Do “Escocismo” ao Grau 33 do REAA – percursos de um Rito (I)

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anel maçónico reaa

I – Introdução

Diversos e distintos estudiosos e historiadores maçónicos têm publicado trabalhos nos últimos decénios dissipando algumas das nuvens das várias lendas assumidas até então, esclarecendo progressivamente diversas lacunas documentais ou inconsistências, que se têm colocado aos estudiosos, quanto às reais origens do REAA , bem como às motivações e objectivos que lhe foram subjacentes.

Sendo o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) o rito mais difundido a nível mundial, este caminho de procura das fontes originais torna-se ainda mais premente, para todos os que o pretendem praticar consistentemente e daí as notas que humildemente procurámos coligir, aprofundando algum estudo adicional já previamente efectuado.

Cada vez se nos afigura como um facto intransponível a importância do grau de “Mestre” na consolidação da Maçonaria especulativa (já alvo de trabalho anterior). Aí socorremo-nos de alguns dos trabalhos recentes e credenciados, referenciámos alguns dos principais marcos, dados históricos e conclusões, embora concluíssemos que continua a não ser possível determinar com precisão as suas origens.

É contudo nossa convicção que a estabilização e consolidação deste grau e da respectiva “lenda hirâmica”, criou as condições objectivas para o desenvolvimento subsequente dos chamados “Altos Graus” (mais correctamente “Graus Complementares”, com maior propriedade).

Na Maçonaria Operativa não existem dúvidas de que existiam somente dois graus: Aprendiz e Companheiro. Aqui não existiam quaisquer influências astrológicas, alquímicas, rosacrucianas, cabalísticas ou ocultistas, ou de quaisquer outros elementos esotéricos. Mestre não era um grau em si, mas uma função que competia ao responsável pela construção, ou pela Loja operativa que coordenava.

No início da Maçonaria Especulativa ou, como preferimos, da moderna Maçonaria, a situação era análoga quanto aos graus (ver constituições de Anderson de 1723, da Grande Loja de Londres e Westminster), existindo igualmente os de Aprendiz e Companheiro, sendo o de Mestre, honorifico, representando o responsável pela Loja. Não existiam templos, as reuniões eram realizadas em tabernas e durante uma reunião de maçons não (Publicado em freemason.pt) se procedia à abertura de qualquer livro da Lei. Os símbolos (correspondentes ao actual Quadro da Loja) eram desenhados no chão com giz ou carvão, sendo apagados no final de cada Sessão.

Enquanto a Maçonaria Inglesa em virtude do seu relacionamento directo com a Igreja Anglicana e com o aparelho de Estado, permaneceu tradicionalmente ligada à Bíblia, a Maçonaria Francesa, sem aquelas ligações e com muitos mais graus de liberdade, apesar da grande influência da religião católica romana, tornou-se, em plena altura do Iluminismo, mais permeável a uma amálgama de influências de doutrinas e de concepções heterogéneas, com muitas contribuições do iluminismo alemão (principalmente, rosacrucianas, cabalísticas, bíblico-judaicas, templárias ou astrológicas), que constituíram o fermento da germinação de variados graus que foram chamados de “Escocismo”. Estes ditos “Graus superiores” aproximadamente meio século mais tarde, vieram a constituir a coluna dorsal do Rito Escocês Antigo e Aceite (e também doutros ritos escoceses que entretanto deixaram de se praticar, à excepção do Rito Escocês Rectificado – RER).

No início e do ponto de vista ritualístico podemos afirmar que os franceses seguiram os “Modernos” da Grande Loja de Londres, no que à maçonaria simbólica diz respeito, mas progressivamente começaram a acrescentar novos Graus. Nas mesmas ou em outras lojas específicas, eis uma das questões fulcrais que nos propomos analisar. Há quem atribua aos franceses a criação do Grau de Mestre, mas efectivamente este tem inequívoca patente inglesa (com raízes irlandesas e influencias escocesas).

Representando o grau de Mestre já uma importante inovação surgida após os primeiros anos da Maçonaria simbólica, provavelmente os maçons franceses não ficaram satisfeitos com este limite. Tal facto é reflexo do ambiente, das contradições sociais e dos conflitos existentes à época na sociedade francesa, que obviamente se reflectiam nas lojas, resultantes das diferentes origens sociais de que provinham os Maçons, do fervilhar das novas ideias do iluminismo, agudizando o conflito entre diversos sectores da nobreza e da burguesia emergente, sobretudo a partir do segundo terço do século XVIII.

