Apelo para um debate maçónico sobre a Fraternidade

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Mural Maçónico de Carl Avery, fraternidade
Mural Maçónico de Carl Avery

A Fraternidade popularizada pelo Papa Francisco

Num recente vídeo, do dia 10 de Janeiro, dirigido a todos os profissionais, mas especialmente aos professores, o Papa Francisco começa por “propor aos educadores que acrescentem um novo conteúdo ao seu ensino: a fraternidade”.

Depois de nos ter deixado rendidos com o conteúdo da encíclica Fratelli Tutti, tornada pública a 3 de Outubro de 2020, e no seguimento da Carta da Fraternidade Humana, assinada por si e pelo Grão Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb, a 4 de Fevereiro do ano anterior, o Sumo Pontífice, líder dos Cristãos Católicos, regressa ao tema, agora num sentido, primeiramente, pastoral.

Neste vídeo, a preocupação, o motor do seu apelo, é a constatação de uma obviedade: os educadores podem ser “escutados com muito mais atenção e serão criadores de comunidade”. O sentido é este: criar comunidade através da escola, exatamente na linha que já tinha sido aberta num dos últimos parágrafos da encíclica acima referida, em que se declarava: “Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados.”

É um facto histórico, que a ideia de Fraternidade se desenvolveu muito longe de nós, nas confrarias iniciáticas helenistas. Assumindo essa herança, o cristianismo adotou a palavra “irmão” para definir quem se tornava, no seio de uma comunidade, igual em berço e em morte. Mais que a fraternidade significar ser-se igual em vida, ela implica a tomada de consciência de que se nasce igual e se parte também igual, momentos em que se dá o encontro com o Criador. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu artigo 1º, retoma de forma já distante da religiosa, profundamente influenciada pela Maçonaria, esta mesma ideia, mas assente, não no princípio de criação divina, mas no de natureza: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”.

Se o sentido da Fraternidade para o Papa é, claramente, operativo e transformador da sociedade, para o texto do pós-guerra, a Fraternidade é lançada para fora dos limites de quem a define, deixando de ser uma característica de um grupo; é universal e como que imanente à condição de se ser humano.

É aqui, nestes dois sentidos, a tensão entre o coletivo que está dentro de uma identidade e o individual, este dentro, ou fora, que a Maçonaria acaba por perder face, não em relação ao Papa, que sabe teologicamente muito bem o que quer, mas em relação ao seu lugar social. Não fica mal a ninguém perder, antes pelo contrário, se isso for sinónimo de que quem ganhou fez alguma coisa de positivo pela Humanidade. Se Francisco procura retomar o lugar social da Igreja católica no mundo, a Maçonaria tem-no perdido.

Apesar desse nascimento verdadeiramente igualitário do conceito, herança das escolas de mistérios helenistas, o Cristianismo afastou-se da sua aplicação, remetendo o “frater” para o campo da vida consagrada, daqueles que dedicam a vida a Deus. A palavra “irmão” manteve-se nas orações e nas liturgias, mas afastada da prática social, no mundo feudal, por exemplo.

Na visão mais popularizada, essencialmente, fora, mas também enraizada dentro, a Maçonaria integrou na sua dimensão constitutiva a “fraternidade” que depende de se fazer parte de um grupo restrito, fechado, em que, no caso maçónico, o sentido de irmandade nasce pelo vínculo do novo nascimento que é a iniciação.

Na Igreja Católica, o fim popular (transversal e sentido por todos) da ideia de “frater” como comum a todos os seres humanos conduziu a uma clericalização totalmente afastada do mundo. As palavras de Francisco são hoje a libertação da Fraternidade das narrativas apenas de um grupo para a criar como cultura popular, acessível a todos e necessária na vida comunitária.

É esta recriação que, convenhamos, é difundida de forma magistral com a imagem indireta da falência, da incapacidade da Maçonaria cumprir a sua função: no dia da edição da Fratteli Tutti, Tolentino de Mendonça escrevia num órgão de grande tiragem (“Todos Irmãos”, Revista E, Ed. 2501, 3 /Outubro/2020, p. 98.), mostrando-nos como ainda não se concretizou o ideário da Revolução Francesa, popularmente associado à Maçonaria: “E da Tríade Liberdade, Igualdade, Fraternidade, as nossas sociedades integraram as duas primeiras, mas deixaram de fora a Fraternidade”.

A Maçonaria perdeu o monopólio da narrativa sobre a Fraternidade e, convenhamos, em termos de disseminação social, está possivelmente muito mais bem entregue a quem, de facto, se preocupa com a sua transmissão às gerações futuras e, acima de tudo, ao populus.

