Crise no Grande Priorado Rectificado de França: governança e a IA no centro do conflito

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Uma tempestade abala os alicerces do Grande Priorado Rectificado de França (GPRF) e do Directório Nacional das Lojas Escocesas Rectificadas de França (DNLERF), dois pilares do Rito Escocês Rectificado (RER) em França. Duas cartas explosivas, assinadas pelos Reverendíssimos Cavaleiros Jacques Bourbasquet-Pichard e Patrick Meneghetti, reveladas por “alertadores” internos, trazem à tona uma crise de governança, exacerbada pelo uso controverso da inteligência artificial (IA) e por tensões pessoais no topo da hierarquia. Enquanto a comunicação interna parece ser silenciada por uma direcção acusada de autoritarismo, o futuro desta obediência tradicional está em suspenso.

Uma fractura iniciática e administrativa

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As cartas, datadas de 22 e 26 de Agosto de 2025, dirigidas ao Alto Conselho (HC) e ao Conselho Nacional (CN), testemunham um profundo mal-estar. Jacques Bourbasquet-Pichard, membro fundador do GPRF e antigo Grão-Mestre Nacional, anuncia a sua retirada dos assuntos nacionais, denunciando “ameaças veladas”, “ambições individuais” e uma “indiferença” ao uso da IA nos textos doutrinários. Por seu lado, Patrick Meneghetti, o mais antigo Grande Prior ainda vivo, contesta as acusações feitas contra ele pelo Grande Prior – Grão-Mestre Nacional e seu adjunto, sem que ele se tenha podido defender. Estas acusações, relacionadas ao adiamento de uma fusão de jurisdições, seriam infundadas, segundo ele, e mascarariam disfunções mais amplas.

No centro do conflito, está uma inversão de papéis entre as instâncias ordinais – que deveriam orientar a Ordem com base em princípios espirituais – e as instâncias civis, consideradas predominantes.

Os dois autores salientam que os projectos de fusão, validados livremente pelo HC e pelo CN, foram questionados em reuniões convocadas com carácter de urgência, sem respeito pelos usos democráticos. Esta governação opaca alimenta um sentimento de perda de soberania, ameaçando a essência cavalheiresca e iniciática da RER.

A inteligência artificial: uma bomba-relógio

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O verdadeiro ponto de discórdia reside no suposto uso da IA pelo Grande Prior Adjunto para redigir textos doutrinários. Bourbasquet-Pichard vê nisso um desvio incompatível com a tradição iniciática, enquanto Meneghetti se preocupa com uma ferramenta imposta cujo domínio escapa às instâncias dirigentes, permanecendo nas mãos de seu promotor. Esta questão levanta debates éticos: numa Ordem ligada à transmissão oral e simbólica, o uso de tecnologias automatizadas poderia diluir a autenticidade dos ensinamentos? Um pedido de esclarecimento de Meneghetti, seguido de uma reunião precipitada, parece ter agravado as tensões, sugerindo uma gestão defensiva por parte dos dirigentes.

Comunicação censurada e retiradas simbólicas

A introdução que acompanha as cartas, assinada pelos “Irmãos Rectificados, denunciantes”, revela uma censura ditatorial: os Mestres Escoceses de Santo André (MESA) não teriam recebido essas cartas, bloqueadas pelo Grande Prior – Grão-Mestre Nacional. Esta medida acentua a divisão interna, privando os membros de um debate aberto. Perante esta crise, Bourbasquet-Pichard retira-se para se dedicar aos trabalhos locais na Borgonha, enquanto Meneghetti pondera um regresso ao silêncio, ambos reclamando acesso à informação. Estas retiradas, embora simbólicas, traduzem uma perda de confiança na actual direcção.

Fundação do Grande Directório das Gálias em Março de 1935
Fundação do Grande Directório das Gálias em Março de 1935

Rumo a uma reforma ou a uma cisão?

Este caso levanta questões cruciais sobre o futuro do GPRF e do DNLERF. O RER, nascido no século XVIII e enraizado numa espiritualidade cavalheiresca, corre o risco de ver a sua unidade comprometida por estas dissensões. Os denunciantes apelam a uma tomada de consciência colectiva, na esperança de restaurar a “lucidez” e o espírito iniciático. Por enquanto, nenhuma resposta oficial foi publicada, mas a pressão aumenta para que o Alto Conselho e o Conselho Nacional abordem o assunto na sua próxima reunião.

Num contexto em que a Maçonaria procura reinventar-se face aos desafios modernos – incluindo a integração de tecnologias como a IA –, esta crise poderá marcar uma viragem.

Os Irmãos, ligados às suas tradições, esperam explicações claras e uma governação respeitadora dos seus valores. Assunto a acompanhar.

Charles-Albert Delatour

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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