Alferes Joaquim José da Silva Xavier – O Tiradentes

Partilhe este Artigo:

Alferes Joaquim José da Silva Xavier – O Tiradentes
Alferes Joaquim José da Silva Xavier – O Tiradentes

Até o século XVIII, no Brasil, havia apenas a concepção de ser uma Colónia de Portugal. Invasões estrangeiras eram ataques a Portugal. Mas, com a ampliação das descobertas de outo algo começa a se alterar. Alguns sinais se iniciam exibindo alguma vontade de autonomia. Filhos de proprietários brasileiros que iam estudar na Europa começam a acompanhar as novas leituras políticas de então. A influência da formação da nova república dos Estados Unidos da América era inevitável. A cobrança exacerbada de impostos pelos portugueses passa a formatar protestos. E em consequência, anseios surgem. Lideranças inevitáveis vão se exibindo.

O movimento em favor da conjuração mineira era uma mostra dessas novas compreensões que surgiam no Brasil. A Capitania das Minas Gerais era um destaque imenso no Brasil oitocentista. Ali estavam personalidades de destaque, juristas, poetas, militares, administradores, grandes proprietários. Inevitável que algo se fizesse em destaque. Os impostos eram altíssimos para a época e os cidadãos cobravam mais retorno, que era bem baixo. Portugal tinha muitas dívidas e poucas fontes de recursos. Uma dessas fontes, como Minas Gerais, mesmo já com algum declínio, era ponto de cobiça para os governantes. O movimento, com certeza tinha envolvidos com várias pretensões, desde a redução de impostos até a autonomia regional, como gente que chegava a pretender a independência e até mesmo o estabelecimento de um governo republicano.

O movimento mineiro foi traído, denunciado por um dos seus membros traidor, um militar, justamente em troca do perdão de impostos devidos, e, em consequência, os principais envolvidos foram presos. O processo se alonga, vai transcorrer o julgamento na cidade do Rio de Janeiro, que em 1763 passa a ser a Capital da Colónia, que até ali era em Salvador, especialmente em razão da mineração de ouro e da ampliação da escravidão mais ao Sul.

Nesse meio a única condenação à morte dos envolvidos num movimento político expos grandemente um dos membros, que nem era mesmo o seu líder maior, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Falar dele ainda é problemático. Ele foi destaque, sem dúvida, nessa chamada “Inconfidência Mineira”, movimento, basicamente, de tentativa de autonomia da Capitania de Minas Gerais. Movimento esse que com o tempo passou a ser entendido como de tentativa de Independência do Brasil, quando ocorreu, lá pelo final do século XVIII, mas isso ainda também é ponto complexo, posto que os envolvidos apresentavam visões algo diferenciadas ao pretendido maior.

As hipóteses e dúvidas, como as inverdades sobre o Alferes são muitas. Em termos de um relato de História formal temos de tomar bastante cuidado. Seria ele mesmo o grande líder do Movimento? Seria membro da Ordem Maçónica? Por que ele assumiu a postura que assumiu, com a única confissão? Ele teria, de facto, morrido pela sua condenação?

Introdução

De tudo que tenho lido nesses tantos anos sobre a Conjuração Mineira um dos trabalhos que mais me impactaram foi o do estudioso Mario Name, de Campinas, SP, publicado no Anuário da Loja de Pesquisas Maçónicas “Quatuor Coronati”, do GOB, de 1999 (1). Nessa publicação ele traz reproduções fac-simile de dados que comprovariam a presença de Tiradentes em Lisboa, além da formalização de uns tantos pedidos ao Palácio Real. O modesto Alferes não dispunha de tantos recursos económicos assim para bancar uma viagem dessas. Alguém a custeou? Mas o que ele, oficial e verdadeiramente, foi fazer em Lisboa? E em que essa viagem contribuiria?

