O ethos e o sentimento de pertencimento
Neste capítulo, pretende-se organizar os dados descritos e analisados até agora, contextualizando-os directamente com o objectivo inicial do estudo. Aqui procuraremos encontrar as respostas para o título do trabalho, enfim, “O que faz o Maçom, Maçom?” Quais dos aspectos encontrados constituem efectivamente o “ethos” e o sentimento de pertencimento a Maçonaria?
O Ethos da Maçonaria
Utilizando o conceito de ethos para Weber, que se diferencia da noção de sentido etimológico das máximas morais no conceito de ética, e acresce sentidos valorativos provindos e reflectidos em diferentes esferas, sejam elas económica, religiosa, moral, social; o ethos da Maçonaria, seria o conjunto de valores absorvidos dos seus ensinamentos através de rituais e de uma cobrança mútua de comportamento exemplar como meio de manter o prestígio da instituição e moldar o carácter dos seus membros, permitindo uma ressignificação das formas simbólicas que lhes são apresentadas e uma aplicação disto na vida profana. Através de alegorias nos seus rituais performáticos, que se remetem à simbologia das antigas guildas de pedreiros, têm-se por objectivo trabalhar princípios, lições de moral e instigar o autoconhecimento e preocupação espiritual presente nos discursos do Entrevistado 3:
Em primeiro lugar, a postura tem que ser diferente. Ou melhor, não tem que ser diferente, a pessoa para ser Maçom, para se tornar um Maçom, já tem uma postura de Maçom. Ele já vai ser correcto, ético, vamos falar assim, ter uma vida honesta, correcta e sempre tentando ajudar construir coisas melhores para quem está ao ser redor, no seu meio. Agora tornar-se um Maçom basicamente tem que vestir a iniciação, ter feito um ritual de iniciação, no qual o iniciado passa por um processo simbólico, para representar para ele a mudança, a mudança que não necessariamente vem acontecer em todos os iniciados, mas merece ser ouvida, porque cada iniciado tem uma absorção.
E Entrevistado 4:
Eu não sei se realmente existem informações da Maçonaria na internet. Se existir, eu não vejo muito problema nisso, porque o ritual, as leis da Maçonaria, são apenas instrumentos, para sensibilizar o ser humano, para ele atingir a evolução necessária. Então eu acho que o critério de selecção da Maçonaria é para que não se perca tempo com pessoas que vão ter aquele conhecimento e não vão evoluir. Então vamos escolher pessoas que vão realmente absorver esse conhecimento e vão conseguir evoluir. Agora, se está disponível na rede e a pessoa vai ler… pode ler, vai conhecer, mas não vai conseguir absorver a essência da coisa, não vai mudar o seu estilo de vida. Ser Maçom não é conhecer o ritual ou saber o que acontece dentro do templo. O Maçom de verdade é muito mais Maçom fora do templo do que dentro do templo. Ele mostra-se muito mais Maçom, nas atitudes dele, do que lá dentro. Lá dentro é muito fácil, seguir as regras conforme está mandando no ritual, assim como na ordem DeMolay. Eu quero ver você ser DeMolay aqui de fora. Melhorar cada dia o seu relacionamento com os pais, amor filial, melhorar a cada dia as suas reverências as coisas sagradas, ser mais cortês com as pessoas, ser mais companheiro dos seus amigos, fiel às suas leis, isso que eu quero ver, no mundo, aqui que é difícil. Lá dentro é fácil, já está pré-estabelecido como fazer para atingir isso.
Os maçons com os quais convivi, defendem que a Maçonaria, assim como as suas instituições paralelas, não tem a função de “consertar” o carácter de um indivíduo, mas de aperfeiçoar aqueles que já seguem os seus princípios e valores antes da sua iniciação. A intenção é tornar bons homens, ainda melhores, através de estudo, ensino e lições e principalmente, efectivar os valores através da aplicação deles no dia a dia, como demonstrado no discurso acima.
