Origens, Intuições e a Maturidade Prematura da Obra
Há quarenta e dois anos, quando o Mestre Maçom Adison do Amaral começou a delinear os rumos da APJ (Acção Paramaçónica Juvenil), poucas organizações juvenis compreendiam o alcance transformador do seu projecto. Naquele período, nem mesmo a Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis – AMORC, sonhava que 31 anos mais tarde construiria uma irmandade juvenil chamada Ordem Guias do Graal (OGG) — que hoje conta com apenas onze anos de existência — ainda não podia conceber a profundidade e a ousadia da proposta que emergia.
A OGG nasceu jovem, mas jamais foi imatura. O seu espírito, mesmo no seu primeiro decénio, carregava uma composição simbólica e filosófica sólida motivada pelas narrativas cavaleirescas de Chrétien de Troyes. Como antecessora, a Acção Paramaçónica Juvenil manteve impressa na sua composição, de forma mais directa, aquilo que tanto os valores maçónicos, quanto o conhecimento do experiente mestre Adison do Amaral considerava a essência da formação humana.
Ele afirmou:
“A verdadeira elevação começa pela liberdade interior“
Esta frase, aparentemente simples, tornou-se o eixo sobre o qual toda a pedagogia da Acção Paramaçónica Juvenil giraria. Não se tratava de mera retórica, mas de uma doutrina prática, profundamente enraizada nas tradições filosóficas ocidentais que valorizam a autonomia, a virtude e o autoconhecimento como fundamentos da dignidade humana.
Non Nobis e Res Non Verba: dois lemas, dois caminhos complementares
Enquanto a OGG adoptou o lema “Non Nobis”, sinalizando a humildade e a consagração do serviço a algo maior do que o próprio indivíduo, a Acção Paramaçónica Juvenil assumiu a expressão “RES NON VERBA” — literalmente, *“Factos, não palavras.”*
Se a OGG acentua o espírito devocional, a Acção Paramaçónica Juvenil acentua o espírito operativo.
Por um lado, enquanto a OGG remete ao sacrifício interior e se atém a olhar para o sagrado , a Acção Paramaçónica Juvenil remete à ética exterior e direcciona o olhar para o quotidiano.
Este duplo movimento é complementar, mas é na Acção Paramaçónica Juvenil que se encontra o chamado radical ao “agir”. A filosofia de Adison do Amaral é clara:
- não basta compreender o caminho; é preciso “vivê-lo”, dia após dia, no mundo concreto.
Por isso, a Acção Paramaçónica Juvenil se distingue da maior parte das fraternidades juvenis. A maioria oferece discursos inspiradores, rituais bem estruturados, ou ambientes de camaradagem. A APJ oferece tudo isso — mas exige mais: exige “coerência”, exige “protagonismo”, exige “responsabilidade pessoal”.
A filosofia da APJ: a formação do carácter pela liberdade
Filosoficamente, a Acção Paramaçónica Juvenil insere-se numa linhagem que remonta à Paidéia grega, à formação moral estóica, ao humanismo renascentista e à pedagogia cristã clássica.
O ideal não é apenas formar cidadãos úteis, mas “seres humanos plenos”, capazes de pensar por si, agir com discernimento e escolher o bem não por imposição, mas por convicção.
A verdadeira liberdade — aquela que Adison defendia — não é fazer o que se quer, mas “querer aquilo que é justo, bom e verdadeiro”.
Assim, a Acção Paramaçónica Juvenil não educa para o conformismo nem para a obediência cega; educa para a responsabilidade, para a consciência, para a maturidade ética.
É por isso que a sua pedagogia, embora moderna, possui raízes profundas no pensamento clássico: ela busca integrar liberdade e disciplina, razão e sensibilidade, autonomia e serviço.
O paralelo com São Francisco de Sales: a mansidão como força transformadora
Curiosamente, o espírito da APJ dialoga com a obra de “São Francisco de Sales”, iniciada em 1602. Sales foi um dos primeiros grandes educadores a compreender que a formação espiritual e moral não nasce da imposição, mas da mansidão — não da violência, mas da doçura firme; não do medo, mas da confiança.
Sales ensinava catecismo às crianças e aconselhava jovens e adultos com uma serenidade que revolucionou a forma de compreender a educação interior. Ele acreditava que cada pessoa era um jardim a ser cultivado, não um bloco de pedra a ser talhado.
As suas ideias ecoam na Acção Paramaçónica Juvenil de maneira profunda:
- a importância do cuidado pessoal,
- a pedagogia da proximidade,
- a defesa da delicadeza como instrumento de força moral,
- a convicção de que a liberdade é o centro da vida espiritual.
Nada mais distante de Sales do que a coerção. Nada mais próximo da APJ do que o cultivo do carácter pela persuasão, pelo exemplo e pelo esforço interior.
Dom Bosco e a consolidação de uma tradição educativa
As ideias de Sales não morreram com ele. No século XIX, “Dom Bosco” as retomou e deu a elas forma institucional. Em 18 de Dezembro de 1859, em Turim, fundou a “Congregação Salesiana”, cujo “Sistema Preventivo” se baseia em três pilares:
- “Razão”,
- “Religião”,
- “Amabilidade”.
