Introdução
A Maçonaria é uma sociedade discreta, fraternal, de carácter universal, iniciática e filosófica destinada a homens maiores de 21 anos de idade. As ordens para maçónicas (patrocinadas, ou “apadrinhadas” pela Maçonaria) são diversas, mas trataremos no presente trabalho das mais propagadas pelo mundo e conhecidas: a Ordem Internacional DeMolay, destinada a jovens do sexo masculino de 12 a 21 anos de idade e a Ordem Internacional das Filhas de Jó, destinada a jovens do sexo feminino de 10 a 20 anos que são ordens patrocinadas pela Maçonaria, mantendo as mesmas características desta.
Assim como a Maçonaria, todas as ordens que futuramente derivaram dela são envoltas em superstições, boatos e mistérios, a respeito do que realmente se trata e o que os indivíduos que delas participam fazem trancados numa sala que chamam de templo. Estas ordens estabelecem relações de parentesco entre si e dentro de cada uma, chamam uns aos outros de irmãos. Demolays tratam-se como irmãos, chamam Maçons de Tios e Filhas de Jó de primas e as três ordens tem em comum o propósito de estabelecer princípios e virtudes morais a serem seguidas com o intuito de aperfeiçoar o indivíduo que dela faz parte. A admissão nestas ordens dá-se independente da raça, religião e posição social, tendo como únicas exigências a crença num ser superior, respeito à família, boa índole, a vontade de buscar o aperfeiçoamento pessoal e possuir um espírito filantrópico.
Maçons, Demolays e Filhas de Jó reúnem-se separadamente em células autónomas denominadas respectivamente de Lojas, Capítulos e Bethéis e o conteúdo das reuniões são secretos. Para a iniciação, o candidato ou candidata passa por entrevistas e investigações do seu comportamento na sociedade, além de, se admitido, uma série de procedimentos ritualísticos ricos em simbologia, podendo representar eventos que vão da construção do templo de Salomão pelo arquitecto Hiram Abiff até a história dos Templários, tirando destes, ensinamentos que lhes serão úteis na Ordem ou no seu dia a dia.
Existem os mais diversos motivos para que um indivíduo procure admissão a essas Ordens, mas crê-se que vão muito além de uma desculpa para o convívio social. Devido à sua influência no período vitoriano era essencial que um profissional fosse Franco Maçom e que os novos-ricos da Revolução Industrial procuravam associação à Maçonaria pela oportunidade de contacto com a própria família real, porém hoje em dia a Maçonaria assim como qualquer outra ordem que veio a ser criada, associada ou patrocinada por ela é muito menos elitista (em comparação com a sua origem e primeiros anos de vida) e indivíduos de todas as classes sociais, raças e religiões já alcançaram admissão nela. Dotada de simbologia e esoterismo, os iniciados deixam de lado um mundo “profano” [1] para adentrar o que passam a considerar como uma família norteada por princípios, virtudes e ensinamentos com uma carga moral, tendo em comum o objectivo de lapidação do carácter e ajudar o próximo.
Apesar da sua influência e relevância em diversos contextos políticos e históricos mundiais, a Maçonaria e entidades para maçónicas carecem ainda de estudos voltados à compreensão da formação de um sentimento de pertença ao seu grupo, com um cunho antropológico e sociológico, à visão de um iniciado, o que é para ele ser um Maçom. A importância e objectivo do presente trabalho dá-se no sentido de entender melhor uma instituição com a sua origem inserida no seio Iluminista e que, desde então, percorre a história do mundo com marcas da sua influência e actividade emergindo ocasionalmente, ainda que a sua história ou percepção sobre a realidade permaneça desconhecida à maioria das pessoas.
Tendo como base um breve histórico e descrição das entidades que serão estudadas, analisaremos a dinâmica dos laços sociais que compõe a “família maçónica”, composta pela Maçonaria, ordem DeMolay, Filhas de Jó e familiares dos iniciados, enfim, as relações sociais, empregatícias e de influência que envolve estas ordens. Colocarei em evidência também a minha própria vivência nesta família, os nove anos de iniciado na ordem DeMolay, com a visão que a minha formação nos últimos cinco, durante a graduação em Ciências Sociais, me permitiu melhor interpretar, ressaltando que apesar de o objecto de pesquisa escolhido ser a Maçonaria, não sou Maçom, apenas pretendo me utilizar da aproximação e inserção como DeMolay, na família maçónica. Será colocada em discussão, a questão da “lapidação” do carácter; quais princípios, valores morais e éticos permeiam a formação de um “ethos” Maçom assim como a postura que lhe é cobrada, utilizando de Weber (1982) e o seu estudo sobre seitas protestantes para traçar paralelos e análises.
Cabe dizer que apesar de gerar polémica entre os seus membros, oficialmente, segundo a Grande Loja Unida da Inglaterra apenas os meios de reconhecimento mútuo são segredos protegidos pela Ordem (KNIGHT, LOMAS, 1997) e que será respeitado durante o trabalho o carácter secreto das reuniões, não tendo a intenção de com a pesquisa revelar nenhum segredo ou invadir a sacralidade das suas instituições, mas é de intenção fazer provocações analíticas pensando o conflito da tradição e manutenção desta ordem, assim como dos seus segredos por mais de três séculos, versus a facilidade e velocidade com a qual é divulgada e propagada informações nos tempos actuais. Feito estes recortes, analisar-se-á todas as suas influências e relações com a linha de fundo e proposta principal do trabalho cujo foco é a forma de sociação e do ethos Maçom.
A minha trajectória e interesse pelo objecto de pesquisa aqui colocado, começa com a minha iniciação na Ordem DeMolay, no dia 29 de Abril de 2006, no Capítulo Patos de Minas n° 193 e tendo frequentado activamente como membro deste por 5 anos, até a mudança para a cidade de Viçosa em 2011 para ingressar no curso de Ciências Sociais. Os primeiros colegas de curso com os quais tive contacto e me apresentaram a cidade, eram também DeMolays, vindo de outras cidades, outros estados e isso acabou reaproximando-me dela, tendo então a oportunidade de participar da fundação do “Capítulo Templários do Oriente de Viçosa n° 808” em Outubro de 2012. Para a pesquisa, escolhi como campo a família maçónicas da qual eu fazia parte há mais tempo, da minha cidade de origem, portanto o distanciamento entre objecto de pesquisa e pesquisador foi relativamente pequeno, uma vez que me inseri também como parte do estudo.
O trabalho de campo foi realizado na cidade de Patos de Minas, uma cidade de médio porte, no interior de Minas Gerais, onde reside o Capítulo DeMolay Patos de Minas n° 193 da Ordem DeMolay do Brasil (onde fui iniciado) e o objecto de estudo serão as entidades para maçónicas localizadas no município, compostas pelo supracitado capítulo DeMolay, o Bethel Flor de Lis n°42 e as cinco lojas maçónicas: Fénix do Alto Paranaíba n°2552, Esforço e Trabalho n°67, Amor e Justiça 3a, Paz e Harmonia n°281, e Universitária n°3489. O método de pesquisa utilizado foi o qualitativo e participativo, onde foram realizadas 8 entrevistas [2] estruturadas com os maçons actualmente activos e actuantes do município de Patos de Minas, sem distinção entre as suas referidas lojas maçónicas. Para além das entrevistas, a experiência de não só como graduando em Ciências Sociais, mas como parte do próprio objecto de estudo, a frequência e participação, esse “mergulho” como Bronislaw Malinowski (1978) chamava, em eventos promovidos por quaisquer entidades para maçónicas neste município, essa “contaminação com o campo de pesquisa” (BRANDÃO, 1983) foi também objecto de pesquisa e meio de aproximação.