A origem e motivações dos novos graus é ainda um tanto obscura, sendo as divergências interpretativas comuns entre os diversos autores. Poderá ter tido fundo político, ou origem em interesses pessoais, aspirações a títulos cavalheirescos ou pomposos que alimentariam a vaidade dos nobres ou satisfariam as ambições de ascensão social da burguesia endinheirada, ou até motivações de cariz estritamente espiritual.

O “Escocismo” representa uma série de graus e ritos nascidos em França, a partir de meados do século XVIII, com um desenvolvimento peculiar resultante da fusão de elementos culturais diferentes, recebendo as mais variadas influências, apresentando diversas denominações, muitas delas relacionadas com os modismos da época e também com a História da Humanidade. Não esquecer que tudo isto aconteceu num período bastante transformador das ideias e dos costumes, ou não estivéssemos em pleno esplendor do Iluminismo…

Segundo Hércule Spoladore [14] alguns autores perfilham a teses dum desenvolvimento cronológico na criação dos “Altos Graus”: seis graus até 1737, sete graus até 1747, nove graus até 1754, dez graus até 1758, vinte e cinco graus até 1801, após o que foram adicionados mais oito graus durante a sua consolidação / homogeneização, perfazendo os trinta e três graus actuais do REAA

Esta cronologia é contudo rejeitada por outros, mas a história aí está para comprovar o facto indesmentível de terem sido os franceses a acrescentar sucessivos graus à Maçonaria, como evidenciam os trabalhos de distintos investigadores, historiadores e maçonólogos.

Guy Chassagnard [1] também salienta que o termo “escocês” veio a considerar-se sinónimo dos “Altos Graus”, desenvolvidos em França. Estes graus, de escoceses só têm a designação, embora se possa atribuir maioritariamente a sua origem aos meios stuartistas, refugiados a partir do final do século XVII, em Saint-Germain-en-Laye e na sua maioria de origem escocesa.

No entanto convém salientar que a criação dos chamados altos graus desencadeou grandes polémicas no seio da maçonaria francesa. Registaram-se múltiplas acusações contra eles, nomeadamente apontando-os como manifestação de vaidades dos maçons aristocráticos ou até, como uma forma de impor a própria aristocratização da maçonaria.

No entanto para Paul Naudon a situação era muito mais objectiva e fácil de analisar, ou seja, a primeira das causas da criação e do desenvolvimento dos altos graus seria o desejo de restituir à Maçonaria o que ela havia perdido da tradição.

Apesar do REAA ter sido patenteado oficialmente nos Estados Unidos, parecem não restar dúvidas que a sua génese original e as suas fontes (Publicado em freemason.pt) são no essencial francesas. Segundo José Castellani [3] “… seria uma heresia histórica afirmar que o REAA não tem origem francesa, mas sim norte-americana ou inglesa. Mais do que isso, seria ficar na contramão do mundo”.

Há quem defenda, como C. Guérillot (16), que: “a irrupção da lenda do 3º Grau marca uma alteração tão profunda no percurso da Maçonaria simbólica, que será legítimo ver na Mestria o verdadeiro primeiro dos “altos graus”, em que o “homem velho” morre simbolicamente para renascer fugazmente sob a máscara do respeitável Mestre Hiram. Após a difusão e estabilização do Grau, o desenvolvimento do tema da vingança e da justiça à volta da morte de Hiram, originou um grande número de versões com numerosas variantes, entra as quais podemos citar as dos sistemas de 25 Graus praticados em Metz (França), de 1760 a 1780.

Nesse sentido e concordando no essencial com o apontado por C. Guérillot no parágrafo anterior, considerámos pertinente inserir um conjunto de referências quanto às possíveis origens dos primeiros graus superiores da Maçonaria, que em nosso entender permite percepcionar com mais clareza o seu papel essencial nos desenvolvimentos posteriores de novos graus “escoceses”, até às origens do REAA, que ao longo de aproximadamente dois séculos, se veio a constituir como o Rito mais divulgado e praticado em todo o mundo, pelo menos no que aos “altos graus” diz respeito.

