Introdução
A Maçonaria é uma instituição iniciática, evolucionista, filantrópica e progressista, que visa o aprimoramento do ser humano através dos ensinamentos contidos nos seus mistérios. Afirmar precisamente a sua origem é uma tarefa que ainda hoje segue sob investigação, contudo, uma das teorias mais conhecidas sobre a génese da instituição está relacionada ao surgimento das guildas romanas, durante o período em que o império romano dominou a Inglaterra e a Escócia entre os séculos I e V d.C. Estas guildas eram estabelecidas pelo império nos locais dominados e funcionavam como sindicatos que estabeleciam e formalizavam os marcos e deveres das profissões. Assim, em meio aos diversos grupos existentes, também havia as guildas dos pedreiros, grupos responsáveis pelas construções de muros, pontes e demais tipos de obras da construção civil, conforme fossem as necessidades do império.
Com o desenvolvimento destas guildas, documentos que tratavam da regularização de cada profissão foram surgindo. Entre os pedreiros da Europa, o primeiro que se tem registro foi a Carta de Bolonha (1248), originalmente intitulada Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamilis, um documento redigido em latim, por um escrivão público, ordenado pelo prefeito de Bolonha, Bonifaci di Cario. Esse documento possui anexos que demonstram uma Maçonaria bem estabelecida naquela região, além de contar com uma lista de matrícula registrada em 1272 contendo o nome de 371 mestres maçons, sendo eles 6 nobres, 2 escrivães públicos e 2 freis. (Kennyo ISMAIL, 2010)
Além destes importantes registros que revelam o que podemos constatar como a fase inicial de um período especulativo da Maçonaria, por demonstrar que pessoas não ligadas às funções de pedreiros já faziam parte das guildas, é importante ressaltar também que possivelmente James Anderson consultou a Carta de Bolonha quando redigiu as Constituições de Anderson (1723), documento que regulamenta a Maçonaria especulativa após o ano de 1717, pois ele afirmava tê-las redigido após consultar antigos estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Itália, Escócia e Inglaterra. (Kennyo ISMAIL, 2010)
Apesar da grande importância da Carta de Bolonha e das Constituições de Anderson, nenhum destes documentos mencionam mulheres como membros integrantes da instituição. Isto fez com que James Anderson fosse visto como o responsável pela exclusão das mulheres de todas as Lojas maçónicas no período especulativo. O texto das suas constituições afirma que “as pessoas admitidas como Membros de uma Loja devem ser Homens bons e verdadeiros, nascidos livres, e de Idade madura e discreta, nem Escravos, nem Mulheres, nem Homens imorais ou escandalosos, mas de boa fama.” [1] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 92). Esta postura fez com que, popularmente, a opinião geralmente aceita seja a de que a Maçonaria é uma “instituição inflexivelmente masculina.” [2] (Paul RICH, 1997, p. 105 apud Sandra BROWNRIGG, 2007, p. 15)
No entanto, Anderson não estava sendo excepcionalmente “sexista”, para usar um neologismo, numa época em que as mulheres eram excluídas da Inglaterra clubista e da esfera pública em geral, mesmo que no século anterior a presença de algumas mulheres, como Mary Banister na London Mason’s Company em 1714, está documentado no Old Charges [3]. (Andrée BUISINE, 1995, p. 30 apud Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 92)
Os princípios maçónicos modernos, bem como as suas constituições, afirmam que a Maçonaria não faz distinções entre raça ou etnia, religião, idade, condição social ou nível de renda, mesmo assim, a questão da presença feminina nas Lojas ainda hoje permanece um tabu em alguns círculos maçónicos, principalmente nos oriundos da Maçonaria tradicional e dogmática, advinda da Grande Loja Unida da Inglaterra e das potências que possuem reconhecimento mútuo neste grupo, “no entanto, parece haver evidências na literatura para mostrar que as mulheres estavam activamente envolvidas desde os primórdios da Maçonaria.” [4] (Paul RICH, 1997 apud Sandra BROWNRIGG, 2007, p. 15).
Um fac-símile e transcrição do “Poema Maçónico” (Regius MS.), um dos principais documentos contidos no conjunto de textos intitulados “Antigas Obrigações”, responsáveis por descrever as práticas da Maçonaria operativa na idade média, publicado na série Masonic Reprints, da Quatuor Coronatorum Antigrapha (1889), é o primeiro documento maçónico a mencionar a presença de mulheres no Craft, ou seja, nos trabalhos da arte maçónica. Além do Manuscrito Regius, é possível encontrar a presença feminina em diversos outros documentos das “Antigas Obrigações.”
Há, por exemplo, um registro de 1408 em que os maçons recém-iniciados juraram obedecer “ao Mestre, ou Dama, ou qualquer outro Maçom governante”. Nos registros da Loja da Capela de Mary em Edimburgo, datados de 1683, a Loja era na verdade presidida por uma Dama ou Senhora. Os registros da Grande Loja de York em 1693 falam sobre iniciados masculinos e femininos [5]. (Guillermo de los Reyes HEREDIA; Paul J. RICH, 2013, p. 166)
Ainda nos documentos das “Antigas Obrigações” é possível encontrar no Manuscrito n° 4 de York (armazenado na Grande Loja de York), um texto que “afirma que um aprendiz é admitido, os ‘anciãos tomando o Livro e, ele ou ela [sic] que será feito Maçom colocará as suas mãos sobre ele, e o encargo será dado’.” [6] (Róbert PÉTER, 2013, p. 77)
Após o período das “Antigas Obrigações”, a presença feminina na Maçonaria foi retomada de maneira documentada no início do século XVIII, com o estabelecimento das Grandes Lojas e Grandes Orientes na Europa.
Por exemplo, Clavel assumiu que “a Maçonaria para mulheres foi instituída por volta de 1730, mas que as suas formas só foram fixadas definitivamente depois de 1760”. O ano de 1760 provavelmente pretende indicar a época em que o então Grão-Mestre, o Conde de Clermont, deve ter iniciado a sua Loja, que parece ter iniciado também as mulheres com os rituais do Rito de Adopção [7]. (Jan SNOEK, 2013, p. 60)
Diversos documentos apontam a presença feminina na Maçonaria há pelo menos seis séculos, entretanto, os últimos trezentos anos foram marcados por apagamentos, tentativas de silenciar, controvérsias e ataques à Maçonaria feminina, atitudes muitas vezes advindas dos próprios maçons, o que torna a situação ainda mais complexa. A pluralidade da instituição maçónica fez com que em certas regiões a Maçonaria feminina possa coexistir com as Lojas mistas e masculinas, contudo, entre as potências que possuem tratado de reconhecimento com a Grande Loja Unida da Inglaterra, essa existência é constantemente criticada, apesar de certos esforços de algumas potências que afirmam reconhecer a Maçonaria feminina como legítima, mesmo recusando a presença das mulheres nas suas reuniões e proibindo que os seus membros se possam reunir em conjunto em Lojas mistas ou femininas.
