As diferenças entre o Rito Moderno e o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA)

Partilhe este Artigo:

diferenças entre o Rito Moderno e o Rito Escocês Antigo e Aceite

As diferenças entre o Rito Moderno e o Rito Escocês Antigo e Aceite: o que são? De onde vêm? Comparação e análise.

O Rito Moderno, também chamado na Europa de Rito Francês ou Rito Francês Moderno, e o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) são, sem dúvida, os dois ritos maçónicos mais praticados na França, e cada um possui uma história, filosofia e ritualística próprias, reflectindo diferentes abordagens da experiência maçónica.

O Rito Moderno surgiu como a versão francesa do rito da Grande Loja de Londres, sendo introduzido em Paris na década de 1720. Ao longo do tempo, passou por diversas revisões que moldaram a sua forma actual, destacando-se as contribuições de Murat (1858), Amiable (1880 e 1887), Blatin (1907), Gérard (130%2) e Groussier (1935). Caracteriza-se por valorizar a simplicidade e a clareza nos rituais, enfatizando princípios como a tolerância, a liberdade de consciência e o humanismo. Os seus rituais são centrados na ética e na moralidade, buscando desenvolver no maçom uma reflexão racional sobre as suas acções e responsabilidades.

Por outro lado, o REAA foi *desenvolvido nas Antilhas Francesas, mais precisamente na Ilha de São Domingos (actual Haiti), a partir da década de 1760, através de Etienne Morin e Henry Andrew Francken. Foi fundado oficialmente em 1801 na cidade de Charleston, nos Estados Unidos. Este rito distingue-se por sua estrutura de 33 graus, sendo que os últimos 30 são administrados por Supremos Conselhos. O REAA mantém uma forte dimensão espiritual, referindo-se ao Grande Arquitecto do Universo e preservando a presença da Bíblia nos altares durante os juramentos, bem como certas tradições religiosas.

A arquitectura ritualística dos templos também evidencia diferenças claras entre os dois ritos. No REAA, o pilar de Boaz se encontra à esquerda ao entrar, enquanto no Rito Moderno está à direita; o pilar de Jaquim segue o oposto. A disposição dos obreiros mostra variações subtis: aprendizes e companheiros ocupam colunas correspondentes em ambos os ritos, mas os vigilantes têm posições distintas, estando no final da coluna no Rito Moderno e no lado oposto no REAA. As movimentações cerimoniais também diferem: ambos iniciam com o pé direito, mas a marcha no REAA começa com o pé esquerdo. A postura, o alinhamento e a esquadria seguem protocolos específicos de cada rito.

As diferenças se estendem à bateria e aos sinais: no Rito Moderno, a bateria é executada com duas batidas curtas seguidas de uma longa; no REAA, são três golpes regulares. Os cordões, faixas e colares variam em cores: o Rito Moderno privilegia o azul-celeste, remetendo às antigas ordens de cavalaria francesa e inglesa, enquanto o REAA utiliza azul-escuro e vermelho, fazendo referência à Ordem Nacional da Legião de Honra instituída por Napoleão Bonaparte. Quanto à nomenclatura das lojas, o Rito Moderno utiliza o termo “lojas azuis” para os três primeiros graus, enquanto o REAA prefere “lojas simbólicas”.

Os gestos e sinais também possuem diferenças significativas. No Rito Moderno, o sinal de ordem do grau de companheiro consiste em colocar a mão direita sobre o coração. No REAA, o gesto é similar, mas complementado pelo braço esquerdo levantado em ângulo recto. As “cinco viagens”, que representam etapas de aprendizagem, diferem igualmente: no REAA, são os Cinco Sentidos, as Ordens de Arquitectura, as Artes Liberais, os Grandes Iniciados e a Glória ao Trabalho; no Rito Moderno, são os Sentidos, as Artes, as Ciências, os Benfeitores da Humanidade e a Glorificação do Trabalho. As ferramentas simbólicas associadas a cada viagem também apresentam pequenas variações.

No tocante aos símbolos centrais, o Rito Moderno destaca a letra G como emblema principal, enquanto o REAA valoriza a Estrela Flamejante, considerando a letra G como parte de um conjunto simbólico maior. Em termos de filosofia, o Rito Moderno tende a privilegiar o racional, a simplicidade e a ética prática, enquanto o REAA mantém uma abordagem mais esotérica, simbólica e espiritualizada, incentivando o aprofundamento pessoal e a reflexão interior.

