristianização da doutrina fundante do RER. Grosso modo, embora existam muitos textos que debatem, esclarecem e complementam o tema (a exemplo de inúmeras cartas trocadas entre os principais protagonistas), o RER basicamente é o produto de elementos colhidos no “Tratado da Reintegração dos Seres” [8] (Pasqually, 2008) e combinados à doutrina do Novo Testamento, o que o torna um Regime teísta-cristão e, recorrendo à denominação usual das Potências, organizado em Ritos-Graus que, embora orientados, não se confundem com a cosmo-teogonia judaico-cristã.

As dificuldades lógicas e conceituais decorrentes do amálgama promovido por Willermoz tornam-se mais evidentes quando se aprofunda em determinadas considerações, como é o caso das “ciências ocultas” que, por meio da invocação de entes espirituais intermediários e com intuito intercessório busca estabelecer a ponte sugerida pelo II Princípio Hermético: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima” (Três Iniciados, 2015, p. 21) – isto é, entre o plano dos sentidos, material, terrestre e o plano subtil, espiritual, celestial.

No que tange à invocação, Marques e Vieira (2016, p. 26) esclarecem que

[…] o objectivo principal dos Elus Cohen [acima referidos como Eleitos Cohen] era o de auxiliar a humanidade no seu processo de purificação e reintegração do homem ao seu estado primordial […] utilizavam de cerimónias mágicas basicamente de três categorias: exorcismos, conjurações e preces.

E em Pasqually (2008, p. 234) podem ser encontradas algumas dessas operações:

[…] operações dos diferentes cultos, que são: 1) o culto de expiação; 2) o culto da graça particular e geral; 3) o culto contra os demónios; 4) o culto de preservação e de conservação; 5) o culto contra a guerra; 6) o culto para se opor aos inimigos da lei divina; 7) o culto da fé e da perseverança na virtude espiritual divina; 8) o culto para fazer acontecer a descida do espírito divino; 9) o culto para fixar consigo o espírito conciliador divino; e, 10) o culto anual ou de dedicatória de todas as suas operações ao Criador.

Já no que tange aos entes espirituais, entre outros, ora seguindo o cristianismo católico, sugere-se a leitura de Pseudo-Areopagita (2015), em cuja obra se encontram detalhes (características, hierarquia, papéis, etc.) relativos aos querubins, serafins, anjos, arcanjos e outros.

Ficam, assim, esclarecidas as 2 (duas) fontes espirituais do RER, citadas acima e abaixo reproduzidas:

  1. a doutrina “esotérica” de Martinez de Pasqually, cujo conteúdo essencial versa sobre a primeira origem, a condição actual e o destino último do homem e do Universo;
  2. a tradição cristã universal, nutrida pelos Padres da Igreja (Barragán, cit., p. 8)

Dessarte, na perspectiva da Maçonaria Escocesa Rectificada, as respostas às questões fundamentais não necessariamente manterão congruência com as apuradas quando vistas pela Maçonaria Andersoniana modulada pelo REAA. Em que medida e como essas diferenças podem reverberar no quotidiano dos Iniciados, nos seus valores e relacionamentos em geral, são questões ainda à espera de estudos independentes.

Feitas essas considerações, é possível, então, retornar à questão central deste ensaio na perspectiva da Maçonaria/RER:

1 – ela não poderia adoptar a Ordem do Templo como símbolo porque assume ser portadora de uma “ciência maçónica” que é anterior a este. Por consequência, formalmente, nenhuma das categorias adoptadas neste trabalho (os autênticos, os verdadeiros e os institucionais) lhe poderia ser aplicada para aferir a aderência;

2 – não obstante, apesar do evidente distanciamento que mantém “dos verdadeiros” e “dos institucionais”;