Tendo em vista que a presença de um gravador representa por vezes um entrave ao próprio trabalho, gerando um clima de artificialidade e inclusive ocasionando em “respostas de espelho” (BRANDÃO, 1983), onde o entrevistado responde o que ele acha que o entrevistador quer ouvir, ainda que haja uma aproximação com o objecto de pesquisa, os momentos de conversa e interacção, de forma mais descontraída, antes ou depois da entrevista, em que o gravador estava desligado foram transcritas num caderno de campo, que contém passagens com utilização cabíveis ao longo do estudo.
As entrevistas foram realizadas com dois objectivos em mente: o primeiro de levantar informações e dados sobre a instituição através do relato dos seus membros. O segundo e principal objectivo com as entrevistas, foi ouvir directamente de maçons, o sentimento deles em relação à ordem, experiências dentro dela, os seus laços sociais e posicionamentos quanto à aspectos de tradição e política da Maçonaria [3]. Ao longo da experiência de campo, o roteiro de entrevista sofreu ligeiras modificações, uma vez que foi moldado conforme a necessidade de se extrair novas informações ou por levantamentos mais básicos como sobre a organização e estrutura da Maçonaria terem sido supridas ainda nas primeiras entrevistas. Foi dada preferência à diferentes perfis de entrevistados: indivíduos com mais tempo de Maçonaria, maçons que já foram DeMolays ou tiveram contacto mais íntimo com sociedades para maçónicas e aqueles que não mantiveram contacto com estas, de forma a procurar diferentes visões sobre a experiência de participação na instituição. O discurso dos entrevistados foi utilizado de forma auxiliar, para contextualizar e acrescentar à teoria e à minha própria vivência uma articulação com as hipóteses através da sua análise.
O título do trabalho, fazendo uma clara alusão ao trabalho do antropólogo Roberto da Matta (1984), “O que faz o brasil, Brasil?”, remete-se a intenção de assim como o autor, inicialmente separar o objecto de pesquisa em dois, começar a análise num plano sistémico: em como é “no papel e em teoria”, através de uma busca exaustiva por referências bibliográficas, inclusive dando uma especial importância nessa etapa, à também escritores maçons, e dados históricos o que é a Maçonaria, como ela é na sua definição e origem, a sua estrutura de estabelecida através de marcos e tradições. Faremos esta análise até se chegar a um plano orgânico, do que é na prática e na vivência as particularidades, elementos e conjuntos de valores que se expressam e formam esse sentimento de pertencimento que os une como membros de uma mesma ordem.
A Maçonaria
Este capítulo tem por objectivo fazer o levantamento de aspectos gerais da Maçonaria, do seu histórico ao seu funcionamento, procurando em cada um deles, o que será útil à parte analítica do que constitui o ethos e/ou o sentimento de pertencimento à instituição.
Histórico
A origem da Maçonaria é assunto que divide mesmo os seus iniciados em diversas correntes, algumas defendendo a sua origem ligada à construção do templo de Salomão, outras ligando-a aos templários, porém, a mais aceita liga-se o nome do iniciado aos antigos pedreiros livres (do francês franc-maçon ou inglês freemason) na Idade Média e as suas guildas corporativas em que segredos arquitectónicos (A Arte Real) usados nas construções de catedrais eram compartilhados apenas entre os seus membros dignos de obtê-los. Os franco-maçons (pedreiros livres) eram assim chamados devido às isenções de impostos e regalias da sua classe, como tribunais especiais. Com o crescimento da ordem, começaram então especulações sobre o teor destas guildas e mesmo dentro delas, diversificaram-se as suas razões de existência e perderam aos poucos o carácter operativo (específico do ofício e das práticas de pedreiro), iniciando-se membros que não eram pedreiros livres e passando a surgir, em meados de 1717, a Maçonaria como conhecemos nos dias actuais (Maçonaria especulativa). Já em 1721, esta diversidade de razão existencial e objectivo ocasionou a necessidade da criação das constituições da Maçonaria e futuramente, dos Landmarks, cláusulas pétreas que resolveriam o problema da historicidade, objectivos e limitariam as interpretações da ordem.
Faz parte da natureza das sociedades secretas, e sem dúvida da sua função, fugir da história e de nela aparecer apenas de maneira fugaz. No silêncio que serve de sede à prática dos seus ritos e na discrição necessária para a preservação do saber que afirmam ter, elas são as grandes ausentes da história dos homens, que é, no entanto, uma história das sociedades. E é realmente esta ausência que as torna tão fascinantes. Um fascínio tanto maior porquanto todos percebem que muitas dentre elas desempenharam um papel importante e que algumas delas continuariam a ser actores obscuros, mas influentes da vida política, social e espiritual das nossas sociedades. (SIGNIER; THOMAZZO, 2008, p.05)
No Brasil, especula-se sobre a sua influência e participação desde a Inconfidência Mineira (1789) e Conjuração Baiana (1798) ainda que, oficialmente, a primeira loja brasileira a ser fundada, Reunião, no Rio de Janeiro, filiada ao Oriente da Ilha da França, date de 1801 (AZEVEDO,1996). Há também registos da sua presença datados de 1724, quando teriam sido iniciados: Padre Gonçalves Soares de França, o advogado e historiador Sebastião da Rocha Pitta, o Desembargador Caetano de Britto e outros, porém, a Maçonaria estabeleceu-se como instituição reconhecida no país, apenas em 1822 com a criação do GOB (Grande Oriente do Brasil) primeira potência a ser reconhecida pela loja mãe da Inglaterra.
Tendo no hall dos ilustres maçons, nomes como Voltaire, Mozart, Napoleão, Houdini, Sir Winston Churchill, além de presidentes e signatários da Declaração de Independência dos EUA (HODAPP,2005), podendo ainda citar como maçons no Brasil, D. Pedro I, José Bonifácio, Rui Barbosa entre muitos outros, nota-se o alcance que teve essa ordem assim como a persistência da sua existência por quase trezentos anos. Ao longo destes quase três séculos de existência, desde filósofos a presidentes, mágicos e empresários, líderes militares, artistas e cientistas, foram iniciados e passaram salve ligeiras modificações às quais não resistiram ao tempo, pelos mesmos processos rituais ao adentrar um templo.
A polémica dos Landmarks
Para se desenvolver um trabalho e análise sobre a instituição é importante antes entender minimamente o que é e o que não é a Maçonaria, por isso a importância de se definir estes marcos. A questão é que na constituição de 1723 escrita por James Anderson, no tópico de Regulamentos Gerais, compilados por George Payne, é citado o seguinte artigo:
XXXIX — Em todo comunicado anual a Grande Loja tem o poder ou autoridade que lhe é inerente, de fazer novos regulamentos, ou alterar estes, para o real benefício desta antiga Fraternidade: desde que os antigos Landmarks sejam cuidadosamente preservados… (ANDERSON; FRANKLIN; ROYSTER, 1734, p.74, tradução livre)
Porém, não se define em todo o decorrer do texto quais e o que seriam os Landmarks e o que inicialmente se tinha como propósito de estabelecer uma limitação interpretativa para a ordem, acabou por gerar divergência de vários autores que vieram a seguir, na tentativa de defini-los, podendo esta classificação variar desde apenas 3 Landmarks para Alexander S. Bacon até 54 para a loja de Kentucky.
