“O deus do sol (Atum) Ra foi descrito como o ba que “saiu de Nun”, o ba “que Nun criou”. Nestes termos, o ba é uma potencialidade que é actualizada. De acordo com estas afirmações, o Caos produziu a Ordem. Nun, o Caos primordial, gerou o deus (Atum) Ra, que depois criou o cosmos ordenado. Isto é, de facto, extremamente semelhante à versão científica da teoria do Big Bang. A aleatoriedade – o Caos primordial, a falta de forma ou a inexistência (não-ser) – produziu milagrosamente o seu oposto: um cosmos formado e ordenado. Na verdade, a ciência não avançou nada em relação à mitologia egípcia. Não tem melhor explicação para o modo como o cosmos foi produzido do que os antigos sacerdotes egípcios que teciam teias mitológicas.”
Think Like an Egyptian:
How the Ancient Mind Worked,
Steve Maddison
Este mito egípcio da criação não é repetido com frequência e não tem nome, mas o seu tema do poder da magia divina e da dualidade é, creio eu, uma narrativa principal no caminho do aperfeiçoamento da humanidade. Para entender este início, precisamos primeiro de compreender o entendimento inicial da humanidade sobre a palavra “divindade” e a palavra “magia”. Para os egípcios, sobretudo nos Reinos Antigo e Médio, estas duas palavras eram sinónimas. A magia é o poder da criação divina, embora as suas características não estejam definidas em nenhum texto traduzido. Na criação, referida na citação acima, o que não foi referido foi o facto de estar presente neste nascimento divino o deus Heka. Heka era considerado o poder, a omnipotência e a sabedoria que permitiram a manifestação de Atum Ra. Assim, Heka e heka significavam a mesma coisa: magia divina.
“Eu sou aquele que o Senhor de tudo ((Atum ou Ra) fez antes que a dualidade existisse… o filho daquele que deu origem ao universo… Eu sou a protecção daquilo que o Senhor de tudo ordenou… Eu sou aquele que deu vida à Enéada dos deuses… vem tomar a minha posição para que eu possa receber a minha dignidade. Porque a mim pertencia o universo antes de vós, deuses, terem surgido. Vós viestes depois porque eu sou Heka”.
Heka: The Practices of Ancient
Egyptian Ritual and Magic,
David Rankine
Esta fusão entre os conceitos de magia e de divindade é um estado que o espírito moderno, com a sua bagagem dos últimos três mil anos, não consegue compreender. “Para apreciar a visão egípcia da magia, temos de aceitar que, para os egípcios, a magia não era considerada estranha ou excêntrica, mas uma parte da vida quotidiana, à qual todos recorriam. A magia misturava-se perfeitamente com a religião e a medicina, sendo vista como parte de uma visão holística do mundo.”
Um exemplo desta mistura é o Livro Egípcio dos Mortos ou Livro do Avanço Diario. Estes rolos de papiro eram colocados nos sarcófagos dos mortos para que estes pudessem recitar com exactidão os feitiços e invocações necessários para comungar com os deuses e dar as respostas apropriadas necessárias para transportar as suas almas para o além. Os feitiços, neste contexto, não devem ser interpretados como tendo como objectivo a obtenção de ganhos pessoais ou a criação de um resultado materialista; tratava-se de textos rituais que serviam de guias para permitir aos mortos falar com os deuses e deusas e fazer progredir a alma humana na sua viagem para apoiar a continuação do mundo. Os egípcios não viam o reino da morte, o Duat, como separado do reino terrestre, na medida em que eles são um “mundo” a ser percorrido. Ambos os reinos eram habitados pelos deuses e seus intermediários. A única diferença é que um envolvia um corpo e o outro não.
Estes textos funerários foram criados há cerca de 5000 anos e foram usados até ao período helenístico, em todo o Egipto e no norte de África. Poder-se-ia dizer que “já ultrapassámos a necessidade desse tipo de pensamento”. No entanto, parece que para compreender a génese da magia na nossa construção actual da Maçonaria, temos de compreender as tradições sincréticas que foram incorporadas nos nossos rituais. Para compreender onde estamos a começar com a ideia de “magia”, precisamos de estar conscientes de que, para a mente humana antiga, a magia e a divindade eram uma e a mesma coisa.
Qual é a magia que vemos na Maçonaria? Para o compreender, temos de analisar a missão e o objetivo da Maçonaria. Chamar à Maçonaria Universal uma Maçonaria esotérica seria muito apropriado. De facto, o website da Maçonaria Universal tem uma declaração sobre a Maçonaria Esotérica:
A Maçonaria Esotérica não é mera especulação ou imaginação frívola; é o cumprimento do trabalho que a própria Maçonaria nos encarrega. O nosso trabalho é a criação de uma Religião Universal, uma base sólida sobre a qual todos os seres humanos possam construir. Isto só pode ser feito em unidade e as chaves para esta unidade podem ser encontradas para além dos portões que são guardados pelos símbolos da Maçonaria.
Para decompor isto, e para efeitos de discussão da magia envolvida na Maçonaria, podemos dizer que a Maçonaria Esotérica tem três objectivos únicos e específicos:
- Despertar as capacidades humanas interiores não utilizadas e subdesenvolvidas, para que os seus adeptos possam compreender os símbolos, a alegoria e os padrões apresentados no seu ritual.
- Ensinar os seus adeptos sobre os ciclos da vida e da morte, no seu pequeno mundo e no universo como um todo, através do processo de katabasis.
- Sublinhar a importância da unidade entre o homem e a divindade, que é conhecida como henose, produto da anabasis. (correcções do autor, de Biasi, 2023)
Estes objectivos ou metas não são realizados em qualquer ordem ou forma particular, mas são desenvolvidos ao longo dos anos de trabalho conjunto numa Loja, onde o ritual é levado a sério e executado com ponderação. O desenvolvimento dá-se através da contemplação dos símbolos e do uso da teurgia (em grego, “trabalho de deus”). A Teurgia é também conhecida como magia divina ou cerimonial.
A Teurgia pode ser vista como a estrutura do nosso ritual maçónico. As lições contidas nestes três objectivos da Maçonaria Esotérica são cíclicas por natureza, tal como a espiral ascendente que vemos no Templo do Rei Salomão. Assim, não podem ser aprendidas num fluxo linear, mas através de repetidas provas e aprovações.
À medida que avançamos nesta série, será importante lembrar que a mente moderna e a mente antiga não pensam da mesma maneira sobre a cosmologia. Como a Maçonaria Esotérica se baseia em muitas tradições, incluindo a teurgia, é importante recordar a distinção na forma de pensar. De Oxford, temos esta definição de teurgia:
- A operação ou efeito de um agente sobrenatural ou divino nos assuntos humanos.
- Um sistema de magia branca praticado pelos primeiros neoplatonistas.
Veremos na Segunda Parte como a história da Maçonaria está impregnada de teurgia, da mesma forma que o mundo antigo está impregnado de magia na vida quotidiana.
Kristine Wilson-Slack
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte

- Indo ao fundo da questão da Maçonaria
- Aprendendo com os Irmãos
- A interpretação e significado dos símbolos maçónicos
- Formação – O Testamento
- Nascer de novo