3 – de outro lado, sob certos aspectos ela se aproxima “dos autênticos”; todavia, o seu posicionamento categórico enquanto Rito cristão – vide, p. ex. Pinheiro e Piva (2025) – a rigor, tende a afastá-la de outras características deste grupo, a exemplo do multiculturalismo inseparável das religiões, do convívio com a mística gnóstica (que, “oficialmente”, deu causa ao genocídio dos cátaros) e da prática alquímica, esta que, como visto, já opunha os Templários à ICAR (Rodrigues, 2020). Não é possível, também, deixar de perceber a identidade, quanto aos fins e a “alguns” dentre os meios, entre os Rectificados e o grupo dos “ismaelitas-nizaris-drusos sírios” vistos em Pinheiro (2026c). Por fim, há 2 (dois) pontos de extraordinária convergência:

3.1 – o CBCS, sigla que designa os quadros do segundo e último Grau da Classe ou Ordem Interior da Maçonaria Rectificada: Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa que é antecedido pelo Grau de Escudeiro Noviço (mais uma semelhança). Ademais, nas actividades cerimoniais os paramentos do CBCS emulam os dos Cavaleiros Templários. Todavia, o mais importante é o que segue:

[…] os Cavaleiros da Cidade Santa, pobres e existentes por sua própria vontade, eles precederam, na mesma Ordem, os Cavaleiros T. [do Templo] que se tornaram ricos e poderosos. Agora, foi a rica e poderosa Ordem que foi extinta, e não a ordem primitiva pobre e sem apoio; assim, voltando ao estado, ao título e ao primeiro objectivo da instituição, a conexão entre a primeira e a segunda, e da segunda para nós, é seguramente estabelecida e poderia até ser reconhecida em casos extremos se os graus pelos quais será preservada nos informam porque o é, e não saberíamos como torná-la conveniente sem estabelecer uma relação científica (Willermoz, 1782b, p. 120);

3.1.1 – isto é, embora por caminhos distintos e tendo adoptado um critério que, conforme já comentado, não se sustenta (pobreza riqueza), Willermoz também identifica 2 (duas) Ordens do Templo: a que foi extinta (e aí não estabelece as distinções identificadas neste Ensaio) e a anterior a esta que, antes da corrupção dos costumes, estava comprometida com as “ciências maçónicas” (leia-se: ocultas). Não fica claro se Willermoz se refere predominantemente à Ordem ou a alguns dos seus quadros. Todavia, coerentemente com as demais Ordens que se autoproclamam Iniciáticas – sim, pois tudo é simbólico –, desde o início dos tempos teria sido preservada a linhagem, a Tradição ainda hoje mantida pela Maçonaria (Rectificada), à semelhança do que é relatado acerca do Graal. O CBCS, pois, é aquele que, tal como Parsifal, pela pureza de pensamentos (fé, esperança), atitudes (bondade, boa-fé, reconhecimento da falibilidade e do cometimento de erros, penitência, renúncia) e realizações (promoção da justiça), estaria em condições de adentrar a Cidade Santa. Não há como, nessa trajectória, deixar de apontar as dificuldades já mencionadas: como norma, o Iniciado deve, obrigatoriamente, partir do princípio (dogmas) e seguir exclusivamente os preceitos do cristianismo católico ou são admitidas, por exemplo, práticas do misticismo gnóstico enquanto partes da “ciência maçónica”?

3.2 – a segunda convergência, mas relacionada à anterior, aponta para o Selo da Ordem enquanto símbolo da dualidade da vida: das lutas internas (virtudes vícios), do permanente embate entre o mal vs. bem, da vida secular sob orientação dos entes espirituais, etc. Cabe lembrar que tanto a Cruz quanto o Selo passaram a ser utilizados, tardiamente e respectivamente, em 1147 e 1158, talvez para lembrar e reafirmar os compromissos com os princípios, os valores e os objectivos que, aos poucos, já eram percebidos como tendo ficado no passado. E tanto o Selo quanto a Cruz guardam coerência com os ideais de São Bernardo de Claraval, um dos personagens mais importantes do Círculo de Troyes-Toledo.

As primeiras reflexões para a elaboração deste Ensaio surgiram da constatação do vínculo simbólico entre a Ordem do Templo e a Ordem Maçónica. Todavia, considerando que a literatura é unânime ao afirmar que a Ordem do Templo experimentou profundas (radicais) alterações ao longo da existência, naturalmente surge a pergunta: afinal, com qual dessas partes internas à Ordem do Templo a Ordem Maçónica pretende se ver associada, identificada com os princípios e valores? E em razão dessas diferenças na primeira, é de se esperar repercussões na representação simbólica em meio à segunda?

