Embora a autoria deste texto seja única, a sua elaboração só foi possível porque o autor observou, em conversa informal com outros Irmãos de Ordem, que as suas percepções que não eram exclusivas, pontos fora da curva, ao contrário: ecoavam em outras Lojas. Assim, embora a amostra seja reduzida e nada se possa afirmar quanto à sua representatividade, as evidências preliminares sugerem que devam ser de imediato compartilhadas pois, se em conjunto ou mesmo isoladas não constituírem efectivamente factos isolados, o texto prefigura um alerta contra a sucessão de práticas que podem resultar no que ora se denomina de atraso de uma Loja Maçónica, seja pela postergação de iniciativas ou mesmo o desvio de finalidade tendo em vista que o recto caminho aponta no sentido à busca permanente da Verdade – o objectivo comum a todos os ritos da Ordem no âmbito das Potências regulares. A propósito, não é por acaso que o estudo das Artes Liberais perpassa o curriculum de, senão todos (porque são tantos, é difícil encontrar alguém que conheça a todos), a maioria dos Ritos, pois:
Antes de tudo, as Sete Artes ordenavam-se à verdade e a sua complexidade […] Depois, o jovem medieval que pudesse ou quisesse estudar as Sete Artes capacitava-se para a Sabedoria adquirida efectivamente nas universidades […] Não é, pois, de assombrar que aquele jovem medieval se distinguisse por buscar algo superior a ele mesmo – porque, com efeito, a nossa alma só repousa na verdade […]. (NOUGUÉ, 2017, p. 16-7)
Dessarte, as Artes Liberais [1] são disciplinas propedêuticas: antecedentes a todas as demais, daí que devem(riam) ser objecto de intenso estudo, debate e reflexão no seio da Ordem, pois se para a maioria dos Irmãos não é dada a oportunidade de conhecê-las ainda no início da sua trajectória de estudos (Ensino Médio regular), mesmo quando apresentadas já na idade madura podem deflagrar importantes ressignificações nos relacionamentos quotidianos, do ambiente familiar ao profissional em meio aos demais, a começar pelo próprio entendimento e reavaliação pessoal acerca das chamadas questões fundamentais.
O tema que se segue talvez não merecesse ser apresentado em tom crítico se as Lojas efectivamente dessem mais atenção ao estudo do trivium, a parte das Artes Liberais que engloba a Gramática, a Retórica e a Dialéctica (Lógica). E isto porque, no Rito Escocês Antigo e Aceito, o mais praticado no Brasil, o conteúdo (isto é, um leve pincelar) do trivium é apresentado sobretudo no Segundo Grau do simbolismo (o de Companheiro) [2], deixando-o perdido, quase mesmo negligenciado como é o estudo do próprio Grau (rico em outros conteúdos) espremido entre o de Aprendiz (que ocupa a maioria – sob qualquer critério – das sessões realizadas [3]) e o de Mestre. Infelizmente e contraditoriamente, nesse aspecto a Maçonaria, que poderia ser a última trincheira, se equipara às práticas disseminadas no mundo profano:
O mundo moderno, Brasil incluído, hipnotizado pelo esquema do ensino universal, perdeu completamente de vista a conotação individual e “iniciática” que é a alma da verdadeira educação e a essência do trivium. (NASSER, 2008, p. 14)
Portanto, s.m.j., por inúmeros motivos e sobre os quais por ora não cabe maior atenção, a Ordem dá sinais de que também capitulou frente a Jean A. Comenius (1592-1670), o introdutor da moderna pedagogia desenhada para fins de ensino e não de educação. Até então:
[…] igualmente notável é a grande importância dada à lógica ou a dialéctica. Os primeiros estatutos das universidades, ou seja, aqueles de Paris em 1215, exigem que se estudem todos os escritos de Aristóteles que versem sobre lógica, um material que durante toda a Idade Média permaneceu como espinha dorsal do curso de artes […] a lógica não era assunto de estudo que tinha importância apenas por si mesmo, mas também permeava todas as outras disciplinas como um método, ao mesmo tempo em que dava à mente medieval um tom e um carácter peculiares. Silogismos, disputas, a disposição ordenada de argumentos a favor e ou contra teses específicas, eis o hábito intelectual da época […]. (HASKINS, 2015, p. 48-9)
No nosso quotidiano, e daí também porque no curso da dinâmica das Lojas, não raramente somos confrontados com a necessidade de promover mudanças, algumas até consideradas inovações, as mais diversas. E se sempre há os apoiadores, por convicção ou interesse, há também a resistência que se apruma e esgrime com argumentos e discursos nem sempre fáceis de serem contestados porque encerram, escamoteados, traços de verdades; todavia, quando submetidos à lupa e ao olhar mais crítico deixam à vista a sua condição de pseudoverdades, e é sobre esses argumentos que ora se discorre.
