As bases filosóficas da Maçonaria (IV)

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platão, maçonaria

Diferentes dimensões da religiosidade

Da Religiosidade: Eis um processo inerente à natureza humana, que visito ao longo do panorama evolutivo, e que se mostra ondulante, em baixos e altos relevos, ora como resultado da fé (iluminação anterior), ora como abstracto, das crenças (fenómeno intersubjectivo, sociocultural) expressando valores, estabilizadores sociais, a tal ponto que, segundo Pontes de Miranda, “o factor religioso estabiliza mais que o económico e o jurídico”(Introdução a política Científica). A religiosidade configurada deste modo a concretude de toda a experiência humana como existencialidade no universo dos conceitos (doutrina), no universo dos valores (intuição) e no universo social (instituições).

Daí que convergem sobre o sagrado diversas linhas – da teologia, da psicologia, sociologia, antropologia, visualizando-se o fenómeno ora concentrado na pessoa, ora no grupo social, sugerindo a imensa “variedade de experiências religiosas” de que tratou W. James.

Como valores e como instituição social, a religiosidade é objecto da teoria social – objecto também da análise política. Arnold Brecht um dos maiores politicólogos actuais – desenvolve na sua teoria política uma análise original, identificadora dos valores supremos do século, e chega a surpreender até os cientistas sociais com a valorização que atribui à religião: “Os cientistas políticos ocidentais são unânimes em concordar que a religião é um factor de grande força da génese da sociedade moderna. Até o próprio Marx, hostil aos dogmas religiosos, reconheceu que a “democracia assenta no princípio do valor soberano o indivíduo o qual por seu turno, tem os seus fundamentos no sonho do Cristianismo de que o homem possui uma alma imortal”(in Marx – Engels, Werke, I, 550, ed, Dietz Verlaz, Berin, 1966).

Outro grande politicólogo actual, Ernst S, Graffithm sustenta que “A democracia está a depender de requisitos prévios culturais as chamadas sete atitudes básicas, que são: amor à crença na liberdade, participação na vida comunitária, integridade do debate, obrigação assumida livremente pelos grupos económicos de servis à sociedade, liderança em função do interesse público, paixões canalizadas para fins construtivos, finalmente a amizade e a colaboração entre as nações”.

Uma constelação de valores, individuais e sociais, leva a concluir que exigências de ordem metafísica são patentes na teoria política o social dos nossos dias, justificando ainda que Brecht, anteriormente citado, afirmasse “a religião ainda hoje é, em inúmeras situações políticas, um factor relevante e uma poderosa força motivadora, reconhecida pelos cientistas políticos do século XX” (op. cit. p. 607). Anteriormente, sociólogos como Weber e Durkheim preocuparam-se nas suas pesquisas de campo com a função relevante da religiosidade, objecto que foram das suas teses criadoras.

Dos carismas

Não há nada mais comovente que o Capítulo referente aos Carismas, enumerados por São Pedro, na Bíblia. E também de mais profundo, os olhos dos teólogos, ou dos psicólogos e metapsiquistas: defrontar-se com essas aptidões, esses dons, de que se investem e revestem certas personalidades, tornadas estranhas e sedutoras na convivência dos mortais.

O apóstolo São Paulo enumera então esses Carismas:

  1. Sophia – Sabedoria, penetração nos mistérios, na revelação;
  2. Gnôsis – ciência, aptidão para explicar o Cristianismo;
  3. Pistis – fé, conhecimento extraordinário das verdades reveladas;
  4. Lámata – curas;
  5. Energémata – Dom dos milagres;
  6. Profétia – Dom da profecia;
  7. Diakrises – discernimento;
  8. Géne Glossôn – Dom das línguas;
  9. Epmenéia glosôn – interpretação das línguas;
  10. Diakonía – ministério.

O Apóstolo Marcos define o Carisma como algo concedido pela Graça, portanto algo sobrenatural, caracterizando-se como “uma efusão do Espírito Santo, um sinal da era messiânica (16, 17).

