Muito se escreveu, dissertou e discutiu sobre a complexa relação entre Maçonaria e Cristianismo, nomeadamente no que respeita à vertente organizada da cristandade reflectida na Igreja Católica Apostólica Romana.
Os historiadores puristas aludem, essencialmente, à intervenção maçónica no desenlace originário da Revolução Francesa e no derrube consequente do poder clerical, mas esse argumento perde força ao verificarmos para lá de qualquer dúvida razoável que casos havia em que lojas maçónicas francesas existentes em pleno século XVIII tinham uma forte expressão sacerdotal (a famosa Loja La Vertu em Clervaux era disso um excelente exemplo, pois era constituída exclusivamente por clérigos católicos).
Então, qual a principal razão para existir um cisma tão marcadamente cerrado entre a Igreja e a Maçonaria?
Se expurgarmos da nossa análise qualquer vertente política que tenha por base a dicotomia entre “poder” e “contrapoder”, poderemos começar esse estudo pela demarcação ideológica e teológica que parece apartar ambas as instituições … a visão Teísta em oposição à visão Deísta do Universo e da existência como um todo.
A Igreja católica, assim como a maior parte das religiões organizadas, tem uma base doutrinal dogmática incontornavelmente teísta, pois alude à personificação e omnipresença do divino enquanto supremo criador da realidade sendo, simultaneamente, interventor, organizador e julgador da miríade cósmica em todos os seus planos e parcelas. Por outro lado, a Maçonaria cedo foi associada a uma visão mais deísta do divino, em que a crença numa entidade suprema e superior é inquestionável mas o mesmo não se passa com a aceitação da convicção tipicamente teísta e prosopopeica da revelação do divino, rejeitando igualmente a sua declarada e ininterrupta autoridade sobre o desenlace da realidade assim como o acto de constante julgamento divino do resultado provocado pelo livre arbítrio.
De referir, contudo, que os basilares maçónicos operativos teriam sido, na sua origem, incontornavelmente teístas, pois dificilmente outra realidade seria possível no panorama político- religioso europeu em plena Idade Média. No entanto, a evolução do fundamento maçónico de operativo para especulativo durante o advento da Idade da Razão permitiu a abertura do espírito humano para a gnose e para o despegamento face à liturgia dogmática na interpretação da existência. A Maçonaria evolveu, portanto, no caminho do deísmo e entrou, assim, em claro conflito com a doutrina católica, cisma esse que se perpetuou até hoje.
Um outro efeito que cimentou essa separação ocorreu durante o século XIX, quando o medo da excomunhão e o receio de represálias por parte de uma classe nobiliárquica dominante e ainda fortemente apegada à doutrina católica fizeram com que ocorresse um êxodo de cristãos das Lojas Maçónicas. Como resultado desse êxodo, as Lojas viram-se repletas de Maçons de orientação não cristã e floresceram, consequentemente, interpretações pagãs e supranaturais dos ritos e rituais até então mais comummente praticados. Perante esta “desvirtuação” das Lojas Maçónicas, a Igreja Católica consolidou as razões para a sua rejeição da Maçonaria Universal, culminando essa sua rejeição na encíclica papal Humanum Genus promulgada por Leão XIII.
Dados todos estes factos históricos e em resposta à animosidade da Igreja, seria de supor que a Maçonaria modificar-se-ia para uma organização cada vez mais afastada da Igreja Católica e dos seus princípios teológicos. No entanto, parece que a Maçonaria respondeu a esse afastamento unilateral com uma incorporação ideológica, nomeadamente em ritos de marcada índole crística que até recuperaram a visão teísta do divino. Algumas potências maçónicas, porém, consolidaram-se como marcadamente laicas, chegando mesmo a retirar das suas versões ritualísticas qualquer menção ao G∴ A∴ D∴ U∴ e a banir o Livro Sagrado das sessões das suas Lojas.
A questão da religiosidade e da doutrina cristã acabaram, portanto, por criar correntes opostas dentro da Maçonaria Universal as quais, no seu máximo expoente, levaram à desunião e à fragmentação dos entendimentos e reconhecimentos entre estruturas e obediências.
No meu modestíssimo entendimento, e como em tudo na vida e no Universo, a correcta apreciação da correlação entre Maçonaria e Cristianismo é feita quando se respeita o equilíbrio.
