Cécile Révauger, nascida em 1955, na cidade de Bordeaux, em França, além de ser uma destacada pesquisadora sobre a história da Maçonaria, é membro do Grand Orient de France e do Grand Chapitre Général, tendo direccionado os seus estudos sob o enfoque do iluminismo. Com efeito, foi a partir dos seus estudos iniciais sobre Iluminismo que Cécile desenvolveu importantes descobertas históricas sobre a Maçonaria. Com uma primeira bolsa, concedida pelo Programa Fullbright, da Comissão Franco-Americana, realizou pesquisas importantes sobre a Maçonaria americana, especificamente em Boston, Washington DC e Cedar Rapids, com acesso amplo a arquivos maçónicos dos Estados Unidos, o que lhe permitiu escrever a sua tese de doutoramento perante a Universidade de Bordeaux III, em 1987: La franc-Maçonnerie en Grande-Bretagne et aux États-Unis au XVIIIe: 1717-1813 (“Maçonaria na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos no século XVIII. 1717-1813). Posteriormente, com uma segunda bolsa, pesquisou os arquivos de Loja da Prince Hall, em Nova York e Washington DC, escrevendo um livro sobre a Maçonaria dos negros dos Estados Unidos publicado em 2012: Prince Hall au XVIIIe aux États-Unis – Noirs et Franc-Maçons. Cécile Révauger tornou-se assim Professora emérita da Universidade de Bordeaux-Montaigne, dirigindo a revista “Lumières” em Presses Universitaires de Bordeaux.
Escreveu uma diversidade de artigos sobre o Rito Moderno, sendo o mais recente precisamente sobre a sua tradição democrática, das origens aos nossos dia, publicado na edição de Janeiro de 2021 da Joaben, a revista do Grand Chapitre Général du Rite Français du GODF.
Neste artigo, sobre a tradição democrática do Rito Moderno, reprisado a seguir, a autora enfatiza a posição central do Rito Moderno que o torna o herdeiro da tradição da Maçonaria francesa, nascida dos “Modernos”, na tradição do Iluminismo. O problema suscitado pela autora é a possibilidade da democracia numa ordem que quer ser iniciática, porquanto, paradoxalmente, o conceito de democracia se refere ao governo do povo para o povo enquanto o de iniciação se baseia na selecção de um pequeno número de representantes eleitos com base em critérios difusos. Enquanto o ideal democrático significa abertura para o mundo, o caminho iniciático se percorre dentro da instituição maçónica.
A premissa teórica adoptada pela autora é a do equilíbrio, visando conciliar a via exotérica à esotérica ou a abertura ao mundo com o progresso pessoal de cada um dentro de uma sociedade livremente escolhida. Por esta via, busca demonstrar que o ideal democrático está de facto no cerne do processo maçónico, mas que importantes obstáculos tiveram que ser superados ao longo da história. Ao abordar a tradição democrática dentro da Maçonaria, toma-se como referência inicial a Revolução Gloriosa, na Inglaterra, em 1688, que estabeleceu o início da monarquia parlamentar na Inglaterra como um primeiro passo para a democracia moderna. Neste contexto é que se torna possível o nascimento da Grande Loja da Inglaterra (1721) e, posteriormente, a Grande Loja da Escócia (1736).
A autora analisa assim que a Maçonaria como a conhecemos hoje só poderia nascer num contexto de relativa emancipação política, religiosa e social, como o que se deu na Inglaterra a partir de 1688, sendo as lojas as primeiras estruturas a reunir anglicanos e dissidentes, aristocratas e burgueses, grandes mercadores e pequenos comerciantes, artesãos, oficiais e marinheiros, rompendo, gradualmente as diferenciações sociais rígidas até então existentes. “A Maçonaria era este espaço privilegiado que reunia aqueles que “sem ela teriam permanecido a uma distância perpétua’. Havia muito pouca questão de ritual, nem mesmo de símbolos, e convivência era a palavra-chave das primeiras lojas que se reuniam, como sabemos, em tavernas que lhes davam os seus títulos distintos (No Ganso e no Gridiron, Em a Coroa, No Cisne, etc.). De certa forma, as lojas testaram os valores do Iluminismo no dia a dia, praticando a tolerância religiosa de forma concreta e incentivando os seus membros a se educarem, até mesmo para aperfeiçoar os seus conhecimentos científicos e filosóficos.