Os valores da Maçonaria são baseados na integridade, justiça, verdade, gentileza, fraternidade, caridade. O amor fraternal é colocado como a Regra de Ouro, como uma temática que une todas as fés, enquanto a caridade, aqui não é incentivada como meio de se alcançar a salvação pós vida, mas como meio de moldar um carácter nessa. A arrecadação de dinheiro para filantropias, inclusive, deve ser feita através de trabalhos promovidos e executados pela instituição, factor que contribui para aumentar a coesão do grupo, trabalhando em prol de objectivos comuns. Neste trabalho em conjunto, independendo das classes sociais de cada membro, todos trabalham juntos, as hierarquias que se tem na vida social, não valem dentro do convívio maçónico, portanto, ao mesmo tempo, trabalha-se nessas actividades, uma preocupação social, o amor fraternal e a igualdade entre os membros, independente de classe, religião ou posicionamento político.
Factor contribuinte para a incorporação deste ethos, pode ser a cobrança de que ele seja posto em prática. O ethos da Maçonaria não é uma regra explícita, ou escrita nos seus rituais, é algo abstracto, composto sim, por princípios que aparecem redigidos nos seus livros, mas que é através do convívio e trabalho com outros iniciados que se incorpora uma visão de mundo valorativa para a fraternidade, que é através da necessidade de guiar e orientar os novos membros, que se cria um senso de responsabilidade, de ser um exemplo e para isso seguir um código moral.
Maçom e Maçom
Analisando a instituição Maçonaria, inicialmente de forma binária, como o título do trabalho sugere, podemos separar a identidade que se forma através dos termos “Maçom” e “Maçom”. O primeiro, com letras minúsculas, refere-se à parte sistémica da ordem, sendo o sentimento superficial formado pela definição de Maçonaria, pelas constituições e Landmarks, pelo livro ritual, portanto, ser “Maçom” de acordo com a estrutura básica é passar pela iniciação, através de votação e aprovação dos membros da loja à qual se candidata, é acreditar no Grande Arquitecto do Universo e se comprometer a atender os antigos deveres (“Old Charges”) da ordem e conhecer os seus símbolos e referências. Significa também, estar ligado à uma potência reconhecida, que garanta legitimidade à sua loja e à sua participação.
Este é um plano mais politizado, burocrático e onde há uma menor concordância sobre o ser “Maçom” devido a estas cisões, sejam por vaidade ou diferenças ideológicas, que existem entre as várias Maçonarias do mundo. É válido lembrar que a Maçonaria que recebeu maior atenção neste trabalho, a inglesa, foi escolhida como objecto de pesquisa por ser a mais propagada no mundo, no Brasil e a que tive um contacto mais intenso, mas ela não é a única. A Maçonaria francesa por exemplo, serve de diversas formas como uma espécie de resistência à tradição conservadora inglesa, uma vez que nela se aceita a participação de mulheres e ateus. Existem também, as Maçonarias espúrias [17] que são lojas não reconhecidas por nenhuma potência, sendo independentes e autónomas, que as lojas reconhecidas, ainda que tenham contacto entre si, proíbem o contacto com as ditas espúrias. Estas polémicas podem ser notadas no discurso de entrevistados, quando se pergunta sobre a relação com as diferentes Maçonarias e diferentes ritos:
No nosso caso, aqui em Minas Gerais existe o Pacto Maçónico, então nós respeitamos as três grandes potências, O Grande Oriente do Brasil, O Grande Oriente de Minas Gerais e as Grandes Lojas de Minas Gerais. Nós temos o pacto maçónico, damo-nos bem e respeitamo-nos, tanto é que você viu acontecer no fim de semana retrasado o evento já no quarto ano seguido e a Maçonaria de Patos de Minas é unida, nós unimos as 5 Lojas e fizemos um grande leilão e a renda todinha voltada para a sociedade. Apae, Amparo Maternal e PróCurar-Se, entidade de cura do câncer. Então assim, nós nos damos muito bem aqui, nós não temos problemas, a convivência é muito boa, independente das potências. Nós temos um pacto aqui e nos damos muito bem em Minas Gerais. (Entrevistado 7)
Entrevistado 6:
Não deveria existir (risos). Na medida em que o objectivo é um só, esta vaidade do ser humano que faz com que aconteça isso aí, por isso eu digo que não deveria existir. […]. Não adianta dizer que tem não porque tem inclusive o seguinte, se você pensar bem, aqui em Patos são 3, 4 templos maçónicos. Porquê isto? Se o templo maçónico usa no máximo 2 vezes por semana, na verdade podia ter 2 que resolvia isto tudo, mas a tal da vaidade humana não deixa, ”a nossa Loja quer fazer um Templo”, por isso que acaba virando essa coisa. É isto que eu digo, se o objectivo é um só, para quê isto? Para suprir a vaidade humana.
