A Maçonaria constrói-se no encontro de pedras brutas
No silêncio do Templo, mas também na fricção de ideias, no debate fraterno, na busca sincera de sentido. Quando dois Mestres discordam sobre o modo certo de acompanhar os Aprendizes, a discussão que nasce não é um problema. É um sinal de vitalidade.
Foi precisamente isso que aconteceu numa troca de ideias recente entre dois Irmãos, dois Mestre Maçons e eternos Aprendizes. Um confronto respeitoso entre duas formas de entender o papel do Mestre na formação dos mais novos, um diálogo intenso que revelou, mais do que certezas, dois caminhos possíveis dentro da mesma Tradição.
Presença Activa
Para um dos mestres, acompanhar significa estar presente, literalmente. Um Mestre deve sair do templo com os Aprendizes quando estes necessitam de sair, por a loja subir de grau, por exemplo. Deve dirigir os seus trabalhos, orientar os seus raciocínios, corrigir os seus erros logo à nascença. A ideia é simples, se queremos formar bons Maçons, temos de estar próximos.
O abandono é o inimigo silencioso da Iniciação, quem defende esta posição acredita que muitos dos desvios que vemos em alguns Irmãos mais avançados talvez tenham começado precisamente aí, na ausência de quem os orientasse no momento certo.
Este modelo, mais próximo da pedagogia clássica, propõe que o erro deve ser evitado na origem e que a primeira abordagem a um conceito deve ser guiada, para que o entendimento não fique enviesado. Há aqui um zelo, até nobre, que parte da convicção de que se deve cuidar do Aprendiz como quem planta uma árvore. É preciso tutorá-la, protegê-la do vento, guiá-la na direcção certa.
Após o aprendiz ter as suas raízes estáveis, pode partir para um caminho solitário e de autoaprendizagem pois, a profundidade das raízes não vai permitir que ele saia do terreno em que se encontra.
Confiança na Jornada
Mas há outra forma de ver a mesma floresta. A Maçonaria é, por natureza, um caminho individual, cada um trilha o seu percurso de aperfeiçoamento com as ferramentas que lhe são dadas e claro também com as que for buscar por si próprio. A presença dos Irmãos é essencial, mas não para orientar os raciocínios, corrigir erros ou dirigir os trabalhos. É para inspirar, esclarecer quando solicitado, abrir portas e respeitar o ritmo de cada um.
Nesta visão, o erro faz parte do processo iniciático, não deve ser evitado a todo o custo, mas sim integrado, compreendido e ultrapassado. Não há crescimento sem tentativa e não há liberdade sem responsabilidade.
Os Aprendizes são buscadores, com intuições próprias, dúvidas legítimas e formas únicas de interpretar os símbolos. A instrução existe. e é crucial, mas nem toda se dá com um Mestre ao lado. Ela acontece nas suas buscas, em Loja, entre colunas, no exemplo dos outros, nas leituras, na repetição do ritual, nas pranchas, na reflexão individual.
O Mestre pode orientar, provocar, lançar desafios. Mas se precisar de estar sempre presente para que algo aconteça, talvez esteja a impedir mais do que a ajudar.
O Que Está em Causa
No fundo, o desacordo não é sobre a importância da instrução, nisso concordam. A questão é o método, e, acima de tudo, o limite entre orientar e condicionar.
A posição da Presença Activa parte de uma boa intenção, evitar os desvios e erros precoces de forma que o caminho se faça sem percalços. Mas corre o risco de transformar o processo iniciático numa tutoria constante, que restringe o leque de ideias ao essencial e direcciona a forma de pensar.
Da mesma forma que o erro pode ser aceite, também existem exemplos de erros que saíram caros tanto à maçonaria como às lojas e, individualmente, aos próprios maçons. Assim, uma Presença Activa ajuda a que o erro seja evitado desde o início.
A posição da Confiança na Jornada defende que o verdadeiro Mestre é aquele que aponta o norte e depois confia que o Aprendiz saberá, a seu tempo, lá chegar, mesmo que se possa perder algumas vezes no caminho.
