Catarse Maçónica

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Na filosofia da antiguidade grega, a catarse [1] constava na libertação, expulsão ou purgação daquilo que é estranho à essência ou à natureza de um ser e que, por esta razão, o corrompe. Em Maçonaria, com treino e condicionamento, tenta-se induzir o adepto a expurgar de dentro de si o que possui de rude e grosseiro, melhorando o que já possui de bom e expondo um ser humano capaz de produzir para si e a sociedade grandes benfeitorias, que de forma legítima se pode denominar de Catarse Maçónica.

Desde o momento em que entra na Maçonaria, o Maçom é admoestado a só continuar a sua jornada se realmente estiver disposto a se melhorar a si mesmo. Mesmo porque, ser Maçom por curiosidade é perda de tempo, pois todos os segredos da Maçonaria estão amplamente revelados em centenas de livros espalhados pelas livrarias; inclusive aquilo que muitos ainda consideram segredos da Ordem como palavras sagradas e de passe, passos, sinais de reconhecimento, toques, e outros. Buscar um ambiente social onde encontre amigos para conversar também não justifica, haja vista existirem clubes sociais bem mais glamorosos e chiques para se frequentar.

Distracção é outro detalhe que não condiz com a presença nas actividades em loja. Conquistar relacionamentos para formar clientela para actividades profissionais está totalmente fora de questão, apesar de os relacionamentos abrirem as portas de certos gabinetes do poder e possibilitar tráfego de influências. Tampouco a satisfação de vaidades e busca por honrarias não faz sentido para comprovar a presença do Maçom num templo. Apenas se justifica a assiduidade pela Catarse Maçónica.

Dizem os profanos que todo Maçom é rico, bom de vida porque é amparado pelos seus irmãos nos seus negócios; uns para driblar o fisco, outros para obter melhores contratos, e outras. Aquele que vive a realidade da ordem maçónica sabe perfeitamente o quão distante esta afirmação está da realidade. O Maçom conquista os seus recursos de subsistência com dedicação e suor igual a qualquer cidadão. Por aplicar bons princípios na circunvizinhança, conquista clientes e trabalho de valor pelo simples facto de as pessoas confiarem mais nele pelo que ele é. Porque em todas as oportunidades da sua vida profissional e social ele se comporta conforme o que aprendeu da sua convivência com outros maçons, dentro e fora dos templos. Uma pessoa assim não tem necessidade de expor a sua condição de Maçom, ela brilha por si mesma e progride materialmente.

Do que aprende na convivência maçónica, leva para seu lar as benesses de um pai, avô, tio, irmão, comportado e amoroso. Raramente se magoa com pequenos detalhes de comportamento na sua relação conjugal, pois a sua condição de eterno aprendiz condiciona-o a estudar e pensar, a pensar antes de falar. Aquele irmão que não acordou para esta realidade, certamente está a perder tempo ou adormecido em plena actividade.

Na Maçonaria é importante exercitar intimidade com a arte da dúvida, ser rebelde e questionador de tudo pelo simples gosto de investigar a verdade; inclusive questionar o ensinamento transmitido pelos rituais e filosofias da própria Ordem. Ficar acomodado e inerte é inútil, perda de tempo para obter a Catarse Maçónica. As actividades o tornam hábil orador, debatedor ardoroso e sempre instiga a expressão de pensamentos novos. Se isto não estiver ocorrendo é porque tem algo errado com ele ou com a loja que frequenta. Com esta actividade aliada a uma profunda espiritualidade, culmina em se transformar em líder dentro e fora da Maçonaria. É a razão de tantos maçons obterem destaque, enriquecerem em cultura, saúde, espiritualidade e como consequência natural obterem sucesso e recursos financeiros suficientes para levar uma vida tranquila e de qualidade.

