Azul é a cor tradicionalmente ligada aos três graus da Maçonaria Simbólica. O azul aparece não apenas no avental do Maçom, mas também na decoração da sala da Loja ou Templo. Porque é que esta cor em particular terá sido escolhida para a nossa Arte não está claro, e foram apresentadas várias explicações no passado, baseadas principalmente em considerações morais ou religiosas, ou em especulação pseudo-histórica.
O objectivo deste artigo é tentar encontrar uma explicação racional para a escolha do azul, com base em factos demonstráveis.
Teorias Tradicionais
Embora, há muitos anos, um respeitado autor Maçónico tivesse declarado categoricamente que “não há nenhum esquema reconhecido ou ciência das cores na Maçonaria”, outros estudiosos propuseram diferentes explicações para a escolha de certos tons. A teoria mais conhecida foi proposta pela primeira vez pelo Irmão F. J. W. Crowe, que sugeriu que a cor azul profundo dos trajes usados pelos Oficiais da Grande Loja de Inglaterra tem origem na faixa da Most Noble Order of the Garter. Quando a “Jarreteira foi instituída, por volta de 1348, a sua cor era azul claro – como a cor dos trajes nas Lojas Inglesas – mas logo após a ascensão de Jorge I, em 1714, este azul claro foi alterado para o azul profundo actual.
O mesmo autor conecta o carmesim usado pelos Grandes Mordomos à fita Order of the Bath, revivida por Jorge I em 1725, enquanto a Grande Loja da Escócia provavelmente tirou seu verde da Order of the Thistle, restaurada por Jaime II em 1687 e restabelecida pela Rainha Anne em 1703. Seguindo a mesma linha de pensamento, o autor passa então a sugerir que o uniforme azul claro da Grande Loja da Irlanda antecipou o azul claro da Order of St. Patrick, fundada por Jorge III em 1783. As teorias de Crowe receberam o apoio do Irmão Henry Sadler, outro conhecido escritor Maçónico, e são citados com aprovação pelo Irmão Bernard E. Jones num capítulo do seu Freemason”s Guide and Compendium intitulado “Masonic Colors and their Symbolism”.
A frágil base factual para estas suposições é uma referência à “seda azul Jarreteira” para descrever o tom exacto de azul, que aparece num pedido de aventais datado de 1734. Três anos antes, as actas da Grande Loja de 17 de Março de 1731, declara que “O Grão-Mestre, o seu Vice e Vigilantes devem usar as suas jóias em ouro ou pingente dourado com fitas azuis nos seus pescoços e aventais de couro branco forrados com seda azul”. Nenhum tom específico foi estabelecido, mas com base na referência mencionada acima, presume-se que era o azul profundo – também conhecido na Inglaterra como azul Oxford – então usado para os trajes da Order of the Garter (Ordem da Jarreteira). Ao mesmo tempo, os Maçons em Lojas, ainda eram obrigados a usar aventais brancos simples.
Branco, a cor original
Isto leva-nos ao primeiro facto incontestável que nos pode auxiliar nas nossas pesquisas. O facto de que o branco era a cor do avental (que era o único item de “regalia” então conhecido) universalmente usado pelos Maçons antes de 1732 ou por aí. Em 24 de Junho de 1727, uma resolução da Grande Loja ordena que o Venerável Mestre e os Vigilantes de todas as Lojas devem usar as jóias da Maçonaria penduradas em fitas brancas. Além disso, o retrato gravado de Anthony Sayer, o primeiro Grão-Mestre da Primeira Grande Loja de 1717, copiado de uma pintura de Joseph Highmore, mostra o Grão-Mestre vestindo um avental branco liso sem qualquer decoração.
A importância deste facto não pode ser exagerada. Isto significa que o uso do azul em Lojas “azuis” não é uma tradição vinda de “tempos imemoriais”, mas sim uma invenção “moderna”, idealizada após a fundação da Primeira Grande Loja pelo mesmo grupo de Irmãos que compunham os rituais de então, que planeou o sistema de três graus e que, em suma, moldou a Maçonaria Simbólica como a conhecemos até hoje.
Algumas Grandes Lojas continuam a tradição, e todos os Maçons, do Aprendiz ao Grande Mestre, usam aventais brancos lisos. A Grande Loja de Washington D.C. é um exemplo, e algumas Grandes Lojas europeias fazem o mesmo.
A descripção da Cor
Os escritores anteriores deram muito peso ao facto de que o tom de azul a ser usado pelos oficiais da Grande Loja ser descrito como “Azul Jarreteira”.
