A marca do Maçom
Outra prova análoga à do sangue, que insiste sobre o carácter permanente da qualidade do Maçom, é o convite que é feito ao candidato para que permita que se deixe imprimir com fogo, em alguma parte do corpo, “a marca gloriosa de um selo que se encontra em todas as Lojas do Universo” e por meio da qual os maçons se reconhecem.
Esta marca ou estigma verdadeiramente glorioso (mas que nunca foi aplicado materialmente pela simples razão de que a Maçonaria quer fazer homens livres e não coração de todo Maçom, e é outro símbolo daquilo que o Maçom deve ser e naquilo no seu coração e expressa por todo o seu ser.
As qualidades ou emblemas que são aplicadas com o fogo, por cujo intermédio os maçons reconhecem-se entre si, são evidentemente o compasso da razão que caracteriza o reconhecimento da Realidade Espiritual (que é o Centro simbólico de todo ser e de todas as coisas) e a sua relação com a vida exterior (a circunferência ou aparência das coisas), e o esquadro do juízo, com o qual o Maçom rectifica, os seus pensamentos, aspirações e desejos, em harmonia com o Plano do Grande Arquitecto, Plano com o qual deve esforçar-se em cooperar conscientemente.
Finalmente, e para dar uma prova tangível das suas boas disposições, é convidado a tomar parte na cadeia de união dos maçons, mediante uma oferta voluntária com a qual manifesta e reconhece o seu dever de solidariedade com aqueles que se encontram momentaneamente necessitados de recursos e de meios suficientes para viver. Todos nós devemos e todos podemos ser úteis reciprocamente uns aos outros. O egoísta é um ser inconsciente que não conhece os laços que nos unem e o dever que temos de cooperar com todas as nossas forças para alcançar o Bem comum. E o Maçom nunca pode ser um egoísta, ignorante da sua relação e deveres para com os demais.
O juramento
O candidato encontra-se agora pronto para cumprir a formalidade do juramento, ou obrigação solene que se lhe faz prestar diante da área da sua própria consciência, ajoelhado com o joelho esquerdo, e com o joelho direito em esquadro, em sinal de humildade, respeito e devoção; com a mão direita sobre a Bíblia, que representa a palavra Divina ou a Verdade Revelada pela tradição, tendo na esquerda um compasso, cujas pontas apoia sobre o peito num símbolo da plenitude da consciência e do perfeito entendimento do seu coração.
O juramento é feito “em presença do G. A do U. e dos irmãos reunidos em Loja”. O reconhecimento da presença do G. A. é pois, a sua primeira condição. O juramento ou obrigação assume-se individualmente em presença do Ideal e das aspirações mais elevadas de cada um de nós naquele Princípio impessoal que constitui o primeiro molde, rege o curso e é o Divino Arquitecto nas nossas vidas.
Os irmãos reunidos ao redor do aspirante, com as suas espadas juntas, formando uma abóbada de aço sobre a sua cabeça sem que ele possa percebê-lo entretanto, com os seus próprios olhos, são o símbolo daquelas presenças ou inteligências invisíveis que se acham constantemente ao nosso redor, sem que delas tomemos consciência; mudas testemunhas dos nossos actos, que nos vigiam, nos protegem e nos ajudam a levar a termo os nossos propósitos e as nossas aspirações mais elevadas.
A obrigação contrai-se livre e espontaneamente “com pleno e profundo convencimento de alma”. Heis aqui uma condição fundamental do seu significado e da sua validade: não se trata, pois, de uma obrigação obtida com lisonjas, promessas ou ameaças, com a qual se faz a ligação contra a própria vontade ou contra os desejos e aspirações, podendo o aspirante de tal forma ser constrangido a fazer algo que repugne, como em qualquer sociedade secreta, cuja orientação seja diferente da genuína Tradição Iniciática.
Isto é o que caracteriza a Maçonaria e a diferencia nitidamente de outras sociedades de diversas finalidades que tenham o segredo como meio ou instrumento da sua actividade. Os seus elevados Princípios e a lealdade e fidelidade aos mesmos que é pedida aos seus iniciados, dos quais quer fazer homens livres no sentido mais pleno e profundo da palavra, colocam-na eternamente acima das críticas interessadas e malévolas que lhe são feitas, sob o pretexto do segredo no qual se desenvolvem as suas actividades.
