Reproduzem-se aqui os panfletos que Fernando Pessoa e Raul Leal escreveram no período compreendido entre fins de Fevereiro e a primeira quinzena de Maio de 1923, na sua polémica com a Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa. Vão antecedidos pela proclamação com que esta Liga, em finais de Fevereiro desse ano, iniciou a sua campanha contra a literatura imoral.
Ainda não foi feito, e não é este o momento de o fazer, o historial completo dessa campanha de reacção moralizadora, amplamente suscitada pela intervenção de Fernando Pessoa como autor de dois textos publicados na revista Contemporânea, em Julho e Outubro de 1922, e como editor, nesse ano, da 2ª edição das Canções de António Botto e, em Fevereiro de 1923, de Sodoma Divinizada de Raul Leal. A reedição de 1989 desta última obra contém, é certo, um relato cronológico dos acontecimentos e a reprodução de algumas peças da polémica em torno do caso, mas com lacunas importantes e pouco criteriosa transcrição dos textos [1].
A campanha reactiva, desencadeada a partir de 20 de Fevereiro de 1923 nas páginas do diário católico e monárquico A Época, foi conduzida pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, agremiação então criada, que mobilizava duas ou três centenas de alunos das escolas superiores da capital. A Liga era liderada pelo quartanista de Matemática da Faculdade de Ciências, Pedro Teotónio Pereira, estudante monárquico e católico, que na década seguinte será chamado ao governo de Salazar.
Antecedente próximo da campanha moralizadora foi a reacção do jornalista católico Álvaro Maia, com o artigo “Literatura de Sodoma”, publicado na Contemporânea n° 4, de Outubro de 1922, em resposta ao artigo de Pessoa publicado na mesma revista, “António Botto e o ideal estético em Portugal” (n° 3, de Julho de 1922). A revista publicou também uma carta de Álvaro de Campos ao director da revista, José Pacheco, incluída no mesmo número do artigo “Literatura de Sodoma”. Nessa missiva, Campos tecia algumas observações críticas sobre o artigo do ortónimo e fazia considerações elogiosas sobre Botto. Fernando Pessoa, depois de alguma hesitação, optou por não responder nem ao seu heterónimo nem, seriamente, a Álvaro Maia, ao qual apenas apontaria, em breves linhas, um erro de gramática [2]. O debate iniciado por Maia não teve, assim, continuidade nas páginas da Contemporânea.
Na primeira quinzena de Fevereiro de 1923 dois acontecimentos “escandalosos” viriam servir de pretexto directo para a intervenção pública da Liga dos Estudantes. Foram eles um evento carnavalesco privado, o chamado “Baile da Graça”, em que teriam participado homens vestidos de mulheres, e a publicação pela editora Olisipo, de Fernando Pessoa, do provocatório livro Sodoma Divinizada, de Raúl Leal, que constituía, de facto, uma resposta ao artigo de Álvaro Maia (o subtítulo era Leves Reflexões Teometafísicas Sobre um Artigo). O livro, impresso em poucas centenas de exemplares [3], valeria ao seu autor a acusação de devasso e herético por parte da Liga e do jornal A Época, que tentaram conotar a obra com o referido baile “escandaloso”, ambos descritos como sintomas da “vergonhosa desmoralização” que, perante a inacção da polícia, alastrava na sociedade lisboeta. Pode acrescentar-se a estes dois factos a publicação, em edição de autor, do livro Decadência, da poetisa Judith Teixeira, saído a lume pela mesma altura [4], em que, segundo o jornal A Época, “um talento poético prostituído faz gala da miséria repugnante” [5]. Os estudantes vieram então a terreiro, organizando concentrações no centro de Lisboa, fazendo rusgas pelas livrarias e distribuindo pelas ruas e cafés uma proclamação intitulada Dos estudantes das Escolas Superiores de Lisboa – Aos poderes constituídos e a todos os homens honrados de Portugal, em que era exigida uma “reacção pronta e implacável” à situação de “última abominação” a que se tinha chegado: “Sodoma ressurge nos livros e nos escritores, nos espíritos e nos corpos” (ver documento n° 1). Os estudantes tinham provavelmente sido encorajados por notícias provenientes de Itália em fins de Fevereiro, divulgadas pelo Diário de Notícias e por A Época, dando conta de idêntica campanha contra a literatura imoral, lançada naquele país por ordem de Mussolini [6]. As autoridades da 1a República portuguesa, na pessoa do governador civil de Lisboa, major Viriato Lobo, cederam aos argumentos da Liga e ordenaram a apreensão e queima dos livros “imorais” que foram apontados pelos estudantes [7]. As obras apreendidas e destruídas não se limitaram às referidas edições da Olisipo e ao livro de Judith Teixeira, abrangendo outros autores portugueses e estrangeiros [8].
Apesar de os principais órgãos de imprensa de Lisboa (Diário de Notícias, Século, Diário de Lisboa) terem declarado que não se ocupariam do assunto dos livros ditos imorais, alegadamente para não lhes dar maior publicidade, houve algumas peças jornalísticas sobre o caso e tomadas de posição em colunas de opinião, inclusive nos jornais atrás citados. Segundo Raul Leal refere num dos seus manifestos, alguns artistas e escritores teriam também elevado “um protesto tardio contra a apreensão dos nossos livros”. Fernando Pessoa chegou a projectar e a redigir parte de um “Protesto Público – contra a apreensão de Canções de Antonio Botto e de Sodoma Divinizada de Raul Leal”, que aparentemente abandonou [9]. A polémica sobre a literatura imoral foi porém esfriando, para voltar a recrudescer no Verão de 1923, quando novo escândalo rebentou, a 10 de Julho, com a representação da peça Mar Alto, de António Ferro.
Em data que não é possível determinar rigorosamente, mas provavelmente em fins de Fevereiro ou primeira semana de Março, Pessoa publicou o seu primeiro manifesto contra a campanha moralizadora dos estudantes, Aviso por causa da moral, datado e assinado “Europa, 1923 / Álvaro de Campos” (documento n° 2). Nesse pequeno panfleto, o autor não se refere à apreensão de livros pelas autoridades, dirigindo-se apenas aos estudantes, em defesa dos escritores de obras consideradas imorais, os quais não nomeia. Plausivelmente posterior a ele é o panfleto de Raul Leal Uma Lição de Moral aos Estudantes de Lisboa e o Descaramento da Igreja Católica, impresso dos dois lados de uma folha de grandes dimensões (documento n° 3). Neste panfleto o autor entra directamente em polémica com o líder dos estudantes, Pedro Teotónio Pereira, e com a Igreja Católica, que acusa de urdir “na sombra” a campanha moralizadora e, em particular, de ter estado na origem da apreensão do seu livro pela polícia [10]. As primeiras apreensões de livros tinham decorrido na primeira semana de Março [11].
Seguiu-se, não muito depois, a divulgação pelos estudantes de uma resposta a Raul Leal, sob a forma de um “manifesto”, possivelmente uma folha volante. Não é conhecido nenhum exemplar restante de tal manifesto, que também A Época não citou e de cuja existência apenas podemos inferir pelas referências que Raul Leal e Fernando Pessoa lhe iriam seguidamente fazer. O visado, Raul Leal, dado como louco no manifesto dos estudantes, chamar-lhe-á “papelucho”, enquanto Fernando Pessoa se lhe referirá como um “manifesto de estudantes” que tinha sido distribuído em Lisboa dias antes. Sentindo-se ultrajado pelos estudantes e revoltado pela deturpação que no manifesto destes se fazia, através de citações truncadas, do que ele escrevera em Uma Lição de Moral aos Estudantes de Lisboa e o Descaramento da Igreja Católica, Raul Leal produziu de imediato um violento papel intitulado Para os sórdidos estudantes de Lisboa (documento n° 4), em que denunciava essa manipulação deliberada, usando contudo de termos muito agressivos, em flagrante contraste com o tom do seu anterior panfleto, mais sereno, pedagógico e paternalista – pelo menos para com os estudantes, já que o tom usado para com a Igreja era bastante agressivo. Agora, no novo panfleto, Leal insultava Pedro Teotónio Pereira e fazia inclusive uma insinuação grave sobre o comportamento sexual dos líderes da liga estudantil, que acusava de souteneurs de homens. Deste panfleto impresso de Raúl Leal apenas se conhece um único exemplar completo, recentemente transaccionado num leilão de livros [12], além de vários fragmentos (sem o texto completo) guardados no espólio de Pessoa, que os utilizou para escrever no verso. É bastante plausível que, a conselho dos amigos, nomeadamente Fernando Pessoa, Raul Leal tenha desistido de divulgar esse seu agressivo panfleto, que lhe poderia ter causado graves dissabores e um processo por difamação.