II – A contribuição “Escocesa” em França

A Maçonaria stuartista chegou a França em 1688 através das primeiras lojas militares que se formaram nos regimentos que acompanharam James II, no exílio em Saint-Germain de Laye. Existem provas de que a fuga para França intensificou a criação de Lojas maçónicas nos regimentos stuartistas. O papel desempenhado pela Maçonaria Escocesa em França confirma-se pelo famoso discurso do Cavaleiro Ramsay, em 1737 (do qual existem pelo menos 4 versões, das quais duas são comprovadamente verdadeiras, segundo C. Guérilllot [7] e G. Chassagnard [1].

Para Trébuchet [2] poucos documentos significativos e nenhum de ordem ritual aparecerão em Inglaterra até à constituição da Grande Loja dos “Antigos”, em 1751 e à divulgação do seu ritual em 1755.

O mesmo não se passa em França na mesma época, onde surgem numerosas divulgações, conhecendo-se paralelamente vários manuscritos descrevendo os chamados “graus escoceses”. De salientar que a quase totalidade dos graus que formatarão o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) serão estruturados durante as décadas de 1740_60, em particular os que respeitam à “Antiga Mestria”. Os “Eleitos Perfeitos” (“Élus Parfaits”) de Bordéus, fundados em 1745, entre outros, por Étienne Morin, são considerados por vários autores como a primeira “Potência Escocesa” no mundo.

A análise histórica evidencia que em consequência do exilio dos Stuarts para terras francesas, as Lojas maçónicas foram utilizadas, também em território francês, até quase meados do séculos XVIII, como veículo da rivalidade entre jacobitas (católicos e apoiantes dos Stuarts) e hanoverianos (protestantes e apoiantes do rei inglês em exercício).

O conflito provocado pela existência de duas categorias de lojas rivais – escocesas e inglesas persistiu até à criação da Grande Loja de França (GLdF) e à nomeação do duque de Antin, par de França, como Grão-Mestre (ad vitam), em 24 de Junho de 1738.

Uma das mais antigas descrições do grau de M∴ M∴ em França encontra-se numa divulgação intitulada “Le Catéchisme des Franc-Maçons”, datada somente de 1744. É pois necessário ter em conta a determinante influencia escocesa / irlandesa em França, no arranque e expansão da maçonaria continental, a sua relativa independência face à corrente inglesa representada pela GLL (“Modernos”), a posterior (Publicado em freemason.pt) influencia irlandesa em Inglaterra, traduzida pelo aparecimento dos “Antigos”, e a sua expansão até à fusão das duas Grandes Lojas (“Antigos” e “Modernos”), formando a “Grande Loja Unida de Inglaterra”, fruto essencial das convulsões politicas existentes em França, decorrentes da Comuna de Paris.

Contrariamente a variadas interpretações, não foi a Maçonaria francesa a grande impulsionadora da Revolução, mas sim muitos maçons, a título individual, principalmente da área de Paris, havendo fortes cisões entre monárquicos e republicanos, nesta região e noutras socialmente mais avançadas, onde a participação da pequena burguesia nas Lojas tinha maior notoriedade.

O desenvolvimento e estruturação do grau de Mestre ocorreu entre finais do século XVII e sobretudo ao longo das primeiras quatro décadas do século XVIII, em Inglaterra e logo a seguir em França, tendo contudo a sua origem provavelmente raízes irlandesas (Manuscrito “Trinity College, Dublin”) e escocesas ( Manuscrito “Sloane 3329”), já que são lá que encontramos as primeiras referências concretas e historicamente comprovadas.

A sua introdução propagou-se gradualmente nas lojas especulativas a partir de 1720/25, tendo a sua existência sido sancionada oficialmente em Inglaterra com as Constituições de 1738, oito anos após a divulgação (mais ou menos sensacionalista e não autorizada pela GLL) dos folhetos de Samuel Prichard. Contudo só por volta de 1740 /50 terá sido “globalmente” aceite.