Joaquim José da Silva Xavier, como nos destaca o nosso também Irmão estudioso João Anatalino (2), nasceu em 12 de Novembro de 1746 numa fazenda em Pombal, Minas Gerais, próxima às vilas de São José, hoje Tiradentes, e São João Del Rei. Era filho dos pequenos proprietários rurais Domingos da Silva Santos e Maria Antónia da Encarnação Xavier. A sua mãe faleceu em 1755, quando ele tinha 9 anos, e toda a família, o pai e sete filhos, se muda para São José. Quando ele fica órfão do pai aos 11 anos, os irmãos se dispersam, sendo que ele passa a ser criado por um irmão, que lhe ensinou as primeiras letras. Logo saiu de casa para trabalhar, foi mascate, minerador e tornou-se dentista prático, o que lhe dará a alcunha de Tiradentes. Depois ingressou na vida militar, no Regimento de Cavalaria dos Dragões de Minas Gerais, onde alcançou o posto de Alferes, equivalente a de um Suboficial, ou Subtenente, do Exército do presente.

Não vamos deixar de considerar aqui também o posicionamento do historiador Marcos Correa, citado em artigo de Carlos Eduardo Lins da Silva (3), que em 1969 encontrou uma assinatura, coisa de que era um especialista, que apresentava extrema semelhança com a de Tiradentes, na galeria da Assembleia Nacional Francesa, em 1793, data posterior a que teria sido a sua execução. Isso desde então não teve a sua confirmação comprovada. No entanto, existem muitas afirmações de que Tiradentes, concretamente, não teria sido executado, mas um outro no seu lugar. Pontos que igualmente não tem confirmação documental ou de testemunho, até este momento.

Não podemos desistir, mas fundamentação documental deve ser base, tem de ser, para cada afirmação histórica.

Ida a Lisboa

Uma possível ida de Tiradentes a Lisboa solicitar uma licença já tinha sido tratada por alguns estudiosos. O historiador Herculano Gomes Mathias em 1968 já tinha tratado disso, comunicando ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro terem sido encontrados dois pedidos de licença para ir à Corte tratar de assuntos pessoais. Herculano estava pesquisando no Arquivo Ultramarino de Lisboa, tendo passado essa informação ao historiador português Manoel Rodrigues Lapa, que, pela sua própria decisão, publicou os informes de Herculano, junto a outros dados, em 14 de Dezembro, do mesmo ano, 1968, no Suplemento Literário Minas Gerais. E acrescenta também que encontrou na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Colecção de Papeis Casa do Conto) anotações da Defesa no Processo dos Inconfidentes onde consta:

Tiradentes, inimigo de Gonzaga, auctor e cabeça, fallador, preterido 4 vezes, sendo bom militar pobre tudo confessou, entusiastha pela América Ingleza chegara da Europa e ocupava-se num trapiche em Andaray”. Anotação datada de 18 de Abril de 1792, próxima a decisão final de condenação (1).

Observe-se que a defesa de todos os réus teve apenas um único defensor, o advogado da Santa Casa de Misericórdia, Dr. José de Oliveira Fagundes.

Pois bem, consta registro no “Livro de Porta” do Palácio d’Ajuda, em Lisboa, o pedido de “Joaquim Jozé da Silva Xavier” de “Licença por hum anno”, para tratar “de bens da sua casa”, em Lisboa, que estava se deteriorando por falta de assistência. Período em que estaria “sem vencimento de tempo nem soldo(1).

Aliás, a existência de tal propriedade em Portugal não consta dos bens do Alferes nos autos do seu processo condenatório. Mas, reconheça-se, todos os seus dados foram destruídos, por ordem do Vice-Rei D. Luiz de Vasconcellos e Souza, após a sua condenação, o que dificulta demasiado a possível constatação. Inclusive, também não consta, nem mesmo a sua casa em Vila Rica (Ouro Preto), que foi arrasada e o local salinizado.

Com certeza também tivemos contestação dessa afirmação presencial em Lisboa em conversas com outros historiadores a quem oferecemos esses dados. Poderia ser simplesmente um registro de mala postal, de um pedido feito no Brasil. Sobre isso, considere-se o que o próprio historiador Name nos propõe a reflectir: “o nome de algumas pessoas que deixaram os seus nomes registrados nesse Livro de Portaria do Palácio, aparece várias vezes, em vários dias diferentes, comprovando que se tratava da presença física do interessado”.