Aparentemente em substituição desse segundo panfleto de Raul Leal, Fernando Pessoa publicou então, em folha volante assinada com o seu próprio nome, o texto intitulado Sobre um manifesto de estudantes (documento n° 5), no qual, além de refutar, com argumentação visivelmente colhida em livros de psiquiatria, as acusações de loucura feitas a Raul Leal, se ocupava de denunciar detalhadamente a questão das citações truncadas que o manifesto dos estudantes fizera do texto do seu amigo. Esta última circunstância permite pensar que se tratava de substituir o papel de Raul Leal, dado que Pessoa não iria certamente denunciar novamente, e com todo o pormenor, a deturpação feita pelos estudantes se o seu amigo o já tivesse feito publicamente.
Entre 10 e 18 de Maio de 1923, centenas de exemplares deste manifesto de Pessoa terão sido enviados pelo correio, a avaliar por listas de destinatários e respectivos endereços, datadas, que encontrámos e identificámos no espólio de Fernando Pessoa. Parte desses exemplares parece ter sido enviada juntamente com o manifesto de Raul Leal (plausivelmente, Uma Lição de Moral aos Estudantes de Lisboa), segundo indicação registada por Pessoa numa dessas listas [13], o que prova a forma concertada como os dois amigos reagiram aos manifestos dos estudantes. Os nomes constantes dessas listas de destinatários são os dos mais destacados médicos e psiquiatras do país, juntamente com numerosos professores universitários e liceais, cientistas, governantes, deputados, políticos, escritores, artistas, jornalistas, engenheiros, advogados, historiadores, oficiais do Exército e da Armada, altos funcionários, etc.
A transcrição adiante feita dos referidos cinco documentos da polémica conserva a ortografia e a pontuação originais, por vezes não totalmente coerentes, tendo-se apenas corrigido as evidentes gralhas tipográficas. O pouco conhecido panfleto de Fernando Pessoa Sobre um manifesto de estudantes é aqui transcrito integralmente. A versão que dele corre apensa à edição de 1989 de Sodoma Divinizada (e à sua reedição de 2011), está, como já se disse, truncada e enferma de outras deficiências [14]. O texto de Para os sórdidos estudantes de Lisboa só pôde ser completado graças à imagem do panfleto inserida no catálogo do referido leilão, uma vez que os diversos fragmentos existentes no espólio de Fernando Pessoa não abrangem um parágrafo quase inteiro.
José Barreto
Fonte
- Pessoa Plural – Revista de estudos Pessoano
Documentos
1 – Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, Dos estudantes das Escolas Superiores de Lisboa. Aos poderes constituídos e a todos os homens honrados de Portugal.
Transcrição
Dos estudantes das Escolas Superiores de Lisboa
Aos poderes constituídos e a todos os homens honrados de Portugal
Não vimos tratar de politica, nem trazemos tambem um novo programa de partido, pronto a salvar o paiz.
Simplesmente, na nossa função de trabalhadores do Espirito e de soldados da Sciencia, entendemos que é chegado o momento de erguêrmos a nossa voz para ser escutada por todos aqueles que a possam compreender.
A situação de Portugal é desgraçada.
Profundamente e totalmente.
A nós, fere-nos mais de perto, na nossa sensibilidade, a parte moral e intelectual da derrocada que nos rodeia.
É dela que vimos falar.
Não queremos agora profundar causas ou apontar responsabilidades. Basta que constatêmos os factos e apontemos o caminho a seguir.
De dia para dia o mal é mais fundo e mais avassaladôr. Derrubaram-se todas as fronteiras do espirito entre a inteligencia e a loucura, entre a beleza e a perversão.
Mascarados em mil hipocrisias literárias, em pseudo filosofias extravagantes, encobrindo a sua animalidade em frageis farrapos de escolas inverosimeis, todos os baixos instintos humanos, numa liberdade desvairada, se erguem, alastram, dominam, como flôres de pantano no crepusculo triste duma terra abandonada.
É contra essa dispersão, contra essa inversão da inteligencia, da moral e da sensibilidade, que nós gritamos uma revolta sagrada da nossa dignidade de homens, o protesto vibrante dos que não deixam cerrar os seus olhos à luz da Verdade.
Já não se paira, por desgraça, no campo das atitudes snobs e literárias. Já se não pode sorrir impunemente. Fazer blague é ser-se cumplice.
Sodoma ressurge nos livros e nos escritôres, nos espiritos e nos corpos. Atingiu-se a ultima abominação, aquela que nas tradições biblicas fazia chover o fogo do ceu.
Urge a reação pronta e implacavel. Á frente dela se levanta a nossa mocidade forte e resoluta. Nas nossas mãos brandimos o ferro em brasa que cicatriza as chagas.
A quem manda nós apontamos hoje a necessidade imperiósa de fazer justiça. É preciso que os livreiros honrados expulsem das suas casas os livros tôrpes. É necessario que os adeptos da infamia caiam sob a alçada da lei, que um movimento energico de repressão castigue em nome do bem publico.
Que a justiça venha e implacável!
A Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa
2 – Álvaro de Campos, Aviso por causa da moral.
Transcrição
AVISO
POR CAUSA DA MORAL
Quando o publico soube que os estudantes de Lisboa, nos intervallos de dizer obscenidades ás senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciencia. Sim – exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…
Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que teem, boas ou más – boas ou más, que a gente nunca sabe com quaes é que vae para o Diabo.
Os moços da vida das escolas intromettem-se com os escriptores que não passam pela mesma razão que se intromettem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de eu lh’a dizer, tambem a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometteriam nem com as senhoras nem com os escriptores.
Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem sciencias, se estudam sciencias; estudem artes, se estudam artes; estudem lettras, se estudam lettras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.
Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possivel.
Porque só ha duas maneiras de ter razão. Uma é calar-se, e é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguem de mais edade a pode cometter.
Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o logar onde mais por acaso estamos presentes.
Europa, 1923.
Álvaro de Campos
3 – Raul Leal, Uma Lição de Moral aos Estudantes de Lisboa e o Descaramento da Igreja Católica.
Transcrição
UMA LIÇÃO DE MORAL AOS ESTUDANTES DE LISBOA E
O descaramento da Egreja Catholica
POR RAUL LEAL (HENOCH)
O sr. Theotonio Pereira, que eu não tenho o gosto de conhecer mas que as columnas da Epoca procuram immortalizar, está preparando uma nova St. Barthélemy contra os «devassos» que teem a pretensão de demolir a «bella» organização social em que vivemos. Sou eu, sem duvida, um d’esses «devassos hereticos», e o mais insignificante d’elles; portanto estoicamente cá vou esperando o martyrio promettido.
Como o leitor deve conhecer o sr. Theotonio Pereira tanto como eu, vou apresental-o segundo as indicações da Epoca, que o entrevistou. Creio que esse sr. foi em tempos presidente da Associação Academica e está procurando reunir em volta de si um grupo de estudantes puros – não se tratará de uma imitação dos hereticos puritanos? – para com elles provocar uma devastação enorme nas hostes perversas dos devassos que, ainda por cima, como eu, insultam Deus, chamando-o para dirigir as cousas da Luxuria.