E Entrevistado 8:
Na verdade, a questão dos ritos, primeiramente temos que distinguir a Maçonaria, as potencias que existem no Brasil e são reconhecidas nacionalmente. Eu pertenço a Grande loja Maçónica de Minas gerais, que é reconhecida pela Grande Loja de Londres inclusive, então assim, é uma potência reconhecida. As oficinas, que são as lojas maçónicas, eu diria para você que são universais. Então uma vez reconhecida como potência regular, nós temos o direito, inclusive, por exemplo, de ir em Londres participar de uma reunião maçónica. E nós temos que separar a Maçonaria que, inclusive existe no Brasil, que é chamada de Maçonaria espúria, que não são potencias reconhecidas oficialmente. E a questão dos ritos dessas potencias que são conhecidas como legitimas existem alguns ritos diferentes, mas que acabam não se diferenciando muita coisa. Alguns detalhes, nós por exemplo usamos o rito escocês antigo e aceito, então é uma potência reconhecida e que convive com as demais muito tranquilamente.
Esta dita “luta” pela legitimidade é muitas vezes mais internalizada do que expressada e de fato, numa cidade do interior como foi o caso do campo de pesquisa onde ocorreram as entrevistas, pode-se notar que apesar de as divergências estarem presentes, o assunto é tratado tendendo à uma não conformidade com a diferenciação ou com relativa amigabilidade entre as diferentes potências, algo que poderia não ocorrer se as entrevistas fossem realizadas por membros no alto escalão de uma ou outra Grande Loja, onde essta “rivalidade” poderia estar mais em evidência e a separação ser justificada.
Em Patos de Minas, as cinco lojas maçónicas organizam-se conjuntamente para organizar eventos filantrópicos e confraternizações à exemplo do citado Leilão do Bem que reúne as cinco lojas; e a Gincana do Bem, organizada pelos Demolays, mas que envolve as cinco lojas maçónicas, os seus respectivos Clubes de Cunhadas e as três ordens para maçónicas da cidade (Escudeiros [18], Filhas de Jó e Demolays). Uma dessas lojas, a Esforço e Trabalho n° 67 é a responsável pelos Demolays, legalmente e por permitir que as reuniões sejam feitas no seu templo, enquanto a Loja Fénix do Alto Paranaíba n° 2552 que é a responsável pelas Filhas de Jó, mas há uma notável comunicação entre as lojas e as ordens. Pode-se dizer que os assuntos políticos que se discutem nas instâncias das Grandes Lojas, não reflectem directamente no convívio das 5 lojas e ordens para maçónicas apadrinhadas por uma ou outra, porém, o caso é diferente quando se trata de lojas espúrias [19], que são normalmente, excluídas deste círculo social.
O ser “Maçom”, já é algo mais orgânico, é onde encontramos a coesão, independente da potência ou corpo maçónico. Apesar de discordarem sobre Landmarks e pré-requisitos para ser ou não iniciado, o objectivo e essência da ordem continua o mesmo. O ser “Maçom” está muito ligado ao ethos do iniciado, é a dedicação à filantropia, a fazer o bem, a uma valorização da fraternidade e laços sociais e familiares que se formam com a participação na Maçonaria.
Fora importante para esta conclusão, uma observação feita por um Maçom enquanto eu era frequente nas reuniões da Ordem DeMolay, em que ao discutirmos as diferenças ideológicas e políticas entre as diversas Maçonarias e mesmo entre os dois supremos conselhos DeMolay no Brasil, citou que no caso de um Maçom ou DeMolay cometer um crime, a sociedade nunca saberia, nem teria a obrigação, de diferenciar a potência à qual ele faria parte, sendo então, independentemente disso, um Maçom ou DeMolay. O mesmo se poderia aplicar à Maçonaria espúria ou à Maçonaria feminina, cujo conceito ou existência a sociedade de um modo geral desconhece, mas se ouvissem a ligação com a Maçonaria, não importa qual delas, então a identidade que os “profanos” tem dela é generalizada, é uma só, e de fato, mesmo a Maçonaria sem reconhecimento de potências, ou a feminina que é propagada em escala muito inferior à masculina, beirando o desconhecimento do público, defendem o espírito filantrópico e o aperfeiçoamento moral. Além das penalidades jurídicas, caso o indivíduo seja Maçom, ele sofrerá sanções também na instituição [20] (novamente não importa em qual potência ou filiação) caso cometa um crime e, pela ordem pregar que os maçons devem ser cidadãos exemplares, mesmo um pequeno delito pode ser visto como grave, tamanha é a cobrança e valorização deste quesito.