Esse documento foi localizado pela historiadora Isolde Helena Brans e publicado por Name (1). Pois observe-se, esse pedido foi aprovado e assinado por três membros do Conselho Real no mesmo dia, 4 de Setembro. E o Processo aprovado, a Provisão da Licença, foi finalizada formalmente em 27 de Setembro de 1787, em documento arquivado na Torre do Tombo, em Lisboa.

Foram cobradas e pagas taxas para a confirmação do pedido. E bem caras: 540 réis, por “novos Direitos”, em 7 de Setembro; mais 300 réis de “feitio”; mais 800 réis de “assinatura” e mais 428 réis “aos oficiais”, em 27 de Setembro, totalizando 2.068 réis recolhidos ao Tesouro Real. Esse custo também nos faz imaginar a aceleração da aprovação do pedido, além de um muito provável apoio maçónico a Tiradentes e, quem sabe?, mesmo dentro do Palácio. Isso tudo em 1787.

Apoio Americano

O facto é que Tiradentes precisava mesmo de apressamento da decisão. Ele saiu do Brasil sem aquela decisão que o liberasse. Em Lisboa necessitava da oficialização da licença. Tudo isso porque ele precisava ir a França, ou ter contacto com gente que lá estava, para saber do resultado das conversações do estudante de Medicina na Universidade de Montpelier, José Joaquim Maia e Barbalho, o Vendek, um jovem também Maçom.

Conversas essas que foram iniciadas em 4 de Maio de 1787, em carta enviada de Marselha, com o Embaixador dos Estados Unidos da América, na França, Thomas Jefferson, também um poderoso Maçom. E contava com apoio dos maçons europeus. Vendek solicitou aos americanos ajuda ao movimento independentista brasileiro, depois identificado pelos colonizadores lusitanos como “Inconfidência Mineira”. Alguns historiadores afirmam existir documentação demonstrativa desses contactos, que constariam mesmo na Casa de Jefferson (“Declaration House”), na Filadélfia, EUA. Vale conferir, se algum Irmão tiver tal oportunidade.

Em Dezembro de 1787 ou Janeiro do ano seguinte, 1788 (Mario Name sustenta a possibilidade de uma dessas duas ocasiões), Tiradentes apresenta três novos pedidos ao Palácio Real: a construção de um armazém, de um embarcadouro e a canalização de água na cidade do Rio de Janeiro (1).

Tal informação identifica-se com a denúncia de Francisco Antonio de Oliveira Lopes (primo de Domingos Vidal Barbosa, outro condenado), constante nos autos da Devassa de Minas Gerais, de que os americanos apoiariam o Movimento com “naus e gentes” se comprássemos deles “bacalhau e trigo”. Então fica patente com essa demanda de Tiradentes junto ao Palácio Real, que o estudante Vendek, já teria tido retorno da sua carta de 4 de Maio de 1787 a Jefferson para um encontro.

Hoje sabemos que esse referido encontro ocorreu em Nímes, Sul da França, “longe dos estudantes portugueses a serviço do Intendente Geral de Polícia Pina Manique”, como nos traz o respeitado estudioso maçónico Castellani, em 1992 (4).

Considere-se que naquela carta, enviada por Vendek a Jefferson, nos é exibida pela primeira vez a palavra “brasileiro”, como designativo de natural do Brasil, confirmado pelo estudioso Ferreira, em 1972 (4). Até então o termo era referência unicamente ao comerciante de pau-brasil.

Posição do Vice-Rei D. Luiz de Vasconcelos

No atendimento formal do pedido está expressa a construção na cidade do Rio de Janeiro de “um armazém para recolher trigo e outros mais géneros”, “em uma porção de terreno na praia daquela cidade, entre a ponte da Alfândega e o trapiche da Lapa” (1).

Outro pedido era o da instalação de um embarcadouro/desembarcadouro de gados na “paragem chamada de Praia dos Mineiros e ora denominada de D. Manoel” (eis que a Cidade ainda não dispunha de um porto).

