Antes de iniciar esta peça de arquitectura, já caberia, à luz (ou à “escuridão”) dessa “síndrome” da Vaidade Reversa, pré-rotular que esse intento, no mínimo, deve ser uma mera “vaidade”!…
Evoluir?, crescer na vida profana?, ascender na vida maçónica? Para que isso? Para que ou por que ter desideratos, sobretudo maçónicos?
Pode ser um questionamento alienado, despropositado, desatinado, mas faz todo o sentido, frente à síndrome da Vaidade Reversa do “– Isso é vaidade!”.
Mas, afinal, preliminarmente, o que é vaidade?
A vaidade faz parte da cultura da humanidade e vem sendo estudada e abordada ao longo dos anos e segundo diferentes perspectivas (Netemeyer et al., 1995). É um tema universal, presente do mito de Narciso e passando pelos pecados capitais da igreja católica. Normalmente é compreendida como uma visão exagerada de si próprio, uma afirmação de poder e beleza.
Segundo o dicionário Priberam [1], vaidade significa:
“vaidade | s. f. – (latim vanitas, -atis)
- Qualidade do que é vão, inútil, sem solidez nem duração. = VANIDADE
- Fatuidade; ostentação.
- Sentimento de grande valorização que alguém tem em relação a si próprio. = VANGLÓRIA
- ”
À Luz das SS. EE., no Antigo Testamento (hebraico), “vaidade” vem de duas palavras, hebel (aparece 71 vezes) e shaw’ (aparece 52 vezes). O significado básico de hebel é “vento“, “oco“, “sem sentido“. Quanto à palavra Shaw’, é inquestionável que o sentido básico é o de “vacuidade“.
Segundo o dicionário Internacional de teologia do Antigo Testamento, “O vocábulo designa tudo aquilo que é impalpável, irreal e sem valor, quer na esfera material quer na moral. No novo Testamento (grego), mátaios é o termo que designa “vaidade“. Ela e os seus cognatos aparecem cerca de 14 vezes. Também significa “vazio, inútil, fútil, sem valor, incapaz” e não se refere a nenhuma proibição quanto ao uso de jóias, roupas ou ornamentos.” [2].
Exemplificativamente, quem não viu ou ouviu, quando após a exultante e cândida narração de um Irmão, ou por ter concluído um nobre feito, com Fé, Esperança e Caridade; ou, ainda, quando do ter galgado, com os seus dedicados trabalhos e estudos algum Degrau na Escada de Jacob, ou mesmo, quando da realização de uma viagem a outro Oriente distante, a trabalho maçónico, que, ao findo da sua narrativa, ouve-se um redarguir de superficial análise, resultante da “Síndrome” de uma “Vaidade Reversa”, bem audível e em bom tom, deparando-se-nos com um: “– Isso é vaidade!”? Não incomum é ouvir soar aos tímpanos a expressão “– Isso é vaidade!”, em resposta ou desabafo para qualquer gesto, acção ou atitude maçónica quando se almeja a qualquer “Escalada ao Monte Hérmon”…
Esta visão míope e equivocada do conceito de vaidade, nasce, ou dos descontentamentos pessoal e/ou grupal, ou da enorme confusão de conceitos e definições do que seja, efectivamente, humildade maçónica e o que seja, meramente, vã vaidade. Esta síndrome, que denomino de “Vaidade Reversa”, engendra-se da ignorância nos erróneos conceitos assimilados entre ‘humildade’ x ‘busca pelo conhecimento, Luz’ x ignorância, ou, do conceito de ‘humildade’ x ‘prosperidade honesta e saudável, ‘prospectividade maçónica’ (seja ela material, intelectual ou espiritual) x Comodismo ou estagnação cognitiva. Humildade Maçónica é a virtuosa capacidade de reconhecer os próprios erros, defeitos ou limitações; é ser compreensivo diante de todos; é ter sempre a disposição em servir e trabalhar a sua pedra bruta; é trabalhar por uma evolução para si e para todos; é buscar a sua evolução espiritual e ter a resignação em sempre evoluir fraternalmente, aqui e até ao Oriente Eterno; é valorizar fraternalmente o outro e a sua construção, o seu desbaste das arestas grosseiras da Pedra Bruta.
As salutares humildade, prosperidade, evolução, são Bens Virtuosos e nobilíssimos, são galardões que o GADU nos enriquece o espírito humano. Rápida e inevitavelmente, suscita-se-nos, antes logo do término desse grão de cantaria, uma indagação diante de tal problema: o que, então, nessa suposição de particular ausência de evolução e perene inércia e diante dessa Síndrome da Vaidade Reversa, não seria considerado “vaidade”?, – O nada?, o pessoal e singular estado letárgico de quem não se lança a progredir ou ascender? o involucionismo?. Ou, temerariamente, talvez a fidelidade a essa síndrome também não se tornasse, posteriormente, uma inevitável e fatal “vaidade” aos seus empedernidos sectários nessa “síndrome da Vaidade Reversa”?
