Os jazigos com inesperada simbologia maçónica no Cemitério dos Prazeres

Partilhe este Artigo:

cemitério dos prazeres

Prólogo: da memória e dos nomes

Mors omnia solvit”, poderia ser a máxima afirmação da humildade perante a morte. Nada a fazer, tudo culminado. Contudo, o que a história humana nos mostra é o oposto, é a necessidade de na morte gritar bem alto a ligação que se quer manter ao mundo dos vivos. Talvez por isso construamos monumentos fúnebres, espaços de memoria que nos ligam aos que partiram, mas que os ligam, também a eles, aos que ainda não partiram.

Por oposição, a “desmemorização” sempre foi, ao longo dos séculos, uma das ferramentas mais eficazes para retirar do convívio com os vivos alguém que ganhou uma dimensão nefasta. A “damnatio memoriae” era uma prática de destruição de uma realidade existente, a memória, mediante o apagar do nome e de tudo o que trouxesse para o mundo dos vivos qualquer essência de um falecido.

O nome, através do que ele representa, assume as suas principais formas na memória e culto aos mortos. Dizer um nome é inscrevê-lo na permanência, ou não, sobre a terra. Já no Antigo Egipto criavam-se as condições para que o nome de um defunto fosse recitado, condição da sua sobrevivência “post mortem”. A recitação de um nome, a contemplação de uma figura, é como que um ato de recriação, de eterno memorizar do morto, de eterno esforço no sentido de manter o morto memorado. É a palavra e a imagem na sua forma mais que propiciatória, sustentadora da ordem e do que se quer manter.

Na Roma Antiga, consignou-se uma fórmula que se tornou comum nas lápides:

T. R. P. D. S. T. T. L. – Siglas para: “te rogo praeteriens dicas sit tibi terra levis”

Tradução: Imploro, a ti que passas, que digas “a terra te seja leve!”

A simbologia maçónica no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa

Fundado na época de arranque do Liberalismo em Portugal, o Cemitério dos Prazeres é hoje um espaço de riquíssima memória do Portugal de oitocentos e da primeira metade de novecentos. Servindo as zonas de Lisboa que se desenvolveram nessa época, Campo de Ourique e Lapa, entre outras, a qualidade dos seus monumentos mostra que era ali que eram depositados os corpos de boa parte da elite lisboeta.

Muito encontramos neste cemitério de orgulho, de demonstração de poder e de riqueza. No mundo maçónico talvez fosse de esperar uma realidade diferente, mas não. Se a ideia de Oriente Eterno nos remete para a plena união, sem tempo nem espaço, de todos, numa Fraternidade pura e eterna, a prática do uso da simbólica maçónica mostra muito orgulho, muita riqueza e até algum uso completamente despropositado em túmulos de quem nem sabia o que era a Maçonaria, em verdadeiro aproveitamento político do mais desprovido sentido.

Com clara simbologia maçónica, encontramos oitenta e três túmulos, que neste momento estão a ser levantados e catalogados por uma equipa da Un. Lusófona, no seguimento da Pós-Graduação em Estudos Maçónicos.

Os jazigos dissimulados do Estado Novo

Para lá dos jazigos com típica decoração maçónica, encontramos no Cemitério dos Prazeres um grupo muito interessante de jazigos com datação das décadas de trinta a cinquenta, durante o período em que ser maçon poderia ter graves implicações.

Este grupo de jazigos apresenta um design muito tipificado, em que a maioria dos exemplares desses modelos não tem nenhuma simbologia. Contudo, um grupo deles integra alguns elementos simbólicos, especialmente formas triangulas e solares que nos fizeram olhar com melhor cuidado: seria simples gosto geometrizante em jeito “art déco”? ou algo mais?

O olhar mais cuidado, especialmente em horas de luz rasante, revelou que, alguns deles, dissimuladamente, complementavam essas formas geométricas com um tapete axadrezado que apenas se consegue ver com muita atenção. Esse tapete está quase sempre associado a um “mar primordial”, ao Caos.

Sentidos, para além de uma identidade que se encontra quase escondida? Logicamente, temos que pensar quase numa cosmologia: um Caos em cima do qual nos movemos, entre a Luz e as Trevas. Ou seria apenas a forma mais eficaz de, no calcário, transmitir uma mensagem a quem dominava os códigos?

O estudo deste grupo de jazigos decorre e o Cemitério dos Prazeres ainda nos trará mais surpresas.

Paulo Mendes Pinto

Fonte

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

1 thought on “Os jazigos com inesperada simbologia maçónica no Cemitério dos Prazeres”

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top