O Maçom contrai a obrigação que o liga à Ordem pelas mais elevadas aspirações da sua alma, com a mais plena, livre e espontânea vontade, e até o último momento dá-se-lhe a liberdade de se retirar, se assim o preferir.
As três obrigações
A primeira das obrigações contraídas pelo juramento, refere-se aos segredos da Ordem. O recipiendário obriga-se a “não os revelar a ninguém que não seja um bom e legítimo Maçom”. É a obrigação da discrição no que se refere a todo ensinamento esotérico, para que a mesma seja útil e proveitosa, e que dito ensinamento possa transmitir-se unicamente a quem estiver devidamente preparado para recebê-lo, isto é, capacitado a entendê-lo no seu sentido real.
Esta obrigação está em perfeito acordo com as palavras de Jesus: “Não deis coisas sagradas aos cães ou pérolas aos porcos”, e de Buda: “Não turbe o sábio a mente do homem de inteligência retardada”; como também na máxima hermética: “Os lábios da sabedoria estão mudos fora dos ouvidos da compreensão”.
O termo cão, nas palavras de Jesus, nada significa de injurioso, sendo uma palavra de uso no Oriente no sentido de, profano ou “estranho”; e no que diz respeito às pérolas, estas representam uma imagem muito expressiva dos fragmentos da Sabedoria que o iniciado deve reunir cuidadosamente, no místico silêncio da alma, em vez de “atirá-las” ao mundo das paixões, onde ninguém sabedoria compreendê-las.
A segunda obrigação é a promessa de “não escrever”, gravar ou fazer qualquer sinal pelo qual possam conhecer-se tanto a Palavra Sagrada, como os meios de comunicação e reconhecimento entre os maçons. Esta obrigação, no seu sentido exotérico, destina-se a proteger a unidade e inviolabilidade da Ordem, e, portanto, a continuidade da Tradição que por meio dela se transmite simbolicamente.
Esotericamente a palavra sagrada refere-se mais particularmente ao místico Verbo ou Ideal Divino que cada um recebe no íntimo do seu ser para expressá-lo numa actividade construtiva – actividade que será o meio pelo qual será exteriormente reconhecido como Maçom por todos “os bons e legítimos maçons”. Esta palavra não deve dar-se a conhecer exteriormente a ninguém, pois, perderia a sua eficácia, assim como a semente perde o seu valor vital se for afastada da terra aonde deve germinar.
A terceira obrigação é o reconhecimento dos deveres de solidariedade que o unem aos demais maçons pelo mesmo facto de ter adquirido a consciência da sua relação para com eles, que é a fraternidade. Deve, pois, considerá-los a todos como irmãos e a eles sentir-se ligado por aquela fraternidade espiritual que brota da comunidade de ideais, tendências e aspirações, que é mais forte e profunda que qualquer outra fraternidade puramente carnal ou exterior.
Assim compromete-se a ajudá-los e socorrê-los ondas as suas forças o permitam, tanto moral como materialmente. Isto não quer dizer que deva fazê-lo com prejuízo de outrem, amparando injustiças e acções desonestas, mas que deve cumprir para com eles o primeiro dever de humanidade, fazendo em todas as circunstâncias tudo o que o amor fraternal e o seu próprio senso do bem, lhe sugerirem, evitando tudo quanto possa prejudicá-los directa ou indirectamente.
Antes de faltar a este juramento, o Maçom prefere “ter a garganta cortada e a língua arrancada pela raiz”, o que significa perder o poder da palavra, cuja eficácia construtiva e regeneradora depende do segredo e da veneração com os quais se custodia em religioso silêncio exterior, para que possa livremente manifestar-se no seu interior.
É o castigo simbólico que o indiscreto recebe, naturalmente, como consequência necessária das suas próprias acções, quando faz uso indevido, egoísta ou volúvel do que lhe tiver sido confiado. Comunicando aquilo que não deveria, perde ou retarda a sua própria capacidade de expressá-lo, assim como a capacidade de alcançar uma justa e perfeita compreensão das coisas. O indiscreto e o infiel nunca podem estabelecer-se na Verdade, que se envolve nos seus véus mais impenetráveis e se afasta deles para sempre.