O facto das Constituições elaboradas pretensamente pelo rev. Anderson (que era pastor presbiteriano escocês) em 1723, seis anos depois da constituição da G∴ L∴ L∴ , terem sido acompanhadas por uma “limpeza criativa e radical” (ordenada e continuada pelo duque de Montagu) de toda a documentação anteriormente existente, contribuiu para reforçar um conjunto de interrogações relativas à falta de documentação credível, em que as origens do 3º Grau obviamente se incluem, e em cujos fundamentos vários investigadores e historiadores reconhecidos têm vindo a trabalhar.

No primeiro quartil do século XVIII, os textos analisados permitem concluir que na génese do grau de M∴ M∴ terão estado as diferenças entre as 2 versões evidenciadas pela Maçonaria escocesa / irlandesa face à inglesa, coexistindo 2 sistemas: um em dois graus, o mais expandido na Grã-Bretanha em que se sustenta a criação e o desenvolvimento inicial da GLL, e outro em três graus que evidencia ter fortes ligações à Irlanda e desta à Escócia.

Deste modo, a lenda que suporta o terceiro grau, não resulta da divulgação extemporânea do “Masonry Dissected” de Samuel Prichard (16) no “Daily Journal” de 20 de Outubro de 1730, já que os rituais divulgados respeitando aos três graus da Maçonaria, são bastante detalhados (“I – Aprendiz entrado; II – Companheiro do Ofício e III – Mestre”) e para o grau de “Mestre” desenvolvem pela primeira vez a lenda de Hiram e o ritual correspondente.

Embora a génese do Grau de “Mestre” continue ainda suficientemente nublada, sabe-se o suficiente para afirmar, com alguma segurança, que o “novo” grau terá sido inspirado pela vontade de criar uma Maçonaria “mais elevada”, uma espécie de aristocracia do Ofício, segundo defendem Dachez, Mollier e Bernheim, [4].

III – O Início dos graus “Escoceses”

O Cavaleiro de Ramsay (André Michel – 1686-1743), nascido na Escócia, erudito, partidário dos Stuarts, protegido do Bispo Hercule de Fenélon e com ligações a grande parte das cortes da Europa, surge frequentemente como inspirador dos graus “escoceses” ou da criação dos “Graus Superiores”.

O seu famoso discurso terá sido escrito em 1737, e segundo alguns autores pode até ser apócrifo, já que se julga que existam, pelo menos, quatro versões, duas das quais plenamente comprovadas [4] e [5]. Talvez nunca tenha sido lido em qualquer Loja, ou apresentado em qualquer assembleia maçónica, mas no entanto foi amplamente distribuído pelas lojas francesas e também nas dos países vizinhos.

Neste documento Ramsay defende que a origem da Maçonaria remonta aos Templários, o que não é comprovadamente verdadeiro, proclama o ideal maçónico da Fraternidade e dum mundo sem fronteiras (inovador à época) e enaltece a hierarquia na Ordem, tentando atribuir (falsamente) à Maçonaria uma antiguidade e nobreza, que se provou não corresponder à realidade.

Segundo Ragon terá feito uma proposta às lojas inglesas para acrescentarem mais três graus (Mestre Escocês, Noviço e Cavaleiro do Templo) aos já existentes, o que a Maçonaria inglesa rejeitou, sendo que estes três graus teriam sido criados pelo próprio Ramsay. Terá também feito uma proposta para que se acrescentassem mais sete graus suplementares às lojas francesas, o que também não foi aceite.

Todavia a partir daí iniciaram-se as introduções templárias e rosacrucianas que traduziram o começo da germinação dos “Altos Graus”. Contrariamente a Ragon e outros, muitos autores rejeitam a contribuição ou a participação de Ramsay, enquanto inspirador dos “graus escoceses”

O conjunto de graus criados em França entre 1740 e 1745, reagrupados sob a qualificação de “Escoceses”, proporcionam importantes acréscimos à “lenda de Hiram”. Também para L. Trébuchet [2] , Mollier e R. Dachez [4] a palavra “escocês”, de significação discutível, parece simplesmente traduzir o reconhecimento entre os primeiros Maçons, do papel fulcral desempenhado pela Escócia na maturação do sistema maçónico especulativo.

Pierre Chevallier questiona em “Histoire de la Franc-Maçonnerie” em que condições apareceu o que é ambicioso chamar, por volta de 1740, o “Rito Escocês”? Propõe que será preciso procurar como ponto de partida o desejo de certos maçons em reformar a Ordem, viciada rapidamente por abusos de diversas espécies (recorde-se que as sessões eram quase sempre acompanhadas de banquetes onde o champanhe era de rigor, além de músicas, canções, e até de brincadeiras e propostas amorosas).