Um terceiro pedido era a retirada de água “das cabeceiras do Catete e Andaray ou Maracanã”, que a Cidade também não dispunha e que redundaria em “utilidade do público”. Essa medida, se divulgada, resultaria, sem dúvida, também no apoio da população ao Movimento.

Tiradentes retorna ao Brasil, a sua licença era de um ano, com os indicativos de aprovação dos seus pedidos, conforme demanda de Jefferson. Mas talvez as autorizações da Rainha ainda não estivessem plena ou formalmente, explicitadas ao Vice-Rei, posto, como dissemos acima, só o foram despachadas em 25 de Agosto de 1788.

Mario Name registra ainda que a demanda da canalização de águas na Cidade colocava Tiradentes directamente contra o Vice-Rei que com outros ganhava muito com a venda de barricas d’água transportadas por mão-de-obra escrava. E refere-se também a um evento conhecido como “A Pateada da Ópera”, quando gente que lucrava com a venda de água vaia Tiradentes ao vê-lo entrar na Casa da Ópera do Rio de Janeiro.

As demandas de Tiradentes, aprovadas em Lisboa, foram de conhecimento do Vice-Rei, que não os teria dado andamento. Isso foi criando dificuldades e fazendo com que Tiradentes solicitasse uma solução para elas, definitivamente, pela Rainha Maria I, pois foi se fazendo, concretamente, um antagonismo contra Tiradentes.

O Vice-Rei D. Luiz, aparentemente, reteve o início, em especial, das obras de canalização das águas e Tiradentes acaba tendo de ir cobrar de modo formal, em carta datada de 19 de Junho de 1788, das autoridades no Brasil, o andamento do solicitado, já reconhecido e ordenado pela Rainha. Esse documento consta de arquivo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Porém, observe-se, essa data da reclamação de Tiradentes é anterior à formalização definitiva de Lisboa. Mas há quem ainda informe que Tiradentes também solicitou por segundas vias das ordens da Rainha ao Vice-Rei.

As demais obras, desembarcadouro e armazém, no entanto, podemos acreditar que talvez tenham sido iniciadas. No princípio desta nossa exposição, consta em dado redigido pela defesa de Tiradentes, que ele foi preso no Rio de Janeiro (em 10 de Maio de 1789) quando “ocupava-se num trapiche em Andaray” (um dos pontos de obras requeridos). É uma hipótese, não uma verdade confirmada.

Retorno de Tiradentes

Retomemos um ponto importante. Tiradentes não tinha muitos recursos. Tanto que se sabe dele ter estado doente por três meses, depois de retornar da Europa, ficando sem receber o seu salário por esse período. Precisou do apoio do advogado Alvares Maciel para atendê-lo em 1788, em Vila Rica.

Há informação citada pelo Irmão estudioso Nêodo Ambrósio de Castro, com a publicação de dados constantes no livro “História da Conjuração Mineira” do historiador Joaquim Norberto (5). Diz assim:

“No dia 28 de Agosto de 1788 apresentou-se o alferes Joaquim José da Silva Xavier ao comandante do seu regimento, para dar parte de doente, pois com efeito chegara enfermo a Vila Rica. Reteve-o a sua enfermidade em casa pelo espaço de três meses, suspenderam-lhe o soldo e teve ele que recorrer ao empenho da amizade que contraíra na cidade do Rio de Janeiro com o Dr. José Álvares Maciel. Era este jovem parente do tenente-coronel do seu regimento – Francisco de Paula Freire de Andrade – e foi fácil obter o que desejava o pobre alferes”.

José Álvares Maciel fora estudante na Europa e muitos estudiosos o reconhecem como Maçom. Alguns indicando que justamente teria sido ele a iniciar Tiradentes na Ordem Maçónica, dados de que não há registros, até este momento, identificados.

O facto é que Tiradentes, com tudo o que já temos confirmado da sua actuação no Movimento, é que colaborou plenamente com as posturas do pessoal rebelde. E politicamente o Movimento era estruturado por gente da Ordem Maçónica. Disso não se tem mais dúvida. Se Tiradentes foi mesmo iniciado na Ordem não se tem documentação. Naquele tempo a Maçonaria não era aceita pelo Governo Real de Portugal. Não eram autorizadas Lojas, então o que existia eram Academias Literárias e semelhantes. Assim, não deveriam constar iniciações formais pelo Brasil. Sabe-se que até 1907 era possível a iniciação maçónica “por Comunicação”. E dado que a Ordem era muito perseguida, em especial no século XVIII, o máximo de discrição era compreensível.