A ideia geral que se tem sobre os Landmarks, na Maçonaria, é que são usos, costumes, leis e regulamentos universalmente reconhecidos, existentes desde tempos imemoriais, fundamentais princípios da Ordem, inalteráveis e irrevogáveis, e que não podem ser infringidos ou desviados o mais levemente que seja. Tão remotos seriam eles de não se lhes poder determinar a origem, e tão essenciais que, se fossem alterados, modificados ou emendados, também estaria mudado o próprio carácter da Maçonaria. (ASLAN, 1972, p.13)
Os Landmarks mais aceitos, especialmente nas potências maçónicas da América Latina e América do Norte, são os 25 elaborados por Albert Gallatin Mackey, um médico, Maçom, norte-americano, cuja proposta apareceu primeiramente na revista “Revisão Trimestral da Maçonaria Americana” em 1858 e depois, detalhadamente em publicação própria, “A Jurisprudência da Maçonaria” em 1872, que como forma de delimitação teórico metodológica serão os escolhidos para se trabalhar ao longo do estudo. Em suma os Landmarks, apesar de divergirem entre os seus criadores, apresentam alguns aspectos em comum e assim, são os responsáveis por traduzir para a tradição escrita o carácter iniciático, fraternal, universal e filosófico através de regras para comportamento, pré-requisitos e a necessidade de se investigar a conduta do candidato.
Uma das dificuldades encontradas, tanto em campo quanto na tentativa de uma delimitação teórica sobre a ordem, deve-se a sua complexidade, o que na verdade apenas reflecte a sociedade multicultural na qual está inserida e o carácter global da instituição, porém a diluição das suas tradições, em parte orais e em parte escritas através de diferentes lentes interpretativas ao longo de mais de três séculos de existência, entre o místico, secreto e o histórico, mostra-se por vezes como um obstáculo. Ainda que tentando limitar-se dentro de uma mesma tradição ou filiação à mesma potência (Grande Loja Unida da Inglaterra como é no caso da maioria das lojas no Brasil) encontra-se divergências sobre os mais variados aspectos, sendo um deles por exemplo a questão dos Landmarks supracitada. É amplamente incentivado aos iniciados, a busca pela verdade, pelo conhecimento, a racionalidade crítica e o questionamento, como formas de lapidação da “pedra bruta” [4] do Maçom, o que em si já contradiz com o carácter imutável e dogmático dos Landmarks, alguns deles, inclusive, que reproduzem antigos valores colocados em pauta de discussão pelos próprios maçons na sociedade moderna e gera contradições entre uma linha mais tradicional e outra que tenta romper com isto, a exemplo do Landmark dezoito a respeito das qualificações para candidatos à iniciação:
Estas qualificações são que ele deve ser um homem – sem mutilações, nascido livre e de idade madura. Isto é, uma mulher, um aleijado, um escravo ou um nascido escravo, estão desqualificados para a iniciação nos ritos da Maçonaria. (MACKEY, 1872, p.31-32, tradução livre)
A justificação de Mackey para considerar estas qualificações, assim como grande parte da sua publicação, como marcos imutáveis da ordem, dá-se por elas constarem no manuscrito “Antigos Deveres” de 1717 escritas por Anderson que viriam a compor em 1723 parte das Constituições da Maçonaria. Já para Anderson, no caso deste marco em especial, especula-se que tenha sido influenciado pelo carácter operativo da Ordem, proveniente das guildas de pedreiros medievais compostas maioritariamente [5] por homens, livres, e sendo uma profissão na qual se acreditava que uma deficiência tornaria impossível a aprendizagem adequada da “Arte Real”, apenas para homens sem mutilações.
A polémica estende-se até os dias actuais; nota-se na vivência com a família para maçónica, que há aqueles que defendem fielmente os Landmarks como estão escritos, condenando a sua livre interpretação, enquanto outros podem tentar interpretar de maneira diferente. Quanto à parte que se fala de homens livres, à título de exemplificação, alguns adaptam a interpretação à modernidade justificando pelo seio iluminista da instituição em que “livre” estava associado à ideia de “luz” (sabedoria) em contraste com as “trevas” (ignorância), mas é um assunto raro no quotidiano desta entidade, pelo próprio tema (escravidão) não estar tão em voga em relação à época, o que pode tornar fácil teorizar, mas poderia ser problemático se posto em prática. Esta problematização pode ser vista no caso da participação das mulheres na Maçonaria, que causa dissidências, levanta questionamentos, críticas e resistências, das quais trataremos mais à frente.
Ordens Para-maçónicas
De acordo com o Supremo Conselho da Ordem DeMolay para a República Federativa do Brasil [6], a Ordem DeMolay nasceu em 1919, com o pedido de Sam Freet, para que Frank Sherman Land recebesse como pupilo, o jovem Louis Gordon Lower, 17 anos, órfão de pai, que necessitava de um emprego de meio período e orientação, para ajudar a sustentar a sua família após a partida do seu pai que fazia parte da loja maçónica Ivanhoe assim como Freet e Land. A experiência de convívio entre Louis Gordon e Frank Sherman Land foi tão bem-sucedida que Land decidiu então juntar mais jovens convidados do seu primeiro pupilo para se reunirem como um clube e tais reuniões ocorreriam num espaço cedido pela Maçonaria, o templo maçónico. As reuniões tinham a supervisão de um adulto, Maçom (no caso, Land) e a criação do clube veio num momento propício, pós-guerra, onde vários jovens tinham perdido os seus pais e precisavam de um modelo e referência paterna, papel que Land e os demais maçons que a ele se juntaram, cumpriram exemplarmente. O nome da Ordem surgiu como consequência de utilizarem o templo da Maçonaria e despertarem o interesse em histórias e filosofias compartilhadas pelos maçons, portanto, ao contar a história de Jacques De Molay, último grão-mestre templário, cujo exemplo de fidelidade aos seus irmãos templários, ao não os delatar após sete anos de tortura culminou na sua execução em praça pública, sendo queimado vivo em 18 de Março de 1314, tomaram o nome DeMolay para o seu clube como homenagem. A ordem que começou com alguns poucos jovens nos EUA, hoje está presente em diversos países e de acordo com o Grande Conselho da Ordem DeMolay para o Estado de Minas Gerais, só no Brasil conta com mais de 200 mil iniciados desde 1980. Ela segue sete virtudes cardeais que são: amor filial, reverência pelas coisas sagradas, cortesia, companheirismo, fidelidade, pureza e patriotismo e tem como objectivo formar bons cidadãos e líderes.
Segundo a Grande Loja Maçónica de Minas Gerais [7], a Ordem Internacional das Filhas de Jó foi fundada no dia 20 de Outubro de 1920, em Omaha, Nebrasca, EUA pela Ethel T. Wead Mick e possui como base o capítulo 42, versículo 15 do Livro de Jó: “Em toda a Terra não se encontraram mulheres mais justas que as filhas de Jó e o seu pai lhes deu uma herança entre seus irmãos”. Mick participava de diferentes clubes de amizades e cívicos e entre eles, a Maçonaria, que veio a apadrinhar a Ordem. Mick criou a ordem com o objectivo de reunir moças para o aperfeiçoamento do seu carácter, através do desenvolvimento moral e espiritual, lealdade com a bandeira do País e amor para com os pais e familiares.