O mesmo autor, mais à frente e na mesma obra, levanta judiciosamente a seguinte questão “ … Desenvolvendo e criando graus superiores, pode-se pensar que os inventores teriam menos em vista a reforma duma Maçonaria aviltada, a de São João, do que a criação duma nova Maçonaria, a de (Publicado em freemason.pt) Santo André (da Escócia), em que o acesso seria ciosamente reservado à alta aristocracia, à nobreza, e aos burgueses endinheirados. Com efeito como conciliar o princípio igualitário, que constitui o ponto cardeal do edifício maçónico, com o respeito pelas distinções sociais?” [1].

Na realidade o “Escocismo” não sendo proveniente da Escócia, poderá ter tido origem maioritária em meios escoceses, numerosos em França a partir de 1688, não ficando contudo limitado somente àquele âmbito. É o que confirma Étienne Gout [1] que aniquilando a falsa “teoria dualista” das origens do “Escocismo” (defensora da existência de dois tipos de lojas rivais e opostas), refere que é no seio das alegadas lojas azuis escocesas, católicas e jacobitas, que nasceriam, por volta de 1743, os “Altos Graus”. A Grande Loja Parisiense, tendo-os rejeitado, ter-se-ia tornado como que a metrópole das lojas de matriz inglesa do reino (em consonância com o praticado pela GLL). As lojas escocesas, agora emplumadas nos seus altos graus, reagruparam-se progressivamente sob a égide de diversas Lojas Mães Escocesas.

Apesar das muitas críticas e comentários acintosos, por parte de muitos maçons dos graus simbólicos, não existiu nenhuma guerra aberta entre estas lojas, de cor azul, e as lojas dos graus escoceses, de cor vermelha, o que não nos deve surpreender, uma vez que muitos dos membros das primeiras eram certamente filiados nas segundas. De tal modo que a Grande Loja de França (do conde de Clermont), conforme os seus Regulamentos e directivas internas evidenciam, se não ignorou o “Escocismo”, também não o afrontou enquanto tal, pretendendo somente que a sua competência se concentrasse na administração e gestão dos três graus simbólicos – Aprendiz, Companheiro e Mestre.

É comprovado o registo em 1743, na Grande Loja dos Mestres de Paris, da presença em lojas, de “mestres escoceses” carregados de ornamentos e ávidos de honrarias. Um dos primeiros textos impressos onde é registada a sua presença, junto aos “mestres comuns”, encontra-se na obra “Le Parfait Maçon”, publicada em 1744, cujo título completo era curiosamente “O Maçom perfeito, ou os verdadeiros segredos dos quatro graus de aprendizes, companheiros, mestres comuns e escoceses, da Maçonaria” [5].

Será pois muito provável que naquela época, o que chamamos “loja escocesa” não possuísse ainda todas as características que encontraremos posteriormente. Podemos afirmar que seria uma loja que praticava os três graus simbólicos, na qual uma parte significativa dos irmãos é revestida de graus superiores ao de Mestre, e onde o Venerável é quase sempre sujeito a eleição anual.

Paul Naudon [5] refere que: os “altos Graus” quer pela afirmação aristocrática, títulos pomposos, quer pela representação duma autoridade real ou usurpada, exerceram uma atracção sedutora sobre os espíritos vaidosos e as imaginações vagueantes, não tardando a interessar os mercadores do templo”. A sobreposição e criação de múltiplos graus, títulos pomposos, todos mais ou menos “grandes, sublimes ou soberanos”, tornaram-se também pretexto para o início dum comércio florescente.

No entanto não tardou a efectuar-se uma primeira selecção natural, pois segundo Bernheim [5] e Guérillot [6]: “qualquer grau maçónico para se afirmar e perdurar não pode ter somente um título, mais ou menos enriquecido de decorações, mas tem de estar dotado dum mito e duma lenda, repousando num simbolismo esotérico determinado e praticado em função dum ritual estruturado ou seja, estar integrado harmoniosamente num sistema coerente”. Muitos dos graus da primeira geração desapareceram precisamente por não cumprirem estes critérios.

