Meus Queridos Irmãos,
Quero começar por felicitar o nosso MRI Paulo Rola que foi escolhido para o cargo de Grão-Mestre da GLLP/GLRP. Muitos Parabéns! Chegou assim ao fim o período de eleições internas para o cargo de Grão-Mestre. O importante, no entanto, é salientar que após este processo de escolha não existem vencedores nem vencidos. Elegemos de forma participada o novo Grão-Mestre, e prosseguiremos agora todos, como Irmãos, o mesmo caminho colectivo à glória do GADU.
É, aliás, para essa mesma celebração à Glória do Grande Arquitecto que aqui nos encontramos hoje, festejando o Solstício de Verão, esta efeméride que a maçonaria regular universal comemora, com referência ao dia mais iluminado ao ano, assinalando e festejando o surgimento da claridade mais refulgente, que tanto anima todos os Irmãos.
Quem não deseja estar onde a luz do GADU mais intensamente quebra as trevas e, com isso, nos beneficia com o acréscimo de sabedoria e de conhecimento?
Pois bem, cabe lembrar que – se não nos esforçarmos por alcançar essa Luz radiante e nela nos mantivermos – tudo pode soçobrar, uma vez que aquilo que juramos perde validade e não renovamos os votos que tanto proclamamos. Não descuremos pois nunca, mesmo nas ocasiões mais desafiantes, o nosso trabalho de polimento da pedra. Da lápide oculta para que somos remetidos desde os primeiros degraus, ainda na câmara de reflexão.
Meus Queridos Irmãos! Não posso deixar de realçar que esta é última vez em que, na condição de Grão-mestre, presidirei a esta cerimónia do Solstício de Verão. Já lá vão cinco anos vividos sempre com muita intensidade, muito trabalho e, porque não dizê-lo, também muita alegria, com o enorme privilégio da vossa companhia. É minha profunda esperança que essa mesma alegria, espírito de união, de entreajuda e de vontade de marcar o mundo profano com uma concreta presença positiva dos maçons, continue a prosseguir e, inclusivamente, se fortaleça.
Mas, como sabem todos os que ouviram ou leram as minhas diversas intervenções nos Solstícios e nos Equinócios passados, nunca deixei também de assinalar as situações, os acontecimentos e as ocorrências mais dramáticas, penosas e absurdas que nos foram afectando, como as guerras em que a Humanidade se vê confrontada vezes demais, deixando-me um certo amargo de boca por termos tido, infelizmente, sempre razão, porquanto o peso do mal e a quantidade das malfeitorias não cessaram de crescer nestes anos.
Não vou, aqui e agora, recordar essas hediondas acções, pois o imenso sofrimento humano, em várias partes do globo terrestre é por demais conhecido, e os povos, os dirigentes das nações e as instituições com responsabilidade mundial, não têm sido capazes de suster estas trevas tão vastas e espessas.
Todavia, como os maçons bem sabem, o GADU nunca nos abandona e jamais deixa de agir, sobretudo quando decidimos contribuir para que Ele intervenha connosco e nos auxilie a vencer.
É esta a convicção que devemos manter sempre, mesmo perante a incerteza sobre o que vai acontecer. Nesse desígnio, peço-vos que vos disponibilizeis e vos declareis prontos a transportar, como sempre, a fulgurante Luz do GADU, pois é com ela que cegaremos os avanços dessa espécie de peste maléfica que, por ora, prospera no mundo.
Essa é uma nossa obrigação, estarmos sempre prontos e à ordem para a consumação do bem, do reforço da irmandade, do sacrifício da ajuda e da permanente solidariedade para com os mais necessitados, os mais fracos e, sobretudo, agirmos junto de quem precisa de muito pouco, para obter muito.
Uma só lágrima evitada, um momento apenas de atenção a quem passa de cabeça baixa, um passo único colocando-nos à frente de quem se abeira do precipício, faz com que valha bem a pena o nosso juramento e o nosso porfiado labor, em prol de um mundo melhor.
Quantos à nossa volta não dormem sossegados, não comem uma só colher de sopa, não habitam qualquer casa, não recebem nenhum carinho, vivem os horrores de violência, destroem-se em vícios brutais, sozinhos no isolamento da indiferença carecem de amparo, de esclarecimento e, sobretudo, de um ombro fraterno que deixe no seu regaço e sem notar, aquelas flores da Rainha Santa Isabel, que afinal eram pão para matar a fome?