Para compreendermos como se deu esse fenómeno, analisaremos o desenvolvimento da Maçonaria feminina na Inglaterra e na França, onde estão situadas as principais e antagónicas potências maçónicas, de modo a compreender como elas trataram a questão desde a sua fase embrionária, passando pelas críticas oriundas de adversários da Maçonaria e dos próprios maçons, que diversas vezes se valeram de argumentos misóginos para defender o seu ponto de vista, chegando por fim no cenário actual, apresentando novas possibilidades de diálogo dentro do debate.
A génese da presença feminina na Maçonaria e as Lojas de adopção
O século XVIII foi marcado pela presença de mulheres na Maçonaria, muitas vezes de maneira inusitada, algumas por acidente ou sendo iniciadas na instituição para que os segredos das Lojas se mantivessem protegidos. (Paul RICH, 1997)
Talvez o caso mais popular de iniciação feminina na Maçonaria aconteceu na Irlanda em 1712. Elizabeth Aldworth, filha do primeiro Visconde Doneraile, foi descoberta ao espionar uma cerimónia maçónica que acontecia numa sala na casa do seu pai. (Guillermo de los Reyes HEREDIA; Paul J. RICH, 2013). Por ter visto parte do se que havia passado, os maçons decidiram iniciá-la com o objectivo de manter o sigilo da instituição. Posteriormente, ela foi expulsa da Loja que fazia parte. Algumas informações sobre este facto podem ser encontradas na sua lápide, além disso, objectos pessoais e o avental utilizado por Elizabeth estão expostos no Salão Maçónico de Tuckey Street, na cidade de Cork, na Irlanda.
Em 1714 “Uma mulher que descobriu os segredos por espionagem foi iniciada numa Loja na cidade inglesa de Barking.” [8] (Guillermo de los Reyes HEREDIA; Paul J. RICH, 2013, p. 166). A América do Norte também registrou uma iniciação feminina atípica, “no Canadá em 1783 uma mulher que espionou foi iniciada em 1783, enterrada sob uma lápide com símbolos maçónicos e reivindicada como ancestral por um Grão-Mestre posterior da Grande Loja de New Brunswick em 1954.” [9] (Laure CAILLE, 2011 apud Guillermo de los Reyes HEREDIA; Paul J. RICH, 2013, p. 167)
Há uma série de outras mulheres no século XVIII que ouviram segredos maçónicos, escondendo-se em relógios e armários, e quando descobertas foram iniciadas. Uma delas, de Newcastle upon Tyne, na Inglaterra, mais tarde anunciou a sua disposição de contar os segredos a qualquer um por um preço! [10] (Guillermo de los Reyes HEREDIA; Paul J. RICH, 2013, p. 167).
Com o aumento da presença feminina na Maçonaria a instituição passou por um processo em que diversas Lojas específicas para mulheres e Lojas mistas, onde homens e mulheres se reuniam conjuntamente, passaram a surgir. A Maçonaria francesa lidou bem com a ideia de uma instituição que compartilhava dos seus ideais com a presença feminina nas Lojas. “A ideia de uma “Maçonnerie des dames”, as chamadas “lojas de adopção”, compostas por irmãos e irmãs e trabalhando sob a égide do Grande Oriente da França, não parecia absurdo, o que prova que o contexto social e cultural informa a história da Maçonaria.” [11] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 92).
Ao pensarmos em “adopção”, é comum associar a ideia de que as Lojas femininas estão sob a tutela dos homens, no entanto, “uma ‘loja de adopção’ é um sinónimo de uma ‘loja de iniciação’ em oposição a uma ‘loja de instrução’ ou uma ‘loja de mesa’.” [12] (Jan SNOEK, 2013, p. 59). Sobre esse conceito, Révauger (2013) afirma que
o próprio conceito de “adopção” é controverso, pois implica que as “irmãs” foram “adoptadas”, ou seja, patrocinadas pelos “irmãos”, e cada Loja de adopção era anexada a uma Loja masculina; no entanto, isso não significa que elas trabalhavam sob a supervisão da Loja masculina e, embora as irmãs só se pudessem encontrar com os irmãos, a maioria das responsabilidades eram compartilhadas dentro da Loja. Cada Loja era dotada tanto de um “grand maître” quanto de um “grande maîtresse”, um “frère inspecteur” e um “seur inspectrice”, e os títulos geralmente eram de género. [13] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 95).
Sobre o carácter das Lojas de adopção, no início das suas acções apenas os homens eram iniciados, de modo que, somente entre 1744 e 1774 é possível verificar também a iniciação de mulheres, “por exemplo, de acordo com a sua administração financeira, o ‘Loge de Juste’ em Haia iniciou entre 5 de Fevereiro e 1° de Maio de 1751, dez homens e duas mulheres.” [14] (Jan SNOEK, 2013, p. 59).
Snoek (2013) menciona uma objecção bastante comum sobre a génese das Lojas de adopção. Ele refere-se ao argumento de que tais Lojas haviam sido criadas por homens que tinham como objectivo evitar o acesso das mulheres à Maçonaria. No entanto, o autor afirma que “esta é uma especulação, muitas vezes encaminhada para explicar por que as Lojas de adopção, iniciando mulheres com rituais especiais, teriam sido criadas. No entanto, é definitivamente incorrecto.” [15] (Jan SNOEK, 2013, p. 60).
Ainda de acordo com Snoek (2013), “as primeiras Lojas de Adopção conhecidas que iniciaram mulheres, como as de Jena (1748), Copenhague (1750) e Haia (1751), eram completamente independentes e não tinham qualquer relação com uma Loja masculina.” [16] (Jan SNOEK, 2013, p. 59).
