Há uns dias atrás, pediu-me o nosso querido Grão-Mestre, António Marques Miguel, que escrevesse algumas palavras sobre o nosso Grão-Mestre Jubilado, Fernando Teixeira, que passou ao eterno oriente como todos sabem. Inicialmente esta tarefa parecia-me fácil, mas depois acabei por perceber que, afinal, não seria assim tão simples. Contudo, e seguindo um dos muitos ensinamentos de vida que o meu Pai me deixou, resolvi tentar.
Sobre o nosso “irmão” Fernando Teixeira, vejo nele um exemplo de vida maçónica, onde predominou a determinação e a procura incessante da perfeição. Enquanto filho testemunhei, ao longo de 10 anos, uma vontade insaciável de construir uma maçonaria regular em Portugal, longe dos erros e das limitações que encontrou no GOL, tendo esse desejo acabado por se concretizar a 29 de Junho de 1991, altura da consagração da Grande Loja Regular de Portugal, no Estoril. Posso-vos assegurar que foram dez anos de sacrifício a todos os níveis, (e eu que o diga), mas que naquela altura, se converteram em momentos de felicidade e glória, com uma grande dose de responsabilidade à mistura. Sabia que doravante teria o “mundo” maçónico de olhos postos nesta recém-nascida obediência.
Os anos que se seguiram foram de expansão vividos com grande intensidade, como alguns de vós testemunharam. Cresci rodeado de pessoas que o meu pai dizia serem os meus “tios”. Lembro-me de um dia me perguntar qual era a sensação de ter cerca de 10.000.000 de tios espalhados pelo mundo. À medida que fui crescendo, ambicionei a minha entrada nesta organização, sem nunca ter sido aliciado pelo meu pai. Tive de o fazer às escondidas, aproveitando a ajuda de alguns queridos “tios”, na altura bastante próximos. Depois de passar pelas provas impostas, comecei a compreender este mundo e a vê-lo de uma outra forma, desculpando de imediato todos os aniversários em que não pude usufruir da presença do meu pai. Talvez aqui, tenha aplicado logo uma das regras básicas de qualquer bom maçon: a tolerância. Este é um dos princípios básicos e essenciais para se atingir o aperfeiçoamento dos homens e das sociedades em geral. Era pelo menos, um dos elementos que caracterizavam o nosso Grão-Mestre Jubilado, deixando-o sempre na dúvida sobre a dose ideal de tolerância a aplicar. Talvez tenha sido mais tolerante em alguns casos, e, menos noutros. Atrevo-me a dizer que existe um défice de tolerância na nossa sociedade maçónica em geral, bem como um défice de leitura dos catecismos maçónicos, que tanto nos ensinam sobre estes assuntos. Digo isto porque o nosso Grão-Mestre Jubilado, enquanto irmão e pai, obrigava-me a ler os mesmos, alegando que a essência do bom maçon estava nesses compêndios.
Tenho pena, como penso que ele o terá igualmente, que alguns dos mais altos representantes da Maçonaria Portuguesa, dita regular, não tenham aprendido nada nos tempos em que foi Grão Mestre e que nem se adivinhavam cisões. Como filho, mas sobretudo como maçon, cabe-me ainda acrescentar que, nos últimos tempos, tenho assistido a tremendas injustiças, nomeadamente no que se refere ao tratamento que têm dado à sua vida no âmbito da história da construção da Maçonaria Regular em Portugal.
Lamento que o 1º Grão Mestre da G∴ R∴ L∴ P∴ seja apenas reconhecido em determinados livros por esse facto e mais ainda: como um membro do grupo da “casa do Sino”, quase sugerindo que se deve esquecer. Como se não tivesse sido este homem, um dos responsáveis e dinamizadores na criação e solidez desta obediência, bem como o responsável máximo pelo reconhecimento da totalidade das obediências regulares, em todo o mundo, e por se ter destacado com tamanha rapidez na globalização da maçonaria, provocando algum degelo na bipolarização da maçonaria regular. Como exemplo do seu empenhamento, conto-vos o desgaste físico que, o meu pai sofreu, no último ano de vida, estando praticamente cego de um olho, consequência de uma queda sofrida no aeroporto de Londres, numa das visitas de representação da nossa obediência junto da Grande Loja Unida de Inglaterra.
Como é que é possível, ninguém ter aprofundado aquilo que se passou em finais de 1996? Como é que é possível ainda existir gente com incapacidade de falar sobre esse tema, publicando livros e artigos, fazendo sempre uma distinta separação entre a Maçonaria Regular e a “Casa do Sino”. A propósito, nunca entendi muito bem o que quer dizer a facção da casa do sino. Aproveito esta oportunidade para esclarecer que Fernando Teixeira, Grão Mestre Jubilado da Grande Loja Regular de Portugal, expulso e reintegrado na Grande Loja Legal de Portugal / G∴ L∴ R∴ P∴ à qual nunca pertenceu, quando assinou o decreto 1/96, estava bastante lúcido e tinha razões fortes para o fazer. Como filho, atrevo-me a dizer que se ainda estivesse vivo, nada disto teria acabado assim, nem chegaria ao ponto a que chegou, pelo menos no que concerne ás relações internacionais. Quando vejo algumas coisas escritas, sobre a recente história da maçonaria regular e sobre os “louros” que muitos obtiveram nos últimos anos, apercebo-me que ninguém aprendeu nada e que não existe nenhum respeito pelo fundador, criador e mentor da G∴ L∴ R∴ P∴. Este, pela sua humildade, resolveu partir para o eterno oriente com um avental de aprendiz e respectivas luvas brancas. Penso que isto é uma lição de humildade maçónica. Eu, dentro da minha modéstia, procuro ser um bom maçon. Tenho irmãos que estão em várias casas, mas que só por isso, não deixam de ser meus “irmãos”. Eles sabem que se precisarem, estarei cá para os ajudar, assim como eu sei que se eu necessitar, também estarão prontos. E isso que me mantêm e me leva, todos os dias, a procurar ser um homem melhor. Já me interrogaram sobre a minha posição na G∴ L∴ R∴ P∴ e sobre isso respondo sempre o mesmo: – tenho o dever e a obrigação moral em permanecer nesta casa, até que sejamos apenas dois ou um, eu. Não levem a mal, mas vi o meu pai morrer por esta obra, que tanto tem sido enxovalhada por ditos maçons que não sabem ler, nem escrever e não querem soletrar, e muito menos comunicar. Eu, por enquanto fico dentro da casa onde nasci. Afinal, era a “casa” do meu pai.
Bernardo Teixeira
Junho de 2004
Fonte
- Revista “Entre Colunas” – nº1, 2ªsérie, 1º ano – Junho de 2004

- Fernando Teixeira é o criador do Dia Internacional do Maçom (22 de Fevereiro)
- Os Grão-Mestres da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
- Consagração da GLRP – 29/06/1991 – discurso de Fernando Teixeira
- Encontro Mundial de Grão-Mestres da Maçonaria – Discurso de Fernando Teixeira (G∴ M∴) – 1996
- A maçonaria em Vitrais