Decidi em tempo passado, como bem sabem, que um dos meus lemas seria AGIR, convocando então todos a AGIR, sempre que possam e quando interpelados, pela consciência sã de quem quis seguir o caminho da maçonaria e dos seus valores e princípios, caminho tão nobre e antigo que tantos ilustres e desconhecidos percorreram, deixando profundas marcas de bondade e de transformação positiva do mundo.
Quanta evolução das sociedades, dos países e das instituições melhoraram a vida de milhões de seres humanos, tudo porque os maçons de então agiram e nunca vacilaram na luta pelos valores morais, pelas liberdades, pela democracia, pela verdade, pela justiça e pelo Estado de Direito.
Não poderia deixar passar esta oportunidade para fazer uma espécie de balanço do que entendo ter sido o meu grão-mestrado, porquanto, fazê-lo é também revisitar a obra maçónica empreendida por todos vós, Irmãos, e que julgo dever-nos enobrecer e orgulhar em conjunto.
No entanto, nem tudo foram rosas durante os meus mandatos como Grão-Mestre. Para além de muitos desafios e pequenas contrariedades, houve dois momentos negativamente marcantes:
O primeiro momento foi a pandemia, que nos marcou a todos pelo confinamento forçado, uma paragem brutal, e pela incerteza sobre a nossa saúde e a profunda modificação dos nossos estilos de vida e modos de comportamento. A pandemia obrigou-nos a tomar a difícil decisão de suspender a nossa actividade durante praticamente todo o ano de 2020 e grande parte do ano de 2021.
Passei então a ter o privilégio de estar diariamente online com os meus Irmãos, utilizando os meios telemáticos e beneficiando da enorme riqueza dos conhecimentos de muitos de vós e da “presença” virtual de todos.
Mas, é também verdade que a pandemia permitiu igualmente o despertar de muita solidariedade, levando os cidadãos a questionarem as políticas seguidas e a procurarem novos caminhos na ajuda aos mais necessitados.
A Grande Loja (co)organizou Ciclos de Conferências telemáticas, das quais se destacam, entre muitas, a “Maçonaria em casa… e à volta do Mundo” e “Conversas com Nasoni”, com oradores convidados, membros da Grande Loja e da sociedade civil. E a Academia Maçónica intensificou também as suas actividades através das plataformas telemáticas.
O segundo momento, para nós negativamente marcante, foi a aprovação na AR da Lei regimental de declaração de pertença a associações ditas discretas, que visava claramente a Maçonaria. Obviamente, a GLLP/GLRP, como única representante da Maçonaria Regular não podia ficar arredada de todo este processo, pelo que solicitou uma audiência à Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados (CTED). Esta posição levou que a Maçonaria portuguesa, em conjunto, se unisse e assumisse uma posição de veemente protesto, o qual teve como ponto alto a reunião das diferentes obediências maçónicas com a referida Comissão na Assembleia da República, no dia 21 de Maio de 2021.
Recordo o que então referi aos Senhores deputados na AR: “A importância da minha presença é significativamente realçada se tivermos em consideração que esta é, em 30 anos de existência da Maçonaria Regular em Portugal, a primeira vez que de forma institucional, nos manifestamos sobre uma Iniciativa legislativa, fosse ela do âmbito do poder Legislativo, Executivo ou Judicial. No entanto, as circunstâncias em que surgiu esta Iniciativa que hoje aqui nos trouxe e os contornos do debate que provocou, dentro e fora desta Assembleia, mais do que justificam, no nosso entender, essa excepcionalidade histórica”.
Assumi, enquanto Grão-Mestre, com clareza, os 3 pilares dos meus mandatos: Orgulho em ser maçom, a necessidade de Agir e a Credibilidade.
Com o Orgulho em ser maçom, pretendia-se uma assunção clara da nossa condição através da manifestação inequívoca do nosso orgulho enquanto maçons, e da nossa responsabilidade espiritual como fraternidade iniciática ancorada na crença no Grande Arquitecto Do Universo.
Com o lema AGIR, pretendia proclamar a obra do GADU – e ela consistia em consumar o nosso juramento como maçons exercendo a solidariedade. E é nesse acto perante o irmão fragilizado, perante a comunidade necessitada, ou perante a premência de ajudar a encontrar rumos justos na sociedade, que estaremos a erguer um novo mundo, aquele em que habitarão os nossos filhos.
