Emmanuel Macron na Grande Loja de França no dia 5.5.2025

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Emmanuel Macron - Presidente da República Francesa
Emmanuel Macron – Presidente da República Francesa

Uma visita histórica para celebrar a laicidade

Como anunciado a 29 de Março pelo blog 450.fm, o Presidente da República, Emmanuel Macron, honrará efectivamente a Grande Loja de França (GLdF) com a sua presença na segunda-feira, 5 de Maio de 2025, na sede da obediência na Rue Louis Puteaux, no 17º arrondissement de Paris. A visita, confirmada esta sexta-feira pelo canal de notícias 24 horas BFMTV, marca um acontecimento sem precedentes: nunca antes um Presidente da República em exercício passou pelas portas desta obediência maçónica, a segunda maior de França, com 32.000 membros.

A poucos meses do 120º aniversário da lei que separa a Igreja do Estado, adoptada a 9 de Dezembro de 1905, Emmanuel Macron pretende aproveitar a ocasião para fazer um grande discurso sobre o laicismo, valor fundador da República Francesa. Vejamos as razões e o contexto desta visita histórica.

Uma estreia para um Presidente da República

A visita de Emmanuel Macron à GLdF é um momento simbólico, tanto para a Maçonaria como para a Presidência francesa. Se o Chefe de Estado já tinha visitado a sede do Grande Oriente de França (GOdF) em 2023 para assinalar o seu 250º aniversário, reconhecendo assim oficialmente o contributo maçónico para a República, esta visita à GLdF é inédita. Ao contrário do GOdF, que conta com 55.000 membros e se posiciona como uma obediência mais empenhada nas questões sociais, com uma sensibilidade tradicionalmente de esquerda, a GLdF, exclusivamente masculina, é conhecida pela sua discrição e abordagem mais espiritualista. Esta obediência privilegia a reflexão interior e simbólica, muitas vezes menos publicitada do que a sua congénere.

Thierry Zaveroni - Grão-Mestre da Grande Loja de França
Thierry Zaveroni – Grão-Mestre da Grande Loja de França

O programa da visita é digno da ocasião. Emmanuel Macron começará por visitar o museu da GLDF, onde encontrará exposições históricas que ilustram o papel da obediência na preservação dos valores republicanos. De seguida, terá uma conversa privada com o Grão-Mestre, Thierry Zaveroni, antes de proferir um discurso no templo Pierre-Brossolette, dedicado em homenagem ao antigo combatente da Resistência e Maçom. Este local carregado de simbolismo proporcionará um cenário solene para um discurso muito aguardado sobre o laicismo, abrindo as comemorações oficiais do 120º aniversário da lei de 9 de Dezembro de 1905.

A laicidade no centro do discurso presidencial

A escolha da GLdF como local para um discurso sobre este princípio republicano não é despicienda. Como declarou a Presidência francesa, Emmanuel Macron pretende “recordar o espírito de liberdade” consagrado na lei sobre a separação da Igreja e do Estado, um texto fundamental que faz parte integrante da Constituição. Esta lei, da autoria de Aristide Briand, estabeleceu uma separação rigorosa entre as instituições religiosas e o Estado, garantindo a liberdade de consciência e a igualdade de todos os cidadãos, independentemente das suas crenças. Numa altura em que a sociedade francesa é marcada por debates sobre o laicismo, o racismo, o anti-semitismo e a intolerância religiosa, que pode ser entendida como uma atitude negativa que chega a discriminar os crentes de uma determinada fé, ou como a acção dos adeptos de uma determinada religião que procuram dominar ou mesmo eliminar outras práticas religiosas ou filosóficas, o Presidente pretende reafirmar a importância do princípio do laicismo como um pilar da unidade nacional.

A Maçonaria tem desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento e defesa do secularismo. Desde a sua fundação, tem procurado promover uma visão da sociedade em que a liberdade de pensamento prevalece sobre o dogma religioso ou político. Ao escolher falar a partir da sede da GLdF, que reivindica um caminho espiritual adogmático, Emmanuel Macron segue os passos dos “pais fundadores” da lei de 1905, enviando uma mensagem forte: a laicidade, longe de ser um constrangimento, é um instrumento de protecção, uma “lei da liberdade” que deve ser venerada e defendida por todos. Segundo o Eliseu, este discurso tem como objectivo preparar o terreno para as comemorações de Dezembro de 2025, que marcarão o 120º aniversário desta legislação emblemática.

Um contexto social e político muito carregado

Esta visita surge num contexto de tensões acrescidas em França em torno do secularismo e das questões de identidade. Os debates sobre o uso de símbolos religiosos, o aumento da retórica extremista e as tensões ligadas ao anti-semitismo ou à hostilidade para com os muçulmanos, se não mesmo à rejeição do Islão (para não utilizar o neologismo islamofobia, hoje em dia um pouco manipulado), para não falar do aumento dos actos de terrorismo que se pretendem religiosos, enfraqueceram o consenso republicano. Emmanuel Macron, cuja abordagem destas questões nem sempre convenceu as mais amplas camadas da opinião pública, parece estar a tentar recuperar a vantagem, reafirmando o seu apego a um laicismo “calmo” mas firme. Durante o seu discurso perante o GOdF em 2023, já tinha sublinhado o papel histórico da Maçonaria na construção da República, abordando ao mesmo tempo questões sensíveis como o fim da vida e a bioética. Desta vez, a tónica será colocada no laicismo, mas também nos desafios contemporâneos que ameaçam a unidade nacional.