Mas, podemos reflectir, o que teria feito com que levassem Tiradentes até a Europa, senão que ele já tinha demonstrado apoiar com firmeza o Movimento. Está plenamente demonstrado também até aqui, que ele não dispunha de recursos pessoais para assumir tantas responsabilidades. Evidentemente que se trata de alguém confiável. Esses custos todos foram assumidos por gente de poder económico e, com certeza, abertura social. É de se ver que gente da Ordem Maçónica, que estava plenamente envolvida no Movimento, estava também envolvida nos custos. E, com certeza, é de se imaginar minimamente que Tiradentes por se envolver com tantas responsabilidades deveria também ser reconhecido como Irmão. Parece mesmo obvio.

Tiradentes não foi Executado?

Alguns afirmam que Tiradentes não teria sido morto após a sua condenação. Há vários relatos, e mesmo livro publicado sobre isso. No seu lugar um outro, “um actor” ou “um ladrão”, teria sido executado. E assim ele teria retornado à Europa, protegido por uns tantos.  Alguns historiadores afirmam que essa é uma “informação maçónica”. Essa afirmação teria fundamento? Ou é apenas algum preconceito?

Pois vamos lá. Segundo o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, citando o historiador Marcos Correa (3) no artigo “Morte de Tiradentes tem contestação”, um ladrão, Isidro de Gouveia, um carpinteiro, condenado à morte em 1790, assumiu a identidade de Tiradentes em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida a ele pela Maçonaria. Desconhecemos documentação a esse respeito. O facto é que Correa, ex-professor da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, “cita testemunhas da caminhada de Tiradentes ao cadafalso que se diziam surpresos porque ele aparentava ter menos que os seus 45 anos”. E foi citando um livro de Martim Francisco Terceiro (“Contribuindo“, de 1921) que afirma sem sustentação, sendo visto como o criador da lenda de que Tiradentes não teria sido efectivamente executado. E Correa indica também o livro, de Hipólito da Costa (“Narrativa da Perseguição“, de 1811), que também insistiria nessas hipóteses.

Pois Marcos Correa, igualmente, “tenta demonstrar a sua suspeita de que Tiradentes não morreu enforcado em 1792 ante um facto que constatou em Lisboa, em 1969, quando viu fotocópias de listas de presença na galeria da Assembleia Nacional Francesa, em 1793. Lá, estava a assinatura de José Bonifácio de Andrada e Silva, que era o objecto das suas pesquisas naquela época, e próximo à dele, também aparecia a de um ‘Antonio Xavier da Silva’. Correa se formara em grafotecnia e tinha estudado muito a assinatura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. E com o auxílio do amigo português professor Rodrigues Lapa, Correa confrontou as assinaturas de Antonio e Joaquim José: “a semelhança era impressionante”, disse ele.

Tiradentes teria sido beneficiado, dizem alguns, por um dos juízes da Devassa, o poeta Cruz e Silva, que tinha sido amigo de muitos dos inconfidentes (a historiadora Laura Mello e Souza sustenta que Cruz e Silva, na verdade, foi designado para “endurecer” o tratamento penal dado aos seus ex-amigos).

De acordo com Correa (3) ainda, Tiradentes havia salvado a vida de Cruz e Silva, mas não se sabe como nem quando. Por isso teria permitido que “Tiradentes e sua amante (Perpétua Mineira) e os filhos de Isidro de Gouveia embarcaram incógnitos na nau “Golfinho”, em Agosto de 1792, para Lisboa (“incógnitos”? onde o registro?). O juiz, que também era Maçom, nunca mais voltou a Portugal.