Na verdade, apenas no Século XIX foi possível começar a medir a cor e usar definições científicas baseadas nos comprimentos de onda da luz. Até então, o método aceita para especificar a cor era usar uma amostra ou referir-se a algum exemplo aceite para identificar o tipo de tom pretendido. Esta prática continua até hoje na linguagem quotidiana.
Assim, referimo-nos a amarelo narciso, limão, vermelho bordot, cereja, verde água, cinza antracite, verde musgo e assim por diante. Existem centenas destes nomes em uso, tanto na indústria têxtil quanto em todos os outros campos que usam cores. Às vezes, os nomes são alegóricos ou metafóricos, como “azul meia-noite” ou “vermelho tango”, mas, na maioria das vezes, os nomes das sombras referem-se a exemplos de materiais específicos. O uso da expressão “azul Jarreteira”, então, não significa nada mais do que uma descrição da tonalidade pretendida, e qualquer outra interpretação é pura especulação. Na verdade, como já foi observado, o mesmo tom também é conhecido como “azul Oxford”, e o tom mais claro usado nos paramentos das Lojas em Inglaterra é chamado de “azul Cambridge”, mas nenhuma conexão entre estas duas universidades e a Ordem, foi alguma vez apresentado.
A Conexão Hebraica
Nenhum estudante de rituais Maçónicos pode deixar de notar o grande número de senhas e palavras “secretas” usadas em diferentes cerimónias que parecem ter origem hebraica. A alta estima em que a Bíblia era tida, o estudo do hebraico como uma língua clássica necessária para entender completamente o Livro Sagrado e as muitas conexões entre as lendas Maçónicas e o Templo do Rei Salomão, todos contribuíram para essa abundância de termos hebraicos. Com o passar do tempo, algumas palavras foram pronunciadas incorrectamente e foram corrompidas, a tal ponto que um falante de hebraico de hoje tem dificuldade em tentar adivinhar quais eram as palavras originais. Outras, por outro lado, passaram de uma geração a outra sem mudança.
Os mesmos Irmãos activos em Inglaterra durante a primeira metade do Século XVIII que, como já observado, moldaram a Maçonaria moderna, e muitos dos quais eram huguenotes, protestantes franceses que escaparam da perseguição em França, estavam bem familiarizados com as Sagradas Escrituras, tanto na tradução como no original. Portanto, ao procurar um motivo para a escolha do azul nos trajes Maçónicos, devemos olhar nessa direcção.
O Irmão Jones, no capítulo já citado, também voltou a sua atenção para esta possibilidade e menciona os usos litúrgicos do azul encontrados na Bíblia, citando “… tu farás o manto do éfode todo de azul“(Êxodo, 28:31 ). O original hebraico usa a palavra “tchelet” (pronunciada com um “ch” suave como em alemão), que significa azul jacinto, e na Bíblia esta palavra aparece geralmente junto com a palavra “argaman”, ou roxo. Jones também observa que “para os judeus antigos, o azul era a principal cor religiosa – o sumo sacerdote usava uma túnica azul e um dos véus do tabernáculo era de uma cor azul conhecida como tekelet [sic] (significando perfeição). Diz-se que nos dias antigos os juramentos mais solenes eram feitos em altares azuis”.
É surpreendente que, tendo progredido até aqui, Jones e os outros escritores que estudaram o assunto não tenham prosseguido nesta linha de investigação.
Tchelet e Argaman
A cor conhecida na Bíblia como “tchelet” foi descrita de várias formas como azul escuro, azul púrpura, azul claro e até esverdeado. A interpretação mais aceite é que se refere a um tom de azul-celeste, o azul profundo dos céus do sul do Mediterrâneo, em vez dos céus claros do norte. Durante gerações, estudiosos discutiram sobre o significado exacto de “tchelet e argaman”, que parecem estar juntos com muita frequência para ser mero acaso. Por exemplo, em Êxodo 26: 1 são dadas instruções para fazer dez cortinas para o tabernáculo, de fios de linho retorcido de azul, púrpura e escarlate. O azul neste versículo é “tchelet”, o roxo é “argaman” e o escarlate, que não nos interessa para o nosso estudo (embora seja relevante para o simbolismo do Arco Real), é “Shani”.
A conexão entre tchelet e argaman foi finalmente resolvida alguns anos atrás, quando cientistas em Israel fizeram um estudo químico dos métodos e materiais de tingimento usados pelos fenícios, que fizeram do roxo de Tiro o tom mais conhecido e caro do mundo clássico . Os corantes necessários eram extraídos de vários tipos de moluscos encontrados em grandes quantidades ao longo das margens do Mediterrâneo Oriental e também noutras partes do mundo.