Convocava-se assim todos os maçons com a mensagem mobilizadora de que a situação que vivemos no planeta apresenta uma oportunidade única para a acção, referi então: “Agir é, por exemplo, dar atenção e reflectir sobre temas que já fazem parte das nossas preocupações e sobre os quais devemos mostrar a nossa inquietação cívica, como as migrações e as alterações climáticas.”
Dizia então que estava na hora de passarmos das palavras aos actos e demonstrarmos a nossa solidariedade. Solidariedade essa que não deve reduzir-se a simples ajuda ou assistência, dando-lhe apenas um significado económico ou material. Na verdade, não há futuro sem solidariedade.
No início do meu 2° mandato, e por ocasião do equinócio da Primavera, tive oportunidade de apresentar o 3° Pilar da nossa Grande Loja: a Credibilidade.
Referi então: “Estou certo de que concordarão comigo em como não é fácil, pelo contrário, que as nossas acções de solidariedade maçónica, efectuadas por norma sempre de forma discreta, contribuam para que a percepção pública do trabalho maçónico seja a adequada, eliminando os preconceitos e as ideias feitas.
Sei que todos, como anteriormente referi, sentimos negativamente como a aprovação de uma Lei envolvendo o Parlamento e a obrigatoriedade de pertença a associações deu um sinal contraditório aos portugueses. Mesmo isso, sucedendo depois da exposição pública dos nossos argumentos em prol dos direitos fundamentais, na Assembleia da República, como na comunicação social.
Mas, por isso mesmo, o sucedido ainda me tornou mais convicto de que o entendimento sobre o que significa ser maçom e em que consiste o papel social de cada um é um trabalho contínuo. E que, para que a sociedade civil entenda melhor os valores da Maçonaria e o âmbito e dimensão da nossa actuação, teremos de continuar no caminho que prosseguimos nos recentes anos.
Por isso, com grande satisfação, vejo como muito positiva a abertura em breve das portas do nosso museu maçónico com um interessantíssimo acervo histórico ligado à nossa AO, museu esse também associado a iniciativas como a realização de um dia aberto a todos os cidadãos no próximo dia 6 de Julho, o fim de semana do nosso 33° aniversário.
De igual modo, para além de reforçarmos a nossa comunicação interna com o lançamento de uma newsletter, a Flash News, que vai já na sua edição 140, e que disponibiliza informação relevante sobre as Lojas e a Grande Loja todos os maçons, penso termos conseguido alcançar um equilíbrio, sempre difícil de atingir, no que concerne às nossas posições públicas.
A sociedade actual vive de informação, e quando não a tem, torna-se desconfiada, crítica e persegue quem lha nega. A Maçonaria, que tem como princípio a defesa da verdade, tem a obrigação, não de discutir a opinião ou julgamento das pessoas, mas de contribuir com conhecimento e saber, para que a opinião pública reflicta a verdade. Foi por isso que com regularidade decidi escrever artigos de opinião.
Com efeito, ao longo destes últimos anos, a Maçonaria Regular tornou-se mais aberta. Fosse através de comunicados ou de artigos de opinião publicados pela comunicação social, marcámos sempre uma posição sobre temas e acontecimentos decisivos para a nossa AO, para o país e para o mundo.
Sempre foi e continua a ser minha convicção que, pelas nossas características como instituição fraterna, existe a necessidade de reforçarmos o nosso empenho colectivo em grandes causas como, por exemplo, as alterações climáticas ou as migrações.
Por isso mesmo, defendi que a Maçonaria Regular deveria definir como principal missão orientar o foco numa maior consciencialização e na acção ao nível ambiental, desde a diminuição da pegada carbónica até ao debate criativo sobre as opções que se nos apresentam ao nível da sustentabilidade e da cidadania social. Como então referi, tudo está interligado, todos nós habitamos um só planeta.
Exige-se, mais de três décadas depois do início da nossa existência, tudo fazermos com empenho para que o mundo onde vivemos seja mais equilibrado, mais justo e mais saudável. E para que cada ser humano seja mais tolerante, mais sábio e, acima de tudo, mais livre.