Ora, antes de mais nada, sr. Theotonio, devo dizer-lhe que a sua tarefa torna-se um tanto difficil, bem podendo o sr. andar com uma candeia, á maneira de Diogenes, em busca dos puros… Mas deixemos isso. Não quero ser desagradavel para ninguem.
Nos meus tempos de estudante eu mal sabia o que queria, tudo era vago, imperfeito na minha vida mental; portanto, calculo que o mesmo se dê approximadamente com os novos estudantes. Não será pois preferivel os srs. viverem por enquanto, como eu outr’ora vivia, apenas na meditação e no estudo, com o fim de formarem superiormente o seu espirito para só depois de elle estar preparado agirem na Vida, só então a podendo comprehender?… Bem sei que os tempos são outros, surgindo demasiadamente convulsivos para permittirem um quietismo absoluto da parte dos novos; mas eu tambem não pretendo para elles esse absoluto quietismo exterior que eu, vivendo n’outras condições de vida, podia possuir, só sendo intensa, e então extraordinariamente intensa, a minha vida interior; o que pretendo é que se manifestem um pouco menos e meditem mais, pois de outro modo não só deixarão informe o seu espirito, mas tambem se tornarão ridiculos aos seus proprios olhos futuros por terem procurado agir profundamente numa vida que pela sua pouca edade não podem comprehender, tanto mais que a vida de hoje é complicadissima e pois nada accessivel aos espiritos demasiadamente jovens. Estudem, estudem muito, o maximo que as circumstancias actuaes permittirem, e depois então appareçam.
A moral não é o que os srs. estudantes imaginam. As perversões sexuaes só serão indignas se fôrem realisadas de uma fórma reles e se não se pensar noutra cousa que não seja o vicio. Aliás não é tanto na vida sensual que a moralidade ou immoralidade se pode manifestar: o campo d’ellas é antes o das relações sociaes. Um homem pode ser um devasso, mas se fôr mais alguma cousa do que um simples devasso, e sobretudo se fôr dignissimo na sua vida social, esse homem merece o mais profundo respeito. O vicio, qualquer que seja a opinião que sobre elle se tenha, pouco importa se porventura não exercer uma influencia nefasta na dignidade do homem. Ora só se pode mostrar dignidade na vida quando essa vida é longa e difficil. Os srs. estudantes mal viveram ainda e portanto não sabem se possuirão a coragem de serem sempre dignos. Só terão o direito de empunhar o estandarte da moralidade quando puderem lançar aos homens o exemplo da vida dignissima que porventura levem. Os srs. ainda mal viveram, e portanto sabem lá se poderão ser dignos e se terão pois o direito de defender a moral!
Que cousas como o celebre Baile da Graça merecem a mais profunda repulsa, não resta duvida. Se eu lá tivesse ido – que não fui – seria apenas para estudar a psychologia d’aquellas alminhas abjectas, sem me misturar a semelhante patamaceira. Esses typos é que desacreditam o vicio, sentindo-o só á flôr da pelle, não lhe dando alma, expressão, e procurando depraval-o com attitudes propositadamente reles onde não se encontra a minima belleza. São ignobeis.
Tudo se pode fazer no vicio mas com uma ansia profundissima que venha dolorosamente do intimo da alma e por fim expluda em extases divinos. Que atravez da Carne se sinta o Espirito em convulsões e em Vertigem… E esses seres abjectos que citei podem lá ter attitudes convulsivamente extasicas em que a agonia d’uma morte divina esfacele os nervos mysticamente opiados! Tudo n’elles é ignobil Superficie.
«Criem-se templos de Luxuria em que esta tome uma feição liturgica, e só então surgirá o verdadeiro sensualismo mystico que ha-de exprimir a divinização do Mundo, a divinização de Sodoma estabelecida exaltadamente pelo Verbo e pelo Espirito Santo de Deus!…» Assim fallei eu no meu estudo «Sodoma Divinizada» [15], que tanto escandalisou a opinião dos «puros».
Os subterraneos do Olympia, certas bambochatas do Moulin Rouge, o Bal Tabarin, o Palmyro e outros logares semelhantes, sempre me causaram o mais profundo asco. Nunca pude fazer a vida reles de Montmartre. Não é assim que se exerce o vicio superiormente. Seria preferivel a devassidão d’um Gilles de Rais. Ao menos nella sempre havia o elemento mystico posto que ás avessas, o que, é claro, o torna abominavel. Porque eu não sou satanista, achando porém preferivel uma missa negra ás bambochatas porcas, abjectas de Montmartre. A Grandeza, ainda que no Mal, sempre é Grandeza. Mesmo o que ha de horrivelmente sacrilego e sinistramente abominavel nas práticas satanistas é que torna estas Enormes. O único ponto em que estou de accordo com Luthero é no seguinte principio: «Não peques, mas, se peccares, pecca ao menos fortemente». Em tudo eu tenho o culto da excessividade, ainda que não do exclusivismo estreito que desconhece o Infinito, que desconhece Deus.
As minhas «immoralidades» são pois bem distinctas d’aquellas que são exercidas pelos protagonistas do Baile da Graça. Além de comprehender o vicio superiormente, o que não succede com elles, tambem nunca vendi a carne e o espirito. Portanto nada de confusões. E exijo que respeitem o meu caracter e a minha intelligencia embora me condemnem nos meus vicios, condemnação que aliás acho absurda.
Para mostrar aos estudantes portuguezes o que é verdadeiramente a moralidade, vou-lhes dar um exemplo de grandeza moral, que é toda a minha vida. Vida dignissima de sacrificio! Durante quatro annos horriveis de fome e miseria nunca consegui abandalhar-me, e atravez dos meus soffrimentos encontrava sempre a força d’alma necessaria para trabalhar na minha Obra. Quantas vezes, cheio de frio e mal me podendo suster por falta absoluta de alimentos, eu subi a escadaria sumptuosa da Bibliotheca de Madrid, tão pouco aquecida no inverno, para procurar no estudo da metaphysica o esquecimento vago dos meus males, e dando assim uma expressão superior á minha existencia! E desafio quem quer que seja a atirar-me á cara qualquer indignidade que porventura tivesse praticado durante esses quatro annos pavorosos. Fui d’um dolorosissimo estoicismo absoluto. Até calquei de encontro ao peito toda a minha sensualidade bestial, sacrificando-a por completo n’uma vida de simples onanista. E porque mesmo no deboche quero sempre orgulhosamente estar de cima, não tendo pois desejado de modo algum patentear as minhas miserias ás creaturas que me pudessem acompanhar atravez do vicio.
Na casa de meus paes recebi uma educação luxuosissima, conhecendo bem todas as sumptuosidades e elegancias; natural era portanto que quizesse manter essa vida ainda que para isso descesse ás maiores ignominias, tanto mais que intensissimas fôram sempre as minhas ambições de luxo, desenfreados os meus appetites e a minha cubiça; pois tudo isso esmaguei em mim porque só ignominiosamente poderia satisfazer taes ambições, taes appetites delirantes, e eu não queria de modo algum esfacelar a minha dignidade, sempre intacta, sempre immaculada. A despeito de tudo preferi a miseria e a fome!
Antes d’esses quatro annos em que puz bem á prova o meu caracter, convivia gostosamente com amoraes, sendo em theoria d’uma condescendencia quasi absoluta e reconhecendo mesmo um valor transitorio em todo o amoralismo. Cheguei a defendel-o com emoção. Pois quando veiu a occasião de pôr em pratica as minhas «theorias», subiu-me pela alma um nojo tão grande, uma aversão tão poderosa a todos os abandalhamentos e crimes, que, podendo ter sido um bandido, um escroc e um souteneur para estar de accordo com o que pensava, preferi ser verdadeiramente um puro, um immaculado. E foi então que vi Deus…
Como a maior parte das occupações lucrativas absorve tanto o tempo e o espirito que de mais nada podemos cuidar, eu nunca as procurei sinceramente, pois não queria que ellas sacrificassem a minha alta missão na Vida por me tomarem demasiadamente o tempo e estragarem o espirito. Preferi sacrificar as minhas ambições de luxo, os meus appetites delirantes de ouro, para atravez d’uma vida necessariamente miseravel poder trabalhar profundamente na minha Obra, que colloco adeante de tudo.