Templo Pierre Brossolette
Templo Pierre Brossolette

É interessante notar que esta é uma de uma série de iniciativas do Presidente para dialogar com as várias componentes da sociedade francesa. Depois de se ter reunido com representantes de confissões religiosas e com os maçons do GOdF, Emmanuel Macron prossegue o seu trabalho de reconciliação e diálogo, procurando clarificar melhor a sua posição sobre o laicismo. Alguns observadores vêem isto como uma resposta às críticas que lhe foram dirigidas, particularmente após o seu controverso discurso de 2018 à Conferência dos Bispos no Collège des Bernardins, no qual falou de uma “ligação danificada” entre a Igreja e o Estado, provocando indignação entre alguns defensores do secularismo, incluindo no seio das obediências maçónicas.

A GLdF: Uma obediência discreta mas influente

A Grande Loja de França, fundada em 1894, destaca-se pela sua abordagem mais introspectiva e espiritual da Maçonaria. Ao contrário do GOdF, frequentemente envolvido publicamente em questões sociais, a GLdF concentra-se no trabalho simbólico e iniciático, centrado na procura de significado e na reflexão filosófica. Esta obediência masculina desempenhou, no entanto, um papel importante na história de França, nomeadamente ao apoiar os ideais republicanos e o laicismo. Numerosos membros proeminentes da ordem, que não é necessário enumerar aqui, encarnaram este compromisso de servir a República.

A visita de Emmanuel Macron à GLdF é, portanto, vista como um reconhecimento dessa contribuição histórica, mas também como um gesto de abertura para uma obediência que, embora mais discreta, não é menos influente. Thierry Zaveroni, Grão-Mestre da GLdF, deverá aproveitar este encontro para reafirmar os valores da obediência, nomeadamente o seu apego ao laicismo como garante da liberdade de consciência. Este diálogo entre o Presidente e a GLdF poderá também abrir caminho a intercâmbios mais regulares entre o Estado e as obediências maçónicas sobre os grandes temas da sociedade.

Uma visita carregada de história e de actualidade

A visita de Emmanuel Macron à GLdF não é apenas um acontecimento simbólico, mas inscreve-se também numa questão política e social candente. Neste ano de 2025, marcado por crises internacionais (guerra na Ucrânia, tensões no Médio Oriente) e desafios internos (crise política, ascensão dos extremos), o Presidente parece querer recentrar o debate nos valores fundamentais da República. A laicidade, enquanto princípio de igualdade e de liberdade, está no centro deste projecto. Ao dirigir-se à GLdF, Emmanuel Macron está a escolher o quadro de uma escola de pensamento humanista e espiritual que tem um papel a desempenhar na formação da consciência dos cidadãos, na sua própria tradição histórica e simbólica.

A visita surge também numa altura em que o Presidente procura consolidar a sua imagem de “unificador”. Após um ano de 2024 marcado pela dissolução da Assembleia Nacional e pela perda da maioria, como recordou na sua saudação de Ano Novo de 31 de Dezembro, Emmanuel Macron apelou a uma “recuperação colectiva” para 2025. O seu recente périplo pelo Oceano Índico, onde abordou questões como a reconstrução de Mayotte após o ciclone Chido e a epidemia de chikungunya na Ilha da Reunião, demonstra a sua vontade de se reaproximar dos territórios e das populações. Esta visita à GLdF inscreve-se na mesma lógica: ao dirigir-se a uma instituição que moldou os valores republicanos, o Presidente pretende consolidar a sua imagem de garante da unidade nacional.

Um passo para as comemorações de Dezembro

O discurso de Emmanuel Macron na segunda-feira, 5 de Maio, será um passo fundamental na preparação das comemorações do 120º aniversário da lei de 1905, previstas para Dezembro. De acordo com a Presidência, o Chefe de Estado pretende que estas comemorações sejam marcadas pelo “espírito de liberdade” que presidiu à adopção desta lei. Ao dirigir-se à GLdF, abre caminho a um discurso mais amplo sobre o lugar da laicidade na França do século XXI, numa altura em que as tensões sobre a identidade e a religião ameaçam fracturar a sociedade.

Sede da Grande Loja de França
Sede da Grande Loja de França

As expectativas são, portanto, elevadas, tanto entre os maçons como entre a opinião pública. Através do seu Grão-Mestre, a GLdF espera que esta visita reforce o diálogo entre o Estado e a Maçonaria, destacando o papel da Maçonaria na defesa dos valores republicanos. Para Emmanuel Macron, esta visita é uma oportunidade de clarificar a sua visão do laicismo e de responder às críticas que lhe foram dirigidas nos últimos anos, inscrevendo-se ao mesmo tempo numa continuidade histórica que transcende as divisões políticas.

Um momento histórico e de reflexão

Na segunda-feira, 5 de Maio de 2025, a rua Louis-Puteaux será palco de um momento histórico. A visita de Emmanuel Macron à Grande Loja de França, a primeira de um Presidente em exercício, é muito mais do que uma simples visita oficial: é um símbolo de reconhecimento de uma instituição que ajudou a moldar a República e um convite à reflexão sobre os desafios actuais da laicidade.

Num mundo marcado pela divisão e pela incerteza, este discurso tem por objectivo enraizar no espírito dos franceses os valores que constituem a Nação.

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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