Iniciação
Para ser iniciado na Maçonaria é necessário primeiramente ser indicado por um Maçom e então submeter-se a uma sindicância, onde o candidato passa por uma investigação do seu comportamento e moral além de uma entrevista para só então ter a sua iniciação marcada, o que permite traçar o primeiro paralelo com as congregações baptistas estudadas por Weber (1982, p.350): “…a admissão à congregação baptista local só é feita depois dos exames mais cuidados e das investigações detalhadas sobre a conduta, que remontam à infância.” Assim, o candidato, após iniciado passa a ser portador de um certificado de qualificação moral, garantido pelo prestígio, respeitabilidade e nome da instituição da qual passa a fazer parte e ao mesmo tempo, carrega nos seus actos uma responsabilidade por mantê-los, o que pode ser notado no discurso:
Não sei se você foi DeMolay, mas você tem aquele negócio de não ser mais o Douglas, mas sim o “ Douglas DeMolay”, se você faz algo errado não é o Douglas que está fazendo, mas o DeMolay. É a mesma coisa na Maçonaria, então a instituição cobra de você, e você se sente cobrado. (Entrevistado 2)
Sobre os pré-requisitos para a iniciação, a crença num Deus é um deles (reforçado por um dos Landmarks de Mackey), não importando a religião, desde que se creia em algo superior. Para integrar indivíduos de todas as religiões, esta entidade superior é chamada de Grande Arquitecto Do Universo. Assim, a presença do elemento espiritual é obrigatória, tanto que nas reuniões se têm um livro sagrado [8] sobre o altar. Cabe ressaltar que a designação Grande Arquitecto do Universo não faz com que a Maçonaria constitua uma nova religião ou pregue a crença numa entidade diferente, esta nomenclatura deve-se apenas ao intento de respeitar todas as crenças (monoteístas) sem transparecer preferências sob uma ou outra, mas realçam a importância do sagrado nesse meio.
Porém, nem todos os considerados pré-requisitos tem a sua origem ou amparo nos Landmarks, mas foram instituídos ao longo da existência da ordem, como me foi explicado por um Maçom, antes da sua entrevista. Um exemplo é a estabilidade familiar e financeira serem realçados como pontos importantes, que antecedem a aprovação do candidato, sob a justificativa de que seria injusto para com a sua própria família, adentrar uma instituição que um dos objectivos é a filantropia, sem ter condições antes de garantir plenas condições e prioridade à sua base familiar. Este Maçom me reforçou que sem hipocrisias, ele sabia que tal requisito dificultava a entrada das classes baixas e reforçava o carácter elitista da instituição, mas ao mesmo tempo que não a impossibilitava.
Longe de cair em determinismos e adoptando um dos princípios básicos da antropologia que é a relatividade, é claro que cada membro da Maçonaria teve uma motivação e justificativa para aceitar o convite de ser iniciado, mas há pontos comuns e recorrentes, sendo o primeiro justamente o convite. É possível que um indivíduo demonstre interesse em participar na Maçonaria, de ser iniciado, e faça esse pedido a um Maçom, mas na prática, é algo raro. Na minha vivência como DeMolay, o que se percebe é que muitas pessoas aceitam o convite pela relação de amizade e confiança na pessoa que o fez, muitas vezes nem conhecendo a instituição e isso estende-se a Maçonaria. Outro caso, é o de quem já participa da Ordem DeMolay, deixando claro que isso não garante obrigatoriamente que o DeMolay é uma espécie de “Maçonaria mirim” e que automaticamente se torna um Maçom ao atingir a idade exigida. Elas são sim ordens paralelas ligadas por uma relação de apadrinhamento, mas que essa proximidade, essa inserção num mesmo círculo social que inclusive partilham de interesses e objectivos comuns, assim como um conhecimento prévio sobre o funcionamento das ordens, faz com que muitos DeMolays sejam convidados por maçons, a fazerem parte da Maçonaria. Isto pode ser identificado a partir de alguns trechos das entrevistas com o Entrevistado 3.
“A minha história na Maçonaria começou com DeMolay, que é uma premissa, que é uma formação de líderes e líderes são muito bem-vindos na Maçonaria. Então no DeMolay começou quando eu tinha 16 anos de idade, fazendo 10 anos que fui iniciado e agora estou com 3 anos de Maçonaria. Começou pela indicação de um amigo que me convidou a entrar nos DeMolays, até sem conhecer bem a filosofia da ordem, só que era uma pessoa da minha confiança e é muito legal, nós fizemos trabalhos de formação de líderes, apresentação de trabalhos, enfim, caso não fique satisfeito ou que esteja ferindo os seus ideais, pode sair da ordem e foi o que me chamou a atenção, a liberdade de estar ali presente ou não. Na Maçonaria veio a acontecer 8 anos após iniciado DeMolay, meu padrinho na verdade foi meu sogro, que fez a indicação. Existia a vontade, mas nunca diria que foi pela curiosidade porque no DeMolay nós já temos uma “formação básica”. Mas existe um momento em que a pessoa vai estar pronta para absorver a filosofia de vida da Maçonaria”.
E Entrevistado 4:
Primeiro, eu conheci a Maçonaria através dos DeMolays, por já ser um DeMolay, então já acaba tendo uma base sobre os fundamentos, sobre o que é a Maçonaria. Desde que fiz 21 anos, que me tornei um sénior DeMolay, acaba que alguns maçons já nos procuravam sugerindo o nosso ingresso na Maçonaria, mas por eu achar que ainda não era o momento, estava fazendo faculdade, ainda não tinha uma estabilidade económica, eu sempre pedia para esperar, pelo menos eu me formar na faculdade, para ter tempo hábil para dedicar à Maçonaria. E assim foi, quando faltavam uns 6 meses para terminar a minha faculdade, procuraram-me de novo e falaram que estava acabando a minha faculdade e era hora de entrar. Aí iniciou-se o processo de sindicância, para a entrada na loja. E de lá para cá nós vimos tentando aprender, cada dia com as coisas da Maçonaria, mas basicamente foi por aí. Começou pelos DeMolays. Antes de ser DeMolay nunca tinha ouvido nem falar de Maçonaria.
No acto da iniciação, há uma série de procedimentos ritualísticos; o candidato é alijado de todos os seus objectos metálicos e que fazem menção a riquezas ou ao mundo “profano”, como dinheiro, celular, correntes, relógio etc. Nota-se com isto, uma questão de assepsia para se adentrar o Templo, um “espaço sagrado” (ELLIADE, 1992) para os iniciados. O Maçom então é vendado numa sala chamada “Sala dos Passos Perdidos” onde é deixado privado de um dos seus sentidos para que faça uma auto-reflexão antes de adentrar o templo, situação essa que pode ser amplamente caracterizada como uma margem (GENNEP, 1978) entre o momento que o indivíduo está entre a situação de “forasteiro” e a de um “neófito” (recém- iniciado) e que reforçam a ideia de que se trata da preparação para a entrada no mundo moral, ético e puro. Esta auto-reflexão antes de atravessar a margem faz com que a iniciação seja diferente para cada Maçom, como apontado:
A iniciação é uma para cada um, então às vezes a interpretação que um tem daquele momento, do se tornar um Maçom, vai ser para mim de uma forma assim como para outro vai ser de outra forma. […]. Então, para mim, este trato, depois de se tornar Maçom, mudou ao que tange a minha conduta de vida. Não que antes eu tivesse uma conduta de vida desregrada, muito pelo contrário, mas pesa. […]. Outras pessoas podem entrar lá e não ter a mesma sensação. (Entrevistado 1)
Após o rito secreto de iniciação, onde são apresentados ao neófito palavras de passe e os métodos de mútuo reconhecimento (pertinentes ao primeiro grau), há uma cerimónia pública, normalmente seguida de um jantar do qual participam maçons e convidados (normalmente a família do recém iniciado, maçons e entidades para maçónicas) que representa a primeira oportunidade de integração, de forma descontraída do neófito e a sua família consanguínea com a sua nova família maçónica e completa-se o ciclo do rito de passagem e as suas três etapas: a separação, a margem e a agregação (GENNEP, 1978, p.30).
