Gesto e memória: aquém ou além suporte?

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Enquadramento. A velha questão da precedência

Estrutura e crença são polos conceptuais interligados, desde sempre. Existe uma ligação matricial, a consciência desta conexão, o precipitado desta união numa norma e, finalmente, a organização desta metafísica através de uma comunidade, que defende valores. Particularmente interessante é a importância que os espaços assumem, quando configurados com sítios de aproximação (AUGÉ, 1992, p.83).

Transmutados em «lugares», os meros espaços de tonalidade métrica, passam a figurar pela importância unitiva que assumem (CERTEAU, 1990). Com virtualidades de identificação identitária, com carga histórica e com propriedades relacionais, os «lugares» são núcleos de celebração de uma metafísica projetiva.

Porque são núcleos de Culto, de Celebração e de Ritualidade, assumem o papel soteriológico e denotativo da vida humana. Indicam, através da densificação que transportam, o território que conta a proximidade do Homem com os outros Seres Humanos e com o seu Criador. Em suma, são núcleos de celebração do Sagrado, através de uma Ritualidade já determinada no balanço que se faz com a Crença e a norma moral. São memória atual, de uma ligação matricial, que conhece um revés com o fim dos rituais (AUGÉ, 1992, p.83) [3].

Byung-Chul Han falou-nos do fim dos Rituais. Deixou de existir uma comunicação, que aponta para a dimensão fenomenológica do Outro diante de mim. Tudo são performances, produtividades de um «EU» que se considera potente para determinar a sua realidade e dimensão final (HAN, 2020).

Pegada a esta dimensão disruptiva da metafísica projetiva, surge o diagnóstico de Ferraris de um imperativo categórico da resposta (FERRARIS, 2018). Na medida em que estamos todos interligados, devemos responder uns aos outros para que possamos ser Pessoas em sentido literal. Emerge o segundo nível denotativo da realidade da “Era Digital”. O que sobra da conexão gregária e dos meios de recordação desta ligação matricial?

O afastamento decretado com o fim dos rituais impede que se possa falar na continuidade de uma metafísica projetiva, porque não existe hipótese alguma que a conexão se converta em comunhão de um comum, que por todos é partilhado.

Por sua vez, o imperativo de resposta ao apelo digital não precisa de suporte algum determinado. A mera notificação que um determinado aparato possa dar, basta para que o “atestado de humanidade” se mantenha. Não é necessário suporte algum, para que uma metafísica da interioridade se cumpra no seu ímpeto mais perfeito de “reanimar” a humanidade com o ritmo das notificações.

Sustento a hipótese de que existe uma precedência da memória em relação ao gesto, na estrutura da espiritualidade urbana, de tal modo que, não é o gesto performativo que reage automaticamente ao imperativo moral da notificação, o ponto de luz. Ao invés, pode ler-se na “obediência urbanística” a assunção da memória espiritual/religiosa como centro da identidade imagética.

Aquém da resposta, aquém ainda de uma realidade holográfica – que não necessita de suporte determinado algum – existe uma matriz de ordem espiritual, que não verga perante a necessidade de que se inscreva na parede um autêntico cartão de cidadania.

Como mostrarei no artigo, a simbólica, a grafia, que se pode ler na parede de uma igreja é diferente de uma outra, que se pode observar na parede de um centro comercial. Adiantando na argumentação, o registo simbólico que é manifestado no conflito das expressões de um “EU Tribal” muitas vezes assume um perfume muito conforme/disforme com a realidade que está justaposta.

Com efeito, o revés que a metafísica projetiva encontra não se petrifica numa conexão alimentada por notificações, que não conhecem obrigação de suporte. Aquém das performances da sociedade tecnológica, existe uma matriz – de tipo espiritual / religioso – que configura a expressão identitária de cada membro da Tribo urbana.

Gesto e estrutura digital

A transformação das conexões na Era Digital é inegável. Byung, Ferraris apontaram para as dificuldades de estrutura e de transição. Não existe atenção fenomenológica, que sustente um vínculo verdadeiramente amoroso. Com efeito, não existe ponte alguma que possa transformar a mera conexão em comunicação.

Deste diagnóstico, resultou uma incapacidade de comunicação na sociedade pós-moderna, que tem consequências a três níveis: suporte comunicacional, conteúdo da comunicação e produto da comunicação. É preciso que me explique a propósito destes tópicos, para que cheguemos às questões do gesto performativo e às questão do suporte.

Desatendido o ponto comum, em favor de uma performance, só temos um conjunto de manifestações de sujeitos isolados, que querem demarcar a sua posição na sociedade. É o lastro de uma conexão, não comunicacional.

É, em bom rigor, absolutamente indiferente o suporte. Poderá ser a parede, mas poderemos falar do registo de uma mensagem ou de um email. Criada a unidade dos sujeitos pelo imperativo de uma conexão metafísica, o suporte que serve o propósito de testamento vital é indiferentemente escolhido. Só tem de ser plano, como dizia Byung-Chul Han no seu Salvação do Belo (HAN, 2016).

Insisto, sem uma matriz comunicacional – que é de ordem metafísica e ontológica – ficam as declinações de um imperativo, que não se reduz a uma mera transgressão. Aliás, este assunto é paralelo ao que mais importa. Na Era Digital, só nos movemos numa sustentação pobre do Eu. Depois num cumprimento das liberdades e dos meios de habitação, que se plasmam no uso das paredes e dos espaços públicos como aprouver a cada Pessoa.