Assim, a língua acaba efectivamente arrancada da sua raiz, que não pode ser outra coisa senão a própria verdade.
A luz
O juramento ou obrigação que acaba de contrair perante todos, e, fundamentalmente, consigo mesmo, com o propósito que exprime o testamento na sua vida profana, e com o qual as resoluções iniciais desse mesmo testamento se acham solenemente confirmadas e seladas, fazem o recipiendário digno de ver a luz, caindo-se-lhe por completo dos olhos, a venda de ilusão que lhe impedia de ver a Realidade em si mesmo.
E a luz é lhe dada simbolicamente por duas vezes, depois de tê-lo feito sair momentaneamente do Templo para que recomponha as irregularidades simbólicas do seu traje.
Tendo-se declarado disposto a confirmar o seu juramento – à falta do qual sempre se lhe concede a faculdade de retirar-se – cai dos seus olhos a venda com a qual até agora tinha podido ser admitido no Templo. Vê ao redor de si, na semi-escuridão do lugar em que se encontra, a todos os irmãos de pé com a cabeça envolta num capuz negro, portando na mão esquerda uma espada que é dirigida ao seu peito.
Estas espadas não são, entretanto, uma ameaça. Partindo da mão esquerda, ou seja, do lado do coração, são o símbolo dos pensamentos de todos os presentes, ainda desconhecidos para ele (e por esta razão velados) que convergem com benevolência em direcção ao neófito e simbolizam também a unidade de sentimentos com os quais ele é recebido.
Estes irmãos fazem-no notar que na qualidade de testemunhas silenciosas das suas obrigações (e imagem das forças silenciosas que nos rodeiam), estão dispostos a ajudá-lo e socorrê-lo desde que cumpra com as suas obrigações, assim como, a castigá-lo como é devido em caso de transgressão. Assim, oferece-se lhe pela última vez a oportunidade de se retirar, e com a certeza de que o juramento pronunciado não lhe provoca nenhuma inquietação, concede-se lhe a plena luz. Os irmãos presentes descobrem-se, abaixando as suas espadas ficando à ordem, enquanto o Templo é iluminado com toda a claridade.
As espadas são o símbolo de todas as forças desconhecidas que na vida sempre favorecem e auxiliam a quem permanece constantemente fiel aos seus ideais e obrigações apesar da situação difícil e das condições em aparência contrárias em que se encontre, enquanto que essas forças se convertem noutros tantos flagelos, remorsos e castigos, para quem cede e se assusta renunciando e faltando ao cumprimento das suas obrigações e ideais.
A vida torna-se sempre mais dura, difícil e insatisfatória para os que renunciam aos seus ideais e às suas mais elevadas aspirações; aqueles que cedem à aparente contrariedade dos homens e das coisas e se deixam desalentar pela sua frieza e falta de cooperação. Nunca e por nenhuma razão deve alguém renunciar à expressão do seu próprio Ser mais elevado e à do Divino desejo que constitui o anseio do seu coração. São estes para ele, além de um privilégio, uma obrigação e um dever cujo perfeito cumprimento lhe assegura a investidura da sua Primogenitura. Se bem que deve saber esperar com firmeza e confiança, sem que o seu coração ao que nele representa o reflexo do próprio Verbo Divino e a sua mais elevada visão da Realidade.
Com esta firme atitude da sua consciência diante das provas contrárias da vida, faz-se a luz gradualmente, no seu mundo exterior. As adversidades e os próprios inimigos descobrem-se, e aparecem agora como “amigos”, tendo deposto a máscara, ou aparência hostil que escondia os seus semblantes, e toda a sombra pavorosa desvanece-se da sua existência. É a plena luz que passa livremente do interior e é derramada sobre o mundo exterior, uma vez que tenhamos sabido resistir com Fé inalterável, fidelidade e persistência a todas as contrariedades que nos tenham sido apresentadas.
A luz tem sido sempre considerada como o símbolo mais apropriado da Divindade e da Realidade. O próprio São João, o apóstolo iniciado, diz na sua primeira epístola: “Deus é Luz e nele não há trevas”. Conhecer a luz é, pois, conhecer a Verdade e comunicar-se com a própria Divindade, que é Bem Omnipresente, e desenvolver outros tantos Centros ou Canais, por meio dos quais essa Luz se manifesta na nossa vida e ao nosso redor.