Outras questões valorativas se fazem diferentes nestes âmbitos. Como dito anteriormente, é considerado um comportamento moralmente erróneo utilizar-se do ser “Maçom” (através de símbolos ou do nome directamente, estando eles desligados do âmbito interpretativo/ orgânico) como forma de ascensão social ou financeira. Porém, quando desinteressadamente se utiliza do ser “Maçom”, mobilizando a rede fraternal que se tem à sua disposição, através de um reconhecimento mútuo baseado na confiança e amizade, ou se consegue essa ascensão através da aplicação prática de ensinamentos e lições que foram absorvidos ao longo do tempo de vivência e convivência como um Maçom, passa a ser uma acção legítima.
Legitimidade
Após analisar de forma binária os dois conceitos, sistémico e orgânico, faz-se necessário aprofundar um pouco mais nesta interpretação, uma vez que, a modo representativo e teórico a primeira forma facilita a compreensão e primeiro contacto, porém elas apresentam-se no mundo real e na prática, de uma forma muito mais fluida. Em suma, a parte estrutural e sistémica é responsável por gerar os dispositivos legais, históricos e tradicionais que sustentam a Maçonaria como instituição, mas ela é amplamente afectada pela sua parte orgânica, que a obriga a se reestruturar de tempos em tempos, não importa quão sólida tente se fazer. Em cada tentativa de se delimitar as suas interpretações e de se fechar, conservando tradições e costumes que não se encaixam em determinada época, vide Landmarks, os seus membros podem optar por, na impossibilidade de muda-los ou questioná-los, simplesmente procurar outros aos quais melhor se adequam, de confrontá-los apesar do seu carácter dogmático ou em casos extremos de discordância, provocar uma nova cisão e o aparecimento de uma nova Maçonaria. Com isto vê-se que a Maçonaria se pode dividir e ser reinterpretada, mas há sempre uma essência, tanto da sua parte sistémica quanto da sua parte orgânica que sempre persiste.
É uma tendência da sociedade. se modernizar, se dinamizar, mas é claro, eu também sou totalmente a favor de algumas tradições. Existem algumas tradições que são essenciais, eu não me apego a filigranas, a frescuras, a nada que seja fútil, que não contribua, que não agregue. Existem tradições que são muito mais um apego do que a essência da Maçonaria, da instituição. […]. A minha experiência maçónica é um tanto quanto incipiente. Eu iniciei recentemente, iniciei há dois anos e considero que isso são dias, são horas, são segundos perante a história da Maçonaria para chegar a compreender, lógico que eu não compreendo, não chego nem a tangenciar o que seja a Maçonaria. A Maçonaria é uma obra perfeita, mas a partir do momento em que ela sai do mundo das ideias e alcança a realidade e ela é interpretada, no momento em que ela é interpretada por várias pessoas em várias épocas diferentes, essa interpretação varia. Por isso os rituais, como posso dizer, as escolas maçónicas são modos diferentes de interpretar a Maçonaria, que é só uma Maçonaria, mas se manifesta de formas diferentes. Esta diversidade de maneira alguma prejudica a Maçonaria, na verdade ela contribui e engrandece muito mais a ordem. (Entrevistado 5)
Nesta linha de raciocínio, pode-se atrever a fazer uma reflexão polémica. Não seriam as próprias ordens para maçónicas, dispositivos criados como resposta ao dogmatismo dos Landmarks e tradições maçónicas? Analisando isto, do ponto de vista que elas permitem à sectores cujo acesso directo à Maçonaria é negado, apoiando-se nos Landmarks (tanto para o sexo, quanto para a idade), parecem uma saída, um dispositivo-resposta gerado pela absorção da crítica do seu sistema orgânico e exposto com uma estrutura e sistema bastante parecidos e ligados através do “apadrinhamento”. O espírito de liderança, filantropia, filosofia e até simbologia destas ordens, por vezes encontram denominadores comuns e pode-se arriscar dizer que apesar dos nomes diferentes, os seus membros emitem uma mesma “aura”, um mesmo ethos, senso de responsabilidade e moralidade e além disso, todas cumprem com a sua função, apesar de não compartilhar o mesmo tempo de existência que a Maçonaria, elas têm perdurado e sido espalhadas por todo o mundo. Não se diminui a importância destas ordens com tal reflexão, mas ela é necessária como um exemplo e motivo para se repensar de forma crítica as tradições da Maçonaria ou meios de contorná-las a fim de garantir a sua continuidade no tempo através de estruturas paralelas que defendam os seus mesmos interesses.
