O conceito de solidariedade tem diferentes dimensões e expressa igualmente diferentes concepções na forma como nos relacionamos uns com os outros em sociedade. A relação entre os homens é passível de caracterizar-se pelo conflito, como de um modo geral é assumido pelos analistas de cariz marxista. Mas as relações sociais podem ser também o inverso, perspectivadas pela cooperação entre duas ou mais pessoas.
Quando nas relações sociais impera a cooperação significa que a interacção das pessoas assenta numa base de interdependência. Ora, é esta interdependência que, segundo o sociólogo francês Emile Durkheim, se apresenta em duas modalidades do mesmo conceito: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica.
O que se pode entender por solidariedade? Esta diz respeito ao grau de coesão social pelo qual se caracteriza cada sociedade. E em que assenta a coesão social? Na força dos laços psico-afectivos que imperam nas relações entre os indivíduos e lhes dão sustentação.
Para além das motivações individuais que levam os sujeitos a praticar acções e actos de benevolência, de caridade ou de mecenato, entre outros, e das formas institucionais como a solidariedade é expressa, o que importa salientar nesta análise é o espírito geral que caracteriza cada sociedade ou comunidade em termos de coesão social. Desta forma, as sociedades de solidariedade mecânica distinguem-se idealmente das sociedades de solidariedade orgânica porque, na sua génese, estrutura e desenvolvimento, cada tipo de solidariedade corresponde a um tipo específico de sociedade. Onde residem então as diferenças entre ambas as solidariedades?
Pode dizer-se que a solidariedade mecânica corresponde às sociedades primitivas, tribais, rurais ou do interior, onde as relações humanas e sociais se caracterizam pelo encontro face-a-face, onde há uma partilha de valores e de crenças que aproximam as pessoas física e comunitariamente. Neste tipo de sociedades as pessoas sentem-se próximas umas das outras pelas semelhanças entre si, ao nível do pensar, sentir e agir. Se necessário há entreajuda, numa sociedade onde o conhecimento do outro faz os indivíduos sentirem-se próximos, ou mesmo familiares entre si.
Por sua vez, a solidariedade orgânica corresponde às sociedades modernas, complexas, do ponto de vista da diferenciação funcional. Nestas sociedades, ainda que perto fisicamente uns dos outros, os sujeitos não partilham dos mesmos valores e crenças, não há entreajuda, nem relações face-a-face. As pessoas caracterizam-se pelas diferenças entre si e pelo atomismo social, vivendo lado a lado, mas mal se conhecendo e por vezes evitando o convívio ou mesmo a saudação diária.
Estamos aqui perante sociedades que se caracterizam pelo individualismo, fruto das sociedades de massa, ou seja: sociedades amorfas do ponto de vista relacional, sem consistência que lhe dê forma.
Nas sociedades de solidariedade mecânica os sujeitos são dominados pela consciência colectiva, bem ao contrário das sociedades de solidariedade orgânica onde impera a consciência individual. Se nas primeiras os indivíduos têm de obedecer ao peso das normas e das regras colectivas de uma vigilância bem próxima dos seus comportamentos e atitudes, já nas segundas o indivíduo é protagonista do seu próprio destino.
Contudo, quanto mais complexa é uma sociedade, pela diferenciação funcional das suas actividades, e pela liberdade de acção dos seus membros, mais intensa e extensa é a necessidade de ligação entre as instituições que materializam as respostas a dar por parte dos organismos que actuam sob a tutela do Estado, para que, desta forma, a sociedade global possa responder às necessidades básicas dos cidadãos. O contentamento ou descontentamento destes ver-se-á formalmente materializado na votação para os seus representantes no sistema de votação.
Na solidariedade mecânica as sociedades são simples, pela ausência de complexidade na diferenciação funcional da vida, ou seja, não há grande divisão social do trabalho, pautando-se os indivíduos pelas semelhanças entre si; nelas predomina a consciência colectiva sobre o individual, ao nível do controlo comportamental e dos mecanismos de coerção.
Já na solidariedade orgânica as sociedades são complexas devido à grande diferenciação funcional, quer dizer, a uma grande divisão social do trabalho, o que obriga a uma interdependência dos organismos entre si e destes com a sociedade mais vasta, caracterizando-se os indivíduos pelas diferenças entre si; nelas predomina a consciência individual como forma de expressão de liberdade e de autonomia pessoal, sendo que, apesar disso, os indivíduos revelam maior consciência social neste tipo de sociedades.
Embora nas sociedades orgânicas a coesão social seja fraca, uma vez que os laços psico-afectivos são também fracos, devido à predominância do individual sobre o colectivo, a verdade é que os sujeitos nestes contextos sociais têm maior consciência dos problemas que os afectam, devido à forte consciência social que têm, e por isso maior peso dão à importância das instituições na resolução dos seus problemas.
É por estas razões que na solidariedade orgânica se dá não só grande importância ao funcionamento das instituições, como às relações de interdependência entre elas para que, no seu conjunto, a sociedade possa encontrar formas ajustadas à sua manutenção e respostas adequadas às necessidades dos seus membros, não agora mediante relações de ajuda face-a-face, mas de relações de ajuda mediadas pelos diferentes organismos e instituições com funções distintas.
Onde pára neste cenário o voluntariado e as acções caritativas?
Do ponto de vista racional, e considerando que não vivemos em sociedades de solidariedade mecânica mas orgânica, cabe aos Estados assegurar as funções básicas dos cidadãos, com vista aos seu regular funcionamento, através dos impostos que lhes são cobrados para o efeito.
Mas do ponto de vista emocional este tipo de acções, independentemente de saber-se a quem cabe o seu desenvolvimento no terreno, é um imperativo de ordem moral para alguns, de ordem ética para outros, ajudar os mais desvalidos.
Caberá a cada um de nós decidir se a ajuda ao outro ocorre por força da influência de alguém, por imitação ou coerção da consciência colectiva, ou se, inversamente, pelo grau de consciência social que cada um de nós tem relativamente ao sofrimento dos outros.
J∴ M∴ V∴

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Boa tarde respeitáveis Irmãos:
Não sou psicólogo nem analista social, mas me parece que as definições de solidariedade mecânica e orgânica estão invertidas. Se não vejamos: Temos em nossa Loja um Irmão abastado monetariamente que se manifesta dando dinheiro aos menos favorecidos (acredito que isto seja uma solidariedade mecânica). Temos outro Irmão com situação financeira precária, que todos os finais de semana vai ajudar a servir viandas aos necessitados de rua (isto para mim é solidariedade orgânica).
Grande e fraterno abraço a todos.
“A Humanidade atual discursa para que se respeitem as diferenças: de classe, de cor, de sexo, de manifestação de gênero, de crença e outras tantas pautas. Todavia é a humanidade mais hipócrita da história, pois não respeita nem admite que se pense ou se manifeste diferente da maioria… todos devem pensar igual, caso contrário, será considerado um pária, um anarquista ou, como dizem na administração de empresas: Esse não vestiu a camiseta! O velho ditado popular “Maria vai com as outras”, nunca foi tão atual…
(Yamaoth)