Correa também se refere a uma carta do desembargador Simão Sardinha, documento que está na Torre do Tombo, em Lisboa, “na qual diz ter-se encontrado, na Rua do Ouro, em Dezembro de 1792, com alguém parecido com Tiradentes, a quem conhecera no Brasil, que saiu correndo quando o viu”.

Por toda essa interpretação, Tiradentes teria voltado ao Brasil, ao Rio de Janeiro, somente em 1806. Então teria “aberto uma botica na casa da Perpétua Mineira, na rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias)”. Observe-se que não se refere à rua do Ouvidor, onde essa conhecida senhora antes morava. E assim, Tiradentes teria falecido só em 1818.

Porém, há relatos, também, de que Tiradentes teria ido para São Luis do Maranhão, com a mulher (Perpétua Mineira), e lá se estabelecido como “dentista-prático”, relato sem fundamentação documental igualmente.

Por mais que possamos imaginar que tantos desses dados sem sustentação, até o momento, possam persistir nos nossos relatos históricos, devemos atentar também para os que os contestam. É o caso do Professor de História André Figueiredo Rodrigues, da FAPESP, Campus de Assis, que se manifesta no site [email protected] (6) contestando com fundamentação:

“a execução de Tiradentes foi assistida por milhares de moradores do Rio de Janeiro e descrita por mais de um dos padres confessores que, nos seus textos, narram com riqueza de detalhes os últimos momentos do alferes ainda na cela da prisão e os seus passos rumo à forca. Na prisão, Tiradentes se barbeou e teve os cabelos raspados, a fim de que todos os moradores, guardas, eclesiásticos e juízes que o acompanhavam rumo ao cadafalso vissem o seu rosto e tivessem certeza de que ele era mesmo o condenado a ser executado. Isto fazia parte do ritual: olhar a face do condenado poucos momentos antes dele falecer. Se a troca tivesse ocorrido, com certeza alguém denunciaria o facto às autoridades ou, posteriormente, deixaria escrito tal acontecido. Não há qualquer registro documental ou textual de que Tiradentes tivesse escapado da morte.”

Parece-nos que tal posicionamento de um especialista, com citações de reconhecimento dos “padres confessores”, torna inaceitável afirmações sem sustentação documental. Nada nos faz aceitar, até aqui, que Tiradentes não tenha, concretamente, sido executado na forca no dia 21 de Abril de 1792. E depois esquartejado, com partes do seu corpo colocadas em locais da Estrada Real, no caminho das Minas Gerais.

Descendentes

A Proclamação da República, em 1889, exigia uma nova postura, novos heróis. Tiradentes era o melhor exemplo. Foi reconhecido por lei. E com o passar do tempo, aquele nome queimado politicamente lá atrás tornou-se símbolo. A data da sua morte vira feriado nacional. E parentes foram surgindo. Em 16 de Outubro de 1969, o Congresso Nacional reconheceu como seus descendentes directos os irmãos: Pedro de Almeida Beltrão Júnior, Maria Custódia dos Santos e Zoé Cândida dos Santos e lhes concedeu uma pensão vitalícia de dois salários-mínimos. Mas não são reconhecidos plenamente. A História vai explicitar isso.

Tiradentes morreu aos 45 anos de idade. Era normal que lhe “aplicassem amores”. Oficialmente ele nunca se casou

Um dos casos mais famosos, que consta em múltiplos relatos é que Tiradentes teria se apaixonado por uma mineira que vivia no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, como citamos anteriormente. O romancista Joaquim Manoel de Macedo, conta (em “Memórias da Rua do Ouvidor”) (7), que, a partir de 1784, ela tinha uma pensão, uma “casa de pasto”, como era denominada então, alugada por 6 cruzados ao mês. Essa moça era a Perpétua Mineira, “alta e bem talhada de corpo, tinha negros e belos olhos, rosto branco e oval”, como alguns a descreviam. O casal teria se conhecido em 1787, portanto, depois do retorno de Tiradentes da Europa ao Rio de Janeiro. Ela ficou famosa por ter sido amante do Vice-Rei D. Luiz. É um belo tema para romancistas, mas não temos comprovação.

