De forma geral, vê-se maçons e não-maçons terem sempre na ponta da língua o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” para definir os princípios maçónicos. Entretanto esta tríade só é coerente com os ritos latinos (os que tem origem francesa) devido aos históricos de envolvimento da Maçonaria em revoluções daquelas nações de onde se originaram.
“Amor Fraternal, Ajuda e Verdade”, esta é a divisa da Maçonaria norte-americana e a que faz mais sentido ao analisarmos a essência dos ritos anglo-saxónicos (de origem inglesa), que são os ritos mais antigos e mais próximos da filosofia operativa encontrada nas Antigas Obrigações.
Estes três princípios são considerados, pelo Rito de York, os mais importantes e essenciais preceitos da crença maçónica.
Representado em Lojas norte-americanas pela imagem de duas figuras humanas cumprimentando-se numa estrada, é através do exercício do Amor Fraternal que os maçons são ensinados a olhar a raça humana como uma só família: o alto e o baixo; o rico e o pobre, todos criados por um Pai Todo Poderoso e habitando um mesmo planeta, devendo ajudar e proteger uns aos outros. É assim que a Maçonaria se torna um instrumento de união de homens de todos os países, credos, raças, culturas e opiniões, promovendo a verdadeira amizade entre aqueles que poderiam, de outra forma, permanecer toda uma vida sem nunca se terem conhecido.
Mas a questão é: será que estamos mesmo praticando este Amor Fraternal? Será que amamos ao menos os irmãos da nossa Loja? Ao menos tentamos aceitá-los com os seus defeitos assim como esperamos que eles nos aceitem com os nossos? Ao menos estamos tentando ajudá-los no desbaste diário das suas asperezas? Estamos evitando fazer comentários maldosos de um irmão na sua ausência? Tudo isto e muito mais precisamos repensar e praticar, e de outra forma seremos nada mais do que propagadores de palavras ao vento, hipócritas e demagogos que nada estarão contribuindo para o progresso da humanidade.
Por meio da Ajuda (no sentido de socorro, alívio ou ainda amparo) aos mais necessitados, um dever de todos os homens, os maçons estão unidos por uma cadeia de sincera afeição. Ajudar os infelizes, solidarizar-se com eles nos seus infortúnios, compadecer-se das suas misérias e restaurar a paz nas suas mentes que estão atribuladas devem ser os objectivos formadores da base sobre a qual os maçons devem estabelecer as suas conexões e formarem as suas amizades. O seu símbolo é uma figura humana socorrendo a outra debaixo de uma árvore e junto a um animal (burro), ou um homem dando de beber a outro.
Muitos maçons dizem por aí ser a Maçonaria uma entidade filantrópica e que age em sigilo, não gostando de propagar as suas benevolências. É uma verdade, mas também é uma verdade que utilizamos como trincheira para nos escondermos do nosso real dever! Desde quando as nossas Lojas não se envolvem numa acção verdadeira? Desde quando apenas juntamos roupas usadas e doamos cestas básicas? Não que isso não seja válido, mas a ajuda, o amparo e o alívio, vão além disso. Estas virtudes dizem respeito ao acalento a um coração sofredor, referem-se à doação de tempo e amor aos que são carentes, e carentes não são só os desafortunados financeiramente falando. Quantas vezes não abrimos comissões para escolherem uma boa entidade beneficente para ser beneficiada com uma filantropia quando os irmãos velhinhos das nossas Lojas, que tanto trabalharam connosco, estão esquecidos nas suas casas ou até mesmo em asilos? Até quando nos iremos envolver tanto nas causas da Loja e acabarmos por não perceber ou ouvir as angústias que afligem ao nossos familiares nas nossas próprias casas?
Fundamento de toda virtude, a Verdade é um atributo divino e é representada através de um pergaminho, livro aberto e iluminado sobre uma rocha no mar, ou ainda por uma figura feminina segurando um livro e um incensário e sendo iluminada pelos céus. Ser bom e verdadeiro é a primeira lição que o Maçom aprende na Maçonaria. Desta forma, enquanto influenciados por este princípio, a hipocrisia e a falsidade são desconhecidas no seu meio. Sinceridade e probidade são jóias distintas de um Maçom. O coração e a língua juntam-se para promover apenas o bem estar do próximo e regozijar-se das suas vitórias e da sua prosperidade.
E o que de facto é a verdade? É nada mais do que o que sabe a nossa própria consciência sobre nós mesmos. A verdade é tudo aquilo que pensamos, falamos e fazemos quando estamos a sós, sem ninguém para nos julgar. Agora paremos e pensemos: sabendo tudo o que sabemos a nosso próprio respeito, será que nos presentearíamos com uma bola branca num escrutínio? Quantas vezes julgamos indignos os candidatos a ingresso nas nossas Lojas sem ao menos lhes dar o benefício da dúvida e o direito a defesa, e sabendo que no fundo (quando estamos sozinhos) pensamos e agimos igual ou pior do que julgamos que eles tenham agido.
Estas colocações não têm a intenção de soarem como uma crítica, e sim de entoarem como uma reflexão, pois todos sem excepção, como humanos que somos, enfrentamos imensas dificuldades para praticar estas três virtudes e somos tentados a todo momento a nos distanciarmos delas. Ora, mas não é este o dever de um Maçom? Erguer o Templo da virtude, e reerguê-lo depois de destruído pelo vício, e depois reerguê-lo novamente, e novamente, e novamente? De que adianta sermos mestres em ritual, liturgia, filosofia e história maçónica quando não praticamos de facto os principais e essenciais preceitos maçónicos nas nossas vidas diárias?
Estas três virtudes que estão tão intimamente ligadas e dependentes entre si, não poderiam representar melhor a essência da Maçonaria e o objectivo da sublime instituição para o progresso dos seus membros e da humanidade. Como pode haver Amor Fraternal sem a Verdade ou sem a Ajuda?
Sem o Amor Fraternal entre os irmãos maçons e entre os irmãos terrenos, sem a ajuda aos mais necessitados e sem a propagação da Verdade em todos os instantes das nossas vidas, jamais conseguiremos concluir a Obra na qual o Grande Arquitecto do Universo nos empregou.
Portanto, amemo-nos como Irmãos, auxiliemo-nos nos momentos de aflição, respeitemo-nos e honremo-nos com a verdade, e com certeza estaremos um dia reunidos na colocação da pedra chave e conclusão do nosso Templo, brindando uma eterna e harmoniosa amizade.
Guilherme Cândido

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