Este sistema ecoa profundamente na APJ.
- A razão aparece na clareza moral e na responsabilidade;
- a religião se expressa aqui como espiritualidade, sentido e valores;
- a amabilidade surge como fraternidade, acolhimento e disciplina compassiva.
Dom Bosco não criou apenas uma organização religiosa; criou um método universal de formação humana. E a APJ, conscientemente ou não, caminha na mesma direcção: a direcção de uma educação que forma não apenas competências, mas “almas”.
A APJ entre as Fraternidades: o que a torna singular?
Ao observar o panorama das organizações ou fraternidades juvenis, percebe-se que cada uma possui as suas virtudes e contribuições. Contudo, a APJ destaca-se por qualidades específicas:
A clareza filosófica da sua missão
A APJ não existe para entreter jovens, mas para “despertá-los”.
A centralidade da liberdade interior
Enquanto outras organizações focam na disciplina exterior, a APJ foca no eixo interior: consciência, motivação e propósito.
O lema que exige coerência quotidiana
RES NON VERBA transforma a vida diária em campo de prova moral.
O equilíbrio entre fraternidade e responsabilidade
A APJ acolhe, mas não infantiliza; guia, mas não controla.
A herança espiritual que a une a Sales e Dom Bosco
A APJ é, no espírito, herdeira de uma tradição que valoriza:
- mansidão como força,
- doçura como método,
- liberdade como fundamento,
- acção como fruto.
A maturidade precoce da instituição
Como a própria OGG, que nasceu jovem sem jamais ser infantil, a APJ sempre demonstrou uma maturidade intelectual e ética rara entre fraternidades juvenis.
Conclusão: a Acção Paramaçónica Juvenil como caminho de vida
Ao unir filosofia clássica, espiritualidade cristã, inspiração salesiana e pedagogia da acção, a APJ oferece aos jovens não apenas um espaço de convivência, mas um “caminho de vida”.
Ela forma seres humanos capazes de agir com consciência, servir com humildade, crescer com liberdade e transformar com coragem.
Num mundo que fala demais e faz de menos, a APJ permanece fiel ao seu princípio:
“não palavras, mas acções”.
E isto — esta aliança entre ideal e prática — é a razão profunda pela qual a APJ se ergue como uma das mais coerentes e espiritualmente potentes organizações juvenis da sua época.
A APJ é sonoridade e fraternidade
Isto traz à mente a célebre frase da iniciada francesa Maria Deraismes, fundadora da primeira Loja mista que daria origem à Ordem Maçónica Mista Internacional Le Droit Humain (O Direito Humano):
“Um pensamento que exclui metade da humanidade não pode ser chamado de livre”
Esta declaração poderosa condensa a essência da APJ ao lutar pela igualdade e pela inclusão dentro e fora das estruturas para maçónicas. Deraismes — escritora, oradora e activista — desafiou as normas sociais, políticas e religiosas do seu tempo, abrindo caminhos para que homens e mulheres compartilhassem o mesmo espaço iniciático.
O seu legado, profundamente enraizado na tradição francesa, tem inspirado cada vez mais egrégoras a acolherem ambos os géneros nas suas reuniões. O resultado tem sido uma convivência harmoniosa, coerente com o mundo que nos cerca.
Dados recentes do IBGE mostram esta transformação na sociedade civil: no segundo trimestre de 2024, a participação feminina no mercado de trabalho brasileiro atingiu 48,1%. Quase metade da força produtiva do país — facto que reforça, de forma objectiva, que a inclusão não é apenas uma ideia justa, mas uma realidade inevitável.
Assim, quando afirmamos que a APJ é sonoridade e fraternidade por congregar jovens de ambos os sexos, dos 7 aos 21 anos, afirmamos também que ela ecoa este movimento histórico: integrar, harmonizar e reconhecer que a evolução se faz com todas as vozes — jamais com apenas metade delas.
Leonardo Redaelli – M. M. – CIM: 348202 – ARLS Progresso da Humanidade nº 3166 – GOB-RS – Oriente de Porto Alegre – RS
Bibliografia
- ADISON DO AMARAL; FELIPE FORMIGA DE HOLANDA. Manual da Acção Paramaçónica Juvenil (APJ) do Grande Oriente do Brasil (GOB). Brasília. 2023.
- Cerimonial de Admissão (Nível I – Lumen Probitatis) Acção Paramaçónica Juvenil do Grande Oriente do Brasil (APJ/GOB) – Brasília, 2024.

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E uma honra fazer parte dessa história.. TUDO PELA APJ TUDO PELA PÁTRIA
Eu estou emocionado.
Sempre quis ser das Fileiras do GOB mas não tive a oportunidade de ser APJ.
Tive a oportunidade de ser DeMolay e dei o meu melhor…
Obrigado a todos os maçons do GOB e a todos os apejôtistas!