Pode errar? Claro. Mas também pode surpreender. A Maçonaria precisa, talvez mais do que nunca, de aprendizes que surpreendam, não que repitam, que errem, mas que aprendam.
Discordar Também é Construir
No fim deste diálogo, ninguém perdeu, só a Maçonaria ganhou. Ambos têm razão na sua visão. Um vê os perigos do abandono; o outro, os riscos do excesso de tutela. Do mesmo ritual surgiram duas interpretações diferentes.
Ambos protegem o que mais importa, o processo de crescimento. A discordância é sobre a distância certa a manter e sobre o que significa, afinal, “acompanhar”.
Talvez, como em quase tudo na Maçonaria, a resposta esteja no equilíbrio. Entre presença e ausência. Entre direcção e liberdade. Entre o malhete que guia e o silêncio que permite descobrir. Porque cada caminho é único, mas nenhum se faz sozinho.
Mais vale discordar e debater, do que afirmar a embirrar.
João B., M. M. / D. G., M. M. – R. L. Mestre Affonso Domingues nº 5 (GLLP / GLRP)
Fonte

- A importância que um Padrinho tem na formação de um maçom…
- Formação – A pedra bruta
- O Maçom e a formação: a via do estudo
- Formação – O Avental do Aprendiz
- Transformação de pedra bruta em pedra cúbica


A dica aos Aprendizes, especificamente, é a leitura COMPLETA do seu respectivo Ritual, desde a capa. Isso vale também para toda e qualquer fonte CONFIÁVEL de dados, como por exemplo, documentos considerados basilares para a Ordem, assim como os de posse e os expedidos pela Potência. Muito da “discordância” sobre temas que envolvem a maçonaria seriam sanados apenas pela atenção e dedicação aos rituais, por exemplo. Temas que não estão no arcabouço da doutrina maçônica também devem ser desconsiderados, pois podem comprometer a compreensão e fazer com que o novo maçom, principalmente, não Compreenda a Luz do Caminho para onde ele deve ir…
Gostaria de começar por felicitar os II. da R. L. Mestre Affonso Domingues pelos dois temas com que nos presentearam, qualquer um deles de extrema importância para a Maçonaria. O primeiro sobre a “fricção de ideias, no debate fraterno, na busca sincera de sentido”. O segundo sobre a instrução maçónica, e é precisamente sobre este que gostaria de tecer alguns comentários.
Em primeiro lugar reproduzindo uma citação de Harry Carr, ilustre membro da “Quatuor Coronati Lodge”, do seu livro, o “Ofício do Maçon”: “a parte principal do nosso ensinamento provém do preceito, do exemplo e da exortação”.
A segunda reproduzindo um excerto das instruções do Ritual do primeiro grau do REAA, em que se pode ler, a dado passo:
“P.- Dá a palavra sagrada.
R. – Não sei ler nem escrever, mas somente soletrar. Diz-me a primeira letra, eu dir-te-ei a segunda.
P. – Porque dizes “não sei ler nem escrever”? A que se refere a tua ignorância?
R. – À linguagem emblemática usada pela Maçonaria. É progressivamente que se descobre o seu sentido, e o iniciado, no começo da sua carreira, soletra com dificuldade aquilo que mais tarde será para si uma leitura corrente.
P. – Que te indica a forma de soletrar a palavra sagrada?
R. – Indica o método de ensino da Maçonaria, que exige o esforço espiritual de cada um, evitando, contudo, inculcar dogmas. Põe-se o Aprendiz no caminho da verdade dando-lhe simbolicamente a primeira letra da palavra: ele deverá encontrar a segunda; depois indicasse-lhe a terceira, a fim de que ele adivinhe a quarta.”
Julgo que a partir destas duas citações, conjuntamente, com algumas das teorias de aprendizagem, será possível abrir novos caminhos para aprofundar a reflexão sobre o processo de aprendizagem que mais se adequa à Maçonaria.