Hoje, o Rito Moderno é amplamente praticado pelo Grande Oriente da França (GOdF), principal obediência maçónica francesa, enquanto o REAA é seguido por instituições como a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) e a Ordem Internacional Le Droit Humain. Ambos os ritos continuam a desempenhar papel central na maçonaria francesa e mundial, oferecendo caminhos distintos mas complementares para o desenvolvimento moral, intelectual e espiritual do maçom, mantendo viva a tradição histórica e a riqueza simbólica da Maçonaria.

Diferenças entre Rito Moderno e Rito Escocês Antigo e Aceite

 Moderno REAA
Senhas Comunicado durante a cerimónia, junto com os outros “segredos ” Comunicado ao candidato antes de entrar na loja.
Disposição das colunas J para o noroeste, B para o sudoeste J para sudoeste, B para noroeste
Palavras sagradas J no 1ª Grau, B no 2ª Grau B no 1ª Grau, J no 2ª Grau
Posição de vigilantes Ambos no ocidente, o 1ª vigilante ao sul e o 2ª vigilante ao norte (no Brasil, ao noroeste). O 1º vigilante ao noroeste (na França é ao norte) e o 2º vigilante ao sul
Diáconos Ausente Presente
Grandes Luzes Sol, lua, mestre da loja Bíblia, esquadro, compasso
“Antiga” palavra de mestre Substituída, mas conhecida Substituída, porque foi perdida (regra de três)
Divisão do templo Hekal e Debir Ocidente e oríente
Espada do venerável mestre Espada reta Espada Flamigera

Conclusão

As diferenças entre o Rito Francês e o REAA evocam a antiga disputa entre os Modernos e os Antigos. Os primeiros, filhos da Maçonaria Inglesa que encontrou na França um novo lar, contrastam com os últimos — provenientes das tradições irlandesa e escocesa — que se dedicaram a preservar a sabedoria das antigas obrigações, os Old Charges, guardiãs de um legado medieval.

Dessa dualidade surgem ritos distintos: um, simples e humanista, iluminando a mente com a razão e a fraternidade; outro, profundo e esotérico, conduzindo a alma em busca da luz interior e da transcendência.

Entre o modernismo e o tradicionalismo, cada Irmão traça o seu caminho. Que possa avançar na Maçonaria, estreitar os laços que nos tornam verdadeiramente irmãos e aprender, passo a passo, a vencer suas paixões, submetendo a vontade à razão, e transformar a própria vida em reflexo da luz que busca.

* Não refuto as narrativas que situam o nascimento do Rito Escocês no seio da corte dos Stuarts, tampouco a influência exercida pelo exílio da rainha Henriqueta Maria da França, viúva de Carlos I — rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda —, entre 1649 e 1669, em Paris. Ocorre, porém, que a imprecisão das fontes impede a documentação e a validação científica dessas tradições.

Já a criação da primeira Loja Mãe escocesa, a Respeitável Loja dos Perfeitos Eleitos, fundada por Étienne Morin em 1745, na cidade de Bordeaux, bem como a instituição da Loja São João de Jerusalém, em Marselha, no ano de 1751, por George de Walmon, de origem escocesa, fazem parte da cronologia reconhecida desse rito.

Cabe enfatizar o termo “desenvolvido”, pois ele remete ao trabalho de sistematização que aproximou o rito do formato que viria a ser consolidado em 1801, em Charleston, Carolina do Sul, por John Mitchell e Frédéric Dalcho, quando então nasceu o Rito Escocês Antigo e Aceite.

Leonardo Redaelli, CIM 348202 – ARLS PROGRESSO DA Humanidade n°3166 – Grande Oriente do Brasil -RS

Bibliografia

  • NETO, Elias Mansur. O Que Você Precisa Saber Sobre Maçonaria. Editora: Universo dos livros, 2005.
  • Hodapp, Christopher. Freemasons for dummies. Edição 2. editora John Wiley & Sons. New Jersey.
  • GRANDE ORIENTE DO BRASIL – RIO GRANDE DO SUL. Ritual do Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceite. Porto Alegre: Grande Oriente do Brasil – GOB, 2009.
  • Grande Loja Maçónica do Estado do Rio Grande do Sul (GLMERGS). Docência Maçónica de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceite. Editora Acácia. Porto Alegre, RS. 2015.

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

1 thought on “As diferenças entre o Rito Moderno e o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA)”

  1. Leonardo Redaelli

    Errata: Hoje, o Rito Moderno ou Francês é amplamente praticado em todo o mundo, assim como o REAA (Rito Escocês Antigo e Aceito).
    Ambos os ritos têm grande difusão em grandes lojas e grandes orientes. Um exemplo disso é que os dois ritos estão presentes com igual importância tanto na Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) quanto no Grande Oriente da França (GODF).
    Esse fenômeno também ocorre em países como Espanha, Rússia, Portugal, Canadá, Bélgica e Costa do Marfim.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top