Há uma frase atribuída a Manly Palmer Hall, um proeminente Maçom norte-americano, que se traduzirá essencialmente no seguinte:
“O verdadeiro Maçom não está vinculado a credos. Ele percebe enquanto M∴ que, com a divina iluminação da sua Loja, a sua religião deverá ser universal: Cristo, Buda ou Maomé são nomes que pouco significam, pois ele reconhece apenas a luz e não o seu portador“. (in The Lost Keys of Freemasonry, M. P. Hall)
O mesmo será dizer que o divino existe mas a sua personificação deverá ser considerada como factor secundário na crença espiritual do Maçom (uma vez mais, vinga nesta visão o princípio deísta na interpretação da divindade). No entanto, esta interpretação poderá levar o Maçom mais cristão a uma mais profunda cisão na sua consciência no balanceamento entre Deus e Gnose, tentando descortinar até onde poderá ir o segundo sem ferir os fundamentos teológicos de base do primeiro. Difícil equilíbrio, sem dúvida!
A Maçonaria, e uma vez mais no meu entendimento, não deverá perpetuar-se enquanto antítese à religião, pois juntamente com o dogma expurgará também princípios milenares de crescimento idiossincrático civilizacional que não serão de descartar. Há que diferenciar opiniões de homens de palavras de erudição, quer as queiramos divinizar ou não.
Por outras palavras, existe sabedoria na Gnose mas ela não se circunscreve ao nosso próprio gnosticismo… por que não aproveitar, assim, a Gnose existente nas palavras dos primeiros cristãos? Não terá sido ela Gnose antes de ter sido Palavra? Deixo a questão em aberto…
Não querendo ferir a susceptibilidades daqueles que, sendo Católicos, seguem as palavras e as orientações ditadas e proferidas pelo Santo Padre, pouca possibilidade existirá de existir qualquer condenação espiritual por um cristão Católico ser simultaneamente Maçom , pois existe forte correlação entre a Palavra de Cristo e os princípios pelos quais se regem os Maçons.
Não terá Ele dito “felizes aqueles que aspiram por ser justos e bons, porque terão a justiça com toda a certeza“? E que procuramos nós, intrinsecamente? Claro está que, de imediato, os cristãos de maior ortodoxia relembrarão que Cristo também terá dito que “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai, senão por mim“. Mas será que esta afirmação quererá mesmo dizer que ambas as práticas são mutuamente exclusivas uma da outra? Ou será que se circunscreve à Salvação? E se assim for, qual o choque teológico que poderá advir do confronto entre o conceito de Céu e Oriente Eterno? Muitas são as perguntas as quais só poderão ser respondidas pela percepção da fé inerente a cada um de nós.
O Cristianismo é, por interpretação pragmática de conceito, uma religião pouco tolerante, mas se a perfeição aí residisse de forma directa e simplificada então não necessitaríamos de nos aperfeiçoar enquanto Homens, sendo que a tolerância é um dos valores mais caros a todos os Maçons , independentemente da sua obediência.
Estaremos, então a ofender Deus, nas nossas práticas, quando o fazemos à luz das Sagradas Escrituras e/ou em nome da justiça e da bondade humana? Certamente que não! Há uma frase bíblica que responde a tudo … “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais, qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus“. (Coríntios, 10:31). Como poderá, assim, haver condenação?
B. S.

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- Esmiuçando a Maçonaria (a Loja)
- A lei iniciática do silêncio (ver, ouvir e calar)


Existe um livro do Max Hendel da ordem rosa cruz áurea com esse título muito interessante também.
felizes aqueles que aspiram por ser justos e bons, porque terão a justiça com toda a certeza , muito bem colocado.
Existe um livro do Max Hendel da ordem rosa cruz áurea com esse título muito interessante também.
Essa publicação demonstra, em bem poucas palavras, a capacidade de raciocínio lógico de forma bastante racional um complexo e difícil entendimento nessa seara a todos os homens. Especialmente aos maçons em conflitos com sua fé, quando cristão.
Minhas humildes palavras de reconhecimento a esse excelente esclarecimento publicado,neste canal de estudos maçonicos.