A seguir, a pesquisa bibliográfica, à excepção de 2 (dois) autores e textos, Karen Ralls (2004) e Alberto Brum (2022), mostrou que os estudos dedicam pouca atenção aos primeiros momentos da história da Ordem do Templo, pois o foco, grosso modo, ora aponta para a actuação como braço auxiliar dos Cruzados, ora para o processo da sua agonia e extinção. A opção para responder às questões de pesquisa recaiu, sobretudo, em Brum, cujas contribuições, combinadas às demais fontes bibliográficas, foram decisivas para a elaboração de um quadro que, a partir de algumas categorias-chave e de algo que se aproxima da ideia de variáveis dicotómicas (presente x ausente e, por vezes, com alguma sensibilidade de grau), permitiu identificar 3 (três) templários-tipo: os autênticos, os verdadeiros e os institucionais.

No curso das leituras para elaborar este Ensaio foi inevitável o encontro com diversos temas que dialogam com as suas questões centrais; todavia, para não fugir em demasia destas últimas, o enfrentamento daquelas não pode ser exaustivo, mas tão somente para informar e prover o leitor mais dedicado de sinais que possam orientá-lo em futuros estudos, bem como nas pesquisas para continuar e aprofundar as suas próprias investigações.

Constituída a chave de análise, foi possível, mediante contraste-comparação com as palavras-chave (síntese) extraídas das Lições dos Graus Templários (Ismail, 2020), analisar, inicialmente para o REAA, a aderência à representação simbólica dominante em cada templário-tipo, o que deu início às respostas às perguntas motivadoras do Ensaio. Embora mais imediatas, as respostas pertinentes ao RER foram enriquecidas, para melhor esclarecimento do leitor, com as declarações do seu principal mentor intelectual: Jean-Baptiste Willermoz (1782a,b).

Subsidiariamente, a pesquisa corroborou algumas constatações já observadas na literatura em geral, trouxe novas lições, bem como questionamentos para futuros estudos, relacionados a seguir, sem que tenha sido observado qualquer ordem de relevância absoluta ou relativa:

