I – A Mestria tem no Escocismo uma dimensão retratista que escapa porventura aos mais desatentos. Reflecte os padecimentos de uma caminhada, exemplificada num drama ficcional que sujeita aquele que a ele se submete, a um conjunto de provas e às eternas perguntas sobre o sentido da vida e da morte. Como nenhum dos outros graus da maçonaria azul coloca o recipiendário perante o drama da traição e da violação do segredo. Traição por aqueles que se reputavam iguais, logo fratres; violação porque os segredos do acesso ao grau almejado são tentativamente sacados por quem não tinha (ainda) direito a eles. Isto é paradigmático da caminhada humana e revela o seu anacronismo. A tentação já retratada no Génesis da ambição desmesurada, da inveja, do lançar mão a quaisquer meios para atingir um fim desonesto, o aproveitamento pessoal atropelando os outros e desrespeitando as regras da decência. Trata-se de algo que conspurca o ser humano, que o desvirtua da sua humanidade, transformando-o numa besta, num animal de puros instintos. Por isso mais que os outros graus retrata-nos como podemos vir a ser, se a oportunidade se proporcionar, se o “combate aos vícios” não estiver a ser realizado, na sua plenitude.
Os três “J” são identificados com os piores vícios humanos mas se há uma moral a extrair desta ficção é que ao lado pode estar o nosso pior inimigo e que devemos estar sempre vigilantes. Na verdade, os piores inimigos da Maçonaria e da Razão vieram das suas fileiras e tornaram-se militantes do obscurantismo, da maledicência, da canalhice e da sede de vingança ditada pelo despeito e pela mediocridade. Ignoro se entre os Mestres se percebe bem a prova porque se passa e que é infligida ao recipiendário. A funcionalização de muitas cerimónias torna-as por vezes redundantes, apenas teatrais q.b. quase para satisfação de quem assiste. Perde-se, muitas vezes, a profundidade e a seriedade do confronto com o nosso destino final que é o fim da caminhada que começa ali, na Iniciação.
“Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste torado; porque tu és pó e ao pó voltarás” dizem os Evangelhos (Gen. 3:19). Incorporado no Mestre aquele que foi a vítima imolada, como no Holocausto, faz-lhe companhia a imagem do fetero que um dia será́ o seu. A lembrar que tudo o que é vaidade é vão, inútil. Um dia o reerguido será sujeito ao verdadeiro teste da sua definitiva igualdade. E da sua possível mas ainda não definitivamente conquistada transcendência. É uma prova em que não estará sozinho mas que tem um Julgador que tudo vê e tudo sabe e que lhe pedirá contas sobre o caminho que fez entre nós.
II – Nem sempre aquele que é exaltado Mestre interioriza as provas por que passa. Muitas vezes toma-as como mais uma etapa numa escala de graus, que lhe é sugerido cumprir “já que está ali”. O número de Mestres que adormecem chegados ao terceiro grau é brutal. É um dos padecimentos porque passa a moderna Maçonaria Especulativa. Várias explicações são dadas para esse desinteresse. Perda de curiosidade, abundância de informação disponível noutros locais, falta de vocação de quem conduz as lojas, que afinal são as bases da organização. Desconhece-se se há remédio para isso.
O apelativo histórico da Maçonaria em relação ao segredo e ao inverosímil perdeu-se. Está tudo na Internet, ouve-se dizer. Os mecanismos de sociabilidade estão ligados a um sistema de dar e receber. Dá-se na perspectiva de um dia ser recompensado. Ensina-se que a Maçonaria não entra nesse jogo, pois impõe que se deixe os metais à porta do templo. Mas quantas vezes será essa ordenação tomada a sério? O que são os ágapes senão prolongamentos da disposição de cruzamento de informações e negócios que leva muitos a fixarem-se na universalidade da Maçonaria por causa dos contactos que facilita e multiplica.
Atribui-se, por vezes, a culpa do adormecimento a uma desinteligência entre Irmãos, a uma palavra mais ríspida do Venerável Mestre ou do Vigilante para a sua coluna. Eventualmente isso acontece porque, por força das circunstâncias modernas, as Lojas se vêem obrigadas a recrutar obreiros cada vez mais novos e as Lojas multiplicam as sessões de expediente administrativo em que é impossível captar a atenção de quem chega. Este endema é algo que deveria merecer a atenção dos que têm responsabilidades de direcção aos diversos níveis. Porque é algo que vem para ficar.
Nas maçonarias mais antigas (Inglaterra, Estados Unidos) correm ciclicamente notícias que falam no abate de colunas de Lojas e no adormecimento de milhares de iniciados [1]. Nos corpos dos graus superiores eternizam-se em funções de direcção, maçons que procuram na vida maçónica uma distracção como alternativa para o fim da vida activa e a aposentação. A perspectiva da mumificação da organização é terrível e desoladora para quem entra como enormes expectativas que, paulatinamente, saem frustradas, pelo desinteresse de quem devia comandar e encorajar. É um processo circular que caustica e seca o entusiasmo e a procura do conhecimento e da verdade que são as lanternas da Ordem.
Neste panorama pessimista o caminho do rejuvenescimento vem de maçonarias mais modernas na Asia, Oceânia e Europa Continental. Mas a dificuldade maior é a questão do reconhecimento que muitos confundem com a regularidade. O principio imposto pela Grande Loja Unida de Inglaterra de reconhecimento apenas de uma Obediência por país confronta-se com as vicissitudes da vida moderna e a expansão da própria organização. Mas ainda assim dependendo do “mercado” este principio encontra excepções como é caso paradigmático as três obediências reconhecidas pela GLUI) ou as duas alemãs que têm idêntico reconhecimento. Já nem se refere as grandes Lojas estatais no caso australiano ou neozelandês.
Uma resposta inovadora pode vir de Maçonarias que seguindo no essencial os “Landmarks” da Maçonaria Regular têm tentativamente procurado alguma forma de coordenação internacional como a Inter-American Masonic Confederation (CMI), a Confederation of the Grand Lodges of Europe and the Mediterranean, a Confédération des Grandes Loges Unies de l’Europe ou a Society of Grand Lodges in Alliance.
Arnaldo M. A. Gonçalves, M∴ M∴
Notas
[1] “Libertyville Masonic Lodge closes after 157 years”, 13. 10.2021. https://dailyjournalonline.com. “
Former masonic lodge in Halesowen Road, Cradley Heath, to be demolished for huge home.” Halesowen News, https://www.halesowennews.co.uk/

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