Com efeito, a iniciação é teoricamente o processo pelo qual um homem passa da qualidade de profano àquela de iniciado, de desperto para um estado superior de consciência. Em geral, a fim de assinalar realmente este corte, o ritual de iniciação mostra-se espectacular ou dramático: põe em cena, simbolicamente, a morte e o renascimento do recém-chegado. Entretanto, não se deveria imaginá-lo como um fim em si. De facto, como o próprio nome indica, a iniciação não é um acabamento, mas sim um começo. Requer do recém-vindo um trabalho que exige longos esforços. Para este fim, a sociedade iniciática apresenta-se como a célula-base que vai permitir a cada um dos seus membros desenvolver-se, realizar a busca de si próprio. Por isso os iniciados aprendem e praticam regularmente certo número de ritos secretos caracterizados por palavras, sinais, gestos que se supõe que ajam profundamente neles. (SIGNIER; THOMAZZO, 2008, p.82)
O contacto com aspectos ritualísticos não se prende apenas à iniciação, mas é lembrado a cada reunião, desde o próprio espaço, o templo, sendo organizado de forma a lembrar o Templo de Salomão, com colunas, altar e velas, até em como se localizar espacialmente dentro de um templo, tendo os cargos da Maçonaria, locais específicos para se assentarem durante as reuniões e estas posições tem, cada uma, o seu significado para os que as ocupam. Em todas as reuniões, os maçons usam vestimentas específicas que incluem um avental [9] de cor branca (originalmente deveria ser de pele de cordeiro branca) como representativo de inocência e pureza de pensamentos e acções, que é usado de maneiras específicas de acordo com o grau obtido, porém sendo proibida a entrada de um Maçom no templo sem o seu avental. O símbolo máximo da Maçonaria representado pelo esquadro e compasso, que muitos dos seus membros carregam em acessórios como relógios, anéis, gravatas ou pins, e ornamentam em todas as reuniões o altar do templo, juntamente como o livro sagrado (ou livro da lei) lembram a todo o momento através da sua significação o dever do Maçom de manter uma rectidão moral e medir o seu comportamento.
Graus, Cargos e Funcionamento de uma Loja
A Maçonaria possui três graus simbólicos preservados pelo segundo Landmark [10], considerados os principais. Após ser iniciado, o neófito é então reconhecido como Aprendiz Maçom, e terá ainda que passar por outras cerimónias que lhe garantirão o grau de Companheiro e enfim, de Mestre Maçom, porém, a passagem por esses graus é mediada pelo conhecimento que se tem do anterior, podendo levar um tempo para que os alcance e para isso sejam apresentados trabalhos dentro de loja, a fim de demonstrar a sua proficiência. Esta divisão simbólica e hierárquica da Maçonaria em três graus mostrou-se muito estrita e insuficiente para os seus membros, levando à criação de graus filosóficos, que vieram a totalizar, no Rito Escocês Antigo e Aceito, utilizado pela Grande Loja Unida da Inglaterra, 33 graus [11], cuja simbologia e ritualística, agregaram mais ritos de passagem durante a vida maçónica, cada um contendo uma lição filosófica e moral, podendo utilizar-se de histórias e símbolos herdados mesmo do hermetismo ou da cabala.
Dentro da instituição, estes graus são graus de aprimoramento, mas todos falam, todos incutem em si tornar-se um melhor cidadão. Os ensinamentos, provocam em si tornar-se uma pessoa melhor, não é nada sobrenatural, não é nada sobre humano, mas ele incute tornar você uma pessoa melhor. Dentro da instituição não há diferenciações, mesmo havendo graus. A questão dos graus só vai delimitar o grau de participação em aspectos administrativos porque lá se vela por liberdade, certo? Você é livre para expor os seus pensamentos e as suas posições. É claro que, por existir graus, determinados assuntos que são discutidos num não é discutido em outro, senão perdia a essência de existir. Então, não há diferenciações, ou superioridade em relação a isso, mas dentro da instituição há essa divisão, até mesmo para que o próprio ser humano, nessa condição dele de querer galgar passos, se for num grau só, isso perdia o estímulo da pessoa buscar e querer aprender mais, e quanto mais ele vai participando, mais ele vai abrindo oportunidades de trabalho dentro da instituição. (Entrevistado 1)
Estes graus da Maçonaria são como escalas da vida, escalas hierárquicas. Na medida em que você vai atingindo, você vai evoluindo e não é diferente na Maçonaria. Cada grau que eu passei eu senti uma coisa diferente, alguma evolução interna, não só na minha vida maçónica, mas na minha vida profana também. […]. Na Maçonaria, na medida em que você vai pegando os graus, por exemplo, no segundo, você sente a necessidade de ajudar os irmãos. Já no terceiro, ele vai sentir a necessidade de ser uma referência para os iniciais, apesar da pouca idade, você tem a vontade de passar os conhecimentos para os que estão iniciando. Foi isto que eu senti. Os demais você vai aprimorando ainda mais. Não vou delongar explicando todos, mas para mim o que representam é isso, essa evolução e cobrança que aumenta a cada dia. (Entrevistado 2)
Há na Maçonaria e ordens afins uma variedade de cargos e atribuições que além da função ritualística, simbólica ou administrativa podem servir de aprendizagem para o membro que a executa. Na Maçonaria, no rito Escocês Antigo e Aceito, os cargos são distribuídos desta forma: Venerável Mestre, 1° Vigilante, 2° Vigilante, Orador, Secretário, Tesoureiro, Chanceler, Hospitaleiro, Mestre de Cerimónias, 1° Diácono, 2° Diácono, 1° Experto, 2° Experto, Porta Bandeira, Porta-Estandarte, Porta Espadas, Cobridor Interno, Cobridor Externo, Mestre de Banquete, Mestre de Harmonia, Mestre Bibliotecário e Mestre Arquitecto.
Os cargos de Venerável Mestre, 1° e 2° Vigilantes são cargos responsáveis pela coordenação dos trabalhos da loja. Secretário, Orador, Chanceler e Mestre Arquitecto dividem o sector administrativo. Tesoureiro e Hospitaleiro cuidam do sector financeiro. Chanceler, Hospitaleiro e Mestre de Banquetes fazem parte do sector social. Orador, Mestre de Harmonia, Bibliotecário cuidam do sector cultural. Do sector litúrgico e ritualístico participam o Orador, Mestre de Cerimónias, Diáconos, Expertos e Cobridores.
São vários cargos, pois ao dar um deles para as pessoas, você provoca um senso de responsabilidade, dá sentido pra que ela se sinta útil, além dela poder mostrar as suas características e qualidades, então cada cargo que existe lá tem uma função, que se for desempenhada, quem exercer vai aprender alguma coisa e com certeza esse cargo tem me tornado uma pessoa mais sensível do que eu era antes e aquele que busca algo de dentro daquilo, ele vai aprender exercendo cargos que não teria sentido algum para pessoas que não são maçónicas. (Entrevistado 1)
Segredo
Para Simmel (2009, p.226) “todas as relações das pessoas repousam sobre a pré-condição de que elas saibam alguma coisa uma sobre a outra”, porém, no contexto de uma sociedade como a Maçonaria, em que os indivíduos se organizam com um objectivo específico em comum, o conhecimento psicológico de um membro pelo outro, pode ser relativizado. Os seus membros sob certos aspectos “são anónimos e para se combinarem basta-lhes saber dos outros que eles também formam aquele grupo”, constituindo uma forma de sociação peculiar, dada pelo segredo.