Révauger (2013) traz importantes considerações sobre a génese das Lojas de adopção na França que desfazem equívocos oriundos de pesquisas anteriores. Segundo a autora
há muito que se pensava que a primeira Loja de adopção havia sido a Loja De Juste em Haia por volta de 1751. No entanto, depois de explorar os chamados arquivos de Moscou – ou seja, os arquivos apreendidos em Paris pelos ocupantes nazistas, armazenados na Alemanha, depois recuperados dos nazistas pelos soviéticos e recentemente restituídos às grandes Lojas francesas – Margaret Jacob descobriu recentemente a possível existência de uma Loja em Bordeaux, sob a égide ou perto à Loja L’Anglaise por volta de 1732, muito antes da fundação da Loja L’Amitié por volta de 1776 [17]. (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 95).
O Grande Oriente da França passou a reconhecer as Lojas de adopção em 10 de Junho de 1774, que já existiam há cerca de 30 anos (Jan SNOEK, 2013), facto que auxiliou pesquisas que buscavam mapear a existência dessas Lojas no país. Um levantamento feito por Margaret Jacob e Janet Burke identificou a existência de vinte e cinco dessas Lojas na França, um número bastante expressivo. As mais prestigiadas chamavam-se La Sincérité e La Candeur, e estavam situadas em Paris. (Cécile RÉVAUGER, 2013).
No século XVIII as Lojas de adopção geralmente eram frequentadas por mulheres que faziam parte da alta nobreza da corte. Entre as principais personalidades estavam a Princesa de Bourbon e a Imperatriz Joséphine, ambas assumiram o cargo de Grande Mestra de todas as Lojas de adopção na França, e a Princesa de Lamballe, Venerável Mestra da Loja de Adopção da Loja Mãe Escocesa ‘Le Contrat Social’. (Jan SNOEK, 2013).
De acordo com Révauger, “embora as Lojas de adopção prosperassem no contexto francês, as mulheres geralmente eram totalmente excluídas da Maçonaria britânica” [18] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 96), salvo raras excepções como a Loja Urania, fundada em 1787, na cidade de Braintree. “Da mesma forma, em Boston, Hannah Mather Crocker fundou uma Loja exclusivamente feminina em 1790, a Loja Santa Anne, para a qual actuou como venerável mestre ou mestra.” [19] (John SLIFKO, 2013 apud Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 96).
Em 1810, o imperador Napoleão Bonaparte extinguiu as Lojas de adopção na França, que retornaram apenas em 1893 com a fundação da Loja Le Droit Humain. Os seus fundadores foram George Martin e Maria Deraisme, uma feminista comprometida com a emancipação sexual das mulheres. Foi iniciada em 1882, na Loja Libres Penseurs, em Pecq. As suas acções na Maçonaria influenciaram Annie Besant, feminista e teosofista, responsável por inaugurar a primeira Loja Le Droit Humain em Londres, em 1902. (Cécile RÉVAUGER, 2013)
Após o restabelecimento das Lojas de adopção, as mulheres francesas podiam escolher fazer parte da ordem mista Le Droit Humain ou das Lojas de adopção, que se tornaram exclusivamente femininas a partir de 1901. Estas Lojas foram responsáveis por fundar a Union Maçonnique Féminine de France no final da segunda guerra mundial, e que posteriormente, em 1952, se tornou a Grande Loja Feminina da França. (Cécile RÉVAUGER, 2013).
Os primórdios da Maçonaria feminina na Inglaterra e em França
De acordo com Péter (2013), a génese da Maçonaria feminina na Inglaterra deu-se na segunda metade do século XVIII. O autor afirma que “algumas mulheres inglesas devem ter-se juntado a uma Loja de adopção em meados da década de 1760, o mais tardar.” [20] (Róbert PÉTER, 2013, p. 64)
Apesar de estudos demonstrarem que na época não existiam Lojas de adopção no país, Snoek (2013) ressalta que “edições impressas dos Rituais em inglês foram publicadas em 1765 e 1791, enquanto a primeira edição em francês é apenas de 1772, sete anos após a primeira edição em inglês.” [21] (Jan SNOEK, 2013, p. 61).
Entre as Lojas totalmente femininas na Inglaterra, a mais antiga que se tem registro é a supracitada Urania, fundada em 1787, em Braintree. A história da sua fundação remete aos esforços dos maçons progressistas Thomas Dunckerley, William Dodd e George Smith, que defendiam a reforma da instituição. Entre esse grupo de maçons era comum o argumento de que
não há lei antiga ou moderna que proíba a admissão do belo sexo entre a sociedade de Maçons Livres e Aceitos, e apenas o costume até agora impediu a sua iniciação; consequentemente, todos os maus usos e costumes devem ser aniquilados, e damas de mérito e reputação admitidas na sociedade; ou pelo menos ter permissão para formar Lojas entre o seu próprio sexo, imitando as da Alemanha e da França [22]. (George SMITH, 1783, p. 361-362 apud Róbert PÉTER, 2013, p. 73).
Impulsionadas por esse pensamento, várias mulheres que faziam parte da alta sociedade sentiram-se determinadas a formar uma Loja exclusivamente feminina. A fundação se deu logo após as celebrações de aniversário da rainha Charlotte, realizadas em Bocking, Essex, organizadas por Thomas Dunckerley. A Loja foi intitulada Urania em homenagem à deusa da mitologia grega que leva o mesmo nome. (Róbert PÉTER, 2013).
A existência da Loja Urania é bastante significativa para a história das associações femininas, “uma vez que não há registro de nenhuma adopção e/ou Loja exclusivamente feminina na Inglaterra antes de 1900.” [23] (Róbert PÉTER, 2013, p. 76).
A questão da Maçonaria feminina na França ocorreu de maneira diferente. Isto se deu em parte pelo facto de que “as mulheres francesas não foram totalmente excluídas da esfera pública.” [24] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 94). Esta diferente perspectiva social na França foi o que impulsionou e facilitou o posterior desenvolvimento deste formato de Maçonaria e de outras instituições fraternais. Assim, também é possível rastrear a presença feminina em ordens como “Chevaliers et Chevalières du Bouchon” ou “Ordre des Fendeurs.”
Além da questão social, um outro factor que deve ser considerado é o de que as Constituições de Anderson, principal documento regulador da Maçonaria, publicadas na Inglaterra em 1723, só foram traduzidas para o francês em 1742, então esse período inicial da instituição na França não sofreu influências do texto, e por isso, os maçons franceses não viam motivos plausíveis para a exclusão das mulheres. (Cécile RÉVAUGER, 2013).