O carisma tem sido preocupação dos grandes espíritos da humanidade. Platão fala-nos de “o fogo do olho… fogo interior que brilha fora como se fosse um relâmpago”(Temeu 69), ou como “A luz e a visão que se parecem com o sol, a ciência que é luz para os olhos cegos” (A República, 508).

David (Salmo, 34,9) disse “Porque em ti está o manancial da vida, na tua luz veremos a luz: Mateus (6,22) fala nos “olhos que são lâmpadas do corpo”. E finalmente Paulo (Epistola aos Efésios, 6,9) tenta descrever: Porque o fruto da luz consiste em toda a bondade, justiça e verdade:

Do amor

Eis o maior dos carismas, objecto então das mais belas páginas da estética literária na Bíblia.

Destaque-se o estilo, a sua beleza, a alta expressividade do Hino à Caridade, de São Paulo, e, “I Coríntios” (13).

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos se não tiver amor, serei como o bronze, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o Dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, ainda entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará, o amor é paciente, benigno, não arde em chamas de ciúme, não se ufana, não se orgulha.

Não se conduz inconvenientemente, não procura os interesses, não se exasperas não se ressente do mal.

Não se alegra na injustiça, mas regozija-se na verdade.

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba. Mas, havendo profecias, serão aniquiladas, havendo línguas, cessarão, havendo ciências, passará”.

Para completar a beleza formal da citação acima, temos presente a subtileza da citação joanina (15,13): “Ninguém tem maior amor que aquele que deu a vida por outrem”.

Sendo o amor maior carisma, é dele que devemos partir para enfrentar a sua posição contexto humano, na problemática angustiosa da imperfeição humana.

O amor, que é a motivação maior ou causação de todos os valores e acções, desempenha também uma função de valor ético e de valor social, neste último caso aglutinando os demais valores.

O primado do valor amor surge da palavra de Isaías (1,18), ao dizer que “ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles tornar-se-ão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim tornar-se-ão como a branca lã”.

A chamada “ordem do coração” se instaura sob a sua motivação.

A Fé: Conceito, Intuição e Mistério

A fé é algo profundo, que se identifica como o mistério (processo de iluminação interior, realidade do universo da revelação, que é intuição (captação supraintelectal) e que se revela também como conceito (intelectualização do acto de fé).

O termo Fé: hebraico “emunã”, grego “pisitis”, latim “fides”, alemão “glaube”, inglês “faith”, francês “foi italiano” “fide”, é referido explicitamente duas vezes no Antigo Testamento:

  1. Deuteronómio (32,20): “E disse, esconderei o meu rosto deles, de perversidade, filhos em quem não já liberdade”.
  2. abacuque (2,4): “Eis que a sua alma se incha, não é dele, mas o justo pela sua fé viverá”.

As formas verbais que expressam o sentido da fé são: crer, acreditar, confiar, esperar. Vê-se portanto que a fé é também esperança.

No Novo Testamento, o termo é difuso, referido duzentos e quarenta vezes no texto, de que podemos destacar o seguinte:

  1. A fé como “cura desejada” – Mat. 5.34-36; 9,23.
  2. A fé como “aceitação da boa nova” – Paulo, Ep. Rom. 1,8;10,17; I Cor. 25; 15.1.
  3. A fé como “firme esperança” – Paulo, Ep. Heb. (hy-póstasis);
  4. A fé como “amor activo” – João, 1,2; 5,8,31; 14,21-23.

O acto de fé implica portanto em cartisma “termo paulino ou amor activo” (expressão joanina), conotações essas que temos como essenciais, sobre outras que julgamos acidentais, como: confiança, segurança, firmeza, fidelidade, justificação. Cura desejada.

Neste modo de entendermos, a fé distingue-se da simples crença, caracterizando-se como algo mais puro e misterioso. A fé é mais interiorizada. A crença é mesclada, um sincretismo inerente ao facto social, e neste caso objecto das ciências sociais.