Durante a minha phase de miseria varios offerecimentos de logares do Estado me fôram feitos da parte de republicanos categorizados, alguns meus amigos. Esses logares não me tomariam quasi tempo algum e eu poderia conservar os meus principios monarchicos – ou, antes, theocraticos – sem que ninguem me viesse pedir contas d’isso. Pois, apezar de todas essas facilidades, recusei sempre terminantemente. Servir a Republica d’uma fórma directa ou indirecta, é que de modo algum!
Uma vez, nesse mesmo periodo desgraçado, um procurador fez-me, com todas as cautellas para não ferir a minha sensibilidade, a seguinte proposta: como eu, havia já muito tempo, não mexia em cousas de Direito, que me causaram sempre um grande nojo, difficilmente poderia advogar; mas a minha assignatura é que teria o mesmo valor legal, e era precisamente a minha assignatura que esse procurador me queria comprar para os processos de cuja defeza elle se encarregaria por completo; eu receberia do mesmo modo os meus honorarios e não teria trabalho algum. Considerando abjecta semelhante proposta, recusei com todo o vigor. Preferia a fome e a miseria, confiando sempre no meu futuro por confiar absolutamente em Deus.
Quando estudante tambem dei uma profunda prova de altura moral. A minha ambição de dominio era enorme e o meu orgulho desmedido. Pois bem. Por ausencia de faculdades de adaptação e porque o meu poder creador era ainda indeciso, não possuindo a robustez necessaria para se impôr a despeito de tudo, eu, que queria ser o primeiro entre os primeiros, estava condemnado a ser o ultimo! Era natural que me revoltasse rancorosamente e me enchesse de inveja perante a situação privilegiada d’outros que eu queria vencer pela força do meu genio e que, vencendo-me afinal, manifestavam por mim o mais injusto desdem. Pois apezar de me sentir profundamente ferido nas minhas ambições e no meu orgulho, nunca, nesse tempo, odiei ninguem e ninguem invejei. Apenas senti em mim uma dôr immensa. E tão grandes eram os ultrajes recebidos, que nem sequer os attribui a uma injustiça profunda, julgando que os outros é que tinham razão. Cheguei a duvidar de mim-proprio, do meu proprio valor, e, em vez de desenvolver por isso em mim o odio e a inveja, sómente um horroroso acabrunhamento e uma tremenda hypocondria se gerou ma minha alma dolorida, a ponto de varias vezes pensar no suicidio. Esse estado transitorio de espirito foi bem expresso por mim no monologo que vou transcrever, do meu drama metaphysico, «O Incomprehendido».
«Será verdade?! Serei uma eterna sombra do Pensamento Humano, um miseravel pária na Intelligencia Pura? Devo pois destruir todos os meus ideaes, assim reduzidos a chimeras vãs, a illusões que se desfazem, á morte que desperta?… Sim, o que eu julgava ser o supporte bello da minha vida, o halito sublime da minha alma, surge-me agora qual abysmo tetrico, qual espectro encanecido na eternidade fatal d’uma hora terrivel. O meu idealismo ancioso, a minha ambição arrebatadora que tanto para a vida me impellira, é hoje o leito mortuario da minha existencia em que sob o lençol branco da agonia para sempre ha de jazer o meu espirito. Mas nesse eterno cemiterio das existencias, nessa natureza cruel, d’uma crueldade sadica, tambem a minh’alma ha de ficar sepultada, abandonando um corpo espectral sempre vivo?! Não, nunca! Ao assassinato impiedoso do meu espirito ha de seguir-se o suicidio fatal do meu corpo! O suicidio! o suicidio de que eu outr’ora tanto escarnecia, contra que eu tanto me revoltava, apresenta-se como a minha unica salvação, o meu unico destino… Como é sarcastico o caminhar d’esse destino!… A ancia de viver que tanto enchia o meu pensamento, que tanto agitava com frenesi o meu sentimentalismo hysterico, é essa ancia, por jamais ser satisfeita, que hoje escancara as portas fataes da Liberdade, as portas da Morte! Porque não sou como os outros, dizia-me, ha pouco, minha pobre mãe, para que tenho dentro de mim uma alma a vibrar, uma vida espiritual jamais extincta, se essa vibração arrebatadora, se esse espirito convulsivo nunca alcança o que deseja, nunca satisfaz a sua ancia?… Para quê?!… Para essa contínua actividade em extase e de que a luz procurada vertiginosamente foge em vez de se fundir na angustia, prazer infinito dos genios, para essa contínua actividade, para esse tenebroso dynamismo me prostrar por fim no suicidio, epilogo fatal dos que querem e não podem viver…»
Termina aqui o referido monologo da minha peça. E, como o protagonista d’ella, tive tambem um momento em que me julguei falhado, quando afinal era apenas incomprehendido. Constantemente soffria os maiores ultrajes e o meu soffrimento, sem rancôr, surgia tão grande que nem sequer me dava alma para reagir briosamente. Não era a cobardia que assim me levava a proceder – eu nunca fui cobarde -, mas sentia-me tão acabrunhado com as injustiças dos outros que fazia convergir todas as minhas attenções para o que havia de horrorosamente humilhante na minha situação, a ponto de esquecer a reacção necessaria. Isso só prova que a minha alma jamais se cobriu de rancores; isso só prova altura moral, belleza de caracter! E se hoje reajo, não é rancorosamente: é porque já estou senhor de mim, conhecendo bem os deveres do brio, que cumpro com a maior frieza, sem paixão. Ora bastava tanto soffrimento para justificar a vida de prazeres que hoje procuro, prazeres ephemeros, falsos, que só servem para mascarar a dôr immensa em que vivo sempre por não vêr realizadas na vida as minhas altas ambições. Dolorosa continúa sendo a essencia da minha alma atravez de todas as depravações, de todos os vicios. O vinho, o jogo e o deboche são em mim a carcassa exterior de uma vida essencialmente puríssima, cheia de dôr e resignação.
Ahi teem os estudantes portuguezes o que é verdadeiramente um ser moral. O vicio pouco importa, qualquer que seja a opinião que sobre elle se tenha.
Ora nessas pequenas considerações eu não pretendo atacar aquelles cuja missão é por emquanto estudar e só estudar, sendo a vida apenas para os que attingiram já o amadurecimento total do seu espirito. Não pretendo mais do que ensinal-os. Pelos estudantes possúo a maior sympathia pois a elles compete crear o Futuro para que constantemente vivo. E o Futuro terá que ser uma creação, não podendo ser o que vagamente existe ainda e está a desconjunctar-se. Ha quem diga que a sociedade tem o direito de defender a sua organização, tal como existe. Ora antes de mais nada é necessario determinar-se precisamente qual seja essa organização para se saber o que se defende. E isso é impossivel. Portanto não se pode defender à outrance uma organização social que, no fundo, não se sabe o que é. Nada se pode determinar precisamente, tudo se escapa atravez da nossa analyse. A determinação precisa, mathematica das cousas é uma blague da Razão. Podemos lá saber do que consta uma organização social!… Tudo na vida é indefinivel, incerto, vertigico; a Vertigem, suprema Indecisão das cousas, é d’estas a natureza essencial. E porque a Vertigem é o Infinito, que é o Indefinido Absoluto. Se nas cousas existe o Infinito, é que ellas são indeterminaveis por natureza, é que a sua essencia é a Vertigem. Divina fatalidade das cousas.
Que a sociedade só vagamente se defenda, pois só vagamente se pode determinar a sua organização, tanto mais que esta não é uma cousa fixa, é qualquer cousa que está em constante evolução. Mau será o estadista que pretender applicar chapas fixas á sociedade, que nunca é fixa, evoluindo constantemente, sendo um puro devenir. Isto deve ser tomado em conta pelos estadistas, que não devem assim ser rigidos, fixos, na sua acção, que só será legitima se attender ao naturalissimo evoluir social. Ha de attingir-se um estado definitivo em que a Eternidade e o Infinito sejam vividos puramente. Mas ainda é cedo para isso, pois tudo ainda tem, pelo menos apparentemente, limites e procura portanto alargar esses limites, essas fronteiras, evoluindo constantemente até attingir o Infinito, que é quando attingirá um estado eterno.
