Cícero e o caminho do Maçom: entre o honesto e o útil

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homem caminhando, maçom
Maçom caminhando

Marco Túlio Cícero, na sua obra De Officiis (Dos Deveres), escrita em 44 a.C., dirigiu-se a seu filho Marco com o intuito de transmitir princípios de vida que unissem sabedoria filosófica e aplicação prática. Inspirado no estoicismo, mas adaptando-o à realidade política e social de Roma, Cícero buscou reflectir sobre a conduta moral do homem em sociedade, tratando não apenas de conceitos abstractos, mas da vida concreta e das decisões que marcam a existência.

Para Cícero, os deveres humanos se dividem em duas grandes categorias: o honesto (honestum) e o útil (utile). O honesto corresponde àquilo que é moralmente correcto e virtuoso em si mesmo, abrangendo as quatro virtudes cardeais: justiça, prudência, temperança e fortaleza. Já o útil refere-se ao que traz conveniência, benefício e vantagem, seja no campo económico, social ou político. No entanto, ao propor esta divisão, Cícero deixa claro que, quando houver conflito entre ambos, deve prevalecer o honesto. A razão é simples: somente a conduta virtuosa pode sustentar, em longo prazo, a dignidade e a grandeza da vida humana.

Esta reflexão ciceroniana encontra paralelo profundo na vida maçónica. O Maçom é chamado a organizar a sua existência em torno de princípios que o conduzam ao aperfeiçoamento pessoal, à harmonia com os seus irmãos e à contribuição para a sociedade. Neste contexto, pode-se falar em três dimensões de deveres: consigo mesmo, com os irmãos e com o mundo profano.

O dever consigo mesmo exige prudência, autodomínio e estudo. A prudência o leva a reflectir antes de agir, evitando precipitações e buscando alinhar pensamentos, palavras e acções. O autodomínio, que se traduz na temperança, é essencial para moderar paixões e desejos que afastam do caminho virtuoso. O estudo, por sua vez, é o alimento constante da mente e do espírito, permitindo que o Maçom cresça em conhecimento e compreensão, em consonância com o ideal de luz que norteia a Ordem.

No que diz respeito aos irmãos, o dever principal é a prática da justiça e da fraternidade. A justiça se manifesta no tratamento igualitário e imparcial, sem favoritismos nem preconceitos, enquanto a fraternidade implica traduzir em gestos concretos a solidariedade, o apoio e a fidelidade à palavra empenhada. Não se trata apenas de sentir fraternidade, mas de agir fraternalmente.

Por fim, na dimensão social, os deveres do Maçom expressam-se no exemplo de integridade que deve oferecer na vida pública e profissional, na dedicação ao trabalho útil e honesto e na prática da caridade discreta, sem ostentação. Assim como Cícero preconizava, o verdadeiro bem não está na conveniência imediata, mas no valor perene da virtude.

Uma forma prática de traduzir este ensinamento para a rotina maçónica consiste num exercício diário de consciência. O Maçom pode reflectir sobre as acções do dia que se inicia, perguntando-se de que maneira poderá agir em consonância com o honesto. Durante o trabalho, deve procurar o útil, mas sem jamais sacrificar o honesto. Nas relações humanas, deve cultivar a justiça, a fraternidade e a veracidade da palavra. E, ao anoitecer, cabe-lhe examinar a consciência, avaliando se os deveres foram cumpridos ou se houve desvios que exigem correcção.

Em síntese, a filosofia moral de Cícero, elaborada em tempos de crise da República Romana, ainda ecoa como guia para a vida do Maçom. Ao harmonizar o útil com o honesto, e ao privilegiar sempre a virtude sobre a conveniência, o Maçom dá testemunho de que a sua vida não é conduzida apenas por interesses passageiros, mas pelo compromisso com um ideal de elevação moral e espiritual. Neste ponto, o pensamento ciceroniano e a prática maçónica convergem numa mesma lição: o verdadeiro dever é aquele que edifica, dignifica e aproxima o homem da Virtude.

Cícero, como orador, filósofo e jurista, compreendia que a clareza era o primeiro passo para a verdade. Numa das suas reflexões, ele afirma:

“Quando se quer pôr ordem e método numa discussão, é preciso começar definindo a coisa de que se trata, para se ter uma ideia nítida e precisa”.