Em grego, o verbo “pisteuo” = Crer, e “pistis” = fé, tem as seguintes conotações:

  1. “pisteu” como dativo simples dar crédito, aceitar como verdade o que se afirma: Mat. 21,31: “porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram”.
  2. “pisteo” seguido de “que”: a fé depende de factos: João, 8,24: “Por isso eu vos disse que morrereis nos vossos pecados”;
  3. “pisteo” seguindo da preposição “eis” = crer dentro em Cristo: João, 15,5: “eu sou a videira, vós os ramos”. Quem permanece em mim, e eu nele, essa dá muito fruto: Porque sem mim nada podeis fazer”;
  4. “pisteo” no sentido de “curar”: Marcos, 9,23: “tudo é possível àquele que crê”.

A fé dos filósofos e dos sábios

Santo Agostinho, in “De Praedestinatone” (45), admite a fé como algo que se faz com o entendimento e a verdade. Nesta linha, Santo Tomás de Aquino, “Suma Theologiae” (2ª. 2ae, q,2,a,9) então define: Crer é um acto do entendimento que dá o assentimento à verdade divina, sob o império da verdade movida pela graça.

Menciona a seguir as seis definições da Fé, onde ressalta que a mais perfeita é a de São Paulo “Argumento das coisas não vistas”(ibidem q.4.a.1), na qual se inclui “objecto da esperança”.

A exegese tomista não é só teologia mas filosófica, examinando os diversos aspectos como: se ela é adequada, se é a substância das coisas de que se esperam, argumento dos que não se vêem, ou se encontra no atendimento como no sujeito, se a caridade é forma de fé, se é ainda informe e podendo converter-se em algo formado, ou pelo contrário, é uma virtude, se é única, se a primeira das virtudes, finalmente se é mais certa que a ciência e demais virtudes intelectuais.

Santo Tomás, ainda, responde que “A fé é superior a elas em certeza e em razão da sua matéria, pois versa sobre coisas eternas, que não podem mudar”, sendo que “as três restantes – sabedora, ciência e entendimento – versam, segundo a prova, sobre coisas necessárias”. Assim, a certeza dependeria da graça.

Bergson reconhece, também a diferença existente entre fé e crença, sendo esta contingente, e aquela, necessária (Mélanges, 840).

No seu livro – Les Deux Sources de la Morale et de la Religion – distingue a “religião estática” da religião dinâmica”, cuja descrição permite mostrar o processo específico de cada forma de religiosidade. A verdadeira religiosidade, a da mística dinâmica, é o que denominamos de fé, enquanto a religiosidade da crença configura a religiosidade estática ademais a exemplificação, como os nomes que concretizam a “verdadeira mística”, como João da Cruz, deixa patente a diferença entre o domínio da fé e da crença.

Parece-nos, assim, que o filósofo se identifica no particular com a interpretação bíblica. Dizendo, alhures (Oeuvres,1, 163) que “A distinção é radical entre a mística e a dialéctica”, explicarmos que esta justifica muitas vezes a crença. Mas a que se coloca acima de religião possui os seus domínio, axiológico e existencial.

Scheler e os valores religiosos

Na filosofia Scheleriana, permite-se distinguir-se uma forma de religiosidade social, histórica, com a sua representação antropológica, de outra forma de religiosidade “que não é de modo algum uma herança sociocultural.

Por outras palavras: há o religioso de “conteúdo intuitivo, vivido sob a forma de “Revelação”, com a sua forma verbal de comunicação” e “a tradição e organização eclesiástica constituída em dogmas rígidos, uma sistematização dos constituintes dogmáticos” (303), e, além disso, “uma ideia exiológica a priori”. Independente de qualquer experiência histórica ou indutiva.

Esclarecemos, ademais, que “em realidade, a religião possui os seus domínios, axiológico e existencial, e a sua fonte de experiência a graça (pessoa singular) e “revelação” (pessoa humana).