Na organização social, tal como tem existido até agora, mesmo durante os periodos aureos e talvez na infancia, ha sempre elementos de dissolução que são os germens d’uma nova organização futura, muitas vezes superior á precedente.
Esses germens accentuam-se nas epocas de decadencia, que apenas são epocas de transição: dá-se decadencia porque as novas creações são ainda debeis e os elementos antigos encontram-se esfacelados, nada havendo pois de solido, de robusto. É o que succede hoje. Ora deixem-se de conservar o que está a esfacelar-se e cuja perda é irremediavel. Procurem antes fortalecer os germens de creações futuras que existem já, para crearem uma nova organização social bem mais alta do que aquella que vae passando. É o que eu pretendo. Não quero demolir por demolir: quero demolir para crear! E as minhas creações hão de assegurar em Deus a eternização do Homem, sem o artificio da procreação: e porque a nossa existencia não é só a nossa vida…
***
Agora outro assumpto, ainda que relacionado com o que foi exposto. Necessario se torna analysar o verdadeiro sentido de tal acção moralizadora dos estudantes capitaneados pelo sr. Theotonio Pereira. Essa analyse mostrará o quanto tem de immoral semelhante movimento. Com effeito não se trata da defeza desinteressada de altos principios moraes e religiosos. Se assim fosse, a acção do sr. Theotonio era digna de respeito, quaesquer que fôssem os erros por elle comettidos na interpretação da moral, quaesquer que fôssem os erros da sua ethica. O peor é que não se trata de ethica nenhuma! É só para satisfazer vaidades e ambiçõezinhas terrenas, insignificantes que se lança mão de altos principios moraes. Estes são pois profanados pelos taes «moralistas», que só se servem immoralmente d’elles por interesse proprio. As cousas altas só devem ser defendidas com o mais profundo desinteresse. D’outro modo trata-se d’uma profanação, d’uma immoralidade flagrante! O que é alto é espiritual, e o espiritual não pode, não deve servir de instrumento reles a interesses mesquinhos e vaidades materiaes. O que é alto é dos Céus, e o que é dos Céus não pode servir os interesses da Terra sem se aviltar.
Mas atraz da acção dos vaidosos moralistas que só querem armar á popularidade, ha ainda uma força tremenda, que está explorando a vaidade d’elles e a imbecilidade do publico. Refiro-me á Egreja Catholica! É ella que na sombra tem dirigido toda essa acção, e principalmente contra Mim. Foi com effeito depois da publicação do meu folheto Sodoma Divinizada que estalou o movimento revolucionario dos moralistas. Antes, a acção d’estes mal se esboçava. É que no meu folheto eu defendo uma these com uma argumentação metaphysica e theologica que para a orthodoxia catholica é considerada uma blasphemia e uma heresia: como se essa gente soubesse o que são heresias!… Sentindo surgir um rebelde nas hostes religiosas, a Egreja rompeu fogo contra elle com a maxima violencia e impudor. Esse rebelde sou Eu! Para alcançarem os seus fins, os catholicos tomaram então para instrumento d’elles a vaidade d’alguns estudantes e a imbecilidade do proprio Estado. É deveras extraordinario que o governo da republica e a imprensa republicana se deixem comer pela Egreja como se teem deixado comer nessa questão dos livros aprehendidos.
Mas outras cousas extraordinarias surgiram. Tendo estado eu sempre ao lado dos «novos» do mesmo modo que Fernando Pessoa e Antonio Botto, dos «novos» só tem vindo indifferença ou insultos. Nenhuma voz, d’entre os burguezissimos artistas «contemporaeos», se ergueu sinceramente a nosso favor! É espantoso!! Fallam-me d’um protesto tardio contra a aprehensão dos nossos livros, mas esse protesto refere-se só á aprehensão em geral e não ao facto de terem sido aprehendidas obras superiores. Espera lá que elles já se iam referir á superioridade das nossas obras! Que a não reconhecem, dirão; mas é mentira! Elles sabem muito bem o quanto nós valemos e é por isso que se enchem de inveja e de despeito perante a nossa superioridade incontestavel. Que nós somos superiores, que Eu sou superior, sabem elles muito bem, os imbecis! Mas é exactamente por isso que pretendem isolar-me. Pois veremos quem vencerá, se os senhores com a sua força amorpha e falsa, se eu, sósinho, com o meu Grande Poder interior de pensamento e emoção!
Abjecta é a sociedade em que vivo. Publicarei talvez em breve uma novella em cujo epilogo lanço um desafio vehemente á Egreja Catholica e a essa sordida sociedade de burguezes ignobeis. Intitula-se «O Demonio da Vida – Trez Aventuras Celebres do Garoto de Lisboa». Essas aventuras são passadas no Rio entre capoeiras conhecidissimos (o Camisa Negra, o Leão da Noite, o Banana), em Paris entre apaches, dando eu da capital do Mundo uma impressão extranha e sinistra de Além, enfim no Mexico onde o Garoto, de quem acentúo a grandeza moral, foi companheiro de Huerta e Carranza. No epilogo deixo transparecer toda a moral da novella e acho opportuno transcrevel-o, terminando com elle este manifesto.
«Sem duvida não é a violencia terrena, ephemera d’uma lucta gigantesca de musculos e nervos que eu verdadeiramente defendo. Eu ultrapasso a Terra e a Vida para anciar com todo o poder magico da minh’alma, que é um abysmo profundo de Além, a violencia abstracta e astral dos Ceus. Tudo o que é concreto, terreno, limitado é, no fundo, abominavel. O poder e a força só são infinitos, só são puros quando não se concretizam na Vida, quando são puramente em si, surgindo como pura Abstracção. É nesse instante supremo que se divinizam… A Morte é toda a Vida, tão puramente, tão carnalmente intensificada que é só Vertigem abstracta de Além. Vida infinita é Vida Abstracção que é a Vertigem-Luxuria de Deus.
«Entretanto nas cousas da Terra prefiro a violencia espontanea, barbara aos acanhados, estreitos artificios d’uma existencia burgueza. Esta é immensamente mais limitada, mais longe do Infinito, do que a violenta existencia selvagem, e por isso profundamente a detesto e abomino. Não quero occupações de Terra, mas, se alguma tivesse de exercer, preferia mil vezes tornar-me bandido a ser negociante ou ignobil agiota!
«E por felicidade a barbarie espalha-se hoje pelo Mundo. Porca sociedade burgueza, o teu reino está a findar!…
«Os novos barbaros, que hoje devastam a Vida, serão os astros gloriosos que illuminarão o Futuro… O promethaico personalismo d’elles, cheio de ancias bestiaes que procuram arrebatar quasi o Universo todo em convulsões, intensificar- se-ha infinitamente, forçando Deus a descer ás almas para as omnipotenciar em vertigica violencia astral. E então a humilhante, a carcomida Egreja Catholica, que tem por missão despersonalizar os homens, dissipar-se-ha por fim nas trevas d’um anniquilamento total. Outra Egreja mais pura surgirá na Vida para que os homens em Vertigem se tornem Deus. Defendo uma Theocracia Universal para que todas as Monarchias da Terra se devem encaminhar. Mas a alta missão d’essa Theocracia é dar a cada ser a omnipotencia divina, pelo que ella gera tambem essencialmente a mais pura Anarchia. A personalidade, divinizando-se, atinge o paroxismo da Força, do Poder-Liberdade, Poder-Vertigem que os anarchistas sonham.