E entre os franco apoiadores e os contestadores declarados há uma gama de perfis: 1) os indiferentes (por vezes em cândida ingenuidade na crença de que a matéria não os afecta); 2) os silentes devido à falta de entendimento da matéria em lide, para alguns por ser inalcançável [4], mas para outros por absoluto desinteresse na medida em que qualquer entendimento demanda(ria) algum esforço, a exemplo do estudo, da reflexão e da tomada de posição; e, 3) os acomodados, aqueles que preferem manter-se à distância de eventual polémica sob o argumento (com algum louvor) de não comprometer a “egrégora da Loja”. Sobre esses e em meio aos extremos a sabedoria acumula várias expressões: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons” (Martin L. King) [5], e também um texto muito conhecido cuja autoria é controversa:
Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.
Sem perder de vista os objectivos da Ordem e de que ela é um meio antes de ser um fim em si mesma, é preciso estar (muito) atento aos argumentos utilizados para fundamentar as decisões, sobretudo as que implicam mudanças, pois estas podem mesmo vir a ser divisores de água, pontos de inflexão na história das Lojas. E enquanto alguns argumentos são efectivamente consistentes à luz da Missão e dos objectivos institucionais, outros podem vir encobertos e em meio às narrativas falaciosas (erros de raciocínio, mas por desconhecimento) ou ainda encobrirem efectivos sofismas (erros dolosos, carregados de intenções inconfessáveis).
Por oportuno, é importante esclarecer que as falácias, no quotidiano, são mais comuns do que à primeira vista somos levados a reconhecer, e tudo, a bem da verdade, por falta de disciplina intelectual e de educação nos termos já esclarecidos. A título de exemplo, entre outros, O Guia das Falácias de Stephen Downes [6] apresenta mais de 30 espécies do género, difícil pois, sem acurado treinamento, no dia a dia escapar de incorrer em alguma(s).
Assim, por ser mais comum do que à primeira vista se pode imaginar, infelizmente nem sempre é fácil discernir entre o argumento verdadeiro, a falácia e o sofisma, pois isto exige acompanhamento, envolvimento, conhecimento, liberdade crítica e, porque não reconhecer, no caso, comprometimento com os rumos e projectos da Loja (e, por extensão, da Ordem), o que, por sua vez, também requer maior dedicação e tempo. De outro lado, o resultado da omissão é conhecido por todos: começa com o imobilismo, passa pelo atraso e termina em desastre – o abatimento das colunas.
Quando Nougué (2017, p. 84) refere que “O Tratado dos Sofismas também é parte potencial da Lógica, assim como um policial tem que conhecer a mente do delinquente para poder exercer perfeitamente o seu ofício”, não só endossa a sugestão de que, ao abrigo das Artes Liberais, a matéria ora objecto de análise (falácias e sofismas) deveria efectivamente integrar o curriculum maçónico, como confere actualidade e relevância (inclusive profissional) ao tema.
Em razão das polémicas levantadas, não só para apaziguamento e agilização, mas também por ignorância ou má fé, não raro algumas das questões (notadamente as propostas inovadoras), como via de solução, são encaminhadas para a deliberação no voto … é a estratégia que, então, pode legitimar o imobilismo, socializar os erros e deixar a todos com a consciência tranquila, isentos das responsabilidades, pois a matéria ganha o status de ter sido decidida democraticamente [7], quando não por ampla maioria (a dos silenciosos…).