Retomo, a questão do suporte é absolutamente relativa: interessa a todo o instante uma espécie de reanimação para a vida do Si e do Si em comunidade.

Passando ao conteúdo da comunicação, tenho de remeter ao pressuposto metafísico da subjetividade. É o self que cria a metafísica e as suas correlações. Como performance pura e comunicação são exclusivos, não se pode falar de uma leitura imagética e simbólica, que tenha proveitos para a comunidade.

O conteúdo como o suporte servem um propósito de revitalização. Não há verdadeira hermenêutica, mesmo quando estamos numa mesma tribo urbana, porque não existe uma ritualização das atividades. Pelo menos em sentido forte; isto porque os sentidos fracos são múltiplos, como se pode ser no artigo que produzi em torno da compulsão presente na arte urbana.

Em terceiro lugar, o produto deste tipo de comunicação, é da ordem do holográfico. Sem suporte, no sentido forte de um lugar convencionado. Na continuidade, sem uma matriz hermenêutica de leitura, que pudesse fazer jus a uma verdadeira estética transformadora, a cultura de um gesto performativo é da ordem do além suporte. Nem lugar, no sentido do suporte, nem imagem atendida; existe o virtualmente celebrado, que terá de apontar a outras notícias da ordem do poder e do impositivo responde para sobreviver. O que levanta uma questão muito interessante: estará o registo de identidade e de espiritualidade a abraços com a força do gesto, próprio de uma performance atualíssima?

Memória

O silêncio que um certo ajuste de temáticas impõe é bastante ruidoso. É precioso olhar para a justaposição e perceber sentidos numa atuação que poderia perfeitamente ser de outra ordem, uma vez que o imperativo categórico do digita não obriga a outras obediências.

O que faz um graffiti na exata concordância com um monumento histórico, que já conta uma determinada memória e normatividade próprias de uma metafísica projetiva? O que o liga esta presença, que não pode ser negada pelas gerações.

Ao ler os textos de Françoise Choay percebemos uma dimensão que é física e de outra que é metafísica, do sentido da ausência da dimensão matéria (CHOAY, 2015, p.16) [4].

Emerge um lastro, que não é da ordem de uma tridimensionalidade espacial, mas que assume uma importância vital. Falo de uma dimensão simbólica. Não será esta carga, sumamente potente e enérgica, que habita aquele que se expressa nas paredes em concordância com o monumento?

Peço atenção ao graffiti, que está feito sobre um marco e na proximidade do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, para que a evidência da memória seja um dado.

Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa
Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa

A montante de toda a discussão da liberdade de expressão, longe das discussões que meditam o universo da transgressão é necessário ver que a expressão mural não é uma mera compulsividade neste caso. Existe um expressão de espiritualidade, que quer passar uma mensagem.

Acrescem as dimensões do suporte da imagética. Assim que a memória assume a dianteira, deixamos de ter uma moral das respostas que só procuram determinar uma identidade a ser perdida, instante após instante. O respeitar uma orientação, é assumir que o suporte onde é dada a resposta importa, é aproveitar a virtualidade do símbolo para que a sabedoria, força e beleza emerjam.

O monumento a Gomes Freire, Grão-Mestre da Maçonaria, com a vizinhança de um grafiti que não foi ali colocado por acaso, sendo a sua simbologia também maçónica, reforça a nossa interpretação, como exemplo: nas linhas de expressão mural mais ilustradas, existe uma concórdia entre a memória e a expressão mural da identidade do graffiter.

Daniel Mineiro [1] e Paulo Mendes Pinto [2]

Notas

[1] Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora/Universidade de Valencia. Professor e coordenador de projetos da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Atua nas areas: Filosofia da Religião, mística cristã, ecologia, espiritualidade, religiões orientais.

[2] Doutor em Estudos Culturais. Diretor Geral Acadêmico do Grupo Lusófona/Brasil. Coordenador da área Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa/Portugal. Áreas de atuação: esoterismo, judaísmo, maçonaria, espiritualidades.

[3] “Si un lugar puede definirse como lugar de identidad, relacional e histórico, un espacio que no puede definirse ni como espacio de identidade ni como relacional ni como histórico, definirá un no lugar. La hipótesis aquí defendida es que la sobremodernidad es produtora de no lugares […]”. Marc Augé, Los no Lugares”, p. 83.

[4] “O monumento caracteriza-se, assim, pela sua função identificadora. Pela sua materialidade, aumenta a função simbólica da linguagem em que atenua a volatilidade e revela-se um dispositivo fundamental no processo de institucionalização das sociedades humanas. Dito ainda de outra maneira, tem por vocação a ancoragem das sociedades humanas no espaço natural e cultural e na dupla temporalidade dos humanos e da natureza”. Françoise Choay, As questões do Património, Lisboa, Ed.70, 2015, p.16.

Referências

  • AUGÉ, Marc. Los no Lugares. Espacios del anonimato. Madrid: Gedisa, 1992.
  • CERTEAU, Michel. L´Invention du quotidian. Paris: Gallimard, 1990.
  • CHOAY, Françoise. As questões do Património. Lisboa: Ed.70, 2015.
  • FERRARIS, Maurício. Mobilização Total. Lisboa: Ed.70, 2018.
  • HAN, Byung-Chul. A Salvação do Belo. Lisboa: Relógio d´Água,
  • HAN, Byung-Chul. Do desaparecimento dos rituais. Lisboa: Relógio d´Água, 2020.

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