Alguns maçons dedicaram grande parte dos seus esforços à causa feminina na instituição. O mais conhecido exemplo é o de Frederic Desmons, que no século XIX lutou pela admissão das mulheres no Grande Oriente da França.
As mulheres tinham os seus defensores entre os maçons, como Louis de Beyerlé, que escreveu Essai sur la Franc-Maçonnerie (1784), o radical Nicolas de Bonneville – amigo íntimo de Thomas Paine, o célebre autor de Rights of Man (1792) – que elogiava as mulheres Maçons em Les Jésuites chassés de la franc-maçonnerie et leur poignard brisé par les Maçons e, claro, Choderlos de Laclos, bem conhecido por seus Liaisons Dangereuses. Num famoso discurso que proferiu em 1777 na inauguração de L’Union Parfaite, uma Loja de adopção em Salins, Jura, Choderlos de Laclos elogiou a presença de mulheres e desmentiu o mito do pecado original [25]. (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 94-95)
De acordo com Révauger, “durante a maior parte da sua história, as Lojas francesas de adopção foram patrocinadas pelo Grande Oriente da França. Eles só se juntaram à Grande Loja da França (GLDF) na década de 1860.” [26] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 97).
Mesmo no início da união à Grande Loja da França a actuação não era de grande destaque. Isto resultou em quase ausência total das actas do período de 1860-1901. Em contrapartida, foi graças aos esforços e patrocínio da GLDF que “a Loja Libre Examen surgiu em 1901, ela se tornaria a primeira na lista da futura Grande Loge Féminine de France (GLFF).” [27] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 97).
Críticas sobre a Maçonaria feminina
A presença feminina na Maçonaria é objecto de críticas há quase trezentos anos, muitas delas vindas dos inimigos da instituição, que tinham como objectivo prejudicar a imagem pública da ordem maçónica, entretanto, uma grande parcela dessas críticas eram oriundas da Maçonaria masculina, também chamada “tradicional”. Vale ressaltar que, entre os argumentos dos opositores, “aqueles que excluíam as mulheres não se baseavam nas Constituições de Anderson, ou seja, em argumentos teóricos, mas recorriam a argumentos muito mais práticos, como a chamada incapacidade das mulheres de guardar segredos ou a boa moral das Lojas.” [28] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 94). Existem três explicações gerais que justificam o motivo da exclusão das mulheres em papéis comunitários e religiosos, são eles: a aversão, recursos e esferas sociais diferenciadas. (WELCH, 1982).
Estes motivos foram utilizados como base para argumentações críticas sobre a Maçonaria feminina. Sob o prisma das diferentes esferas sociais, afirmava-se que as mulheres não podiam fazer parte da instituição maçónica por possuírem uma predisposição à domesticidade e à bondade, de modo que, as tarefas domésticas e familiares eram comumente associadas ao dever feminino, além de que, por serem bondosas não poderiam fazer parte de uma sociedade onde homens, tidos como inferiores faziam parte. “Essa ideia foi chamada de “verdadeira feminilidade”. A verdadeira feminilidade é definida como uma “constelação de valores que contrapõem a pureza da mulher à baixeza do homem.” [29] (M. C. CARNES, 1989, p. 82 apud Sandra BROWNRIGG, 2007, p. 17).
Uma crítica bastante popular, oriunda dos maçons, afirmava que as mulheres deveriam ser proibidas de ingressar na Maçonaria sob a acusação de que, tomando conhecimento dos segredos maçónicos, poderiam obter ganhos financeiros com a venda deles. “Por isso, era importante naquela época, e de alguma forma ainda hoje, excluir as mulheres porque se pensa que elas não serão capazes de manter os segredos da Ordem.” [30] (T. A. CARMICHAEL, 2003 apud Sandra BROWNRIGG, 2007, p. 17). No entanto, historicamente, as principais exposições dos segredos maçónicos foram realizadas por homens, Masonry Dissected (1723) por Samuel Prichard, La Reception d’un Frey-Mason (1737), exposta por Hérault, L’ Ordre Des Francs-maçons Trahi Et Le Secret Des Mopses Révélé (1745), por Gabriel Pérau, são alguns dos exemplos.
Révauger (2003) afirma a instrumentalização da religião como forma de encontrar argumentos contra a presença feminina na Maçonaria. Segundo a autora, “o argumento bíblico também foi apresentado para mostrar a propensão natural da mulher para desobedecer e relembrar a culpabilidade de Eva.” [31] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 94).
Poemas e canções como “Pour les francs-maçons” (1743) e “Nouvelle Chanson Maçonnique” (1758) atacavam a situação feminina na Maçonaria através das questões de moralidade. Eles afirmavam que “enquanto as mulheres fossem mantidas fora das Lojas, as esposas dos maçons podiam dormir em paz, pois não precisavam temer nenhuma infidelidade dos seus maridos: as mulheres eram excluídas das Lojas para seu próprio bem.” [32] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 94).
Com o aumento da popularidade feminina na Maçonaria, diversas críticas externas oriundas dos chamados “profanos”, ou seja, pessoas não-iniciadas, surgiram com o objectivo de atacar as mulheres maçons e reforçar preconceitos contra a instituição.
O primeiro desses escritos é datado de 1724 e intitulado ‘The Sisterhood of Free Sempstresses’, que era uma pequena esquete sobre a Maçonaria e as mulheres. Logo foi seguido por outros panfletos antimaçónicos, que reforçaram os preconceitos contra a irmandade. Os maçons foram ridicularizados em peças teatrais como The Female Freemason (1737) e em escritos humorísticos, incluindo The Discovery, or the Female Free-Mason (1771) [33]. (Róbert PÉTER, 2013, p. 64).
Diante das críticas recebidas por meio dos textos que atacavam as Lojas por excluírem as mulheres dos mistérios maçónicos, os maçons buscaram resolver tais questões apresentando argumentos que justificavam a Maçonaria como sendo uma organização exclusivamente masculina. (Róbert PÉTER, 2013).
Em 14 de Setembro de 1724, o Maçom Aaron Hill publicou no jornal The Plain Dealer: “’Tenho algumas razões para temer que os nossos segredos estejam em perigo de serem expostos’. Isto foi posteriormente elaborado por outros panfletos maçónicos, que argumentavam que as mulheres eram incapazes de guardar segredos.” [34] (Róbert PÉTER, 2013, p. 65).