Segundo Kahlil (2000), citado por Carina Maria Rocha Coutinho, na sua dissertação de mestrado em Estudo Exploratório das Relações entre a Vaidade, a Auto-Estima Contextual, a Satisfação com a Vida, as Atitudes Monetárias e o Materialismo numa Amostra Portuguesa, “a vaidade não nasce somente a partir da percepção dos outros sobre as qualidades de alguém, mas também da comparação do próprio desempenho com o dos outros” e isso se constitui uma fundamental observação psicológica para análise e compreensão da “Síndrome da Vaidade Reversa” aqui explanada, posto que a vaidade de não ter vaidade e desconsiderar as virtudes alcançadas por outros Irmãos seria a maior de todas as vaidades para o “vaidoso reverso” e, nesse sentido, uma Vaidade Reversa…
A resposta final que bem caracteriza essa “síndrome” sempre será externada directa ou indirectamente, não por uma satisfação íntima; um efusivo “parabéns!”; um feliz reconhecimento, ou o esboçar num sincero semblante a um Irmão que virtuosamente fez um Bem, mas, externado pelo famigerado “– Isso é vaidade!” a qualquer empresa que signifique ascensão e, a galope dessa hipótese, essa resposta pode muito bem, exemplificativamente, acomodar-se em plácido descanso, como a resposta rasteira e derradeira a tudo que significar prospectivo, tendo como redarguição final a expressão: “– Isso é vaidade!”, reprovando-se a evolução, o sucesso meritoso, a franca aprendizagem, as ascensões material, espiritual, cognitiva e/ou maçónicas de um Irmão.
Imaginemos, pois, logo após alguns temas ou perguntas, à guisa simplesmente de ilustração, o que essa síndrome poderia englobar, com tal cliché (- Isso é vaidade!), sendo dada como resposta e levando-se em consideração a óptica enviesada dessa síndrome da Vaidade Reversa:
- Pretender ser Maçom?; (“- Isso é vaidade!”).Pra quê?
- Ser aceito Maçom pela Sublime Ordem?; (“- Isso é vaidade!”).
- Escrever peças de arquitectura, pesquisar, aprender?; (“- Isso é vaidade!”). Imagine-se o Irmão José Castellani…
- Escrever um livro?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ser Companheiro Maçom?; (“- Isso é vaidade!”). Já não é Maçom? Para que pretender galgar aumento de salário?
- Ser Mestre Maçom?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ter algum Grau Colateral ou Superior e aprender mais sobre o Rito professado?; (“- Isso é vaidade!”). Muito embora o seu Rito possa ter 33 graus.
- Atingir Grau 33?; (“- Isso é vaidade!”).
- Aprender sobre outros Ritos?; (“- Isso é vaidade!”).
- Visitar Lojas regulares?; (“- Isso é vaidade!”).
- Guardar sigilo e ser discreto, circunspecto?; (“- Isso é vaidade!”).
- Pertencer e colaborar com a sua Loja ou com mais de uma Oficina?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ser adimplente?; (“- Isso é vaidade!”).
- Fazer doações e colaborar efectivamente com obras sociais?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ajudar a sua Loja financeiramente?; (“- Isso é vaidade!”).
- Socorrer um Irmão?; (“- Isso é vaidade!”).
- Socorrer um profano?; (“- Isso é vaidade!”).
- Assumir os encargos de um cargo em Loja?; (“- Isso é vaidade!”).
- Exercer ou exercitar os seus direitos como Maçom?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ser fundador de uma Loja Maçónica?; (“- Isso é vaidade!”).
- Candidatar-se a algum cargo em Loja e/ou ser eleito Venerável Mestre dea sua Loja?; (“- Isso é vaidade!”).
- Pretender ser eleito Grão-Mestre Estadual? Grão-Mestre Geral? Aceitar convite para algum Secretariado ou qualquer cargo e colaborar com a sua Ordem Maçónica?; (“- Isso é vaidade!”). Absurdamente vaidade!
- Desempenhar excelentemente bem as suas obrigações maçónicas?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ser plenamente frequente e assíduo na sua Loja?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ser recompensado legalmente pelos seus feitos maçónicos mediante Código de Recompensas da sua Ordem?; (“- Isso é vaidade!”).
- Quando do atingir qualquer grau ou conhecimento e, consequentemente, receber o seu diploma e/ou medalha que simbolize ou represente o seu mérito e comunicar o seu mérito ou apor insígnia no seu paletó?; (“- Isso é vaidade!”).
- Ser afável e bem-quisto por todos os Irmãos?; (“- Isso é vaidade!”).