As pessoas possuem escassos padrões comportamentais inatos. As competências comportamentais, são adquiridas fundamentalmente através de experiências de aprendizagem, desenvolvidas com base em:
– Resultados da prática (experiência direta – resultante de ação e experimentação e avaliação dos respetivos efeitos);
– Resultado da observação dos comportamentos dos outros e das respetivas consequências (experiência indireta – resultante da observação e ideação);
– Resultado de ações de mediatização (experiência mediatizada – resultante do controlo intencional, significativo e estruturado, exercido pelas pessoas experientes sobre os inexperientes, desafiando-os a adotar voluntariamente comportamentos responsáveis, ouvindo-os e estimulando-os afetiva e cognitivamente).
Destes três tipos de experiências de aprendizagem, o mais rico e com maior impacto é, sem dúvida, segundo Vygotsky, o das ações de mediatização.
De facto, segundo ele o desenvolvimento humano surge da dialética e da tensão entre fatores externos socioculturais e fatores internos psicobiológicos, primeiro de forma inter-individual e só depois de forma intra-individual, ou seja, aprendemos primeiro em interação com os outros, e posteriormente, em termos estritamente pessoais ou psicológicos.
importância que a Maçonaria confere à aprendizagem, é simultaneamente ilustrativo de que o seu método privilegia as ações de aprendizagem mediatizada, mas sem inculcar dogmas, não desprezando as restantes.
Numa Irmandade que “aspira ao conhecimento e à virtude e em que o salário dos seus membros é o aperfeiçoamento de si próprios”, o processo fundamental de aprendizagem teria forçosamente de ser o processo mais rico de todos, e o que concita maior atenção e requer maiores cuidados.
Na verdade, se pretendemos ter no seio da Loja uma mediatização rica que permita desenvolver nos mediatizados maiores capacidades de transferência de estratégias para tarefas de aprendizagem novas e inéditas, temos que investir fortemente na formação dos Mestres, a fim de que eles aprofundem o seu estilo mediatizador na interação com os Companheiros e Aprendizes, interpondo-se entre eles e as situações oriundas quer do seu interior, quer do seu exterior, moldando-as e transformando-as em concordância com as suas necessidades de aprendizagem maçónica mediatizada, por forma a proporcionar e promover situações que estimulem os mediatizados a interagirem dinamicamente com elas, valorizando desse modo sucessivamente os seus processos e as suas estruturas cognitivas.
Este nobre papel deve ser especialmente exercido, ao nível de cada Loja, de uma forma empenhada e sistemática, pelos dois Vigilantes, sob o alto patrocínio do Venerável Mestre e o olhar muito atento do Orador.
Mas a Maçonaria, para além da experiência mediatizada, utiliza também, no processo de aprendizagem, as experiências direta e indireta, como bem nos diz Harry Carr.
Neste particular é importante destacar dois aspetos.
Primeiro, o papel dos Mestres, com destaque para os mais antigos, cujos comportamentos observados são passíveis, na experiência indireta, de se constituírem em modelos de observação e ideação para todos os Companheiros e Aprendizes, o que mais uma vez os responsabiliza de forma muito particular.
Segundo, na experiência direta, todo o maçon deve preocupar-se em minimizar os erros cometidos, o que passa pela aplicação sistemática de medidas corretivas e preventivas aos seus comportamentos inadequados, pois ambas se destinam a eliminar as causas dos erros, procurando as primeiras que eles não voltem a ser repetidos e as segundas a evitá-los em definitivo. Um maçon não pode coabitar com o erro sistemático, sem nada fazer para lhe pôr cobro, pois isso tem um nome: laxismo.
A minha intenção com esta partilha nunca foi a ter uma palavra final sobre este assunto, mas tão só o de proporcionar aos II., novos motivos para, através de uma pesquisa sistematizada e profunda reflexão, poderem discorrer sobre este tema de vital importância para a maçonaria, sem nunca nos esquecermos de que “mais vale discordar e debater, do que afirmar a embirrar.”