A Grande Loja Unida de Inglaterra celebrará este ano [2013] o bicentenário da União entre as Grandes Lojas Antigas e Modernas em 1813. A União foi formalmente celebrada a 27 de Dezembro, de acordo com o Artigo I dos Artigos de União, que declara:
I. Haverá, a partir e depois do dia da festa de São João Evangelista que se seguir (ou seja, 27 de Dezembro de 1813) uma união plena, perfeita e perpétua de e entre as duas Fraternidades de Maçons Livres e Aceites de Inglaterra . . . representadas numa Grande Loja, a ser solenemente formada, constituída e realizada, no referido dia . . . ”
A palavra “celebrada” precisa de ser sublinhada. De facto, a União tinha sido “consumada”, por assim dizer, em 25 de Novembro e “ratificada” e confirmada em 1 de Dezembro de 1813. Estas três datas-chave têm causado alguma confusão entre os historiadores, agravada pela perda de dois documentos, um dos quais foi, entretanto, recuperado e que é objecto do presente artigo.
Em 25 de Novembro de 1813, os Grão-Mestres de ambas as Grandes Lojas, os dois Irmãos Reais, o Duque de Sussex e o Duque de Kent, representando os Modernos e os Antigos, respectivamente, e os seus comissários, seis no total, reuniram-se no Palácio de Kensington com o único objectivo de assinar os dois manuscritos Artigos de União, idênticos e originais, um para cada Grande Loja. O documento original pertencente aos Antigos encontra-se na Biblioteca e Museu da Maçonaria em Londres. Tem 205 mm de largura e 324 mm de altura, sendo composto por um total de 10 páginas com texto em ambos os lados de cada página e os últimos três lados deixados em branco. Estão assinados na página 7, com o selo de cera de cada signatário, sob a legenda: “Feito no Palácio de Kensington, neste 25 de Novembro, no ano de nosso Senhor 1813, e da Maçonaria, 5813, como se segue:
No lado esquerdo para os Antigos:
- J Deans P. J. G. M. (James Deans antigo Grande 2º Vigilante)
- Edward G. M. (H R H Edward, Duque de Kent e Strathearn)
- Thos Harper D. G. M. (Thomas Harper, Grão-Mestre Adjunto)
- Ja Perry P. D. G. M. (James Perry, antigo Grão-Mestre Adjunto) e
- Jas Agar P. D. G. M. (James Agar, antigo Grão-Mestre Adjunto)
e no lado direito, para a Grande Loja dos Modernos (ou Primeira), quatro assinaturas adicionais:
- Augustus Frederick G. M. (SAR Duque de Sussex Instalado em 12 de Maio de 1813)
- Waller Rodwell Wright Pro G. M. (Pró Grão-Mestre)
- Ionian Isles (Grão-Mestre Provincial das Ilhas Jónicas)
- Arthur Tegart P. J. G. W. (antigo Grande 2º Vigilante)
Embora o Duque de Kent fosse apenas o Grão-Mestre Eleito nesta altura, sentiu-se que ele estava qualificado para assinar o documento como “Edward G. M.”. Cada Grande Loja conservou a sua cópia do original assinado e selado dos Artigos de União.
Duas alterações particularmente significativas, entre algumas outras menores, foram feitas no Artigo II destes documentos. Elas são reveladas na Palestra do Companheiro Douglas Burford de 1993 do Royal Arch Batham “The Anomalies of the Royal Arch – Craft Connection”: as palavras “quatro graus” foram alteradas para ler “três graus” e as palavras “Supreme Degree” na linha seguinte foram alteradas para ler “Supreme Order”. A consequência indirecta destas alterações é que estes mesmos documentos originais tiveram de ser “ratificados” por cada Grande Loja e isto foi feito separadamente nas reuniões especiais das “Grandes Lojas”, que se seguiram à instalação do Duque de Kent e ao sumptuoso jantar de 1 de Dezembro.
O requisito para tal ratificação foi também incorporado no primeiro parágrafo da Cláusula IX dos Artigos da União, com a seguinte redacção:
IX. Estando a Grande Loja Unida agora constituída, o primeiro procedimento após a oração solene será a leitura e proclamação do acto de União, como previamente executado e selado com os grandes selos das duas Grandes Lojas; após o que o mesmo será solenemente aceite pelos membros presentes.