  1. mais uma vez restou comprovado que, de regra, não é próprio referir-se à Maçonaria, pois esta é género que comporta espécies, denominadas Ritos, bastante distintas; assim, o que se aplica a um não necessariamente se aplica a outro, podendo mesmo haver completo contraste entre ambos. É preciso, pois, a cada caso, distinguir, qualificar e ater as conclusões ao objecto especificamente analisado. Apesar da mesma denominação, neste caso os Templários vistos pelo REAA não podem ser equiparados à perspectiva do RER: há a Maçonaria lato sensu, a modulada pelo REAA, pelo RER e as demais através dos outros tantos Ritos;
  2. cautela frente a eventos, personagens e narrativas históricas, entre outras tantas informações habitualmente recebidas e compartilhadas, a exemplo do que se refere aos Templários. Estudos e análises, em geral, tendem a apresentar resultados diferentes, quando não discrepantes, se o objecto for considerado isoladamente ou visto em perspectiva e contextualizado. Idealmente, as análises sintéticas e analíticas devem ser combinadas para melhor compreensão dos fenómenos. Por exemplo, a percepção (ou melhor, o entendimento) acerca da origem, da missão institucional e das transformações internas na Ordem Templária muda conforme o polo geográfico e o contexto das apreciações: se desde Jerusalém, se da Europa em geral e/ou da Península Ibérica em particular ou, ainda, pelo ponto de vista dos Orientais, no caso, os muçulmanos. Ademais, sobretudo o papel político das instituições tende a ser diluído, quando não perdido – os Templários não foram apenas agentes em defesa da fé e de Jerusalém, mas também peças relevantes no xadrez geopolítico, lutaram e defenderam, inclusive, a sua independência e a autonomia perante a instituição que lhes deu origem e legitimidade no contexto da ordem à época vigente;
  3. é ilusório pensar que tendo lido um livro sobre determinado assunto, mesmo de autor consagrado, já se tenha o pleno domínio da matéria – vide, p. ex. Pinheiro (2023). Encontrar divergências é mais comum do que se pensa, o que é salutar desde que amparadas em argumentos e fontes consistentes, pois são elas que motivarão e justificarão a continuidade dos estudos, seja para corroborar ou contestar. Entre outras, é digna de nota a divergência interpretativa, entre autores consagrados, acerca do Selo da Ordem do Templo, símbolo-significado que, reafirme-se, não é(era) um mero detalhe. Mas também, como visto, outras divergências foram encontradas: sobre a data de fundação da Ordem, sobre a quantidade e a identificação dos seus fundadores, sobre a data do Concílio de Troyes, etc.;
  4. a produção intelectual maçónica brasileira, sobretudo a que é lida e consultada pelos maçons, conforme já demonstrado em outros estudos, é acentuadamente marcada por um traço: os autores são maçons que escrevem para maçons a partir da consulta a livros escritos por outros maçons, o que resulta em forte endogenia – mais do mesmo, retroalimentação positiva, poucos questionamentos e ausência de abordagens inovadoras. A expansão da pesquisa bibliográfica (incluindo K. Ralls, A. Brum, Chrétien de Troyes, Wolfram von Eschenbach, Dante Alighieri, entre outros) para além do campo da Maçonaria trouxe à evidência um vasto domínio a ser explorado, em complemento aos Rituais, como é o caso da literatura relativa aos Contos Arthurianos e à Lenda do Graal, em especial quando o olhar é dirigido desde a perspectiva do RER;
  5. um debate muito frequente na Maçonaria opõe os defensores da Tradição aos Inovadores. Ora, o estudo também mostrou que nenhuma das instituições partícipes, nem a Ordem de Cister, nem a Ordem do Templo, nem as Cruzadas, tampouco a ICAR, restou incólume aos desígnios de Cronos. Considerando que várias instituições deste estudo foram submetidas à influência religiosa que, por sua vez, tem a âncora lançada nas Escrituras, basta a leitura destas para perceber o quanto, ao longo do tempo, noções como família, justiça, património, usos e costumes em geral sofreram alterações substantivas. Embora a Tradição seja um elemento ímpar, singular, não é o único e tampouco está imune ao tempo. O dilema do Navio de Teseu sempre estará presente e do seu enfrentamento não é possível se evadir. O que pensar acerca da Maçonaria? E ainda: os “templários institucionais” constituiriam um modelo passível de ser adoptado como símbolo na pós-Modernidade?
  6. e, por fim, a História, quando vista criticamente, sem o olhar cego da paixão que orgulha e embevece a alma (ou o ego?), quando não beira a ideologia, proporciona valiosas lições:
    • primeiro, como atesta Cline (2023, p. 85), “[…] parece que a política, o comércio e a diplomacia de 3500 anos atrás, sobretudo durante o século XIV a.C., não eram tão diferentes das que são praticadas hoje, repletas de embargos económicos, embaixadas, presentes e jogos de poder nos níveis diplomáticos mais elevados”. O que significa dizer, em outros termos, que o estudo do passado pode trazer valiosos subsídios para entender e agir no presente;
    • segundo, permite identificar as “ortodoxias autoproclamadas” (Chevitarese, 2024) e as “tradições inventadas” (Hobsbawm, 1997) que, se excluídas da análise crítica, tendem a ser institucionalizadas como produtos (por vezes apresentados como verdades) naturais e inerentes ao curso da trajectória da humanidade, como se não pudessem estar a serviço de interesses profanos e seculares específicos que, não raro, se pretendem fazer escamoteados. Penso que todo produto-processo sócio-histórico, o que inclui os mitos, as lendas, as instituições (de toda natureza), bem como as próprias estruturas organizacionais devem ser iluminadas pela luz solar para que as circunstâncias e os interesses de todas as partes sejam plenamente identificados e submetidos ao escrutínio; e, finalmente,
    • nunca é demais relembrar, para jamais esquecer (!), H. Arendt (1989, p. 526):

O súbdito ideal do governo autoritário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o facto e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).