Acontece que ambas as cores têm composição química semelhante, a diferença é que “tchelet” tem um corante azulado adicional (chamado indigotin), que falta no “argaman”, e que o torna mais vermelho do que “tchelet”. O tom fundamental do “tchelet”, é então, um azul arroxeado, também conhecido como jacinto.
O éfode
O “tchelet” e o “argaman” tembém aparecem juntos em Êxodo 28, onde instruções são dadas sobre como fazer as vestes sagradas do Sumo Sacerdote (estas eram um peitoral, éfode, manto, túnica tecida, turbante e faixa ou cinto): “Faça-os usar fios de ouro, azul, roxo e escarlate …”(28: 5). Os mesmos materiais são especificamente indicados para o éfode (28: 6) e o peitoral (28:15). O manto deveria ser todo em azul (tchelet) (28:31). É claro, então, que o azul era a cor dominante nas roupas do Sumo Sacerdote. Além disso, a forma e a maneira de usar o éfode faziam com que ele se parecesse com um avental, especialmente o avental longo que costumamos associar a outras profissões, como padeiro ou ferreiro, e de facto alguns dicionários definem o éfode como uma espécie de avental.
É altamente plausível, então, imaginar os nossos Irmãos do Século XVIII decidindo usar aventais Maçónicos azuis em imitação do avental azul (éfode) usado pelos antigos sacerdotes hebreus. O Irmão Michael Segall, numa carta publicada no The Philalethes de Dezembro de 1994, acrescenta o facto interessante de que “Operativos antigos e actuais, ainda activos e numerosos na França, consideram o azul como a SUA cor. Se somos, como muitos pensam, os seus sucessores, isto poderia explicar a noção de “Maçonaria azul””.
Safira e o Volume da Lei Sagrada
Existem, entretanto, razões adicionais para ver no azul a cor perfeita para os trajes Maçónicos.
A raiz da palavra hebraica s-p-r (samekh-peh-resh) dá origem a várias palavras com significados cognatos: os verbos e substantivos relacionados a contar, recontar ou narrar e numerar. Cifra e zero vêm da mesma raiz. Isso também serve para construir o nome da preciosa pedra azul: a safira. Na verdade, a etimologia da palavra safira remonta à palavra hebraica original “sapir”, passando para as línguas europeias através do Grego.
A Safira era a pedra amada de Saturno e, na Bíblia, Ezequiel vê Deus sentado num trono feito de safira (1:26).
Além disso, a palavra “esfera” em hebraico tem a mesma raiz (em hebraico, as letras f e p são uma). As esferas celestes são de azul ou “tchelet”, como indicado acima. A cor e a esfera dos céus têm o mesmo nome.
Finalmente, s-p-r pronunciado “sefer” significa livro, e o livro por excelência é o Livro dos Livros, a Bíblia.
Finalmente concluímos a nossa pesquisa. Há uma conexão clara e directa entre o azul e ambas as vestes dos sacerdotes no Templo de Jerusalém, e o Volume da Lei Sagrada, mantido em tal veneração nas nossas Lojas.
Nenhuma outra cor poderia ter sido escolhida, porque nenhuma outra cor tem tantos significados e simbolismos caros ao coração de um Maçom. O branco foi mantido para os graus de Aprendiz e Companheiro, em virtude das suas conexões semânticas com a inocência e a iniciação, mas o azul tornou-se o atributo insubstituível do Mestre Maçom.
Leon Zeldis, FPS, 33° – PSGC, Supremo Conselho do Rito Escocês para o Estado de Israel – Grão-Mestre Adjunto Honorário
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Referências
- Arthur Edward Waite, A New Encyclopedia of Freemasonry, London 1921, vol. 1, p. 113.
- “Colors in Freemasonry”, Transactions of the Quatuor Coronati Lodge, vol. 17 (1904), pp. 3-11.
- Bernard E. Jones, Freemason”s Guide and Compendium, G.G. Harrap, London 1950, p. 470.
- Ernest Klein, A Comprehensive Etymological Dictionary of the Hebrew Language for Readers of English, Carta, Jerusalem, 1987, s.v. “Tchelet”.
- Israel Ziderman, “The Difference between Tchelet and Argaman” (in Hebrew), Yalkut, Nº 104, Jerusalem, January 1985, p. 38.
- Webster”s New Collegiate Dictionary, Merriam-Webster, 1981, s.v. “Ephod”.

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Muito bom artigo.
Com ele mais uma vez fica constatado que não há nada no Ordem Maçônica que esteja lá por acaso.
Parabéns ao Irmão Leon Zeldis.