E assim, na melhor das hipóteses, antes do desastre, permanece “tudo como dantes no quartel D´Abrantes”. Vejamos alguns casos:
- “a perfeição não existe, é utopia” – alguém seria capaz de contestar? Claro que não, pois a afirmativa é absolutamente verdadeira, tanto que se aplica, se não a tudo, a quase tudo. É verdade, entre outros motivos, porque sempre coloca a questão: perfeito na perspectiva de quem, qual a referência? E como existem infinitas perspectivas [8], não pode haver perfeição absoluta, logo, resta provada a afirmativa. E é também verdade porque nós, os artífices da suposta perfeição, somos imperfeitos e limitados, e imperfeição não pode gerar a perfeição, e também por aí, resta então provada a tese. Por fim, se há algo comum às várias definições utilizadas pelos mais diversos Ritos acerca da trajectória do Maçom, é o facto de serem efectivas utopias (e neste aspecto a literatura maçónica é absolutamente clara): ou alguém crê que encontrará “a” verdade e, também, a Verdade? E o que dizer, então, do retorno e da reintegração às origens? Portanto, se o final da caminhada é uma utopia, mas é ela que nos anima, por que então negar as utopias intermediárias, aquelas que no dia a dia nos impulsionam para os saltos qualitativos em todas as iniciativas? Ter utopias como metas de realização (moral e material) é mesmo condição sine qua non à vida do Maçom. É preciso estar atento para que o argumento “a perfeição não existe” não favoreça e conduza aos pactos de mediocridade, o nivelamento por baixo, a acomodação na zona de conforto;
- “as mudanças são lentas, não adianta ser impaciente, temos que respeitar os ritmos de cada um, todos somos diferentes” – e esta, é possível contestar? Há aí uma combinação de afirmativas que não tem outro intuito que não o de fazer o interlocutor-proponente refrear o ímpeto transformador. Porque somos diferentes (quer obviedade maior?), decorre que cada um tem o seu próprio ritmo … sim, mas isto não significa que, se instruído, ajudado, cada um não possa acelerar o ritmo e, dependendo do empreendimento, quando sujeito a prazos, nada impede a realocação de equipes, ajustes dos recursos às efectivas necessidades, etc. O adjectivo “impaciente”, ora em tom pejorativo, tem a clara intenção de reduzir a velocidade de implementação ou postergar os projectos, quando não a obstaculizá-los em definitivo. Sim, há mudanças que são lentas, algumas até acompanham o tempo geológico e da evolução das espécies, mas nem todas, ipso facto, necessariamente devem seguir esse ritmo. Os processos humanos e sociais, ainda que bem-intencionados não são dotados de autopoiesis [9], não brotam e evoluem por geração espontânea, daí que necessitam de lideranças catalisadoras, cujo papel é exactamente este: acelerar a reacção para atingir os objectivos e metas estabelecidas, tudo, é claro, desde que com vistas aos fins justos e perfeitos;
- “os maçons são homens livres que voluntariamente ingressaram na Maçonaria, daí não podem ser obrigados” – a afirmação, também verdadeira, pode mesmo ser vista como um subproduto da anterior. E nesse caso a expressão “obrigados” pretende sugerir um acto autoritário, impositivo e com clara intenção crítica ao interlocutor-proponente. Todavia, se por livre e espontânea vontade alguém ingressa numa instituição (seja uma universidade, um clube, uma igreja, uma empresa, etc.) é razoável supor que ela também (por livre e espontânea vontade) concorde com os seus regramentos e não só se disponha, como intensamente deseje colaborar [10] no sentido à realização da respectiva missão institucional… perseguir a utopia … daí que não cabe, em absoluto, referir a acto autoritário, mas antes cobrar coerência daqueles que voluntariamente ingressaram na Ordem;