O segredo, enquanto dissimulação de certas realidades, conseguido por meios negativos ou positivos, constitui uma das maiores conquistas da humanidade. Comparado com o estado infantil em que toda representação é comunicada, em que todo empreendimento é visível a todos os olhares, o segredo significa uma enorme ampliação da vida, porque muitas das suas manifestações não se poderiam produzir na completa publicidade. O segredo oferece, por assim dizer, a possibilidade de que surja um segundo mundo junto ao mundo patente e de que este sofra a influência do outro. (SIMMEL, 1905, tradução de MALDONADO, S. C., p.235, 2009)
Como especificado pela Grande Loja Maçónica de Minas Gerais [12], a Maçonaria hoje não é caracterizada como ordem secreta, uma vez que os seus membros se podem apresentar publicamente como maçons e os documentos legais de cada loja são registados publicamente e ressaltando que para a Grande Loja Unida da Inglaterra, apenas os métodos de reconhecimento mútuo são segredos protegidos. O paradoxo está no ponto em que para ser de fato uma sociedade secreta, não se deveria ter conhecimento sobre a própria existência da instituição ou dos membros que dela fazem parte, mas esta, indubitavelmente ainda que com a sua existência sendo pública desde a origem, tem guardado a si aspectos secretos. Porque tanto mistério ou discrição, principalmente sobre o conteúdo discutido durante as suas reuniões?
Para responder a esta pergunta basta saber do envolvimento da Maçonaria ainda que superficialmente, em diversos contextos históricos de carácter revolucionário, a exemplo da Revolução Americana, cuja participação da entidade parece por muitas vezes exagerada, mas fora indubitavelmente marcante, culminando na participação de nove maçons como signatários da declaração de independência norte americana (incluindo Benjamin Franklin e Jhon Hancock). Sabendo disto, não seria estrategicamente ou politicamente vantajoso que se soubesse publicamente que ideais abolicionistas ou pela independência ou revolucionários contra a ordem vigente estariam sendo discutidos dentro de lojas maçónicas. Portanto, o que se pode ou não falar ou revelar diverge muito entre os seus próprios membros, que na dúvida, preferem a discrição, sem imaginar que no vácuo que se forma pelas informações não ditas, surgem as malversações sobre a ordem.
O sentido negativo que se atribui moralmente ao segredo não nos deve induzir ao erro. O segredo é uma forma sociológica geral que se mantém neutra e acima do valor dos seus conteúdos. Por um lado, assume o valor mais alto, o pudor delicado da alma refinada que oculta o melhor de si para não receber louvores nem recompensas, que se por um lado outorga o prémio justo, por outro sombreia aquele valor. Mas por outra parte, se o que é secreto não está ligado ao mal, o mal associa-se ao que é secreto. (SIMMEL, 1905, tradução de MALDONADO, S. C., p.236, 2009)
São várias as justificativas e discursos em que se percebe na vivência entre estas entidades quanto ao carácter “discreto” da ordem, sendo notado também outros significados que o segredo ou esta discrição tomaram com o tempo, por exemplo o de que através dele, pudesse justificar a não espera de reconhecimento após praticar uma boa acção, o que garantiria legitimidade de facto ao espírito filantrópico da instituição. Há também no discurso dos entrevistados, que procurar saber sobre a Maçonaria, especialmente sobre os seus rituais e símbolos, é algo que não encorajam nem ao candidato antes de ser iniciado, como uma forma de se preservar a surpresa e a legitimidade também do ritual de iniciação como no caso:
Na Maçonaria, quem me convidou na época foi o João (Pseudónimo) e você entra com um pé atrás outro na frente porque você inicia sem saber o que é a Maçonaria. Você pergunta, hoje com internet é muito fácil, mas antigamente você não tinha internet, então você não tinha acesso e eu indico o seguinte, se você for convidado para entrar, não leia não. Entra pelo escuro se você tiver vontade e descubra que é a Maçonaria lá dentro. (Entrevistado 7, itálico meu)
E também no discurso do Entrevistado 6:
Eu inicialmente não conhecia a Maçonaria, inclusive quem me indicou era meu padrinho e depois ele foi ser meu padrinho de casamento, porque na época eu nem casado era também. Ele disse que tudo bem, que quanto menos eu conhecesse na fase de iniciar seria melhor ainda, porque eu conseguiria ter uma visão, ter uma absorção melhor. Então foi por isso que eu acabei entrando, e não conhecia nada da Maçonaria na época em que entrei.
Há-de saber-se que os rituais são escritos de forma complexa, portanto para uma melhor compreensão dele, será necessária a participação no rito, o aspecto visual deste é importante uma vez que estas ordens são extremamente ricas em simbologia que estão representadas seja no templo, nas vestimentas, no emblema de cada ordem ou na actuação para descrever os gestos e sinais de reconhecimento, portanto dificilmente um forasteiro se poderá passar por um Maçom simplesmente por ter em posse um ritual impresso ou digital e tê-lo decorado. O que agrava esta dificuldade é também a necessidade do convívio, como dito por um dos entrevistados, existe uma integração, membros de uma loja visitam outras lojas, se conhecem, não sendo sequer necessária a comprovação por métodos de reconhecimento de que é ou não um Maçom, quando o testemunho dos mais velhos, comprova a iniciação dos mais novos, o simples convívio entre os iniciados é o melhor método de reconhecimento.
Nós acabamos conhecendo, sem dúvidas, porque assim, não é só a nossa Loja. Nessa época, no início, nós ajudamos a criar uma Loja aqui em Paracatu, outra em Coromandel e nós demos uma força aqui para uma cidade na saída aqui, indo pra BR262. Fora isto, nós acabavamos visitando outras Lojas, fatalmente nós saíamos uma vez por mês por aí para visitar uma, então você acaba conhecendo muita gente diferente e graças a isto nós acabamos fazendo um ciclo de amizades muito grande. (Entrevistado 6)
O discurso do entrevistado acima exemplifica bem como se expande amizades através da fundação de novas lojas e visitas.
Laços Sociais
Talvez seja a parte mais notável, mesmo à profanos, que se sabe da Maçonaria. Hoje a família maçónica, como é chamada pelos integrantes, é composta pela Maçonaria e o clube de cunhadas/ fraternidade feminina, pelas ordens que foram criadas ou apadrinhadas pela Maçonaria como a Ordem DeMolay e as Filhas de Jó e os seus respectivos clubes de pais, sendo assim explícito o quanto é possível expandir os seus laços sociais através da participação nelas. Este facto tende a apontar também um lado sombrio e interessado nesta participação, como uma forma de garantir ascensão social e/ou financeira, da mesma forma que Weber aponta nas seitas protestantes, colocando em questão, no caso das seitas a própria religiosidade que era um pré-requisito básico para associação.