Um trabalho do estudioso Antonio Izaias da Costa Abreu (desembargador do TJERJ), em artigo de 2010 (8), traz demonstrativos diversos sobre referidos descendentes de Tiradentes, reconhecidos por autoridades, como nos referimos mais acima:

“Bem esclarecendo, com relação a Eugênia Joaquina da Silva (no cerca 1770), seu filho, que recebeu no baptismo o nome de João de Almeida Beltrão, não era filho de Tiradentes, mas de José Pereira de Almeida Beltrão, conforme elucidado pelo professor Waldemar de Almeida Barbosa, ao localizar, na Matriz do Pilar de Ouro Preto, o assento de baptismo de João de Almeida Beltrão (“Altos da Devassa da Inconfidência Mineira”, v. I, pág. 145, Câmara dos Deputados – Brasília, Distrito Federal, 1976), às folhas 354, do livro próprio” (8).

Assim, há documentação suficiente que afasta a vinculação de parentesco com os Almeida Beltrão.

O que se sabe concretamente é que Tiradentes teve inúmeros casos de amor. Os que mais se destacam foi ter mantido “estreito e íntimo relacionamento apenas com duas mulheres: Antónia Maria do Espírito Santo e a viúva de Francisco Gonçalves Teixeira, Dona Marianna Barboza de Mattos, residente em Cebolas, actual Inconfidência, distrito de Paraíba do Sul” (8).

E Costa Abreu nos diz ainda que Tiradentes “conforme as suas declarações nos Autos da Inconfidência, só teve uma filha, Joaquina, baptizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica, em 13 de Agosto de 1786, tendo por padrinho o tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira, do Regimento de Cavalaria Regular de Minas Novas”, cuja mãe era Antónia Maria do Espírito Santo (“Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, Brasília, 1977, Pág. 125, 145, v.I).

Sabe-se que o censo de 1804, da Capitania de Minas Gerais, mostra que até aquele ano, residiam em Vila Rica: Antónia Maria do Espírito Santo e Joaquina. “Depois disso, não se teve mais notícia do paradeiro da filha de Tiradentes, ou seja, onde ela viveu e o fim dos seus dias” (8).

Alguns autores também dizem que o Tenente da Milícia da Colónia Joaquim Paulo de Oliveira, igualmente seria filho de Tiradentes, sem qualquer demonstrativo.

Observe-se, era notório, que toda vez que Tiradentes se aproximava em razão do seu trabalho policial da região do “Caminho Novo”, de Cebolas, no Distrito de Paraíba do Sul, ele se hospedava na fazenda de Dona Marianna Barboza de Mattos, que lhe dava uma especial atenção.

Demonstrativo disso é que quando “determinou o acórdão régio da Alçada da Inconfidência que uma perna do conjurado fosse colocada num poste, exposta na praça pública daquela localidade”, em Cebola, Capitania de Minas Gerais, “Dona Marianna pediu aos filhos que, no silêncio da noite, sem retardo, dali retirassem a parte do corpo do mártir e a entregassem ao irmão dela, Padre Paulo Manoel Barboza, pároco da igreja de Nossa Senhora do Rosário, a fim de que o religioso a colocasse atrás do altar daquele templo, dentro de um caixote com sal grosso, para que ali, sigilosamente, permanecesse, o que efectivamente ocorreu, até a morte da fazendeira. E, para perpetuar o seu amor por Joaquim José da Silva Xavier, rogou Dona Marianna que, ao falecer, fosse a perna do seu amado sepultada junto ao corpo dela”. Bem posteriormente se constatou o sepultamento do membro inferior esquerdo do mártir no mesmo ataúde de Dona Marianna.

Conclusão

Os brasileiros talvez devessem saber mais da contribuição, determinante em tantos momentos, da Ordem Maçónica na História do nosso País. Infelizmente, os historiadores brasileiros de modo raro manifestam a participação efectiva da nossa Ordem nos eventos da História do Brasil. Preconceito?

O que entendemos bem é que a actuação dos Irmãos é que pode colaborar para tal alcance. A nossa Ordem Maçónica desde o início contribui e devemos alargar melhor o conhecimento. Porém, entendemos que todas essas informações devam ser fundamentadas em documentos, em dados concretos e não simplesmente em comentários dispersos.

