A Quinta-feira de Endoenças no século XVII

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Mapa antigo do Funchal, endoenças
Mapa antigo do Funchal

Quinta-feira de Endoenças – assim era antigamente denominada a quinta-feira da Semana Santa ou da Paixão, também conhecida por Quinta-feira Maior, primeiro dia do Tríduo Pascal e celebração assinalada do calendário católico em memória da Última Ceia. A palavra endoenças, de raiz latina, pretende, neste contexto, significar um dia de bondade, moderação ou complacência. Nos séculos XVII e XVIII, a Misericórdia do Funchal organizou, nesta cidade, a famosa Procissão das Endoenças. Pelo compromisso da Irmandade funchalense, aprovado por Filipe IV em 22 de Março de 1631, ficamos a conhecer os seus objectivos, composição e organização.

Pretendia-se, em primeiro lugar, a realização de um acto de penitência e de visita a algumas igrejas e sepulcros, onde se procedia à adoração do Santíssimo Sacramento. Constituía obrigação estatutária dos irmãos a presença nesta procissão, que saía da Capela da Misericórdia pelas quatro horas da tarde da Quinta-feira de Endoenças e prolongava-se até à noite. Afirmava-se ainda que esta procissão poderia contribuir para a conversão dos estrangeiros não católicos que se encontravam no Funchal.

A procissão abria com a bandeira da Irmandade, rodeada de seis tocheiros e quatro lanternas, um homem vestido de azul tocando a tabuleta e dois clérigos cantando a ladainha. Seguiam-se as onze bandeiras das insígnias, ladeadas por tocheiros. Atrás da última bandeira, ia a imagem de Cristo em tamanho natural, debaixo de um pálio de oito varas e de veludo negro, acompanhada de vinte e quatro tochas, igual número de lanternas e a mesma quantidade de tocheiros, capelães e demais padres. Logo depois figurava o provedor da Misericórdia, homem nobre e de prestígio no concelho. Entre a primeira e a última bandeira, em filas laterais, colocavam-se todos quantos pretendiam integrar o cortejo, fornecendo-lhes a Irmandade a respectiva cera. Os irmãos sem tarefas especiais na procissão, deviam também participar com as suas vestes e círios, mas sem se misturarem com os demais.

A Misericórdia providenciava ainda alguns mantimentos e vinho para os penitentes, distribuídos durante a procissão. Pela cidade, fazia também acender alguns fogaréus a fim de iluminar o longo trajecto do cortejo processional, que constituía momento grande dos rituais da Paixão, no Funchal.

Na Quinta-feira de Endoenças, levantavam-se, em quase todas as igrejas,  armações ou tabernáculos nos altares secundários ou capelas laterais, para deposição do Santíssimo Sacramento e, por vezes, recriação do cenário da Última Ceia. Improvisavam-se igualmente sepulcros. Para a Sé do Funchal foi construído, nos meados do século XVII, por iniciativa da Confraria do Santíssimo Sacramento, um artístico camarim com uma Ceia do Senhor da autoria do imaginário Manuel Pereira, hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal.

Na visitação de 1638 à freguesia de Ponta Delgada, o cónego Francisco de Aguiar recomendou que a adoração do Santíssimo se fizesse sem conversas nem outras perturbações, e que os fiéis não dormissem “debaixo do sepulcro”. De facto, já na quinta-feira se armava o “santo sepulcro”, onde, no dia seguinte, depois da adoração da Cruz, seria depositado o crucifixo ou o corpo retirado da cruz, envolto num lençol branco. Estas encenações, bem como as respeitantes à Ressurreição, constituíam os denominados “Mistérios” da Páscoa.

De registar, por fim, as flagelações com açoites que ocorriam no interior de algumas igrejas madeirenses, durante as cerimónias litúrgicas da Quinta-feira de Endoenças.

Na freguesia de Ponta Delgada, o visitador proibiu, em finais de Julho de 1631, que os disciplinantes se açoitassem na zona do templo reservada às mulheres, pois o sangue atingia-as. Poderiam, no entanto, fazê-lo “abaixo delas”, desde que não virassem as costas ao altar.

Sem o aparato e a solenidade de outrora, as procissões da Quinta e Sexta-feira da Paixão, os camarins e a tradição da adoração continuam nos nossos dias. Contudo, o rito dos açoitamentos, muito comum no século XVII, (felizmente) desapareceu por completo na nossa ilha, apesar de se verificar ainda nalguns países fora do continente europeu, em especial nas Filipinas.

Nelson Veríssimo – in Diário de Notícias. Funchal (28 de Março 1999)

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