Mas a Fraternidade não se resume ao que o Sumo Pontífice aponta, apesar dos avanços católicos no sentido de uma irmandade global, já distante dos sentimentos caritativos que a marcaram durante séculos.

Equacionemos este ponto de vista, a importância da disseminação da ideia, entre o que é restrito, porque iniciático, e o que é universalizante.

A Fraternidade Maçónica, entre o profano e o iniciático

Estratégias de apropriação à parte, o paralelo da Maçonaria com a Igreja Católica é por demais tentador naquilo que nos pode revelar de abertura ou fechamento ao mundo. Em termos de cultura popular, não tenhamos dúvidas: a larga maioria da população entende a ideia de Fraternidade Maçónica como uma metodologia ou regramento interno de ajuda aos que são maçons. Mais nada.

A Maçonaria necessita de regressar a esse conceito que, afinal, pouco desenvolveu em termos filosóficos, muito menos existenciais, para não falar em comunicacionais, em que se deixou assentar e tornar dominante a visão errada e negativa que antes apontei e que leva que fraternidade seja igual a compadrio.

Há que trabalhar nas Lojas a razão pela qual, aos sermos iniciados, nos tornamos Irmãos; não se trata apenas de uma fórmula ritualística ou de reconhecimento, é existencial. Não se é Irmão, apenas porque se viveu um ritual de entrada igual. A iniciação é alquímica, é transformadora. Não nos irmanamos porque vivemos um rito restrito, mas porque acreditamos que o que vivemos nos modificou, nos permite fazer parte de um sentido como-que-cósmico, de um egrégora.

Porque é o ritual alquímico? Porque nos transformamos? Como alimentar essa transformação? Falta uma pedagogia da Fraternidade para que saibamos o que fazer com ela, ao invés de ser apenas como que uma marca, um chavão. Importa regressar á essência do rito, na sua natureza antropológica, e compreender como a ritualidade é uma “máquina de fazer fraternidade”, não apenas porque nos coloca lado a lado, num espaço e num tempo em que somos verdadeiramente iguais, mas porque o cumprir do rito tem essa natureza de alteração do ser, porque é para lá do que é físico.

Simbolicamente, na Cadeia de União fazemos a união dessa complexidade. No REAA, dizemos, afirmando a exclusão dos que estão fora: “Que o Amor Fraterno una todos os elos desta cadeia por nós livremente formada”, ideia que é reforçada a seguir: “Por ela nos ligamos aos Irmãos que outrora a formaram e; por ela se devem unir todos os Maçons de todos os ritos, de todas as raças, de todos os países”; mas acrescentamos no final: “esforcemo-nos por aproximar todos os homens pela Fraternidade.”

Nessa pedagogia interna, devemos aceder à complexidade deste conceito multifacetado que é a Fraternidade. Sim, perceberemos que a Fraternidade é excluidora, porque irmana quem viveu certo ritual, seja porque apenas o viveu, numa interpretação pobre, seja porque o entendeu como alquímico do seu Eu, mas é também incluidora porque é universal. Somos distintos dos profanos porque fomos iniciados e, por isso, participamos de uma corrente que nos liga aos restantes iniciados, no espaço e no tempo, mas somos iguais porque somos humanos. Afinal, nesta aparente incongruência, o que é a Fraternidade?

Regressando ao Papa Francisco e àquilo em que ele foi magistral, interessa a toda a Humanidade compreender como realizar essa equação de juntar o inclusivo com o exclusivo. É verdade que a iniciação abarcará sempre uma fatia muito pequena da sociedade, quer por motivos históricos de definição da própria ideia de confraria, quer pela natureza simbólica do rito, mas como operacionalizar as frases rituais com que nos despedimos de cada sessão, pedindo que as luzes recebidas nos iluminem no mundo profano?

Queremos que essa iluminação se espalhe para que estejamos defendidos das trevas, ou porque achamos que temos o dever de, também nós, iluminar o mundo? Ambas as opções são verdadeiras, mas a segunda é a função social da Maçonaria. Como a realizar, como a tornar, também, no sentido de Francisco, popular, como cultura transversal, comum a todos, seguindo a afirmação final da Cadeia de União?

É impossível ficar fechado no erro que cometeu a Igreja Católica, definindo, na prática, como Irmãos apenas os que estavam nas Ordens Religiosas. Francisco acaba de trazer para a rua a Fraternidade, abrindo-a a todos, e obrigando-nos a dar um passo em frente nesta reflexão, sob o risco de nos tornarmos fósseis de uma realidade que perdeu o mundo.

Falta, para esta contemporaneidade, equacionar o lugar da Maçonaria na sua relação com a Fraternidade. É um trabalho interno que apenas nós o podemos fazer.

Paulo Mendes Pinto

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