Como bem se sabe, não poucos (bem poderíamos dizer a maioria da geração mais velha) dos “promotores”, “capitães da indústria” americanos, dos multimilionários e dos magnatas dos trustes pertenciam formalmente a seitas, especialmente a dos baptistas. Mas, segundo o caso, essas pessoas frequentemente eram filiadas apenas por motivos convencionais, como na Alemanha, e apenas a fim de se legitimarem na vida pessoal e social – não para se legitimarem como homens de negócios; na era dos puritanos, esses “super-homens económicos” não precisavam de tal muleta, e a sua religiosidade era, certamente, com frequência de uma sinceridade mais do que dúbia. (WEBER, 1982, p.354)
Weber aponta uma diferença entre a motivação “oportunista” para se participar de seitas protestantes na América e na Alemanha, sendo a primeira mais voltada para legitimação do indivíduo como um homem de negócios e no segundo, como forma de legitimação pessoal e social, voltado à carreira política. Para uma análise fora do quesito de religiosidade, existe uma série de clubes exclusivos e formas de associação cuja entrada é garantida por uma aprovação majoritária ou unânime dos seus membros e a importância da participação num destes se dá como forma de “provar a si mesmo”, como no caso de repúblicas universitárias [13]. Não é diferente na Maçonaria, pois existe desde a sua criação, interesses específicos para associação a ela, como já citado anteriormente, no caso de uma burguesia se aproximar da monarquia uma vez que lá dentro, as hierarquias e títulos da sociedade tradicional não podiam ser utilizados.
Este tipo de comportamento, utilizar o status de “Maçom” como forma explícita de ascensão é condenado pelos seus membros. Cabe citar uma experiência da pesquisa de campo, onde para a realização de uma das entrevistas, um Maçom me convidou a acompanhá-lo num dia de trabalho, assim poderíamos conversar de maneira mais informal. Ao desenvolver um produto, ele explicou que houve todo um trabalho quanto à construção da identidade da marca e assim citou um episódio interessante, em que lhe foi sugerido em algum momento, que se associasse a sua marca à Maçonaria, fosse num símbolo na embalagem ou de alguma outra forma, para que garantisse uma maior abertura de mercado, apoiando-se no status da instituição ou na possibilidade de maçons do mundo todo darem preferência a sua marca, por uma identificação com ela (ou com o dono da marca). Para ele, isto era algo que jamais faria, disse que com a ordem DeMolay e com a Maçonaria, houveram diversas aprendizagens que contribuíram sim para uma aplicação prática no mercado de trabalho, como uma maior facilidade com processos burocráticos que se assemelham aos que tinha contacto em cargos administrativos na ordem, ou por ter sido através delas que aprendeu a falar em público e se preocupar com um aperfeiçoamento da sua oratória, o que foi essencial no contacto com clientes, porém, a utilização de forma directa e explícita de um símbolo ou do nome Maçom como forma de se obter vantagem, não era algo bem visto pela instituição.
Existe uma dificuldade de filtrar o ingresso de pessoas cujo interesses sejam puramente egoístas mesmo com a investigação do candidato, porém, os maçons entrevistados e com os quais tive convívio, acreditam que requer muito tempo e trabalho dentro da Maçonaria, para poder utilizar os dispositivos que lhe garantem “influência”. Ainda que no acto da entrada, o neófito seja reconhecido como “irmão”, isso é uma relação que se constrói com o tempo, esses laços sociais que se formam, são fortes ainda que o contacto directo com membros de outras lojas, de outras cidades por exemplo, seja pequeno, portanto é através dos trabalhos filantrópicos, dedicação do seu tempo à presença em reuniões, confraternizações e trabalhos maçónicos, ou viagens à congressos e encontros da instituição assim como o próprio esforço do iniciado em buscar o avanço nos graus da Maçonaria é que lhe vai garantir reconhecimento.
Esta influência da Maçonaria, enxergada do mundo profano, é tida para eles, apenas como uma rede de amizade e laços fraternais, não constituindo directamente uma rede de trocas interessadas, mas sim, o contrário. Para se ter uma imagem prática disso, um Maçom, relatou que em certa ocasião, ele precisou accionar um advogado para resolver os trâmites legais de uma situação relacionada com o seu trabalho, que ocorreu em outra cidade e de preferência, teria que ir pessoalmente à esta cidade para isso. Ele decidiu então utilizar uma lista telefónica da Maçonaria e procurar algum Maçom que exercesse a profissão de advogado na cidade onde ocorrera o incidente e accioná-lo para que pudesse ajudá-lo na situação. O advogado em questão, resolveu o problema para este Maçom e ainda que este quisesse pagar-lhe pelo serviço, o advogado recusou-se a receber qualquer pagamento e disse-lhe que se fazia aquilo, era porque a Maçonaria lhe proporcionou condições para fazê-lo e um dia a Maçonaria lhe retribuiria, assim poupando o tempo, a viagem e os custos para o Maçom. O exemplo mostra que esta rede de “influências” se dá pela preferência que normalmente um Maçom dá a outro para prestação de algum serviço e é justificada pela confiabilidade que se tem na própria instituição, voltando à questão do certificado de qualificação moral que a participação nela garante a ele. É importante notar que não deixa de ser uma troca interessada como as trocas no “Ensaio sobre a Dádiva” de Marcel Mauss (1924), mas diferente destas, pois a espera da obrigação de retribuição, não recai sobre o indivíduo, mas sobre a instituição Maçonaria, constituindo uma rede contínua de trocas ou auxílio mútuo.
Com o surgimento das ordens para maçónicas, estes laços sociais estenderam-se, e o sistema de apadrinhamento transcende por muitas vezes apenas o institucional. Desde a origem DeMolay, em que Louis Gordon foi trabalhar com Frank Shermanland, o contacto dos jovens partícipes da recém-criada ordem com os maçons, garantiu com que inevitavelmente, muitas vezes trabalhassem juntos. Não é raro em Patos de Minas, ver estes laços sociais presentes em ambientes de trabalho. Maçons, advogados, dando preferência à Demolays ou Filhas de Jó, que cursam direito para estagiarem na sua firma e maçons, estes, que se conheceram na ordem DeMolay, iniciaram anos depois na Maçonaria, cursaram ambos Direito e fundaram juntos a firma como sócios, é o melhor exemplo real de como se pode articular esses laços sociais. O lado problemático dessas redes de indicações e empregatícias é que por vezes, se podem caracterizar como nepotismo [14] ao mesmo tempo em que a lista de indivíduos envolvidos nesses laços sociais é tão extensa, considerando a Maçonaria e todas as ordens para maçónicas e os seus familiares, que em cidades de pequeno ou médio porte, torna-se difícil avaliar ou caracterizar essa acção.
Esta afinidade que existe entre as ordens, é expressa na utilização de formas de parentesco para tratar uns aos outros. Assim, dentro de uma mesma ordem, todos se chamam de irmãos, maçons são irmãos entre si, Demolays são irmãos entre si e Filhas de Jó são irmãs entre si. Pelo apadrinhamento, os maçons passaram a chamar os Demolays e filhas de Jó de “sobrinhos” e “sobrinhas” e estes a chamarem os maçons e as suas esposas de “tios” e “tias”. Por fim, Demolays e Filhas de Jó tratam-se como “primos” e “primas”.