«Essa sublime Theocracia anarchizadora nunca a Egreja Catholica poderá comprehender. Por isso eu, sendo monarchico e da fórma que exponho, considerando as Monarchias Livres, inspiradas por Deus, a preparação altissima da Theocracia Universal Paracletiana, não sou porém catholico, nem mesmo christão! A minha religião é outra e mais poderosa. Quero fundar o terceiro Reino Divino que é o Reino da Vertigem ou do Espirito Santo, sagrado Paracleto de Deus e da Vida.
«A Egreja Catholica pressente já as Minhas intenções e portanto uma surda perseguição tem feito sempre ás Minhas Obras Santas. Mas a excommunhão sacrilega que do Vaticano Me fôr lançada, sobre toda a Egreja Catholica ha de cahir impiedosamente. Se o papa Me excommunga, Eu excommungo o papa!
«O propheta HENOCH»
4 – Raul Leal, Para os sórdidos estudantes de Lisboa.
Transcrição
PARA OS SORDIDOS ESTUDANTES DE LISBOA
Publiquei, ha pouco, um manifesto em que deixava transparecer a mais alta dignidade e grandeza moral. De que se haviam de lembrar então «os dignos» estudantes? Provarem com esse meu manifesto que eu não passava dum bandalho! E de que forma conseguiram esse «milagre»? Da forma mais reles e mais vil, propria do mais baixo jornalismo. O processo que empregaram foi o de transcrever periodos truncados do meu manifesto, isolando frases que assim isoladas, indicavam exatamente o contrario do que eu queria demonstrar. Eu provava a minha altura moral, e atravez do processo ignobil deles, parecia querer confessar que era o ultimo dos homens, o ultimo dos bandalhos. Já viram vilania maior?…
Dizia eu o seguinte no meu manifesto: «Antes desses quatro anos em que puz bem á prova o meu carater, convivia gostosamente com amoraes, sendo em teoria duma condescendencia quasi absoluta e reconhecendo mesmo um certo valor transitorio em todo o amoralismo. Cheguei a defendel-o com emoção. Pois quando veiu a ocasião de pôr em pratica as minhas «teorias», subiu-me pela alma um nojo tão grande, uma aversão tão poderosa a todos os abandalhamentos e crimes que podendo ter sido um bandido, um escroc e um «souteneur» para estar de acordo com o que pensava, preferi ser verdadeiramente um puro, um imaculado. E foi então que vi Deus…»
Pois esses biltres que dão pelo nome de estudantes, num papelucho ignobil que lançaram para ahi contra mim, acharam por bem transcrever apenas as seguintes frases desse periodo belissimo, para provarem que eu era um homem sem dignidade: «Convivia gostosamente com amoraes, sendo em teoria duma condescendencia quasi absoluta e reconhecendo mesmo um certo valor transitorio em todo o amoralismo. Cheguei a defendel-o com emoção». «Podendo ter sido um bandido, um escroc [16] e um «souteneur» para estar de acordo com o que pensava». E nem mais uma palavra! Já viram processo mais sordido de ataque? Quem não viu o meu manifesto e viu o papelucho deles, ficou decerto convencido de que eu não passo dum bandalho idiota que tem o desplante inconsciente de confessar que o é! Ahi tem o publico como eles jesuiticamente procedem, inspirados, sem duvida, na «grande moralidade» da Igreja Catolica. Só os mais sordidos jornalistas desceriam a tanto.
Até na minha dignidade purissima esses pulhas querem tocar, quando é certo que eu dou infinitamente mais importancia á beleza moral do meu carater do que á minha propria inteligencia superior. Que biltres, que reles!… Em vez de elevarem o Génio em altares de Luz, procuram escorraçal-o da sociedade, tratando-o como um bandalho. Mas é logico pois como pode a lama erguer um astro?…
Nos meus tempos de estudante procedia-se com mais nobreza. Os meus antigos companheiros de escola, do liceu e da Universidade não só não eram «souteneurs» d’homens como são os atuaes estudantes mas tambem seriam incapazes da vilania que estes ultimos praticaram comigo. Tristissimos sinaes dos tempos…
E são esses pulhas, esses theotonios de merda que nem merecem que se lhes escarre no focinho, são eles que andam para ahi a prégar moral á maneira dum ignobil frei Tomaz. Muitos dos estudantes — sei-o de boa fonte — que foram ao Governo Civil requerer a apreensão do meu livro «Sodoma Divinizada» e «Canções» de Antonio Boto, tinham acabado de vir da alcova com os homens de quem são «souteneurs»! Isso seria extraordinariamente ridiculo se não fosse antes profundamente reles. Dizem esses typos que eu não tenho o sentimento do ridiculo; e eles então com a sua ação palerma que tem sido o gaudio dos cafés!…
Não queria pôr a questão nos termos em que a ponho. Mas já que assim o querem, ahi o teem.
E agora, refinadissimos pulhas, completem a sua obra com um ato de cobardia. Vocês são muitos, eu sou um só e não me escondo. Preparem-me pois um «guet-apens» ignobil, esperando-me á esquina duma rua para me anavalharem pelas costas. Um golpe de apaches é digno de vocês. De frente é que com certeza vocês não me atacam pois sabem muito bem que encontrariam dois pulsos vigorosos para lhes esburrachar as ventas.
Constituem os estudantes a sociedade d’amanhã. Como será pois sordida essa sociedade que ha de vir. Que desolação, que profunda desolação…
Raul Leal (Henoch)
5 – Fernando Pessoa, Sobre um manifesto de estudantes.
Transcrição
Sobre um manifesto de estudantes
Foi ha dias distribuida em Lisboa, com a fórma de um manifesto de estudantes, uma estupida, vil e entristecedora blague contra o altissimo espirito, e o não menos alto caracter, do dr. Raul Leal, auctor de Sodoma Divinizada e de um manifesto recente, notavel documento de verdade e de nobreza, que, sendo dirigido aos estudantes de Lisboa, nenhuma offensa a elles contém, a não ser que dizer-lhes que estudem o seja.
Consiste a blague em dar por louco o dr. Raul Leal, servindo-se seus auctores do manifesto d’elle, e fazendo, por meio de phrases truncadas ou separadas aleivosamente do contexto que as remata, uma psychiatria de circo, facil a todos em quem o espirito scientifico seja nullo e a inconsciencia positiva.
A sordida brincadeira não tem o merito, até certo ponto exculpador, da novidade. O processo do ataque psychiatrico – sempre antipathico, quasi sempre facil, quasi nunca justificavel – já fôra empregado entre nós pelo dr. Arthur Leitão, que escreveu em 1907, contra o conselheiro João Franco, então presidente do conselho, o seu opusculo Um caso de loucura epileptica. O artificio, porém, era importado: deu-lhe origem, pelo menos notavel, o fallecido Max Nordau no seu livro celebre Degeneração.
Se a blague dos estudantes não tivesse maior defeito que o não ser nova, não haveria mistér que se viesse fallar d’ella em publico. O peor é o mais que ella contém, ou, antes, denota. Disse eu que ella era estupida, vil e entristecedora. Repito-o, e vou proval-o. É nisso que está o seu mal.
A blague dos estudantes é estupida, não só porque são negativos o portuguez e o lógico da sua redacção, mas tambem porque o auctor d’ella nem sequer soube effectuar seu proprio intento. Nada ha mais facil que provar por alto que qualquer é louco: basta ter que fazel-o só para quem nada entende da materia. Ao mais leigo em psychiatria – desde que nelle concorram a ausencia de escrupulos e a de espirito scientifico – é facil simular um diagnostico, encaixando em qualquer individuo apenas dois ou trez dos varios symptomas, cujo conjuncto compõe o quadro clinico de qualquer psychose. Ha toda a apparencia, para os leigos, de se ter provado a existencia da psychose; em verdade, nada se provou, pelo menos do que se insinua. Tão estupido, porém, é o auctor do manifesto dos estudantes que, podendo fazer isso facilmente, e sem mais sophisma que o de origem, com o manifesto do dr. Raul Leal – porque é facil fazel-o com todo documento singular e complexo -, tem comtudo que servir-se de phrases truncadas, de citações portanto ficticias, para dar ao seu escripto um ar de verdade. Nem esqueça aquella attribuição ao dr. Raul Leal de um «curioso excesso de memoria», pormenor clinico transcripto sem que d’elle haja applicação possivel a qualquer ponto do manifesto; a não ser que haja «excesso de memoria» em alguem se não esquecer que passou quatro annos de miseria.