(O segundo parágrafo do artigo IX não parece ter sido cumprido e está fora do âmbito deste breve artigo). Assim, a reunião de 1 de Dezembro destinava-se a cumprir um requisito pré-determinado nos Artigos da União. Por mais incrível que possa parecer, ao fim da noite, depois de um longo dia de cerimónias e muita comida e bebida, os Modernos retiraram-se para se reunirem no Freemason’s Hall e os Antigos permaneceram na Taverna Crown and Anchor e cada uma delas abriu as suas respectivas “Grandes Lojas Especiais”. Aqui os Artigos de União foram ratificados e também confirmados com uma segunda assinatura de cada Grande Mestre aplicando o selo da sua Grande Loja. As cerimónias quase idênticas tiveram lugar em locais totalmente separados, mais ou menos em simultâneo, quando cada Grão-Mestre agiu em nome da sua própria Grande Loja. O texto acrescentado sob o qual cada um dos Grão-Mestres assinou, diz “Na Grande Loja, neste primeiro dia de Dezembro de 1813 d.C., Ratificado e Confirmado, e o selo da Grande Loja afixado”.
Assim, nesta fase dos acontecimentos, em 1 de Dezembro de 1813, as duas cópias dos Artigos de União são assinadas e seladas, ratificadas e confirmadas e os selos das duas Grandes Lojas são aplicados, vinculando legalmente as partes à União. Facto consumado. Como mencionado, este documento original dos Artigos de União pertencentes aos Antigos existe. A versão da Grande Loja “Moderna” (ou Primeira) não existe.
Era agora altura de preparar as celebrações da Grande Assembleia de Maçons em 27 de Dezembro, como requerido pelo Artigo I dos Artigos de União. Entre estes preparativos, foi tomada a decisão de produzir duas cópias fac-similares manuscritas, maiores e em relevo, dos Artigos de União originais, uma para cada Grande Loja, com vista a serem levadas cerimonialmente para a Grande Loja e assinadas durante os procedimentos de 27 de Dezembro. Ambas as cópias destes fac-símiles sobreviveram e estão guardadas nos arquivos da Biblioteca e Museu da Maçonaria em Londres. São maiores do que os originais, medindo 300 mm x 420 mm, e são elaborados e atractivos, com parte do título da primeira página destacado a dourado. As correcções ao Artigo II foram incorporadas, embora seja evidente que estas cópias fac-similares não têm valor legal ou estatuto. Não são documentos originais e não podem alterar o estatuto da União já alcançado em 1 de Dezembro, nem podem acrescentar nada ao acordo da União. Enquanto cópias fac-similares dos artigos, incluem as duas legendas de data que figuram no original, nomeadamente: “Feito no Palácio de Kensington, neste 25 de Novembro, no ano de nosso Senhor 1813, e da Maçonaria, 5813” e: “Na Grande Loja, neste primeiro dia de Dezembro d.C. 1813, Ratificado e Confirmado, e o selo da Grande Loja afixado”.
Os fac-símiles, quando apresentados aos dois Grão-Mestres antes das cerimónias de 27 de Dezembro, estavam em branco, sem assinaturas ou selos. Tal como registado nos procedimentos que descrevem a procissão para a Grande Sala, cada um dos dois Grão-Mestres “transportou o Acto de União, em duplicado”, ou seja, um para cada Grão-Mestre. Estes actos estão agora assinados pelos dois Grão-Mestres e pelos respectivos Grandes Secretários, por baixo da legenda que diz “Na Grande Loja, neste primeiro dia de Dezembro de 1813 d.C., Ratificado e Confirmado, e o selo da Grande Loja afixado”. Eles são testemunhados e assinados: ‘Na presença do Conde Jacob Pontusson De la Gardie 1º Grão-Mestre do Norte’. Em seguida, foram solene e cerimonialmente colocados dentro da Arca da Aliança. É preciso ter em conta e sublinhar que estas duas cópias fac-similares manuscritas dos Artigos de União originais eram apenas representativas, cópias cosméticas, por assim dizer, apenas para efeitos de exibição. Eram, evidentemente, exactas e idênticas aos originais assinados e selados, mas os aspectos jurídicos da União já tinham tido lugar.