- o argumento ad hominem – fica caracterizado quando o interlocutor ao invés de tecer considerações (em geral críticas) acerca do argumento ou da proposta em discussão, opta pela via indirecta da desqualificação pessoal do proponente com alusão, por exemplo, ao seu temperamento, à sua urbanidade, à sua formação, aos factos pretéritos, etc. Desloca-se, assim, a crítica (e toda a atenção) que deveria ser dirigida à mensagem para o mensageiro. O facto de alguém ser irascível, per se não pode e não deve desqualificar no mérito as suas ideias e sugestões. Curiosamente, por vezes esse argumento é levantado para desqualificar o interlocutor-proponente por excedente de competências, isto é, por querer “elevar a métrica” das realizações é então acusado de exigir o que é impossível – que os demais sejam iguais a ele -, pelo que é então considerado arrogante, como “aquele que se acha”, o único detentor da verdade. De algum modo esse discurso dialoga com o primeiro desta lista;
- argumentum ad verecundiam ou, o argumento da autoridade – que também poderia ser denominado de “ad hominem ao inverso”, isto é, qualquer afirmativa ou proposta sugerida por um Mestre, principalmente se já Instalado ou detentor de Graus conferidos por alguns dos Supremos Conselhos ou Ordens (Co)laterais [11], ipso facto não admite questionamento, como se eles já tivessem alcançado à plenitude do conhecimento. Assim, ao invés do recurso à força do argumento, apela-se ao argumento da força, no caso, do Grau, da titulação, da hierarquia na Ordem, etc. Ora, qualquer um que habitualmente transita na Ordem pode ver o non sequitur dessa premissa e conclusão; os graus maçónicos e a autoridade de conhecimento (infelizmente) não guardam qualquer relação [12], daí que seguir a cartilha do “ad hominem ao inverso” implica em “mais do mesmo”, sem corrigir, sem inovar;
- a falácia do “verdadeiro escocês” – para não entrar em conflito com integrantes que apresentam desvios à luz dos cânones (landmarks, usos e costumes) da Ordem, e no limite levá-los à exclusão, é habitual ouvir o tradicional “deixa prá lá, eles não são verdadeiros maçons”. Ora, não há verdadeiros e tampouco falsos maçons, ou é ou não é; há os Iniciados (ora reconhecidos como maçons) e os não-Iniciados, também denominados como profanos. Lavar as mãos, fazer de conta ou buscar falsas justificativas para manter no seio da Ordem os que não apresentam a conduta esperada, tem um só efeito: o comprometimento, pouco a pouco, da própria Ordem, é o popular “tiro no pé”;
- “teoria prática” – frente à cobrança para maior aprofundamento nos estudos, sempre alguém pede a voz para dizer (menosprezando a iniciativa) que se engana quem pensa que a verdadeira Maçonaria (e aqui também se aplica a falácia do escocês) está nos livros, ao contrário, ela (a verdadeira Maçonaria) antes se realiza nas atitudes e comportamentos no dia a dia, nas acções em benefício ao próximo, entre outras iniciativas. Ora, trata-se aqui da unidade indissociável (também tão presente em outros aspectos da vida), cuja representação simbólica universal é a moeda, pois esta inexiste sem as duas faces que a caracterizam e identificam enquanto tal. Se a Maçonaria se esgotasse na caritas não seria necessário ser admitido na Ordem para ser Maçom (todos conhecem a expressão “Maçom sem avental”); e o mesmo raciocínio se aplica aos que consideram que a Maçonaria é tão somente mais uma escola. Daí que, por ser uma Escola Iniciática cujos membros, considerados Irmãos, se dedicam ao aperfeiçoamento dos valores (ética, pessoal) e da moral (relacionamentos, colectivo), a Maçonaria só pode ser concebida, por definição, como um domínio teórico-prático, sem esquecer, é claro, que a abordagem teórica deve privilegiar os princípios da andragogia (tema para um próximo texto);