Peor que a estupidez do manifesto, consubstanciada porém com ella, é a sua sordida vileza. O dr. Arthur Leitão, em seu opusculo, servia-se, ao menos, de phrases do conselheiro João Franco. Os estudantes servem-se de partes de phrases do dr. Raul Leal. Como as phrases inteiras lhes não servem, truncam-as, de modo que sirvam. E assim fazem a sua demonstração por meio de idéas que o dr. Raul Leal não manifestou, sendo que manifestou as contrarias. Exponho um exemplo. O dr. Raul Leal escreveu, em seu manifesto, este paragrapho:
Antes d’esses quatro annos em que puz bem á prova o meu caracter, convivia gostosamente com amoraes, sendo em theoria d’uma condescendencia quasi absoluta e reconhecendo mesmo um certo valor transitorio em todo o amoralismo. Cheguei a defendel-o com emoção. Pois quando veiu a occasião de pôr em pratica as minhas «theorias», subiu-me pela alma um nojo tão grande, uma aversão tão poderosa a todos os abandalhamentos e crimes, que, podendo ter sido um bandido, um escroc e um souteneur para estar de accordo com o que pensava, preferi ser verdadeiramente um puro, um immaculado. E foi então que vi Deus…
Os estudantes transcrevem d’este modo, aos bocados:
«Convivia gostosamente com amoraes, sendo em theoria d’uma condescendencia quasi absoluta e reconhecendo mesmo um certo valor transitorio em todo o amoralismo» – «cheguei a defendel-o com emoção» – «podendo ter sido um bandido, um escroc e um souteneur, para estar de accordo com o que pensava».
Na transcripção esphacelada desapparece, assim, todo o sentido do paragrapho em seu conjuncto. E o que é nobreza e sinceridade na ligação do paragrapho completo resulta vileza e impudor quando d’elle se excluem, na transcripção ficticia, os seus elementos vitaes, o seu único sentido.
Mais vil (se é possivel) que esta vileza, é a propria essencia do manifesto dos estudantes. Escreveram-o elles como blague? Ha trez cousas com que um espirito nobre, de velho ou de jovem, nunca brinca, porque o brincar com ellas é um dos signaes distinctivos da baixeza da alma: são ellas os deuses, a morte e a loucura. Se, porém, o author do manifesto o escreveu a serio, ou crê louco o dr. Raul Leal, ou, não crendo, usa o parecer crel-o para o conspurcar. Só a última canalha das ruas insulta um louco, e em publico. Só qualquer canalha abaixo d’essa imita esse insulto, sabendo que mente.
Ainda sobre vileza. O dr. Arthur Leitão, se escreveu um opusculo antipathico, escreveu-o comtudo contra o presidente do conselho, então dictador; atacou um homem que tinha comsigo toda a força das authoridades do Estado e da Tradição; um homem que, a ser louco, sem duvida exerceria, pelo logar que occupava, uma acção largamente nefasta.
Os estudantes são de melhor calculo. Entrincheirados simultaneamente no Governo Civil e na Epocha – isto é, na republica e na monarchia -, seguros porisso do appoio de toda a imprensa e da consequente difficultação de qualquer protesto, atacam e insultam confiadamente. Atacam e insultam a quem? A um homem que não os atacou, que está sosinho ou tão pouco acompanhado que é como se o estivesse, sem posição que o torne perigoso a quem o ataca, sem influencia que torne prejudicial a sua acção, suppondo que ella em sua essencia o seja. E por que foram movidos a esse insulto? Por aquillo mesmo que os devera demover, se o intentassem; por um manifesto em que sem duvida transparece uma alta intelligencia e se mostra uma altissima dignidade. Estupidos e sordidos, são porisso incapazes de conceder a possibilidade de um talento alheio que não comprehendam, ou senão de rebellar-se contra a alheia dignidade, como se a existencia d’ella os humilhasse.
É por essa mesma estupidez, e esta mesma complexa vileza, que o manifesto dos estudantes, sendo que é de jovens, é entristecedor. Moços, cuja intelligencia deveria ser, não porcerto disciplinada, porém alacre e disperta, rastejam assim na imbecilidade. Jovens, cuja moral devia peccar só pelos defeitos do impulso e da precipitação, mostram-nos, no emprego da subtileza baixa, da deshonestidade da intelligencia e do calculo sordido, os vicios menos desculpaveis da decrepitude.
De resto, terão elles culpa? Fortes, como estão, com a força alheia, cujo appoio os torna representantes e symbolos d’ella, esta vasa do liberalismo e da democracia é já o transbordar das forças desintegrantes, de cuja acção provém a nossa miseria nacional. Sim, elles não são elles-proprios: são o ambiente que os produziu. São bem o resultado da Monarchia dos Braganças e da Republica Portuguesa. São bem o producto de uma sociedade em que varios seculos de educação fradesca e jesuitica prepararam, pela annullação do espirito critico e scientifico, o advento das idéas «liberaes»; em a qual, portanto, a estagnação da intelligencia se completou, como era logico, com a perversão do caracter e a ruina da ordem.
É em parte por isto – por serem estes estudantes, sobretudo na acção d’elles que apprecio, o symbolo vivo d’esta sociedade – que de certo modo vale o exforço a publicação d’este protesto, cuja intenção os transcende. É isto um dever social. No que não é por isto, convém escrevel-o para que, d’aquella calumnia de que sempre fica alguma cousa, possa ficar um pouco menos que se elle se não escrevera. É isto um dever moral. Nem é descabido que se aproveite a opportunidade para protestar tambem – o que em grande parte d’este escripto está implicito – contra o complexo desrespeito pela sciencia que ha no emprego da psychiatria para fins de insulto. É isto um dever intellectual.
E se houver alguem do publico a quem em algum grau convencesse o manifesto dos estudantes, com breves palavras se lhe tira essa illusão da ignorancia.
Pretendem os estudantes provar que o dr. Raul Leal é um paranoico com delirio das grandezas; serve de unica razão comprehensivel d’esse «dignostico» a presença, que allegam, no manifesto d’elle de uma exaltação morbida do orgulho e de idéas de perseguição. Veremos opportunamente o que pesam estas duas allegações. Conceda-se, por ora, que são justas. Com isso se simplificará o argumento.
Nem as idéas doentias de grandeza, nem as idéas de perseguição bastam, de per si, separadas ou juntas, para provar a paranoia. Ha mister que se manifestem de certa maneira, que se desinvolvam de certo modo, e que nellas e em seu desenrolamento haja o que se chama systematização. E, provada que não seja a paranoia, pode a morbidez mental revelada descer facilmente – e quasi sempre se verá que desce – do nivel das psychoses para o das neuropsychoses, cuja gravidade é muito menor, como a sua natureza muito differente. Tenho notado – leigo que sou – em casos de simples hystero-epilepsia a eclosão episodica e irregular de taes idéas; nunca, porém, nellas se estabelece uma coordenação tal, que simulem de perto um delirio systematizado.
No dr. Raul Leal não se revelam idéas de perseguição. No manifesto d’elle parece haver, em algumas referencias á Egreja Catholica, um esboço muito vago d’ellas. Como, porém, na sua conversação e nos actos da sua vida taes idéas nunca surgem, nem mesmo vagas, podemos considerar o que no manifesto as simula como menos que episodico, pormenor antes da só imaginação exaltada, sobretudo litterariamente, que da intelligencia em desvio. A exaltação morbida do orgulho e da personalidade é que nelle é manifesta e frequente. Carece, porém, de linha morbida directriz, que a constitua em delirio. E tem, talvez, ainda que doentia na sua manifestação, uma razão-de-ser que de certo modo o não é, e que de todo a differença do delirio das grandezas.