Da mesma forma, a Royal Society representa esta osmose entre a Maçonaria e a ciência, mesmo que nem todos os membros comuns às duas instituições fossem chamados de Desaguliers. O importante era que o conhecimento estava gradualmente a tornar-se acessível a mais pessoas e não mais limitado ao clero. Na época dos clubes ingleses muito aristocráticos, as as lojas sem dúvida representavam um espaço de sociabilidade em processo de democratização.
A sociabilidade era o verdadeiro motor destas primeiras lojas, o ritual limitava-se à recitação de catecismos para cada grau. Como sabemos, o grau de mestre só apareceu tarde, na década de 1730. Até então, apenas aprendizes e companheiros. Além disso, o conceito de iniciação era totalmente estranho à Maçonaria. Nas primeiras décadas do século XVIII, falamos apenas de maçons “aceitos”, nunca de “iniciados”. É dessa Maçonaria, descrita como “Moderna” pela Grande Loja dos Antigos que somos os herdeiros. O Rito Moderno está de acordo com o rito praticado pelas primeiras lojas inglesas, como pode ser visto quando nos referimos às revelações de Pritchard de 1730 e alguns outros textos de divulgação franceses. O ritual da Grande Loja dos Antigos passou a ser amplamente imposto na época da unificação dos Modernos e dos Antigos em 1813, ou seja, somente após a fundação da Grande Loja Unida da Inglaterra. Os denominados antigos passaram então a criticar os denominados “modernos” pela não adopção de referências cristãs.
O termo “moderno” é, contudo, bastante supérfluo hoje, especialmente porque foi aplicado apenas em escárnio à primeira Grande Loja da Inglaterra pela Grande Loja dos Antigos. No entanto, o Rito Moderno vem directamente do rito das primeiras lojas inglesas.” De acordo com a autora, o uso de espadas nas lojas marcou o desejo de democratização às vésperas da Revolução Francesa, mas o mesmo não aconteceu com a proliferação de altas patentes ao longo do século XVIII na França.
Não é esquecido por nenhum historiador hoje que a proliferação de altos escalões corresponde ao desejo crescente das elites sociais da época de se distinguir das lojas azuis e o seu recrutamento cada vez mais comum.
A multiplicação de escalões e ritos compromete inevitavelmente a democracia na medida em que implica uma selecção baseada em critérios flutuantes.
A autora afirma, ainda, que um longo caminho foi percorrido desde a primeira Grande Loja inglesa até os dias actuais, com a afirmação da liberdade de consciência e da diversidade: “cada Maçom do rito francês deve compreender que hoje a hierarquia só pode ser temporária e simbólica, que a democracia é o motor de todo o nosso trabalho”.
Em um momento em que posicionamentos obscurantistas, que cultivam a desinformação e a irracionalidade como virtudes, tomam relevância no cenário político nacional e internacional, as investigações históricas de Cécile Révauger, sob o enfoque do iluminismo, merecem ser destacadas e estudadas pelos maçons, naquilo que é pertinente para a Ordem.
Cécile Révauger
(Inspirado em artigo da autora publicado na revista JOABEN)
Fonte
- Revista HUMANISMO 4657

- Democracia e Maçonaria
- Sólon: o pai da democracia
- A filosofia da Maçonaria – William Preston
- Sinais maçónicos antigos
- O código de cavalaria e os Ideais Maçónicos


Quem é o autor deste artigo inspirado em escrito da Cécile Révauger publicado na revista JOABEN?
Em qual edição da Revista HUMANISMO 4657 consta este texto?
Por favor, melhorem a indicação de suas fontes de pesquisa.
Muito interessante!