A Luz que o iniciado recebe, como prémio e consequência dos seus esforços, é um símbolo de transcendental importância em todas as suas acepções. A capacidade de ver a luz e entrar na sua percepção constitui, pois, toda a essência e finalidade da iniciação.
Restituição à visão exterior das coisas, uma vez removida a venda que lhe cobria os olhos, depois de ter sido iniciado na visão interior da consciência, o candidato experimenta de início uma profunda decepção, uma vez que a realidade exterior aparece no seu aspecto mais sombrio e negativo. Mas, aprendendo a combinar a visão dos sentidos com a íntima visão da Realidade, adquire também a capacidade de manifestar e ver exteriormente a Luz da qual adquiriu a percepção interior, e a ilusão do aparente perde para ele todo o poder.
A consagração
Conduzido novamente ao altar diante do qual deve, como antes, postar-se em atitude coerente com a importância do acto que será realizado deve o recipiendário confirmar novamente as suas obrigações, após o que o Venerável Mestre com a espada flamejante apoiada sobre a cabeça daquele, pronuncia a fórmula da consagração, acompanhada pelos golpes misteriosos do grau. Isto feito, faz com que se levante e abraça-o, dando-lhe por primeira vez o título de irmão, dizendo ao cingir-lhe o avental:
“Recebe este avental, distintivo do Maçom, mais honroso que todas as Condecorações humanas, porque simboliza o trabalho, que é o primeiro dever do homem e a fonte de todos os bens, ele que dá o direito de sentar-vos entre nós, e sem o qual nunca deveis estar em Loja”.
A espada flamejante, emblema do Magistério, e o avental de pele, que caracteriza todo Maçom, são dois símbolos que merecem toda a nossa consideração.
Encontramos tanto este como aquele nos versículos 21 e 24 do terceiro capítulo do Génesis, aonde foi dito que o Eterno fez túnicas de pele para Adão e sua mulher e os vestiu. E depois de ter expulsado o homem do Jardim do Éden “para que trabalhasse a terra” colocou no Oriente do mesmo Jardim do Éden uns querubins, que mostravam uma espada flamejante, “para custodiar o Caminho da Árvore da Vida”.
É evidente que as túnicas de pele, às quais aqui se faz menção, simbolizam o corpo físico do homem, do qual se reveste a consciência individualizada (Adão) e o seu reflexo pessoal (sua mulher) ao serem enviados do estado de beatitude edénica (o mundo mental ou interior) sobre a terra (ou realidade objectiva) para trabalhá-la, ou nela expressar as suas qualidades divinas.
Da mesma forma, a espada flamejante que se encontra com os querubins anjos ou Mensageiros do Divino no homem) no Oriente, ou origem do Mundo Mental ou interior da consciência, é um símbolo manifesto do Poder Divino, “que é poder criador” latente em todo ser humano, e que é privilégio do Magistério realizar, ou recuperar, manifestando assim as mais elevadas possibilidades da vida, cujo Caminho abre e custodia.
O avental que recebe, e com o qual se reveste todo Maçom, é um emblema do próprio corpo físico com o qual vimos para trabalhar sobre a terra, com o objectivo de adquirir aquelas experiências que nos transformarão em artistas verdadeiros e acabarão por dar-nos o magistério ou domínio completo sobre o nosso mundo.
A percepção deste avental, ou túnica de pele, como simples traje ou envoltório exterior, assim como da essência do nosso próprio ser, é consequência da visão espiritual que conseguimos através da busca da Luz, desde o Ocidente dos sentidos ao Oriente da Realidade. Mas isto não deve conduzir-nos a desprezá-lo, por ser parte integrante e necessário à perfeita manifestação do homem na vida terrestre, mediante a qual deverá ir depurando-se, escalando graus em prol de uma existência divina.
As luvas
Com o avental davam-se ao recém iniciado, e em alguns países este costume ainda persiste, dois pares de luvas, um para ele e outro para que ele dê à mulher que mais ama.