- “a interpretação simbólica é livre, cada um interpreta como quer e de acordo com o seu nível” – sim, é habitual encontrar o mesmo símbolo com diferentes interpretações. Todavia, não se pode perder de vista que se cada símbolo admite significado próprio, quando no âmbito de uma narrativa (a exemplo de uma doutrina, no contexto de uma ritualística, de uma liturgia, etc.) ele só admite aquele que atribui sentido, coesão e coerência ao todo no qual é parte, o que sem dúvida não só restringe a desejada liberdade interpretativa, como arrisca-se, quem ignorar este facto, a fazer do Rito um verdadeiro Frankenstein;
- o argumento do “segredo maçónico” ou, na sua versão mitigada, “isto não é do seu grau” – é a obtusidade na sua mais alta expressão, pois pretende eliminar, de raso, qualquer possibilidade de diálogo, frustrando o entendimento (e provavelmente a motivação) daquele que levanta a questão. Por certo que alguns conhecimentos exigem pré-requisitos, e isto é típico das Ordens Iniciáticas, razão pela qual tais conhecimentos são denominados de “mistérios” – porque só dados a conhecer aos Iniciados (os supostos capazes da sua apreensão), portanto, nada a ver com “segredos” na acepção popular. Destarte, para cada caso deverá ser buscado o encaminhamento mais adequado, mas jamais a obstrução do esclarecimento. Não raro ingressam na Ordem pessoas de elevada qualificação (lato sensu), e nada surpreende que superior à dos próprios Mestres, logo…; finalmente,
- um dos usos e costumes mais disseminados (não sem razão) na Maçonaria, mas que não constitui falácia e tampouco sofisma, é o elogio. No momento adequado reveste-se de naturalidade, sinceridade e sinaliza o reconhecimento (os psicólogos o denominam de reforço positivo) que motiva, portanto, deve ser continuado e estimulado. De outro lado, se amplamente generalizado para todos e para qualquer realização, o elogio tende a depreciar-se, não mais aponta para algo singular e meritório; consequência: tem o significado reduzido e o efeito (desejado) eliminado. Ademais, se de um lado o efeito do elogio é capaz de alavancar as futuras realizações, de outro não pode ser perdido de vista que é a crítica justa, ponderada e oportuna que aponta os caminhos para a correcção e a melhoria; dessarte, tanto o feedback positivo quanto o feedback negativo contribuem para o atingimento dos objectivos. Por fim, em coerência com as manifestações antecedentes neste texto, é importante ressaltar que a crítica ou o elogio, em primeiro lugar são dirigidas às ideias e às realizações; só após decorrido tempo e um conjunto (e histórico) de iniciativas é que pela consistência reiterada torna-se possível que os elogios (e também as críticas) sejam entendidos, por revelarem traços de personalidade e comportamentos, como dirigidos também aos autores das iniciativas.
Certamente cada um tem uma experiência para chamar de sua ou mesmo já presenciou situações que, tristemente, poderiam enriquecer os apontamentos negativos desta lista: uma colectânea de argumentos ora considerados como o caminho para a imobilidade e o atraso. Daí que já se encontra no prelo o “+ 10 Discursos” onde, entre outras situações, são abordadas: a prática da constituição de Comissões (de estudo, análise, etc.), claro que sempre a partir dos mais louváveis argumentos, mas que, de facto, ou se presta à legitimar “decisões já decididas” ou tão somente encobre intenção protelatória; bem como o peso e a consequência da figura do “dono da Loja vis-à-vis ao tu quoque”.
A intenção não foi ser cáustico ou irónico, mas chamar a atenção para determinadas atitudes e comportamentos, reais, por vezes inadvertidos, por ingenuidade até, que podem interferir no bom funcionamento das Lojas e até mesmo desfigurar a Ordem (reitera-se, mais uma vez: sempre tendo em vista a Missão e os objectivos da Maçonaria), razões suficientes para tê-los em mente e, se e quando necessário, agir ou reagir.