Em parte, o que garante o sentimento de pertencimento ao grupo é aquilo que reforça a legitimidade do próprio grupo. No caso da Maçonaria, poder-se-ia dizer que é uma sociedade baseada na tradição, constituinte como um dos três tipos puros de dominação legítima em Weber (2003) onde costumes e hábitos passam de geração para geração ou até mesmo para essas novas sociedades apadrinhadas por ela, onde o que garante a sua legitimidade é a antiguidade dos seus costumes e ensinamentos que antecedem a sua própria criação, constituindo uma sacralidade e fidelidade a elas. A própria definição de Landmarks e a importância que se lhes dá, liga-se à teoria weberiana quando ela reforça que a legitimação pela tradição está no “reconhecimento de um estatuto válido desde sempre (pela sabedoria).” (Weber 2003, p.131). Pode parecer um paradoxo, pois algumas tradições são causas de questionamento e cisões enquanto outras são parte do que garante a imagem do que é a Maçonaria.
Esta mesma dinâmica de domínio / legitimação pela tradição, pode ser vista em relação às Maçonarias espúrias. Assim como em “Os estabelecidos e os Outsiders” de Norbert Elias (2000), a comunidade mais antiga, estabelecida (as potências da França e da Inglaterra), inferioriza a mais recente, uma que se tenta desprender de regras e burocracias de filiação e acaba vivendo à margem da tradicional, tornando a Maçonaria espúria, uma outsider, ainda que compartilhe com a primeira, formas e espaços de convivência, interesses e objectivos em comum. Ela é deslegitimada e excluída do convívio, pois não tem a tradição, ou aceita a risca todos os mesmos preceitos.
Considerações finais
Todo o processo de convite, sindicância e a materialização da iniciação através da participação no ritual constitui o primeiro passo para a incorporação de um ethos Maçom. Porém, esta incorporação pode começar antes, uma vez que as ordens para maçónicas e a família para maçónica em si, que essa rede de laços sociais forma, podem já ser campos de testes para futuros candidatos. Através do contacto com maçons e com os seus ensinamentos e filosofias de vida, há uma coerção sobre um modo de conduta de vida moral e aqueles que se adequam a este modelo, se destacam e há maiores chances de darem continuidade a esse aprimoramento pessoal, dentro da Maçonaria.
A relação de confiança e amizade começa através do indicado e do indicador e estende-se a todos que passaram pelo mesmo processo, uma vez lá dentro. A fraternidade, constitui tradição e valor base dessas instituições e é um dos primeiros a serem incorporado. A caridade e preocupação social, gera a necessidade de se promover eventos, sejam eles com o fim de conscientizar parcela da comunidade local ligada ou não às instituições, voltado à boas causas, ou com o intuito de arrecadar dinheiro (com jantares, bingos, gincanas) e isto torna-se algo prazeroso aos membros, pois servem como momentos de integração fora do templo ao mesmo tempo em que se percebe a importância daquelas acções. Os cargos e funções, sejam eles ritualísticos ou administrativos, incorporam ao membro um senso de responsabilidade e se trabalha a oratória e filosofia. Enfim, todas as acções na instituição, promovem outra das maiores bases da instituição: a lapidação do carácter, ser uma pessoa melhor, buscar o autoconhecimento e aperfeiçoamento pessoal, que é incorporar o ethos da instituição.