O Grão-Mestre Provincial de Kent, George Smith, na sua obra The Use and Abuse of Free-Masonry (1783), inicialmente seguiu o mesmo exemplo de Hill ao argumentar que o problema se dava sob a questão da impossibilidade feminina em guardar segredos, no entanto, posteriormente elaborou uma explicação baseada nos costumes e na tradição:
Meus bons leitores terão o prazer de lembrar que, nas primeiras eras da antiguidade, as mentes das mulheres não eram tão iluminadas como na era actual; que elas eram consideradas apenas nos dias do rei Salomão como servas, e não como companheiras e associadas de homens empregados numa sociedade tão erudita, tão útil e tão misteriosa como a alvenaria, pois há muitas transacções na arte real, que são muito além daquele conhecimento que as mulheres em geral alcançam. Na primeira instituição da Maçonaria, considerou-se apropriado excluir o belo sexo e, como os velhos costumes raramente são deixados de lado, a sua expulsão foi transmitida a nós. E como somos observadores tão rigorosos das suas maneiras e costumes antigos, tão transmitidos a nós pelos nossos antepassados, espero que sejam motivos suficientes, tanto antigos quanto modernos, para que essa parte mais amável da criação tenha sido até agora excluída [35]. (George SMITH, 1783, p. 353-354 apud Róbert PÉTER, 2013, p. 66).
Alguns autores afirmavam pejorativamente que a vaidade e a sensualidade das mulheres as tornavam candidatas ruins para fazerem parte das Lojas. Um outro argumento utilizado também citava a questão da dependência financeira das mulheres em relação aos seus maridos e pais como forma de desqualificação. (Robert BEACHY’S, 2002 apud Róbert PÉTER, 2013, p. 67).
Panorama actual da Maçonaria feminina em França e na Inglaterra
Actualmente a presença e actuação da Maçonaria feminina tem-se tornado cada vez maior e tem tomado destaque pelos seus feitos. Segundo um levantamento realizado por Révauger, “antes da Segunda Guerra Mundial havia cerca de 300 mulheres nas nove Lojas de adopção da GLDF; as mais famosas estavam em Paris, Loge la Nouvelle Jérusalem Adoption e Le Libre Examen Adoption.” [36] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 97).
De acordo com os apontamentos de Snoek, “a partir de 1901, novas Lojas de Adopção foram fundadas sob a Grande Loja da França, que acabou levando à formação da Grande Loja Feminina da França (GLFF).” [37] (Jan SNOEK, 2013, p. 64-65).
A maior parte das maçons daquele período estavam engajadas na luta pelos direitos e na emancipação das mulheres. Logo após a Segunda Guerra Mundial feministas da Grande Loja Feminina da França dedicaram-se primeiro com a “causa da contracepção e depois com o aborto livre. Assim, Yvette Roudy apoiou a aprovação da lei Weil permitindo o aborto na França em 1975.” [38] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 98).
As irmãs francesas geralmente endossam os valores seculares apresentados pela maioria das grandes Lojas francesas: isso pode ser amplamente explicado pela atitude da Igreja Católica, que tradicionalmente se opõe aos valores do Iluminismo, da Maçonaria e da emancipação das mulheres. Na Inglaterra, ao contrário, a Igreja da Inglaterra adoptou uma atitude muito mais tolerante, conciliando razão e religião, aceitando a Maçonaria (com pouquíssimas excepções) e apoiando a emancipação das mulheres. Consequentemente, as mulheres maçons exigem que os seus membros acreditem no Ser Supremo e apoiem a Igreja da Inglaterra [39]. (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 98).
Após a fundação da Grande Loja Feminina da França, ordem exclusivamente feminina, no ano de 1945, as mulheres francesas passaram a poder escolher entre participar de ordens mistas ou especificamente femininas. “Em 1981 foi fundada uma segunda grande Loja feminina, a Grande Loja Feminina de Memphis Misraim, que nunca atingiu números muito elevados (cerca de mil membros em 2013).” [40] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 98).
O DH também teve que enfrentar a competição de duas grandes Lojas menores, a Grande Loge Mixte Universelle (GLMU, 1973, cerca de 1.600 membros hoje) e a Grande Loge Mixte de France (GLMF, 1982, cerca de 4.200 membros). Esta última era descendente da GLMU, embora agora se tenha tornado mais numerosa. Hoje a GLFF tem cerca de 11.700 membros e a DH 15.700 membros [41]. (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 98).
Apesar dos esforços realizados por Frederic Desmons no século XIX pela aceitação das mulheres na instituição, o debate só teve atenção novamente pelo Grande Oriente da França no final dos anos 1970. “Na década de 1980, cerca de 50% das Lojas admitiam irmãs como visitantes.
Hoje é o caso de cerca de 95 por cento das Lojas. Cinco por cento das Lojas ainda recusam a entrada de mulheres, mesmo depois da votação histórica de 2010.” [42] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 99).
O aspecto administrativo do Grande Oriente da França difere da forma como a Grande Loja Unida da Inglaterra está organizada. De certa forma, essa maneira de administração facilitou o debate sobre a questão de género na Maçonaria francesa, abrindo portas para o desenvolvimento da instituição e chegando até o status actual. Apesar disso, a instituição não ficou isenta de passar por certas dificuldades e controvérsias que foram resolvidas posteriormente.
Ao contrário, por exemplo, da Grande Loja Unida da Inglaterra – que toma decisões importantes em reuniões trimestrais – o Grande Oriente da França tem uma assembleia geral anual onde todas as Lojas são representadas pelos seus delegados. Várias das assembleias anuais de 2002 em diante examinaram moções para permitir a iniciação de mulheres, mas sem sucesso. Assim, a iniciativa acabou vindo de Lojas individuais, Lodge Combats (Paris), Lodge Saint Just (Paris), ambas já em 2006, seguidas dois anos depois pela Loja L’Echelle Humaine (Paris), Prairial (Maison Alfort, perto de Paris), e La Ligne Droite (Auch, no sudoeste da França): as cinco Lojas pediram permissão para iniciar cerca de seis mulheres entre si. O Grão-Mestre Jean Michel Quillardet respondeu que nada nas Constituições do Grande Oriente da França impedia a iniciação de uma mulher (este não é o caso da GLFF, que redigiu muito cuidadosamente as suas Constituições para que nenhum homem jamais pudesse ser admitido) [43]. (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 99).
