Consagração da GLRP – 29/06/1991 – discurso de Fernando Teixeira

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Fernando Teixeira – Antigo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
Fernando Teixeira – Antigo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

Discurso proferido pelo Grão-Mestre da G∴ L∴ R∴ P∴, MRI Fernando Teixeira no dia 29 de Junho de 1991, data da consagração da Grande Loja Regular de Portugal

“Por vezes, apraz a Deus Omnipotente confiar a homens simples o privilégio de protagonizarem planos de relevo em momentos cruciais do percurso histórico. Eis porque, aqui e agora, começo em nome de todos os maçons portugueses, por agradecer humildemente ao Grande Arquitecto do Universo ter-nos proporcionado a honra e a felicidade incomparáveis de viver o glorioso dia em que a Maçonaria portuguesa se reintegra na Cadeia de União Universal.

As minhas segundas palavras terão de ser dirigidas, por elementar justiça, à Grande Loja Nacional Francesa.

Não tem sido fácil a vida da Ordem Maçónica em Portugal. Iniciada a actividade das primeiras Lojas em princípios do séc. XVIII, logo se definiu, desde então e até tempos recentes, uma trajectória marcada por vicissitudes diversas, oriundas em geral de múltiplas intolerâncias características de cada época que o processo atravessou. E mesmo naqueles momentos em que as tendências liberais dominantes pareciam oferecer uma via tranquila para o aprofundamento do trabalho maçónico, logo as mais desenfreadas paixões humanas geravam conflitos insolúveis e antagonismos implacáveis, num fatal abandono de objectivos que se proclamavam tão puros e de comportamentos sociais que se propunham exemplares. Por fim, entre uma irregularidade agitada e por vezes imbuída de violento fanatismo e uma clandestinidade tirânica e odiosamente imposta, a Maçonaria portuguesa obscurecia-se e isolava-se cada vez mais, a ta! ponto que nem a luminosa libertação de Abril conseguiria romper com as trevas que a submergiam.

Foi há cerca de nove anos que um punhado de portugueses, humildes mas firmes nas suas convicções, resolveu empreender a procura daquela luz que eles não conseguiam descortinar. Foi o caminho clássico e de todos bem conhecido. Com a bênção do Grande Arquitecto do Universo encontrámos homens bons que nos apadrinharam. Escrevemos petições. Fomos submetidos a inquéritos, deixámos esquadrinhar o passado de cada um. Depois, efectuámos longas e perigosas viagens em que atravessámos vias estreitas plenas de escolhos e de obstáculos bem reais, criados pelas paixões desencontradas que agitam a vida humana. Sempre guiados por mão amiga, prosseguimos através de dificuldades que sucessivamente se aplanavam mas sempre ameaçados aqui e além pelo tinir das armas que nos relembrava simbolicamente a incansável violência do mal.

Contudo, e – ouso dizê-lo – talvez porque soubemos perseverar, talvez porque nos animava apenas o sincero desejo de alcançar a luz, conseguimos hoje chegar ao fim de tão longo e penoso percurso.

Em todo este processo, a G∴ L∴ N∴ F∴ foi o nosso generoso padrinho, o nosso preparador, a mão amiga e benfazeja que nos guiou e nos ensinou e, finalmente, a Autoridade Suprema que hoje nos consagrou e nos tornou membros da Maçonaria Regular Universal. Uma vez mais, conforme preconizara o cavaleiro Ramsey no discurso celebérrimo, a França sabia actuar como pátria de todos os povos – Patria Gentis Humanae. Meus Irmãos de França, obrigado.

A vós, MRI André Roux, a vós MRI e muito querido amigo Yves Trestournel, a vós todos, meus irmãos de França, que tanto nos ajudaram, eu dirijo os mais veementes agradecimentos dos vossos irmãos de Portugal

E nós saberemos ser gratos.