Este Ensaio, intencionalmente, foi organizado na forma de pesquisa, tendo ilustrado o passo a passo, informado as fontes consultadas, o raciocínio, a lógica subjacente e as conclusões; assim, os que desejarem poderão corroborar, contestar ou ampliá-lo, por exemplo, trazendo à análise um terceiro Rito e/ou actualizações bibliográficas que levem à reconsideração do assunto. Um tema-personagem que está à espera de um estudo crítico e, por certo, dos desdobramentos no seio da Ordem é o Rei Salomão.

Finalmente, ciente de que “ninguém chega a lugar nenhum sozinho”, não hesitei em solicitar a colaboração de várias pessoas; assim, não poderia concluir esta Série sem renovar o meu agradecimento a todos os que se dispuseram a ler e opinar, conforme as suas disponibilidades e a evolução dos textos: Lucas V. Dutra, José Filardo, Michael Winetzki, Miguel Nüske e João Anatalino Rodrigues. A todos, o meu reconhecimento pelos aconselhamentos, pela crítica respeitosa e estimulante, pelo apoio desinteressado, em suma, pelo exemplo de conduta; eu os reconheço como Irmãos.

Ivan A. Pinheiro

M. M., Pesquisador Independente, e-mail: [email protected]. Porto Alegre-RS, 07.06.26. O autor não só agradece a leitura e as considerações do Irmão Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP – psicólogo, professor doutor em psicologia, especializado em maçonologia (UNINTER), e-mail: [email protected], como também reafirma a responsabilidade pelos erros e omissões remanescentes.

Notas

[1] Vide, por exemplo, entre tantos: https://bibliot3ca.com/o-cavaleiro-de-ramsay/. Acesso em: 30.04.26.

[2] Símbolo histórico e mundial da paz também adoptado pelo cristianismo.

[3] Circunstância que pode ser mitigada com a consulta aos ensaios anteriores da Série

[4] Para alguns, conforme visto em Pinheiro (2026a, b), desde 1187 – Batalha de Hattin.

[5] A exemplo do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, o gnosticismo também não foi um movimento monolítico e uniforme; havia diversas Escolas de Pensamento, cada qual com as suas peculiaridades e seguidores, algumas bem regionalizadas, mas quase todas com a pretensão de estender as suas crenças às demais comunidades.

[6] O texto é longo, foi devidamente referenciado e sugere-se a sua leitura na íntegra

[7] Este é um tema que, devido ao volume e à profundidade das questões que exigem enfrentamento, demanda um trabalho à parte e exclusivo.

[8] O Tratado contém os fundamentos doutrinários da Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohen do Universo; trata-se de um midrash, isto é, uma exegese bíblica e pessoal do autor, ao contrário, por exemplo, da construção doutrinária do RER que, embora liderada e coordenada por Willermoz, contou com a colaboração, sobretudo, dos participantes dos 2 (dois) grandes Conventos fundacionais – em Lyon (França, 1778) e em Wilhelmsbad (Alemanha, 1782). Ademais, a exemplo do já citado “Perceval” (Troyes 2002), o Tratado também é uma obra incompleta, o que, à semelhança, alimentou especulações sobre a continuidade, a “verdadeira” mensagem que carrega, etc.

[9] O livro não apresenta ficha catalográfica nem qualquer outra informação que permita referenciá-lo em conformidade com as normas técnicas aplicáveis; assim, a data é a que consta no site da Amazon.

[10] O livro não apresenta ficha catalográfica nem qualquer outra informação que permita referenciá-lo em conformidade com as normas técnicas aplicáveis; assim, a data é a que consta no site da Amazon.

[11] Aplica-se, aqui, o mesmo teor da nota imediatamente anterior.

[12] O livro não apresenta ficha catalográfica nem qualquer outra informação que permita referenciá-lo em conformidade com as normas técnicas aplicáveis; assim, esta referência comporta 2 (duas) datas: o texto do autor, parte integrante da compilação, data de 1782; já o ano da publicação da compilação (livro) é 2023, conforme o site da Amazon: https://www.amazon.com.br/. Acesso: 10.05.26.

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