Portanto resulta evidente que aproximadamente no espaço de trinta anos, entre 1743 e 1773 mudou em França a natureza profunda da Maçonaria. Segundo C. Guérillot [6] “Cresceu de forma explosiva o número de Lojas mas sobretudo, ao lado das lojas de matriz inglesa praticando, no essencial, uma Maçonaria convivial, aparecem as Lojas Escocesas, já plenamente especulativas e iniciáticas. Esta mutação, mais presente no espírito do que na letra do “discurso de Ramsay”, irá modificar a paisagem maçónica, expandir-se pela Europa, conquistar o Novo Mundo e mesmo em Inglaterra acelerar a mutação especulativa das Lojas”.

A alusão a “Mestres Escoceses” é referida nos Regulamentos Gerais, de 11 de Setembro de 1743, aprovados pela Grande Loja de França, então essencialmente formada por Mestres de Lojas parisienses, no seu art.º 20: “Como aprendemos que recentemente alguns Irmãos se anunciam sob o nome de “Mestres Escoceses” e constituem lojas particulares com pretensões e exigem prerrogativas relativamente aos quais não se encontra nenhum registo nos antigos arquivos e costumes das Lojas espalhadas pela superfície da terra, a Grande Loja determina, a fim de conservar a boa harmonia que deve reinar entre os Maçons, que a menos que estes “Mestres escoceses” sejam oficiais da Grande Loja, ou de qualquer Loja particular, serão considerados pelos Irmãos como os outros Aprendizes e Companheiros, não devendo utilizar nenhuma outra marca ou distinção particular” [6].

Nesta altura é já explícita a diferença entre a prática da maçonaria simbólica, segundo a tradição, face aos portadores dos novos graus “escoceses”.

Dois anos mais tarde, os Estatutos de 1745 da Respeitável Loja de S. João de Jerusalém, “governada pelo Conde de Clermont”, que não deve ser confundida com a “Grande Loja de Paris”, dita de França, comportam, entre outros, um artigo muito interessante (o 44º):

“Os Escoceses serão os superintendentes dos trabalhos, terão a liberdade da palavra, e serão os primeiros a dar o seu sufrágio, colocar-se-ão onde desejarem, e quando estejam em falta não poderão ser repreendidos ou recuperados a não ser por Escoceses” [6].

Para além do discurso do cavaleiro Ramsay, existem adicionalmente duas outras importantes fontes, que a maioria dos historiadores e investigadores maçónicos consideram como estando na génese dos “Altos Graus”:

  1. O Capítulo de Clermont
  2. O Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente

Adaptado de Autor Desconhecido

(continua na Parte II)

Bibliografia

[1] “Aux Sources du Rite Écossais Ancien et Accepté” – Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2008

[2] “El Nascimiento del Escocismo” – Louis Trébuchet

[3] “Rito Escocês Antigo e Aceite – História, Doutrina e Prática” – José Castellani – Editora Maçónica “A Trolha” Ltda. Londrina, 1988

[4] “Origine-du-ou-des-grades-ecossais” – R. Dachez, P. Mollier & A. Bernheim – revista “Renaissance”

[5] “Le Rite en 33 Grades” – Alain Bernheim – Éditions Dervy, Paris, 2011

[6] “La Rose Maçonnique” – Vol. I – Claude Guérillot – Éditions Veja ( Paris 2010)

[7] “Le Rite de Perfection” – Claude Guérillot – Éditions Veja ( Paris 1995)

[8] “Symbolique des Grades de Perfection et des Ordes de Sagesse” – Irène Mainguy – Ed. Dervy (2011) – Paris

[9] “Mais de dois séculos do Rito Escocês Antigo e Aceite: que origens?” – José Marti M∴ M∴

[10] “O Grau de Mestre e a Consolidação da Maçonaria especulativa – Algumas notas” – Salvador Allende M∴ M∴

[11] “Did Écossais (early “High”) Degrees originate in France?” – Pietre-Stones review of Freemasonry

[12] “A História do Grau 33” – Hercule Spoladore – “J B News”, nº 1045

[13] “La Franc-Maçonnerie en Question & en 250 Responses” – Guy Chassagnard – Édit. Dervy , Paris (2017)

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