Olha, veja bem, nos rituais e legislações maçónicas não fala que Demolays, Filhas de Jó, são sobrinhos, isso na verdade é uma criação que foi passada, talvez seja norte americana, mas não tem nada que fale que isso é. O que é pregado aqui entre os maçons é que são todos irmãos. Agora a ordem DeMolay é um projecto da Maçonaria, que abraçou esta causa e quis colocar a ordem dentro dos templos maçónicos para se aprimorarem com conhecimentos ligados a ela, para infância e juventude. Então é algo que a Maçonaria gosta, tem interesse e faz parte desse projecto, realmente ensinando os jovens a pescar e preparando pessoas para serem melhores cidadãos e porque não, grandes líderes. A Maçonaria é uma instituição perfeita, claro, dotada de pessoas imperfeitas, mas é um dos papeis dela tentar provocar e fazer mudanças, e nós só conseguimos fazer mudanças enquanto jovens. E a ordem DeMolay e as filhas de Jó são isso, lugar para passar virtudes, passar esses feitos para os jovens para que eles sejam melhores cidadãos. É um projecto, a questão desta afinidade é aquela história, veja bem, você vê o DeMolay, o jovem fazendo um trabalho que geralmente os jovens de hoje não fazem, isso para quem está padecendo a Maçonaria acha uma coisa muito bonita, virtuosa e que não encontramos no dia a dia. Então toda vez que você vê isso, você fica contagiado, fica feliz e acima de tudo você fica “estou participando desse trabalho”, então é uma questão de gratificação, de felicidade. A Maçonaria sente-se feliz em ter os DeMolays e as filhas de Jó como um dos seus braços de trabalho. Esta questão de tios que existe entre os maçons é só carinho, não tem ritual, nem nada disso. A história de Jacques DeMolay está aí, atrelada aos graus filosóficos da Maçonaria e o criador da ordem DeMolay, por ter alcançado o grau máximo da Maçonaria ele conheceu a história e adoptou estes preceitos da questão da juventude, e é só. Na verdade, existe muito desvio na questão do esoterismo da ordem DeMolay que realmente não tem nada a ver, mas a gente sabe que é por boa intenção, mas que não tem nada a ver. Então, estes laços que se criam é o que fica e o que a Maçonaria quer. (Entrevistado 1)
Pode-se exemplificar a relação com esta família, também no discurso do entrevistado 2:
Desde o tempo DeMolay você cria esta segunda família, que é a maçónica. Existem as Filhas de Jó, os Demolays, os maçons, então você acaba criando um vínculo e com um tempo é como se você fosse adoptado, é uma pessoa criada e entra para uma nova família, com o tempo você adquire esse laço afectivo e você trata a pessoa como um membro da sua família.
Como se percebe nos discursos, a relação de afinidade não é definida em constituições, Landmarks ou rituais, mas nasceu da interacção entre os grupos e que constitui de facto um sentimento de integração, pertencimento à uma família, o que gera uma especificidade, torna o laço social dos seus participantes mais forte do que o de simplesmente uma amizade.
Eu fui presidente do conselho consultivo por um tempo aí me afastei. Um ano e meio que fiquei sem ir lá, na hora que voltei não conhecia quase ninguém. Começaram a me chamar de “DeMolay”. A rede de contactos, eu acho que posso falar sem sombra de dúvidas, que é a maior herança que eu tenho da ordem DeMolay. Meus maiores e melhores amigos são de lá. Os que não são de lá, é porque eram meus amigos e acabaram virando “de lá”. Eu fico pensando até para os meus filhos, porque eu quero que estejam lá. Porque uma instituição que tem todas essas virtudes de praticar o bem, não tem como ter uma pessoa ruim lá dentro. O ruim que entra lá, naturalmente sai, ele não sente bem. É um óptimo lugar para se fazer amigos. E isso ajuda-nos o resto da vida, hoje eu tenho um grande amigo DeMolay que é advogado, que é meu advogado, que me dá assessoria jurídica, eu tenho um grande amigo DeMolay que é médico, que se eu precisar vai me ajudar na medicina. Então eu vejo até esta questão de profissionalmente, ou na vida, é muito relevante. (Entrevistado 4)
O discurso acima exemplifica o caso de um DeMolay, que ao se tornar Maçom, continuou trabalhando com os DeMolays, sendo presidente do conselho consultivo [15] e que por um tempo, afastou-se da ordem. Em Patos de Minas, o capítulo DeMolay funcionando normalmente, irá promover eventos onde se iniciam novos membros a cada seis meses, e em cada uma dessas iniciações, irá iniciar-se cerca de oito ou mais novos DeMolays. num ano e meio que alguém se afasta, seja por motivos pessoais ou profissionais, essa pessoa irá encontrar numa nova reunião, aproximadamente trinta novos membros, enquanto neste tempo, outros se afastaram [16]. Na Maçonaria, as iniciações são mais restritas, inicia-se um número muito menor de membros por iniciação (um ou dois apenas), mas acontecem mais iniciações ao longo do ano. De uma forma geral, esta rotatividade dos membros contribui para se conhecer um número considerável de pessoas, assim como garantir a convivência com pessoas de diferentes perfis, diferentes crenças e indubitavelmente, conhecer um grande número de pessoas, dentro de instituições que visam a formação de lideranças, garantirá de forma directa ou indirecta, maiores chances de sucesso na vida pessoal ou profissional.
Douglas Oliveira Dias
(Continua)
Notas
[1] Do latim pro fanum – “diante do templo”
[2] Nas quais a identidade dos maçons que as cederam, foram preservadas, tendo as entrevistas sido numeradas de Entrevistado 1 a Entrevistado 8
[3] O roteiro de entrevista utilizado para recolhimento destas informações encontra-se como Apêndice A
[4] A lapidação da “pedra bruta” é uma metáfora recorrente na Maçonaria, e pode ser interpretado como se a pedra fosse o carácter do Maçom nos primeiros graus da ordem e conforme avança dentro dela, tende a alcançar a “pedra polida”.
[5] Maioritariamente pois há indícios da presença de mulheres na Maçonaria operativa, que inclusive a Maçonaria Francesa utiliza como justificativa de não reconhecer este Landmark, possibilitando na sua potência a existência de corpos maçónicos femininos, mas carece de fontes bibliográficas, daí evitar-se o determinismo.
[6] Disponível em: SCODRFB http://www.demolaybrasil.org.br Acesso em 12 de Junho de 2015
[7] Disponível em: GLMMG http://www.glmmg.org.br/app/detalhe.php?ID=14/filhas-j%C3%83%C2%B3 Acesso em 12 de Junho de 2015
[8] Normalmente, o “livro sagrado” é representado por uma bíblia no Brasil, devido à maioria católica no país, mas é apenas simbólico e pode variar conforme a opção religiosa majoritária de cada loja.
[9] Liga-se a tradição dos antigos pedreiros que utilizavam aventais para proteger as suas vestimentas e carregar as suas ferramentas e é o primeiro presente que um Maçom recebe após ser iniciado.
[10] A divisão da Maçonaria simbólica em três graus é um Landmark que tem sido mais bem preservado que qualquer outro. (MACKEY, 1872, p.18)
[11] Segundo Hodapp (2005), dos 33 graus no Rito Escocês Antigo e Aceito, os três primeiros são os simbólicos e confere-se mais 29 graus (do 4º ao 32º). O 33º é concedido apenas pelo Supremo Conselho como honraria aos membros que tenham demonstrado um serviço excepcional ao Rito Escocês.
[12] Disponível em: GLMMG http://www.glmmg.org.br/app/detalhe.php?ID=28/definia%A7a%A3o Acesso em 12 de Junho de 2015
[13] Pode ser exemplificado pelas sociedades de letras gregas nos EUA ou pelas repúblicas tradicionais de cidades universitárias no Brasil como Ouro Preto e Viçosa, ambas em Minas Gerais em que há uma série de provas (“trotes”) e após um período de teste o calouro é submetido à aprovação dos demais colegas da república, os seus veteranos. Fazer parte de uma dessas repúblicas tradicionais constitui importante “status” na vida universitária.
[14] Quando se trata de cargos no poder público
[15] O conselho consultivo é um grupo de maçons pertencentes à loja maçónica que patrocina o capítulo DeMolay, que são responsáveis por frequentarem as reuniões DeMolays, com o fim de supervisioná-las.
[16] Em Patos de Minas, havia uma evasão grande de Demolays, aproximando-se da idade de prestar vestibular e começar a vida universitária. Eu mesmo sendo um exemplo desta situação.

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