O segredo, atrai pelo fascínio, pelo místico e oculto, constituindo uma forma de sociação, assegurada pela confiança que apesar de anónimos entre eles, há interesses comuns. Um Maçom nunca vai chegar a conhecer todos os membros da instituição, que segundo a UGLE (United Grand Lodge of England) chega a 6 milhões de maçons ao redor do mundo [21] (associados a esta potência apenas) mas é visível que o seu objectivo seja atingido e que há coesão entre todos estes anónimos. Apenas uma das várias instituições de caridade que a UGLE mantém, acumulou mais de 100 milhões de libras em doações desde 1980 [22], e lojas filiadas a esta potência no mundo todo, promovem eventos filantrópicos e cumprem com o seu papel, a nível local e global sempre que possível. A as lojas de Patos de Minas, ainda que de diferentes potências, contribuíram com doações consideráveis a instituições como a APAE, Amparo Maternal e PróCurar-Se através de eventos desenvolvidos de forma conjunta.
Os diferentes ritos e as diferentes Maçonarias ao redor do mundo, apesar de divergirem entre si, em aspectos ritualísticos, administrativos ou políticos internos, contribuem para uma mesma causa. Todas elas formam através da participação dos seus membros, novas lideranças. É difícil conhecer-se os exactos motivos de tantas cisões, lojas e grandes lojas subdividindo-se e cada uma com a sua justificação para se legitimar, pois, muitas vezes são assuntos discutidos em reuniões, de carácter secreto. Porém, sejam estas cisões provocadas por vaidade ou influências políticas e históricas internas e externas, elas existem e seria difícil ser diferente. Agregar pessoas numa mesma instituição, de carácter global, cujas regras se devem adequar e respeitar o quanto for possível, as particularidades de cada país e as diferentes crenças, posicionamentos políticos e perfis de todos os membros que ali estão, parece algo ambicioso e quase impossível, portanto, essas cisões foram necessárias para a sobrevivência da instituição. Apesar disto, acredito que há algo que os unem, além do nome, mesmo nessas divergências, acredito que o sentimento de pertencimento à instituição e ethos dela, é compartilhado, seja entre os maçons de uma Maçonaria espúria, seja com as mulheres da Maçonaria feminina, seja com maçons afiliados ao Grande Oriente da França ou a Grande Loja Unida da Inglaterra, é um mesmo sentimento e uma experiência próxima para se focar em diferenças admissionais ou burocráticas.
Douglas Oliveira Dias
Notas
[17] A própria etimologia da palavra sugere uma forma depreciativa, reforçando que ela é ilegítima, falsa, não genuína.
[18] Assim como a Ordem DeMolay é apadrinhada pela Maçonaria, os Escudeiros, são apadrinhados pelos Demolays e é uma ordem para jovens do sexo masculino de 9 a 11 anos de idade.
[19] Apenas ao final da pesquisa, foi-me informado que tinha sido aberta, recentemente, uma Loja Espúria em Patos de Minas
[20] Sendo analisado caso a caso e dependendo da gravidade e julgamento, pode ser oficialmente desligado da instituição
[21] Disponível em: UGLE http://www.ugle.org.uk/becoming-a-mason Acesso em 20 de Junho de 2015
[22] Disponível em UGLE http://www.ugle.org.uk/charity Acesso em 20 de Junho de 2015
Bibliografia
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- Max. Os Três Tipos Puros de Dominação Legítima. In: Cohn, Gabriel. Weber. São Paulo, Ática, 2003.
Roteiro de Entrevista
Conte-me um pouco sobre a sua trajectória na Maçonaria.
- Como foi o processo de ser indicado (quem indicou, quando) e iniciado na ordem? Como foi a sua iniciação?
- Qual a importância dos rituais, segredos, que a ordem mantém? Como você lida com a facilidade com a qual essas informações (segredos, ritualísticas, métodos de reconhecimento e palavras de passe) podem ser propagadas na internet hoje?
- Qual o rito que você utiliza na sua loja? Como você lida com os diferentes ritos e diferentes Maçonarias no Brasil?
- Tem mais alguma pessoa na sua família que seja Maçom?
- O que para você, é ser um Maçom?
- Qual a sua relação com os DeMolays, Filhas de Jó e familiares?
- Quais cargos você já realizou dentro da ordem?
- Qual a sua profissão actualmente? Os cargos que você exerceu dentro da ordem, tiveram alguma influência na escolha da sua área ou na sua forma de trabalhar?

- Diário de um Maçom em quarentena
- A corda de oitenta e um nós
- Maçonaria – Protagonista ou Coadjuvante (da Revolução Francesa)?
- O “Segredo Maçónico”…
- Constituições de Anderson – 1723