A primeira iniciação feminina no Grande Oriente da França ocorreu em 24 de Maio de 2008, na Loja Combats. No entanto, apesar de ter sido considerada uma iniciação regular, no ano seguinte, houve grande votação contra a presença feminina na obediência. Posteriormente, em 2010, o voto mudou e actualmente cada Loja tem a liberdade de optar por iniciar ou não mulheres, além disso, “o novo regulamento evita a palavra “mixité” (“co-Maçonaria”) e apenas estipula que o Grande Oriente deve recrutar membros independentemente do sexo.” [44] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 100).
Tratando de números, a presença feminina no Grande Oriente da França ainda é bem menor que a masculina. “Desde 2010, de um total de 52.000 membros, o Grande Oriente da França admitiu cerca de 1.200 mulheres, seja pela iniciação de novas irmãs ou pela afiliação de irmãs de outras grandes Lojas.” [45] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 100).
As obediências Grande Loja da França e Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) adoptaram uma postura diferente e até então “permanecem indiferentes, despreocupados com o debate sobre a co-Maçonaria no Grande Oriente da França.” [46] (Cécile RÉVAUGER, 2013, p. 101).
A Inglaterra ainda mantém uma postura mais conservadora quando o assunto é Maçonaria feminina, mesmo sendo possível verificar certas mudanças quando se tratam de questões de género, especificamente na questão transgénero, como se pode observar na sua “Política de Mudança de Género”, publicada em 2018 no site oficial da instituição, onde fica estabelecido a abordagem “para as questões levantadas para a Maçonaria pela reatribuição de género, destinando-se ajudar a orientação das Lojas nas suas tomadas de decisões.” (Fernando SOUZA, 2022, p. 44).
A Maçonaria feminina inglesa actualmente é representada por dois grupos, a The Order of Women Freemasons e a The Honorable Fraternity of Ancient Freemasons. Ambas possuem boas relações de actuação com a Maçonaria masculina. Anualmente as maçons têm sido convidadas a participar no Open House London, um importante evento do calendário anual promovido pela Grande Loja Unida da Inglaterra, além de actuarem em feiras conjuntas de calouros como parte do Regime das Universidades inglesas.
Mesmo com esta benéfica relação a Maçonaria feminina não possui tratados político-administrativos que permitam a participação de mulheres nas reuniões masculinas. O contrário também não é permitido, ou seja, a Grande Loja Unida da Inglaterra reconhece a existência das duas Grandes Lojas femininas como Maçonaria e as compreende como “regulares na prática”, apesar de não serem consideradas como “regulares na origem”.
Considerações finais
Diante do exposto, é possível verificar as tensões e a complexidade das relações existentes acerca da presença feminina na Maçonaria e como as principais obediências do mundo as enxergam. Se por um lado a França soube lidar de maneira mais clara e menos conturbada com a questão, principalmente pela ausência directa da influência de documentos maçónicos e da forma de compreender a sociedade dos ingleses, a Inglaterra caminhou pelo caminho contrário, passando ao não reconhecimento da Maçonaria feminina por várias décadas, até uma mudança de posicionamento nos anos 90, onde passou a reconhecer a existência, actuar em obras conjuntamente, mas apesar disso, não permitir a presença nas reuniões. Este posicionamento historicamente passou por diversas ópticas, desde constituições, landmarks e até mesmo aquelas oriundas de críticas advindas dos opositores que viam a presença de mulheres nas reuniões maçónicas como algo vergonhoso, que reduzia a importância da instituição.
As Lojas de adopção foram um grande e importante aparato que serviu de base para o estabelecimento da presença feminina na Maçonaria francesa, sendo bastante considerável ainda hoje e tendo servido também para o estabelecimento de Lojas e obediências totalmente femininas. Actualmente na França as mulheres podem escolher entre a co-Maçonaria e as Lojas exclusivas para mulheres. Ambas são reconhecidas no Grande Oriente da França e por diversas obediências que possuem tratado de amizade e reconhecimento mútuo, como por exemplo, a Grande Loja Simbólica Espanhola, o Grande Oriente da Bélgica, a Gran Logia Femenina de Chile, a Grande Loja Maçónica Mista do Brasil e diversas outras Lojas organizadas no Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçónicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo (CLIPSAS).
A Maçonaria invoca para si a qualidade de progressista, no entanto, certas questões da sociedade moderna parecem ser um empecilho de carácter intelectual para diversas obediências e agentes da instituição, que diante delas não sabem como agir ou não possuem respostas necessárias para a resolução dos conflitos. Como consequência, a situação da presença feminina na Maçonaria se alastra lentamente pelos anos, passando muitas vezes por retrocessos, se comparados aos avanços da sociedade. É um dilema secular que até o momento não possui resoluções homogéneas, mas que ainda gera polémicas, cismas e disputas de reconhecimento na instituição.
Uma forma encontrada por algumas obediências que não permitem a participação feminina, como nos Estados Unidos, mas que desejavam continuar as envolvendo nas suas actividades, foi a criação de grupos com conexões maçónicas, como a Ordem da Estrela do Oriente, Arco-Íris e o Amaranto. Mesmo possuindo uma relação estreita com a Maçonaria masculina, as mulheres que fazem parte dessas instituições não são consideradas maçons. Contudo, alguns questionamentos vêm à tona diante de tais medidas, seriam esses grupos uma forma encontrada para que os maçons consigam administrar o status quo da instituição? Os fundamentos maçónicos são universais e eternos? O Grande Oriente da França e diversas outras obediências possuem visões distintas daquelas oriundas do ramo dogmático e da Grande Loja Unida da Inglaterra, seria esse um problema de compreensão interna do que se trata Maçonaria? A Maçonaria tradicional e dogmática pode ser vista como uma instituição machista e misógina, estranha ao progresso, aos direitos das mulheres e à participação delas nas suas obras? Estas são algumas das perguntas que demonstram que o tema está longe do seu esgotamento e que podem ser norteadoras de um debate mais aprofundado, devendo ser discutido não somente no âmbito académico, mas também com a participação activa dos agentes maçónicos responsáveis por influenciar e governar a instituição, fazendo com que a Maçonaria possa caminhar de facto com a sociedade, recebendo e engajando mulheres nas suas colunas, as quais participam activamente nas diversas camadas sociais.
Fernando Rodrigues de Souza, Mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Sergipe (PPGCR/UFS), graduado em Ciências da Religião pelo Centro Universitário Internacional, especialista em História das Religiões pela Universidade Cruzeiro do Sul e em Filosofia da Religião pela Universidade Dom Alberto. [email protected].