O mundo foi mudando e muito, após as duas guerras mundiais. E está a mudar ainda mais veloz e mais profundamente com a revolução tecnológica e informática, uma mutação – com o advento da computação quântica e da inteligência artificial – capaz de alterar significativamente tudo quanto somos capazes de gerir e processar, de modo a garantir a nossa humanidade. Trata-se de nunca nos afastarmos dos princípios fundamentais que são a dignidade da pessoa humana, com quem partilhamos o planeta Terra, que urge preservar e salvar.
Foi muito o trabalho realizado no plano interno e internacional, procurando sempre uma maior proximidade com as Lojas, e o reforço da nossa presença em eventos maçónicos internacionais.
Na senda dos reconhecimentos internacionais, nos últimos anos, a nossa Grande Loja apostou no desenvolvimento das relações internacionais, intensificando a presença quer nas instituições maçónicas, quer nas sessões anuais das Grandes Lojas, com as quais temos tratados de amizade.
Presentemente, a nossa Grande Loja é reconhecida e tem relações de fraternidade (protocolos de reconhecimento) com mais de 200 potências maçónicas em todas as latitudes.
Este esforço de estar presente, conjugado com um árduo trabalho de diplomacia “one on one” levou a que a nossa Grande Loja fosse vista como charneira nas relações entre o Atlântico Sul e a Europa, assumindo assim um papel de importância nalguns dos mais significativos momentos da história recente da Maçonaria Brasileira. Mas também nunca esqueçamos que, da mesma forma que fomos reconhecidos, poderemos perder esse mesmo reconhecimento por acções menos ponderadas ou intempestivas, ainda que cheias de boa vontade.
Um dos acontecimentos que marcou positivamente a nossa Grande Loja foi a eleição, em Abril de 2021, para a presidência da 6a Zona, e por inerência dessa eleição também para a Vice-presidência da Comissão Executiva da Confederação Maçónica Interamericana (CMI).
A 6ª Zona compreende as seguintes Potências Maçónicas regulares: Grande Loja da Argentina, Grande Loja da Bolívia, Grande Oriente do Brasil, Grande Loja do Chile, Grande Loja de Espanha, Grande Loja do Paraguai, Grande Loja do Peru, Grande Loja Legal/Grande Loja Regular de Portugal, Grande Loja do Uruguai e, brevemente, o Grande Oriente de Itália (GOI). A 6ª Zona, sem o GOI, representa cerca de 124.000 membros e 4.570 Lojas.
Manter a nossa Grande Loja no mundo da Maçonaria Regular, com o prestígio que já tem, e todo o que possa vir a ter, é tarefa de todos.
Nestes últimos anos a nossa Grande Loja cresceu muito: Mais de 1.000 obreiros e mais de 30 novas Lojas. Um resultado que em muito se deve ao excelente trabalho das Lojas, às quais aqui agradeço penhoradamente.
Pese embora estes números, entendo que a GLLP/GLRP deve continuar a manter critérios muito rigorosos, comportamentais e regulamentares, no sentido de garantir que este nosso crescimento se faça pela qualidade dos Homens que a integram, não pela sua quantidade.
O futuro da Maçonaria Regular parece estar assegurado nos próximos séculos, se esta for capaz de concluir com sucesso a sua “revolução silenciosa”, garantindo, de forma discreta, que as suas características centrais sejam mantidas, para preservar o seu verdadeiro espírito.
Nós, maçons, temos de continuar a trabalhar na nossa valorização espiritual e da sociedade. Temos o dever de olhar para o mundo de uma forma diferente, pois juntamos aos factos uma visão e uma sabedoria ancestral de homens preocupados em se aperfeiçoarem, e portadores de uma experiência iniciática única.
Permitam-me, a terminar, que me dirija ao Grão-Mestre Eleito, MRI Paulo Rola, para lhe dizer que ele herda uma Grande Loja onde tem primado a harmonia, a concórdia e o entendimento, na base de uma sólida unidade fraterna, firme e inabalável, por força da indomável vontade de todos os Irmãos. E é meu desejo que assim continue.
Que o GADU vos proteja, vos ilumine e a todos aqueles que amais.
Armindo Azevedo – Grão Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
Lisboa, 22 de Junho de 2024

- Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP – Equinócio de Primavera – 2024
- 2024: O ano da inquietação cívica e moral
- A GLLP/GLRP preside à 6ª zona da CMI e o seu Grão-Mestre, Armindo Azevedo, assume a Presidência da organização
- Os Grão-Mestres da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
- O significado da solidariedade