Na sociedade, os bons pensadores são assassinados já na pré-escola, na universidade apenas rezam a missa de sétimo dia. Infelizmente a escola só transmite conteúdo, encapsula o professor em metas que não preparam o aluno para a vida; não ensinam a pensar. Alunos são tratados como se fossem pendrives, lotam a memória deles com coisas, enquanto isto a inteligência é subutilizada. Os debates na Maçonaria usam os centros de inteligência nos seus diversos níveis, enquanto a memória é apenas coadjuvante no processo. Num debate reage-se em fracções de segundos e arruma-se a casa da memória, construindo novos e inusitados pensamentos nos eternos ciclos de tese, antítese e síntese. Professores e alunos deveriam ser debatedores de ideias e não meros repetidores destas.

O Maçom entra no templo para se divertir e fixar os princípios simples, porém profundos da filosofia, objectivando a Catarse Maçónica. O sucesso do método maçónico atrela símbolos e alegorias ao treinamento com disciplina para reeducação emocional. É um processo de formação de bons pensadores em resposta de bons debates. Resgata-se um pouco do dano que a escola fez. Pena que alguns, profundamente afectados, adoentados pelo que aprenderam nas escolas, não estão dotados para perceber e avaliar a preciosidade do método da Catarse Maçónica. Limitam-se a repetir aquilo que as escolas fazem, entopem a memória dos obreiros com conteúdo ao lerem de forma mecânica os rituais e suas instruções. Com isto, pouco ou nada acrescentam, porque não desenvolvem a capacidade de pensar com discussões, perguntas, dúvidas, debates… É comum ouvir o mestre dizer ao aprendiz – tenha paciência, você vai ver isto mais tarde; na maioria das vezes é medo de não ter a resposta, porque este mestre está ciente que é apenas um repositório de informações e não um pensador hábil que se sabe utilizar da informação da memória para a modificar e adaptar a cada situação – pode até ter conteúdo, mas desenvolveu pouca inteligência neste sector. E esta característica acompanha-o na vida fora da Maçonaria.

Somando espiritualidade, emoção e racionalidade o sucesso da Catarse Maçónica é garantido até para os sem formação académica; inteligência não é questão de saber muito, mas de como usar do pouco para produzir muito. Adicionalmente, também não é questão de falar muito, mas de falar o suficiente com proficiência. Sócrates era hábil utilizador da sua inteligência, pelo diálogo convencia os outros e chegava até ao ponto de revelar um não saber com a sua ironia. Platão fez uma demonstração – experiência maiêutica – onde pretendia provar que o cérebro humano já contém o necessário de forma inata, bastando para isto à pessoa apenas ser lembrada – foi quando por um diálogo, carregado de ironia socrática, entabulada com um escravo, fez com que aquele desenvolvesse o Teorema de Pitágoras.

O sofista Protágoras disse que o homem interpreta a natureza ao seu modo e conforme ditado por seus interesses; sabe-se que ele muda de posição quando interage com outros; é a tribo influindo no individuo. É uma característica da psique que se veio a desenvolver desde os tempos das cavernas e está profundamente incrustada nos processos cognitivos do homem de hoje. Utilizar-se desta, foi um grande momento intuitivo dos iluministas ao reunir pessoas, das mais diferentes crenças e formações para se influenciarem mutuamente para o bem, na solução de problemas da humanidade.

A Catarse Maçónica é um método educacional voltado para a saúde mental, o desenvolvimento da inteligência, da espiritualidade, da sociabilização, e outras, mas principalmente voltada ao fomento do amor fraterno, a única solução para todos os problemas da humanidade, para honra e à glória do Grande Arquitecto do Universo.

Charles Evaldo Boller

Notas

[1] (do grego κάϑαρσις, kátharsis, “purificação”, derivado de καϑαίρω, “purificar”)

Bibliografia

  • ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, Antiguidade e Idade Média, Vol. 1, ISBN 85-349-0114-7, primeira edição, Paulus, 670 páginas, São Paulo, 1990.

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