Ambos os documentos, agora disponíveis para inspecção, mostram que estão assinados pelos Grão-Mestres e pelos Grão-Secretários (os modernos têm uma assinatura adicional) e testemunhados por De la Gardie, na contracapa de cada documento, por baixo da legenda que diz: “Na Grande Loja, neste primeiro dia de Dezembro de 1813 d.C., rectificado e confirmado e o selo da Grande Loja afixado”. Como esperado, não há selos ou sinais de que algum selo tenha sido aplicado. Não havia necessidade de selos. Além disso, embora o evento estivesse a ter lugar a 27 de Dezembro de 1813, o documento assinado tinha a data correcta de 1 de Dezembro de 1813. Os acontecimentos de 27 de Dezembro de 1813 foram uma manifestação simbólica e uma celebração da unidade, uma vez que a União já tinha sido alcançada em 1 de Dezembro.
A cópia fac-similada dos Artigos de União pertencentes aos Antigos foi subsequentemente seleccionada para ser usada como o “Mestre” ou documento oficial da União e foi, em conformidade, elegantemente encadernada numa capa de veludo decorada e gravada em relevo. A cópia foi assinada pelos quatro signatários dos Antigos (presume-se que os Modernos nunca se deram ao trabalho de assinar este documento ou talvez nunca lhes tenha sido pedido) e, até há pouco tempo, era transportada para a Grande Loja em cada Comunicação Trimestral na pasta especial ainda hoje utilizada e exposta no Museu da Maçonaria.
O fac-símile pertencente à Grande Loja dos Modernos (ou Premier) tem um pedigree interessante, conforme relatado ao autor em correspondência privada por Susan Snell, arquivista e gestora de registos da Biblioteca e Museu da Maçonaria e antiga arquivista da British Records Association (BRA). Escreve que o documento em causa, registado como “BRA 1607″ juntamente com uma grande quantidade de outros documentos não relacionados, foi depositado na BRA em 12 de Agosto de 1968 pelo College of Arms através da Historical Manuscripts Commission (HMC) como oferta. A British Records Association funciona como um centro de arquivos para documentos de solicitadores londrinos e outros registos de potencial interesse histórico. Em 16 de Janeiro de 1976, Janet Foster, então arquivista da BRA, escreveu à Grande Loja e o documento foi subsequentemente entregue a James Stubbs, Grande Secretário na altura, em Charterhouse, onde residia. A recepção do documento ” número de envio 1662″ é acusada com agradecimentos numa carta da Grande Loja Unida de Inglaterra dirigida ao BRA, datada de 5 de Fevereiro de 1976. A descoberta relativamente tardia do documento poderá explicar o facto de não ter sido referido por vários autores que escreveram sobre o assunto, e que poderiam ter chegado a conclusões diferentes se se soubesse da existência de uma versão “Modernos” da cópia fac-similada.
Ilustrações:
Os Artigos de União datados de 25 de novembro de 1813, assinados e com os selos dos dois Grão-Mestres e dos seus comissários. As últimas três linhas abaixo das assinaturas e dos selos são a ratificação e a confirmação “em Grande Loja” (nomeadamente dos Antigos), datadas de 1 de Dezembro de 1813 e assinadas por “Edward”, Grão-Mestre dos Antigos. O grande selo no centro esquerdo do documento é também o da Grande Loja dos Antigos. Este documento está conservado nos arquivos da Biblioteca e Museu da Maçonaria em Londres. Um documento idêntico com a assinatura do Duque de Sussex na sua base e o grande selo da Grande Loja de Inglaterra dos Modernos (ou Premier) está actualmente desaparecido.
Fotografias de David Peabody.
Agradecimentos
Os meus agradecimentos são extensivos ao muito paciente Martin Cherry, o conhecedor bibliotecário da Biblioteca e Museu da Maçonaria, pela sua assistência sem hesitações, e ao Irmão John Hamill por ter partilhado comigo os seus pontos de vista sobre o assunto. John Belton, cujo excelente livro “The English Masonic Union of 1813” viu recentemente a luz do dia, provou ser um amigo e cavalheiro do maior valor. Finalmente, mencionei no texto o Irmão Douglas Burford e Susan Snell.
Yasha Beresiner LL.B.
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)

- As origens Irlandesas da Grande Loja dos Antigos (I)
- Antigos vs. Modernos
- Seis séculos de ritual maçónico
- Como era a Maçonaria dos “Antigos”?
- O grande cisma na Maçonaria: um relato da Grande Loja dos “Antigos”