Esta sentença revela a importância do rigor intelectual e da disciplina do pensamento, pois sem definição não há compreensão, e sem compreensão não pode haver diálogo ou decisão justa.

No mundo romano, onde a retórica era um instrumento essencial para a vida política e para o exercício do direito, definir os termos era mais do que um recurso lógico: era uma forma de evitar ambiguidades que poderiam gerar injustiças. Para Cícero, a definição clara de um conceito é o alicerce da argumentação coerente e do discurso honesto.

Na vida maçónica, este princípio encontra um paralelo imediato. O Maçom é chamado a lidar constantemente com símbolos, alegorias e ensinamentos que exigem interpretação. Se ele não busca definir claramente o que estuda, corre o risco de se perder em vaguidões ou distorções pessoais que obscurecem a verdade iniciática. Definir é, portanto, ordenar a mente para penetrar nos mistérios de forma lúcida.

Por exemplo, quando o Aprendiz ou o Companheiro se depara com o simbolismo do esquadro, do compasso ou da pedra bruta, a primeira atitude é perguntar-se: “o que é isto?” e “o que significa no plano simbólico e moral?”. Assim como Cícero ensinava, a clareza inicial evita que a mente derive em interpretações confusas, permitindo que o símbolo cumpra a sua função pedagógica e espiritual.

Este esforço pela definição também se reflecte na prática das sessões. Ao discutir um tema ou ao deliberar sobre questões da Loja, é dever do Maçom buscar antes a clareza do objecto em debate. Somente com a definição precisa do que se trata é que pode emergir uma decisão justa e fraterna. Neste sentido, a assertiva de Cícero serve de advertência contra a precipitação, o subjectivismo ou a retórica vazia, que obscurecem em vez de iluminar.

Do ponto de vista do trabalho interior, definir os próprios deveres e metas também se torna essencial. O Maçom que não define o que pretende aperfeiçoar em si mesmo corre o risco de viver uma iniciação estagnada, sem ordem nem método. Já aquele que, inspirado em Cícero, procura estabelecer com clareza o que é preciso trabalhar hoje em si mesmo alcança progresso efectivo na sua jornada de lapidação interior.

Assim, tanto na filosofia romana quanto na Maçonaria, buscar o conhecimento e o esclarecimento das coisas é um acto de luz. É o primeiro clarão que dissipa a obscuridade da confusão e abre caminho para a construção sólida do pensamento, da palavra e da acção. Cícero e a Maçonaria, cada um no seu contexto e tempo, recorda que não há ordem sem clareza, não há clareza sem definição, e não há definição sem disciplina da razão.

Em outras palavras, a máxima de Cícero pode ser lida como um princípio que a Maçonaria constantemente aplica — começar pela definição clara para que o trabalho seja ordenado e fecundo, é, em última análise, um exercício de trazer luz às trevas, o que está no coração da própria Arte Real.

Cícero e Paulo de Tarso

A máxima de Cícero e a recomendação paulina contida em I Coríntios 14:40, afirma “Mas faça-se tudo decentemente e com ordem”, se encontram no mesmo princípio: a ordem é o fundamento da clareza e da justiça. Na Maçonaria, este preceito traduz-se no esforço constante de dar definição e sentido aos símbolos, de deliberar com método nas Lojas e de conduzir a vida com disciplina e harmonia. Tanto a filosofia romana quanto a tradição cristã recordam ao Maçom que não há verdadeira construção — seja do templo exterior ou do templo interior — sem ordem, método e decência.

Na prática maçónica, estes preceitos se aplicam no estudo e na reflexão, quando se busca definir claramente o objecto de cada leitura ou instrução simbólica, evitando interpretações vagas; na vida em Loja, garantindo que cada discussão ou deliberação comece pela definição clara do tema, para que prevaleçam a ordem e a fraternidade, e lembrando que método e disciplina são instrumentos de harmonia, não de rigidez; e na vida profana, na organização das tarefas diárias com ordem e decência, evitando dispersão e desordem, buscando, em cada acção, a harmonia entre o honesto e o útil, tal como ensinava Cícero.

Desta forma, o Maçom vivencia na prática a convergência entre a filosofia antiga e o ensino cristão: agir sempre com ordem, método e clareza, para que a vida interior e exterior se tornem um reflexo da harmonia universal.

Giovanni Angius, MI-33º REAA – ARLS Orvalho do Hérmon Nº21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo — Brasil

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