As coisas vão sendo desvendadas, com o correr dos tempos.

Observe-se que a América Hispânica foi se dividindo na evolução dos tempos de independência já pelo século XVIII. No Brasil vários movimentos nessa direcção também se fizeram. E o sucesso de alguns desses movimentos teria mesmo desintegrado o território do Brasil, como ocorreu nos demais países da América do Sul. No entanto, fica claro, que Tiradentes era um dos que pretendia ampliar a “Conjuração Mineira” para todo o Vice-Reinado do Brasil, na pretensão de apoio internacional, francês e americano, como implicava a Ordem Maçónica. A contribuição de Tiradentes é, realmente, das mais importantes no Movimento, com o alargamento da sua actuação dentro e fora do Brasil. Um nome de merecido destaque. A sua condenação à morte é representativa dessa compreensão das autoridades de então.

Concretamente, como já pudemos confirmar, Tiradentes, não era um membro de grandes posses, já sabíamos e fica bem demonstrado na sua demanda por soldo atrasado. Mesmo com a sua grande circulação.

Ele era reconhecido como “falador” e provavelmente devia ser muito bem visto por mulheres. Tanto que muitas são entendidas como companheiras dele. Mas o seu reconhecimento é de apenas uma filha. O que nos indica caminho para a busca em pesquisa histórica.

Tudo demonstra que Tiradentes foi mesmo executado. Os testemunhos formais são nesse sentido. Não devem ser diminuídos por afirmações sem segurança documental. Ainda que pesquisas possam, e devam, prosseguir. E entendemos que a Ordem Maçónica, especialmente, precisa orientar pesquisadores a ampliar os dados de que actualmente dispomos.

E, finalizando, talvez devêssemos alterar a denominação do Movimento Mineiro de “Inconfidência”, que significa “falta de fidelidade e revelação de segredo confiado”, que é estritamente a leitura dos colonizadores lusitanos de então. No seu lugar a denominação deveria passar para “Conjuração”, pois o acto de conjurar, representa melhor a “conspiração contra a autoridade estabelecida à Metrópole Portuguesa”. Essa expressão define concretamente a maquinação, toda a trama, em que Tiradentes actuou. Sabemos das dificuldades de mudar uma forte expressão histórica, cultural. Mas vale explicitar o facto contraditório.

Temos, no entanto, bem mais ainda a saber.

Suami Paula de Azevedo – M:.M:. – A.R.L.S “Campos de Mirambava”, 3021 – GOB

(Apresentação, original, em 23 de Abril de 2018)

Fontes

  1. Name, Mario. Revista Anuário da Loja de Pesquisas Maçónicas “Quatuor Coronati”, do GOB, de 1999.
  2. Anatalino, João. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Site “Recanto das Letras”.
  3. Silva, Carlos Eduardo Lins da. “Morte de Tiradentes tem contestação”. FOLHA DE S. PAULO, 21.04.1999. (Cita Marcos Correa).
  4. Gomes, Márcio dos Santos. A Inconfidência Mineira, a Maçonaria e a Arcádia Ultramarina – I e II. São Paulo: Editora Traço, 1989. (Citados: José Castellani. A Maçonaria e o movimento republicano brasileiro. São Paulo: Editora Traço, 1989; e também: Tito Lívio Ferreira/Manoel Ferreira. “A Maçonaria na Independência Brasileira”– Volume I. São Paulo: Gráfica Biblos, Ltda.- Editora, 1972.
  5. Castro, Nêodo Ambrósio de. Cita Joaquim Norberto, “História da Conjuração Mineira”. Maçonaria.Net.
  6. Rodrigues, André Figueiredo.[email protected]
  7. Macedo, Joaquim Manoel de. (“Memórias da Rua do Ouvidor”).
  8. Abreu, Antonio Izaias da Costa. “Tiradentes – Descendentes Controvérsias & Factos”. Revista Justiça & Cidadania – 31.07.2010.

Partilhe este Artigo:

1 thought on “Alferes Joaquim José da Silva Xavier – O Tiradentes”

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top