Nota: o Título foi alterado com a permissão do Autor
Fontes
- Revista Mandrágora, v.29, n. 1, 2023, p. 193-215
- Diálogo com o Autor
Notas
[1] The persons admitted Members of a Lodge must be good and true Men, free-born, and of mature and discreet Age, no Bondmen, no Women, no immoral or scandalous Men, but of good report.
[2] The generally held opinion is that Freemasonry is an “adamantly male institution.”
[3] Yet Anderson was not being exceptionally “sexist,” to use a neologism, at a time when women were excluded from clubbable England and the public sphere in general, even if in the previous century the presence of a few women, such as Mary Banister in the London Mason’s Company in 1714, is documented in the Old Charges.
[4] There does, however, seem to be evidence in the literature to show that women were actively involved in the very beginnings of Masonry.
[5] There is for example a record from 1408 where newly initiated Masons swore to obey “the Master, or Dame, or any other ruling Freemason.” In the records of the Lodge of Mary’s Chapel in Edinburgh, dated 1683, the lodge was actually presided over by a Dame or Mistress. The records of the Grand Lodge of York in 1693 speak about male and female initiates.
[6] Claims that an apprentice is admitted, the ‘elders taking the Booke, he or shee [sic] that is to be made Mason shall lay their hands thereon, and the charge shall be given’.
[7] For example, Clavel assumed that “Freemasonry for women was instituted around 1730, but that its forms were only fixed definitely after 1760”. The year 1760 probably intends to indicate the time when the then Grand Master, the Count of Clermont, must have started his lodge, which seems to have also initiated women with the rituals of the Adoption Rite.
[8] A woman who found out the secrets by spying was initiated in a lodge in the English town of Barking.
[9] In Canada in 1783 a woman who eavesdropped was initiated in 1783, buried under a tombstone with Masonic symbols, and claimed as an ancestor by a later Grand Master of the Grand Lodge of New Brunswick in 1954.
[10] There are a number of other women in the eighteenth-century who overheard Masonic secrets, hiding in clocks and cupboards, and when discovered were initiated. One of them, of Newcastle upon Tyne in England, actually later advertised her willingness to tell the secrets to anyone for a price!
[11] The idea of a “Maçonnerie des dames,” the so-called “lodges of adoption,” composed of brothers and sisters and working under the aegis of the Grand Orient of France, did not seem preposterous, which proves that the social and cultural context informs the history of Free-masonry.
[12] An ‘Adoption lodge’ is a synonym of an ‘initiation lodge’ as opposed to a ‘lodge of instruction’ or a ‘table lodge’.
[13] The very concept of “adoption” is controversial since it implies that the “sisters” were “adopted,” i.e., patronized by the “brothers,” and each adoption lodge was attached to a male lodge; yet this does not mean that they worked under the supervision of the male lodge, and while sisters could only meet with brothers, most of the responsibilities were shared within the lodge. Each lodge was endowed both with a “grand maître” and a “grande maîtresse,” a “frère inspecteur” and a “soeur inspectrice,” and the titles were often gendered.
[14] For example, according to its financial administration, the ‘Loge de Juste’ in The Hague initiated between February 5 and May 1°, 1751, ten men and two women.
[15] This is a speculation, often forwarded to explain why Adoption lodges, initiating women with special rituals, would have been created. However, it is definitely incorrect.
[16] The first known Adoption lodges that initiated women, such as those in Jena (1748), Copenhagen (1750) and The Hague (1751), were completely independent and had no relationship whatsoever with a male only lodge.
[17] It had long been thought that the first lodge of adoption had been Lodge De Juste in The Hague around 1751. Yet after exploring the so-called Moscow archives-i.e., the archives seized in Paris by the Nazi occupiers, stored in Germany, then retrieved from the Nazis by the Soviets and recently restituted to the French grand lodges-Margaret Jacob has recently uncovered the possible existence of a lodge in Bordeaux, under the aegis or close to Lodge L’Anglaise around 1732, long before the foundation of Lodge L’Amitie around 1776.
[18] Although the lodges of adoption throve in the French context, women were generally totally excluded from British Freemasonry.
[19] Similarly, in Boston, Hannah Mather Crocker did found an all-female lodge in 1790, lodge Ste Anne, for which she acted as worshipful master or mistress.
[20] Some English women must have joined an adoption lodge in the mid-1760s at the latest.
[21] Printed editions of the Rituals in English were published in 1765 and 1791, while the first edition in French is only from 1772, seven years after the first English one.
[22] There is no law ancient or modern that forbids the admission of the fair sex amongst the society of Free and Accepted Masons, and custom only has hitherto prevented their initiation; consequently, all bad usages and customs ought to be annihilated, and ladies of merit and reputation admitted into the society; or at least be permitted to form lodges among their own sex, in imitation of those in Germany and France.
[23] Since there is no record of any adoption and/or all-female lodge in England before the 1900s.
[24] French women were not totally excluded from the public sphere.
[25] Women had their advocates among Masons such as Louis de Beyerle, who wrote Essai sur la Franc-Maçonnerie (1784), radical Nicolas de Bonneville – a close friend of Thomas Paine, the celebrated author of Rights of Man (1792) – who praised women Freemasons in Les Jésuites chassés de la franc-maçonnerie et leur poignard brise par les Maçons, and of course Choderlos de Laclos, well known for his Liaisons Dangereuses. In a famous speech he delivered in 1777 at the inauguration of L’Union Parfaite, a lodge of adoption in Salins, Jura, Choderlos de Laclos praised the presence of women and debunked the myth of the original sin.
[26] For most of their history the French lodges of adoption were sponsored by the Grand Orient of France. They only became attached to the Grande Loge de France (GLDF) in the 1860s.
[27] The lodge Libre Examen in 1901, which was to become the first on the roll of the future Grande Loge Féminine de France (GLFF).
[28] Those who excluded women did not rest their case on Anderson’s Constitutions, i.e. on theoretical arguments, but resorted to much more practical ones such as the so-called inability of women to keep secrets or the good morality of the lodges.
[29] This idea was termed “True Womanhood”. True Womanhood is defined as a “constellation of values that counter-posed the purity of woman to the baseness of man.”
[30] It was therefore important at that time, and in some way still today, to exclude women because it is thought they will not be able to maintain the secrets of the Order.
[31] The Biblical argument was also conveyed to show woman’s natural propensity to disobey and recall Eve’s culpability.