Não se confunde, também os sentimentos espirituais com os simples sentimentos religiosos ou estados efectivos. Aqueles não seriam condicionados por estes.

Assim, à sociologia e à antropologia e à história, competiriam analisar esse aspecto projectado no exterior e no social, à psicologia, a análise do sentimento religioso, enquanto à teologia tenta decifrar a comunicação da palavra. Sentimento, espiritualidades, autênticas – o acto de fé, do domínio dos factos espirituais, escapa à análise e permanece nos mistérios, no transhumano, ou seja o humano penetrado misteriosamente por algo que lhe é superior, como o conhecimento dos carismas.

Scheler distingue, como Bergson, as duas formas de religiosidade e as duas formas de moral (aqui a moralidade).

O primeiro fala-nos da Moral e da Moralidade, da religiosidade histórico social e da religiosidade radical da instituição axiológica e da Revelação. O segundo adverte-nos da religiosidade estática e da religiosidade dinâmica. Duas expressões da mesma visão binocular do fenómeno religioso.

Einstein e o “Hino Religiosus

Einstein é o exemplo do sábio moderno em cuja personalidade irrompo “Hino religiosus”. A sua preferência pela música de Mozart – música de conteúdo religioso – prova essa afinidade, quando invocava o termo “eternidade” ao ouvi-la muitas vezes.

E ao ouvir a “Opus 111” de Beethben, com o grande pianista Clynes ao piano, sentia uma alegria transfiguradora, uma experiência mística. O próprio Beethoven dissera: “Quem compreende esta música está salvo”.

Escrevendo in “Como eu vejo o Universo”, (p.99), disse o seguinte: “Se o judaísmo dos profetas tal como Jesus Cristo o ensinou lhes retiram os acessórios, em particular os sacerdotes, fica então uma doutrina em condições de curar a humanidade de todas as enfermidades”.

Indagado se acreditava na existência histórica de Jesus, responderia que “Ninguém pode ler os Evangelhos sem sentir a presença central de Jesus, por que a sua personalidade se encontra em cada palavra, e nenhum mito está cheio de semelhante vida”.

A sua experiência religiosa não se reduz a uma simples estesia do universo físico – uma visão panteística – porque admitia que “Tudo está determinado, do princípio ao fim, por forças sobre os quais o homem não possui controle algum, do isento à estrela, e que os seres humanos, as plantas ou o polvo cósmico, tudo dança numa música misteriosa”.

Procura definir particularmente uma religiosidade o tipo cientifico: “dificilmente encontrareis um espírito que penetre profundamente na ciência sem que não possua uma religiosidade característica, que distingue o Deus-temor (que justifica as cartas sacerdotais, do Deus-providência) (que anima a humanidade e é protector das almas)”.

A experiência religiosa apresenta assim várias dimensões, sempre como algo que temos ou tem tocado os maiores espíritos da humanidade. A sua universidade e objectividade são incontestáveis. Das crenças e do conhecimento mais recente da experiência religiosa oriental e africana, impõe-se pesquisar as potencialidade do psiquismo humano, a “pistis sophia” e a sua eficácia na solução dos problemas humanos.

Conclusões para a Maçonaria

  1. A Filosofia maçónica é um sincretismo filosófico formado de filosofias e religiões orientais antigas, e que, por isso, tem como postulado religioso a tolerância.
  2. É o primeiro exemplo de Ecumenismo religioso na história da humanidade, porque todos os que fazem o juramento iniciático de Crer em Deus podem nele Ter ingresso, além de obedecer a outra exigência de ordem moral e social.
  3. É sociedade litúrgica secreta (esotérica) com aberturas como sociedade esotérica (exterior, aberta, social, comunitária) e, que, cumpre deveres morais e sociais de fidelidade e beneficência.

João Alves da Silva – Academia Maçónica de Letras de Alagoas – membro Honorário da Academia Maçónica de Letras, Ciências e Artes no Nordeste do Brasil.

(Continua – Ligação para a Parte V)

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