A presença ou ausencia de elementos justificativos de um orgulho excessivo é um facto primordial para se fazer juizo em casos d’estes. O orgulho desmedido, e, por desmedido, doentio, de um homem de genio não tem analogia, senão na fórma externa, com o delirio orgulhoso de um megalomano vulgar. Quando um homem de genio, cujo genio reconhecemos já, manifesta um orgulho doentio, desculpamos-lhe o excesso da affirmação pela razão, que lhe vemos, para fazel-a. Que diriamos, porém, se esse mesmo homem de genio manifestasse esse mesmo orgulho, do mesmo modo legitimo porque o homem é o mesmo, antes que o reconhecessemos como genio? Tel-o-hiamos, talvez, por louco. Assim, muitas vezes, o que nos parece a loucura dos outros não é mais que a nossa propria incomprehensão.
Como sabem os estudantes, como sabe quem quer que seja, se o orgulho desmedido do dr. Raul Leal não é illegitimo hoje só para ter sido sempre legitimo ámanhã? Acham excessivo, mesmo como doença, o aspecto d’esse orgulho? Acham sophistica a demonstração de que não é louco quem diz que quer fundar uma nova religião, «o terceiro reino divino»?
Por muitos que sejam os symptomas de desequilibrio que uma psychiatria justa possa encontrar no dr. Raul Leal, não são tantos quantos os symptomas de loucura, de degeneração, de perversão intellectual e moral que um psychiatra eminente, o dr. Binet-Sanglé, encontrou na pessoa de Jesus Christo, o qual, comtudo, fundou uma religião, como mesmo os estudantes de Lisboa devem saber.
Os trez volumes intitulados La Folie de Jésus constituem, sem duvida, um exemplo de probidade clinica e de exposição psychiatrica. Nelles podem os estudantes apprender, lendo, como se demonstra um caso de loucura. Fechados elles, porém, podem apprender, reflectindo, que é a loucura que dirige o mundo. Loucos são os heroes, loucos os santos, loucos os genios, sem os quaes a humanidade é uma mera especie animal, cadaveres addiados que procriam.
Disse o que tinha que dizer. Conclúo saudando, que assim manda a tradição.
Aos estudantes de Lisboa não desejo mais – porque não posso desejar melhor – de que um dia possam ter uma vida tão digna, uma alma tão alta e nobre como as do homem que tão nesciamente insultaram. A Raul Leal, não podendo prestar-lhe, nesta hora da plebe, melhor homenagem, presto-lhe esta, simples e clara, não só da minha amisade, que não tem limites, mas tambem da minha admiração pelo seu alto genio especulativo e metaphysico, lustre, que será, da nossa grande raça. Nem creio que em minha vida, como quer que decorra, maior honra me possa caber que a presente, que é a de tel-o por companheiro nesta aventura cultural em que coincidimos, differentes e sósinhos, sob o chasco e o insulto da canalha.
Fernando Pessoa
Notas
[1] Leal (1989). A transcrição de um dos dois manifestos de Fernando Pessoa aparece truncada nesta obra (reeditada em 2011 sem alterações), faltando-lhe cerca de metade do texto original e contendo outras anomalias. A obra omite, aliás, outras peças da polémica, inclusive um pouco conhecido manifesto de Raul Leal, que aqui se revela (documento 4).
[2] Vd. nota sem título inserida em Contemporânea n° 5, secção “Jornal”, p. 1. O espólio do escritor guarda rascunhos de respostas de Fernando Pessoa tanto a Álvaro de Campos como a Álvaro Maia, sob a forma de longas cartas a José Pacheco, que parece não ter completado. A resposta inacabada de Pessoa a Campos foi publicada por Teresa Sobral Cunha (1988: 73-81). A carta de Pessoa a José Pacheco em que aborda o artigo de Álvaro Maia continua inédita (BNP/E3, 141-61r a 80v).
[3] No espólio de Fernando Pessoa existe uma cópia de um documento de Raul Leal, datado de 15 de Fevereiro de 1923, declarando a edição em 350 exemplares de Sodoma Divinizada que “vai ser posta à venda ao preço de um escudo e cinquenta centavos cada exemplar” (BNP/E3, 1153-25). O registo obrigatório da obra na Biblioteca Nacional foi feito a 17 de Fevereiro (BNP/E3, 28A-26).
[4] O Diário de Lisboa noticia a publicação de Decadência a 16 de Fevereiro.
[5] “Livros para o fogo”, A Época, 25 de Fevereiro de 1923, p. 1.
[6] Pessoa recortou e guardou uma notícia do Diário de Notícias de 26 de Fevereiro de 1923 (p. 2), que dava conta da apreensão dos “livros imorais” em Itália, ordenada por Mussolini (BNP/E3, 135C- 103).
[7] Segundo as Memórias de Pedro Teotónio Pereira (1972: I, 41), os estudantes por ele comandados organizaram “uma lista de obras nacionais e estrangeiras que deviam ser objecto da solicitude da autoridade competente”, isto é, proibidas e apreendidas.
[8] Entre outros, os livros de Mário Domingues, Delicioso Pecado (uma novela descrevendo um caso de incesto, n.° 8 da popular colecção Novela Sucesso) e o romance La garçonne, de Victor Marguerite (1922, em edição francesa), foram também alvo das medidas policiais.
[9] Um projecto do “manifesto” de protesto, que nunca chegou a realizar, encontra-se no espólio do escritor em BNP/E3, 55D-11. O mesmo núcleo do espólio contém dezenas de páginas de rascunhos para este projectado protesto, em que aborda o papel dos estudantes, da Igreja, das autoridades e da imprensa no desenrolar do caso e onde pretendia também discutir o problema da moralidade ou imoralidade da homossexualidade do ponto de vista da sociologia, da “psicologia moral” e da “ciência política”.
[10] Raul Leal refere-se neste seu panfleto, em nota de rodapé, à apreensão do livro Sodoma Divinizada ocorrida em Março), atribuindo-a a uma imposição da Igreja. Essa nota de rodapé foi omitida na transcrição do panfleto nas reedições (1989, 2011) de Sodoma Divinizada organizadas por Aníbal Fernandes.
[11] “Apreensão de livros”, diário A Capital, 5 de Março de 1923, p. 2. Esta notícia só refere a apreensão dos livros Canções, Sodoma Divinizada e Decadência.
[12] Ferreira (2010: I, 242-243), com reprodução da imagem completa do panfleto.
[13] BNP/E3, 48D-61v.
[14] Sobre um manifesto de estudantes foi publicado por Richard Zenith em Fernando Pessoa, Prosa publicada em vida, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, pp. 252-254.
[15] Esse estudo que estava á venda em todas as livrarias, editado pela empreza «Olisipo», foi escandalosamente apreendido pela policia e por imposição da Igreja Catholica! É assim que em Portugal se tratam os altos Espiritos!!
[16] [scroc] no original.
Bibliografia
- Cunha, Teresa Sobral (1988). “Pessoa responde a Campos: segunda carta a José Pacheco”, Revista da
- Biblioteca Nacional, 2, vol. 3, n° 3, Setembro-Dezembro, pp. 73-81.
- Ferreira, Manuel (2010). Biblioteca do Dr. Laureano Barros (catálogo de leilão). Porto: Livraria Manuel Ferreira. Segunda parte, t. I.
- Leal, Raul (1923). Sodoma Divinizada. Leves Reflexões Teometafísicas Sobre um Artigo, Lisboa: Olisipo.
- (1989). Sodoma Divinizada. Organização, introdução e cronologia de Aníbal Fernandes. Lisboa:
- (Nova edição, sem alterações: Lisboa: Guimarães, 2011).
- Pereira, Pedro Teotónio (1972). Memórias. Lisboa: Verbo.

- Fernando Pessoa sobre a Maçonaria
- Associações Secretas – Fernando Pessoa
- Origem dos cargos em Loja
- Fernando Teixeira, O meu Pai… O meu Grão-Mestre
- Fernando Pessoa – uma apologia da Maçonaria portuguesa (Parte I)