[32] As long as women were kept outside the lodges, Masons’ wives could sleep in peace as they did not have to fear any infidelity from their husbands: women were excluded from the lodges for their own good.
[33] The first such writing is dated as early as 1724 and entitled ‘The Sisterhood of Free Sempstresses’,13 which was a short skit on freemasonry and women. It was soon followed by other anti-masonic pamphlets, which reinforced the prejudices against the brotherhood. Freemasons were mocked in theatrical plays such as The Female Freemason (1737) and in humorous writings including The Discovery, or the Female Free-Mason (1771).
[34] ‘I have some Reasons to fear, that our Secrets are in danger of being expos’d’. This was further elaborated by other masonic pamphlets, which argued that women were incapable of keeping secrets.
[35] My fair readers will please to recollect, that in the most early ages of antiquity, women’s minds were not so enlightened as in the present age; that they were only considered in the days of king Solomon as handmaids, and not as companions and associates to men employed in so learned, so useful, and so mysterious a society as masonry, as there are many transactions in the royal art, which are far beyond that knowledge which women in general attain. At the first institution of masonry, it was thought proper to exclude the fair sex, and as old customs are but too seldom laid aside, their expulsion has been handed down to us. And as we are such strict observers of its ancient manners and customs, so transmitted to us by our forefathers, these I hope will be sufficient reasons, both ancient as well as modern, why that most amiable part of the creation have hitherto been excluded.
[36] Before World War II there were about 300 women in the nine lodges of adoption of the GLDF; the most famous ones were in Paris, Loge la Nouvelle Jérusalem Adoption and Le Libre Examen Adoption.
[37] From 1901 onwards, new Adoption lodges were founded under the Grande Loge de France, which eventually led to the formation of the Grande Loge Féminine de France (GLFF).
[38] The cause of contraception and later to free abortion. Thus, Yvette Roudy supported the passing of the Weil law allowing abortion in France in 1975.
[39] French sisters have generally endorsed the secular values put forward by most French grand lodges: this can largely be explained by the attitude of the Catholic Church, which traditionally opposed the values of the Enlightenment, Freemasonry, and the emancipation of women. In England, on the contrary, the Church of England has adopted a much more tolerant attitude, reconciling reason and religion, accepting Freemasonry (with a very few exceptions), and supporting the emancipation of women. Consequently, women Freemasons require their members to believe in the Supreme Being and support the Church of England.
[40] In 1981 a second feminine grand lodge was founded, the Grande Loge Féminine de Memphis Misraïm, which never reached very high numbers (about a thousand members in 2013).
[41] The DH also had to face the competition of two smaller grand lodges, the Grande Loge Mixte Universelle (GLMU, 1973, about 1,600 members today) and the Grande Loge Mixte de France (GLMF, 1982, about 4,200 members). The latter was an offspring from the GLMU, although it has now become more numerous. Today the GLFF has about 11,700 members and the DH 15,700 members.
[42] In the 1980s about 50 percent of the lodges admitted sisters as visitors. Today this is the case of about 95 percent of the lodges. Five percent of the lodges still refuse the very idea of women visitors, even after the historical vote of 2010.
[43] Contrary, for instance, to the United Grand Lodge of England-which makes important decisions at quarterly meetings-the Grand Orient of France has one annual general assembly where all the lodges are represented by their delegates. Several of the annual assemblies from 2002 onwards examined motions to allow the initiation of women, but to no avail. So, the initiative eventually came from individual lodges, Lodge Combats (Paris), Lodge Saint Just (Paris), both as early as 2006, followed two years later by lodge L’Echelle Humaine (Paris), Prairial (Maison Alfort, near Paris), and La Ligne Droite (Auch, in the Southwest of France): the five lodges asked permission to initiate about six women between themselves. Grand Master Jean Michel Quillardet answered that nothing in the Constitutions of the Grand Orient of France prevented the initiation of a woman (this is not the case for the GLFF, which very carefully worded its Constitutions so that no man can ever be admitted.)
[44] The new regulation avoids the word “mixite» («co-Masonry») and merely stipulates that the Grand Orient should recruit members irrespective of gender.
[45] Since 2010, out of a global 52 000 members, the Grand Orient of France has admitted about 1,200 women, either through the initiation of new sisters or through the affiliation of sisters from other grand lodges.
[46] Remain aloof, unconcerned with the debate on co-Masonry within the Grand Orient of France.
Bibliografia
- BROWNRIGG, S. D. Freemasonry: Men’s Lived Experience of Their Membership of a Male-Only Society. 206 p. Mini-Dissertation (Magister). University of Pretoria, Pretoria, 2007.
- DE LOS REYES HEREDIA, G.; RICH, P. J. Gender, Sexual, and Racial Trouble: The Crossroads of North American Freemasonry in the Twenty-First Century. REHMLAC+, Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribena plus, [S. l.], v. 4, n. 2, 2013.
- ISMAIL, Kennyo. O documento mais antigo da Maçonaria. No Esquadro. Disponível em: https://www.noesquadro.com.br/historia/o-documento-mais-antigo-da-maconaria/. Acesso em: 24 Fev. 2023.
- PETER, Women in Eighteenth-Century English Freemasonry: The First English Adoption Lodges and their Rituals. Journal for Research into Freemasonry and Fraternalism, [S. l.], v. 4, n. 1-2, 2013.
- RÉVAUGER, Cécile. Gender in French Freemasonry, From the Eighteenth Century Until Today. REHMLAC+, Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribena plus, [S. l.], n. 1, 2013.
- RICH, P. Female Freemasons: Gender, democracy and fraternalism. Journal of American Culture, 20(1), 105-111, 1997.
- SMITH, G. The Use and Abuse of Free-Masonry: A Work of the Greatest Utility to the Brethren of the Society, to Mankind in General, and to the Ladies in Particular. London: printed for the author; and sold by G. Kearsley, 1783.
- SNOEK, Jan. The Adoption Rite, its Origins, Opening up for Women, and its ‘Craft’ Rituals. REHMLAC+, Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribena plus, 4, n. 2, 2013.
- SOUZA, Fernando. O dilema LGBTQIA+ na Maçonaria Revista DB33, v. 2, n.1, p. 40-46, 2022.
- WELCH, M.R. Female Exclusion from Religious Roles: A Cross-Cultural Test of Competing Explanations. Social Forces 61(1), 79-98, 1982.


Materia excelente e profunda e que traz necessárias reflexões, diante de ser a maçonaria progresista.