- Morrer cedo ou morrer velho demais?; (“- Isso é vaidade!”).
- Todos esses temas exemplificados e tantos mais?; (“- Isso é vaidade!”). Foi muita presunção…
- Negativas a todos esses pontos elencados?; (“- Isso é vaidade!”).
- Negativa das antíteses? (“- Isso é vaidade!”).
O cumprimento do dever, a evolução do Maçom e o reconhecimento dos seus méritos são previstos na nossa Lei Magna Maçónica, na nossa Constituição Maçónica do GOB, e somente à guisa de ilustração, à luz da Lei Maior da minha Ordem Maçónica, no seu Art. 1°, Incisos II, XII e XIV asseveram que:
“Art. 1° – A Maçonaria é uma instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica, progressista e evolucionista, cujos fins supremos são: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Parágrafo único. Além de buscar atingir esses fins, a Maçonaria:
II – pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade; (grifo nosso).
XII – condena a exploração do homem, os privilégios e as regalias, enaltecendo, porém, o mérito da inteligência e da virtude, bem como o valor demonstrado na prestação de serviços à Ordem, à Pátria e à Humanidade”. (grifo nosso).
XIV – combate a ignorância, a superstição e a tirania. (grifo nosso).
Seriam vaidades as letras da nossa Constituição? Assim como, da mesma forma, seriam “vazios”, inócuos, os significados sobre ascensão, reconhecimento e evolução dos maçons, presentes em várias constituições, decretos, regulamentos e regimentos maçónicos?
Sabemos nós que diante da transitoriedade da vida humana na terra e a sua pequenez natureza, frente à magnitude transcendental e divina do GADU., é inegável e irrefragável que tudo é passageiro, efémero, fugaz, portanto, nesse sentido, tudo é vaidade, nada mais que vaidade, pois a vida é efémera e o Oriente Eterno, certamente morada futura de todos nós, aguarda-nos serenamente… . Entretanto, distorcer essa máxima bíblica de Salomão, situada no Livro de Eclesiastes, ou qualquer Outra Passagem Bíblica ou em qualquer outro Livro da Lei a sabor próprio a fim de justificar a sua própria Vaidade Reversa, e não reconhecer, não motivar, não estimular, não valorizar, não ajudar a um Irmão a ascender na Escada de Jacó (evoluir), por considerar esse nobre intento como ser vaidade vã, é, no mínimo, estagnação, ignorância, falta de Luz, falta de fraternidade e uma profunda Vaidade Reversa.
Deixamos, por findo, as máximas de São Francisco de Assis; de Fernando Pessoa e Adam Smith a todos os Irmãos: “Compreender que ser compreendido” (Fco. de Assis); “Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual.” (Fernando Pessoa).e, “O grande segredo da educação consiste em orientar a vaidade para os objectivos certos.” (Adam Smith).
Alexandre L. Fortes – M.I. Gr. 33° – CIM 285.969 – ARLS Ir. Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI
Notas
[1] Fonte: https://www.priberam.pt/dlpo/
[2] Fonte: http://l2008jk.blogspot.com.br/2010/08/o-significado-da-palavra-vaidade-na.html).
Referências
- BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de Frei João Pedreira de Castro, O.F.F. São Paulo: “Ave Maria”, 1988. Edição Claretiana.
- Constituição Maçónica do GOB. 2013.
- COUTINHO, Carinha Maria Rocha. Estudo Exploratório das Relações entre a Vaidade, a Auto-Estima Contextual, a Satisfação com a Vida, as Atitudes Monetárias e o Materialismo numa Amostra Portuguesa. Universidade do Algarve. 2015.
- HARRIS, R. Land; ARCHER Jr., Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Ed. Vida Nova. 2018.
- https://www.bibliacatolica.com.br/
- https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjui92P07fbAhXEDZAKHaFwDw8QFggvMAE&url=https%3A%2F%2Fsapientia.ualg.pt%2Fbitstream%2F10400.1%2F7810%2F1%2FTese%2520FINAL.pdf&usg=AOvVaw0-86EsdU69XD8V61PwyE0r
- NETEMEYER, R. ; BURTON, S.; LICHTENSTEIN, D. R. Trait Aspects of Vanity: Measurement and Relevance to Consumer Behavior. Journal of Consumer Research, Gainesville, v. 21, n. 4, p. 612-626, Mar. 1995.

- A Quinta-feira de Endoenças no século XVII
- O Mestre e a luta contra a Vaidade
- O Templo e o Homem
- A Justiça do Cavaleiro Eleito dos Nove
- O cinco na Maçonaria


Prezados Irmãos
Que maravilha esses artigos!
Tenho aprendido muito mas muito mesmo com os Irmãos.
Obrigado de coração !
SFU!!!