Somos uma pequena nação periférica numa Europa cada vez maior e mais forte. Mas orgulhamo-nos de uma independência velha de oito séculos que assenta principalmente na certeza inquebrantável da nossa missão espiritual. Embora sendo um pequeno povo, sentimos a força dos que nascem e vivem caldeados num mito de eterno retorno, crentes, como tão bem exprimia Fernando Pessoa, em que “todo o Império que não é baseado no Império espiritual é uma Morte em Pé, um Cadáver Mandando”. A mensagem esotérica .da Maçonaria que hoje, por vosso intermédio, nos é transmitida, fica portanto em boas mãos – capazes de a compreenderem, a amarem e a preservarem. mesmo num universo onde o espiritualismo sobrevive no constante cerco da perigosos e ávidos extremismos. Irmãos de França, podeis confiar em nos.

Para os nossos ilustres visitantes que numa inesquecível demonstração de fraternidade se dignaram acompanhar-nos em jornada tão memorável , vai também a expressão de profundo reconhecimento. Sêde bem-vindos a esta modesta casa portuguesa onde sempre encontrareis a amizade e o calor que se reservam para Irmãos muito queridos.

Uma das obediências mais antigas do Mundo, a Grande Loja Suíça Alpina, cuja presença é um marco referencial da maior importância, quis- nos honrar com a vinda pessoal do seu Grão- Mestre, o muito respeitável Irmão Bingelli. Muito obrigado. Igual agradecimento é devido ao Muito Respeitável Irmão Mainini do Grande Oriente de Itália, representante dessa raça ímpar que está na origem de toda a latinidade. Meu Muito Respeitável Irmão, sêde bem vindo à velha Lusitânia. Da Hungria e da Checoslováquia vem-nos a definição de um valor simbólico em que nos devemos fixar. Ao renascerem de trevas que todos já julgávamos definitivas, as Grandes-Lojas vieram demonstrar uma vez mais a perenidade dos valores maçónicos. Saudemos pois, com particular entusiasmo o representante da Grande Loja Simbólica da Hungria, o Muito Respeitável Irmão Istvan Bailó e o representante da Grande Loja da Checoslováquia o Muito Respeitável Irmão Christian Weger. Também constitui para nós uma honra a representação da Bélgica na pessoa do muito respeitável Irmão Jacques Dumont. Para os nossos queridos visitantes da Costa do Marfim e do Senegal vai o grande abraço fraternal dum país que sempre amou Africa. A Vossa presença deixa-nos particularmente felizes, pois responde ao nosso desejo de reforçarmos ao máximo a Cadeia de União entre os dois continentes. Permitam-me, contudo, uma palavra especial para os que tiveram de atravessar o Atlântico a fim de estarem junto de nós, num acréscimo de trabalho e canseiras que sobremaneira nos honra. Referimo-nos ao nosso

MRI Dillard, que nos traz o abraço amigo das terras onde os maçons souberam escrever em páginas imorredouras as mais belas fórmulas dos direitos do homem. E por igual nos dirigimos aos nossos duplamente irmãos do Brasil que por certo viveram como nós o dia de hoje, de tal forma é comum baterem em uníssono os corações de quem aprende no berço a falar a mesma língua. Meu Muito Respeitável Irmão Jair Ribeiro, peço-lhe que transmita ao Grande Oriente do Brasil o nosso mais sincero e fraternal abraço.

Quanto a vós, quanto a nós, maçons portugueses, muito para além do natural e irreprimível júbilo que hoje nos invade, há que não esquecer a pesada responsabilidade agora assumida. A regularidade é um bem inestimável e difícil de obter, espécie de finíssimo cristal que se pode quebrar irreparavelmente ao menor descuido. Por isso nos incumbe intensificar o trabalho maçónico na incessante busca do aperfeiçoamento e na prática deliberada e consciente das virtudes que definem e caracterizam os maçons.

Mas olhando para vós, meus Irmãos, e conhecendo-vos como vos conheço, encaro o futuro com plena confiança, certo da continuidade deste Surge et ambula! – levanta- te e caminha! – hoje aqui historicamente proferido.

Assim Deus nos ajude.”

Fernando Teixeira – Antigo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

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1 thought on “Consagração da GLRP – 29/06/1991 – discurso de Fernando Teixeira”

  1. Mario Waddington Vieira

    Parabéns pelas palavras, Poderoso Irmão Fernando Teixeira! Brevemente visitarei Portugal e sonho visitar uma Loja onde sentirei a egrégora de uma oficina portuguesa justa e perfeita.

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