A Acção Paramaçónica Juvenil e o caminho da formação da liberdade interior

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Acção Paramaçónica Juvenil

Origens, Intuições e a Maturidade Prematura da Obra

Há quarenta e dois anos, quando o Mestre Maçom Adison do Amaral começou a delinear os rumos da APJ (Acção Paramaçónica Juvenil), poucas organizações juvenis compreendiam o alcance transformador do seu projecto. Naquele período, nem mesmo a Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis – AMORC, sonhava que 31 anos mais tarde construiria uma irmandade juvenil chamada Ordem Guias do Graal (OGG) — que hoje conta com apenas onze anos de existência — ainda não podia conceber a profundidade e a ousadia da proposta que emergia.

Adison do Amaral
Paulo Aragão (fundador dos Núcleos Garibaldi 184 e Guardiões da Arca 166. Em ambos foi o 1⁰ Preceptor e responsável pela criação) presenteando uma comenda ao Mestre Adison do Amaral

A OGG nasceu jovem, mas jamais foi imatura. O seu espírito, mesmo no seu primeiro decénio, carregava uma composição simbólica e filosófica sólida motivada pelas narrativas cavaleirescas de Chrétien de Troyes. Como antecessora, a Acção Paramaçónica Juvenil manteve impressa na sua composição, de forma mais directa, aquilo que tanto os valores maçónicos, quanto o conhecimento do experiente mestre Adison do Amaral considerava a essência da formação humana.

Ele afirmou:

“A verdadeira elevação começa pela liberdade interior“

Esta frase, aparentemente simples, tornou-se o eixo sobre o qual toda a pedagogia da Acção Paramaçónica Juvenil giraria. Não se tratava de mera retórica, mas de uma doutrina prática, profundamente enraizada nas tradições filosóficas ocidentais que valorizam a autonomia, a virtude e o autoconhecimento como fundamentos da dignidade humana.

Non Nobis e Res Non Verba: dois lemas, dois caminhos complementares

Enquanto a OGG adoptou o lema “Non Nobis”, sinalizando a humildade e a consagração do serviço a algo maior do que o próprio indivíduo, a Acção Paramaçónica Juvenil assumiu a expressão “RES NON VERBA” — literalmente, *“Factos, não palavras.”*

Se a OGG acentua o espírito devocional, a Acção Paramaçónica Juvenil acentua o espírito operativo.

Por um lado, enquanto a OGG remete ao sacrifício interior e se atém a olhar para o sagrado , a Acção Paramaçónica Juvenil remete à ética exterior e direcciona o olhar para o quotidiano.

Este duplo movimento é complementar, mas é na Acção Paramaçónica Juvenil que se encontra o chamado radical ao “agir”. A filosofia de Adison do Amaral é clara:

  • não basta compreender o caminho; é preciso “vivê-lo”, dia após dia, no mundo concreto.

Por isso, a Acção Paramaçónica Juvenil se distingue da maior parte das fraternidades juvenis. A maioria oferece discursos inspiradores, rituais bem estruturados, ou ambientes de camaradagem. A APJ oferece tudo isso — mas exige mais: exige “coerência”, exige “protagonismo”, exige “responsabilidade pessoal”.

A filosofia da APJ: a formação do carácter pela liberdade

Filosoficamente, a Acção Paramaçónica Juvenil insere-se numa linhagem que remonta à Paidéia grega, à formação moral estóica, ao humanismo renascentista e à pedagogia cristã clássica.

O ideal não é apenas formar cidadãos úteis, mas “seres humanos plenos”, capazes de pensar por si, agir com discernimento e escolher o bem não por imposição, mas por convicção.

A verdadeira liberdade — aquela que Adison defendia — não é fazer o que se quer, mas “querer aquilo que é justo, bom e verdadeiro”.

Assim, a Acção Paramaçónica Juvenil não educa para o conformismo nem para a obediência cega; educa para a responsabilidade, para a consciência, para a maturidade ética.

É por isso que a sua pedagogia, embora moderna, possui raízes profundas no pensamento clássico: ela busca integrar liberdade e disciplina, razão e sensibilidade, autonomia e serviço.

O paralelo com São Francisco de Sales: a mansidão como força transformadora

Curiosamente, o espírito da APJ dialoga com a obra de “São Francisco de Sales”, iniciada em 1602. Sales foi um dos primeiros grandes educadores a compreender que a formação espiritual e moral não nasce da imposição, mas da mansidão — não da violência, mas da doçura firme; não do medo, mas da confiança.

Sales ensinava catecismo às crianças e aconselhava jovens e adultos com uma serenidade que revolucionou a forma de compreender a educação interior. Ele acreditava que cada pessoa era um jardim a ser cultivado, não um bloco de pedra a ser talhado.

As suas ideias ecoam na Acção Paramaçónica Juvenil de maneira profunda:

  • a importância do cuidado pessoal,
  • a pedagogia da proximidade,
  • a defesa da delicadeza como instrumento de força moral,
  • a convicção de que a liberdade é o centro da vida espiritual.

Nada mais distante de Sales do que a coerção. Nada mais próximo da APJ do que o cultivo do carácter pela persuasão, pelo exemplo e pelo esforço interior.