Àquele que pergunta: mas a que mudanças o texto ora refere? Isto porque inicialmente houve alusão às “[…] as decisões, sobretudo as que implicam mudanças […]”. Ora, em princípio a todos os actos, iniciativas, deliberações, etc. que directamente ou indirectamente possam afectar o destino da Loja (ou Comissões, Secretarias, outras unidades na hierarquia da Ordem, etc.), sem perder de vista que, por vezes, mesmo pequenas alterações, esparsas e à primeira vista independentes, quando combinadas podem provocar grandes transformações, pois mesmo nas pequenas unidades organizacionais (a exemplo das Lojas) também pode ser observado o chamado Efeito Borboleta.
Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom. O autor não expressa o ponto de vista das Lojas, Obediências, Potências e Instituições das quais participa, mas tão somente exerce a sua liberdade de pensamento e expressão. E-mail: [email protected]. Porto Alegre-RS, 24.06.23.
Notas
[1] Os mais interessados poderão consultar, entre tantos, a Colecção Artes Liberais – Trivium e Quadrivium – Vol. 1, Porto Alegre-RS, Inst. Hugo de São Vítor, 2020.
[2] A rigor o conteúdo encontra-se distribuído ao longo de todos os graus simbólicos.
[3] Quantas sessões / ano a sua Loja promove exclusivamente para estudos no Grau de Companheiro?
[4] Afirmativa, sei, de difícil aceitação na Maçonaria, vista como arrogante; mas o facto incontestável é que há estágios de conhecimentos que só serão atingidos por alguns, entre outros motivos, porque demandam conhecimentos preliminares. Melhor exemplo não há, me parece, do que a evolução do estudo e conhecimento das Matemáticas.
[5] Disponível em: https://www.pensador.com/frase/MTAwMDY/. Acesso em: 24.06.23.
[6] Fonte: http://www.lemma.ufpr.br/wiki/images/5/5c/Falacias.pdf.[] Acesso: 24.06.23.
[7] Como se o construto “democracia” pudesse ser encerrado e correspondesse apenas ao exercício do voto.
[8] No limite, a divina.
[9] Do grego auto “próprio” + poiesis “criação”.
[10] Estudando, colaborando, dedicando o seu tempo, tomando à frente das iniciativas, etc.
[11] Os textos divergem: alguns referem a Graus Laterais enquanto outros aludem a Colaterais, à semelhança do que ocorre com os Altos Graus, também referidos como Filosóficos ou mesmo Superiores.
[12] Infelizmente, a cada dia aumenta o contingente de Mestres Graduados, repletos de comendas e demais, sem que se verifique, nas Lojas Azuis, qualquer acréscimo, nem substantivo e tampouco qualitativo, de trabalhos, propostas, orientações, enfim, exemplos meritórios que fizessem jus ao rol de títulos enumerados.
Referências bibliográficas
- HASKINS, Charles H. A Ascensão das Universidades. Balneário Camboriú, SC: Livraria Danúbio Editora, 2015.
- NASSER, José M. Para Entender o Trivium. In: JOSEPH, Irmã Miriam. O Trivium – as artes liberais da lógica, gramática e retórica. São Paulo: É Realizações, 2008.
- NOUGUÉ, Carlos. Do Papa Herético e Outros Opúsculos. Formosa, GO: Santo Tomás, 2017.
- PINHEIRO, Ivan A. Dez Discursos: fundamentos para o atraso de uma Loja Maçónica. Academia Maçónica de Letras, Artes e Ofícios do GOB-BA. Revista Magister Magistrorum, Ed. 01, Ano I, p. 34-8, Julho, 2021.

- Os Três Pontos da Maçonaria
- A origem dos conflitos entre a Maçonaria e a Igreja Católica
- A Estrela Flamejante
- A Maçonaria é herdeira dos Templários?
- Ordo Ab Chao (a ordem vem do caos)


Muito frequentemente, vê-se os assuntos de loja sendo tratados como “puxadinho” dos interesses pessoais do “dono da loja”. O altruísmo, o senso de irmandade estão deixando de ser o foco da maçonaria. Estamos nos tornando midiáticos e meras fachadas falsas.