Dom Bosco e a consolidação de uma tradição educativa

As ideias de Sales não morreram com ele. No século XIX, “Dom Bosco” as retomou e deu a elas forma institucional. Em 18 de Dezembro de 1859, em Turim, fundou a “Congregação Salesiana”, cujo “Sistema Preventivo” se baseia em três pilares:

  • “Razão”,
  • “Religião”,
  • “Amabilidade”.

Este sistema ecoa profundamente na APJ.

  • A razão aparece na clareza moral e na responsabilidade;
  • a religião se expressa aqui como espiritualidade, sentido e valores;
  • a amabilidade surge como fraternidade, acolhimento e disciplina compassiva.

Dom Bosco não criou apenas uma organização religiosa; criou um método universal de formação humana. E a APJ, conscientemente ou não, caminha na mesma direcção: a direcção de uma educação que forma não apenas competências, mas “almas”.

A APJ entre as Fraternidades: o que a torna singular?

Ao observar o panorama das organizações ou fraternidades juvenis, percebe-se que cada uma possui as suas virtudes e contribuições. Contudo, a APJ destaca-se por qualidades específicas:

A clareza filosófica da sua missão

A APJ não existe para entreter jovens, mas para “despertá-los”.

A centralidade da liberdade interior

Enquanto outras organizações focam na disciplina exterior, a APJ foca no eixo interior: consciência, motivação e propósito.

O lema que exige coerência quotidiana

RES NON VERBA transforma a vida diária em campo de prova moral.

O equilíbrio entre fraternidade e responsabilidade

A APJ acolhe, mas não infantiliza; guia, mas não controla.

A herança espiritual que a une a Sales e Dom Bosco

A APJ é, no espírito, herdeira de uma tradição que valoriza:

  • mansidão como força,
  • doçura como método,
  • liberdade como fundamento,
  • acção como fruto.

A maturidade precoce da instituição

Como a própria OGG, que nasceu jovem sem jamais ser infantil, a APJ sempre demonstrou uma maturidade intelectual e ética rara entre fraternidades juvenis.

Conclusão: a Acção Paramaçónica Juvenil como caminho de vida

Ao unir filosofia clássica, espiritualidade cristã, inspiração salesiana e pedagogia da acção, a APJ oferece aos jovens não apenas um espaço de convivência, mas um “caminho de vida”.

Ela forma seres humanos capazes de agir com consciência, servir com humildade, crescer com liberdade e transformar com coragem.

Num mundo que fala demais e faz de menos, a APJ permanece fiel ao seu princípio:

“não palavras, mas acções”.

E isto — esta aliança entre ideal e prática — é a razão profunda pela qual a APJ se ergue como uma das mais coerentes e espiritualmente potentes organizações juvenis da sua época.

A APJ é sonoridade e fraternidade

Isto traz à mente a célebre frase da iniciada francesa Maria Deraismes, fundadora da primeira Loja mista que daria origem à Ordem Maçónica Mista Internacional Le Droit Humain (O Direito Humano):

“Um pensamento que exclui metade da humanidade não pode ser chamado de livre”

Esta declaração poderosa condensa a essência da APJ ao lutar pela igualdade e pela inclusão dentro e fora das estruturas para maçónicas. Deraismes — escritora, oradora e activista — desafiou as normas sociais, políticas e religiosas do seu tempo, abrindo caminhos para que homens e mulheres compartilhassem o mesmo espaço iniciático.

O seu legado, profundamente enraizado na tradição francesa, tem inspirado cada vez mais egrégoras a acolherem ambos os géneros nas suas reuniões. O resultado tem sido uma convivência harmoniosa, coerente com o mundo que nos cerca.

Dados recentes do IBGE mostram esta transformação na sociedade civil: no segundo trimestre de 2024, a participação feminina no mercado de trabalho brasileiro atingiu 48,1%. Quase metade da força produtiva do país — facto que reforça, de forma objectiva, que a inclusão não é apenas uma ideia justa, mas uma realidade inevitável.

Assim, quando afirmamos que a APJ é sonoridade e fraternidade por congregar jovens de ambos os sexos, dos 7 aos 21 anos, afirmamos também que ela ecoa este movimento histórico: integrar, harmonizar e reconhecer que a evolução se faz com todas as vozes — jamais com apenas metade delas.

Leonardo Redaelli – M. M. – CIM: 348202 – ARLS Progresso da Humanidade nº 3166 – GOB-RS – Oriente de Porto Alegre – RS

Bibliografia

  • ADISON DO AMARAL; FELIPE FORMIGA DE HOLANDA. Manual da Acção Paramaçónica Juvenil (APJ) do Grande Oriente do Brasil (GOB). Brasília. 2023.
  • Cerimonial de Admissão (Nível I – Lumen Probitatis) Acção Paramaçónica Juvenil do Grande Oriente do Brasil (APJ/GOB) – Brasília, 2024.

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2 thoughts on “A Acção Paramaçónica Juvenil e o caminho da formação da liberdade interior”

  1. Paulo Marciano Leal de Aragao

    E uma honra fazer parte dessa história.. TUDO PELA APJ TUDO PELA PÁTRIA

  2. Matheus Cabidel Brasil de Almeida

    Eu estou emocionado.

    Sempre quis ser das Fileiras do GOB mas não tive a oportunidade de ser APJ.

    Tive a oportunidade de ser DeMolay e dei o meu melhor…

    Obrigado a todos os maçons do GOB e a todos os apejôtistas!

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