As luvas brancas são um símbolo evidente da pureza de intenções que o Maçom sempre deve observar nas suas acções: fazer o Bem pelo próprio Bem, esforçando-se em toda actividade ou trabalho, para fazer o melhor que puder para a Glória do G. A., ou seja, para a expressão do Divino, em vez de deixar-se guiar pelas considerações de conveniência e utilidade material ou visar principalmente o fruto ou benefício directo da acção. Heis aqui o significado das luvas brancas que se lhe oferecem, e que ele deve ter cuidado de não deixar sujar e manchar com o egoísmo e com a escravidão das paixões que embrutecem o homem.
Com o outro par de luvas, “para a mulher que mais ama”, a Maçonaria quer mostrar como a sua influência moralizadora, iniciática e regeneradora, deve estender-se também à mulher, ainda que esta não seja directamente admitida nos seus trabalhos. Com estas luvas, a mulher que cada recém iniciado reputa como a mais digna de possuí-las, ingressa espiritualmente na Corrente de Solidariedade Ideal e Construtiva que a Maçonaria forma no mundo todo, como companheira do homem, sem necessidade de passar pelas provas de iniciação.
Assim pois, apesar de que alguns pretendem franquear-lhes e outro negar-lhe a entrada nos nossos Templos, a debatida questão de admitir a mulher na Maçonaria acha-se já potencialmente resolvida a seu favor, pois que pelas qualidades que a fazem estimar, fica admitida nesta forma, e adoptada espiritualmente no seio da Instituição.
Em vez das luvas, usa-se entregar, em alguns países, um malho e um cinzel, símbolos do trabalho que o Aprendiz deve executar sobre si mesmo, despojando-se das asperezas da pedra bruta que representa a sua personalidade, e uma régua “para que nunca se separe da linha recta do dever”. Estes símbolos são relativamente equivalentes e não é necessário discutir o valor de una preferentemente aos outros. O essencial é reconhecê-los como símbolos e pôr em prática os seus ensinamentos alegóricos.
A palavra
Tendo sido consagrado Maçom, o neófito está agora em condições de receber os sinais, marcha e a bateria do grau, bem como, a palavra sagrada e de modo de dá-la, juntamente com os meios de reconhecimento, que constituem o fundamento das suas instruções.
Estudaremos noutro local o significado e o valor dos sinais e da marcha, no que diz respeito especialmente à aplicação da Doutrina Maçónica, contentando-nos por ora em ver o que representa a Palavra para o iniciado que tenha recebido a Luz.
O primeiro versículo do Evangelho de São João, sobre o qual são colocados os instrumentos emblemáticos da Maçonaria ao abrirem-se os trabalhos, dá-nos a chave do amplo significado da Palavra para o Maçom. Constituindo este versículo o fundamento de toda actividade ou trabalho maçónico, devemos perceber o seu significado, antes de ver a exacta interpretação, em particular, da palavra sagrada do Aprendiz.
A afirmação No Princípio era o Verbo (ou seja, a Palavra) é eminentemente iniciática, isto é, não pode ser entendida sem entrar no sentido interior das coisas. É a comprovação da Verdade de que tudo se manifesta desde um Princípio Interior ou espiritual chamado Verbo ou Palavra, ou seja, afirmação criadora da sua realidade, que o manifesta e faz existir desde o estado de Realidade Imanente, latente ou potencial.
Dizendo “no Princípio era o Verbo” reconhecemos a origem espiritual de tudo o que vemos, ou se apresenta de alguma forma diante dos nossos sentidos. De tudo sem distinção podemos dizer que no princípio (ou na sua origem) era ou foi um Verbo, Palavra, Pensamento não pode ser senão uma manifestação da consciência, tudo o que é exterior tem uma origem interior no ser onde teve nascimento primeiro como Causa, cujo efeito agora estamos percebendo.
Isto aplica-se tanto à criação ou formação do Universo desde o seu Primeiro Princípio (que é Ser, e como tal, fundamento de tudo o que existe, espaço e tempo incluídos) como à particular criação ou formação do ser, do homem e da sua vida manifestada. Tudo o que nesta aparece teve a sua origem num verbo (pensamento, desejo, aspiração, afirmação ou estado de consciência que é a causa subtil da sua existência, como efeito visível).
É, pois, de importância transcendente o que o homem diz, pensa ou afirma ainda que somente dentro de si mesmo. Por este único facto, participa consciente ou inconscientemente do Poder Criador Universal do Verbo e da sua actividade construtiva. É privilégio e prerrogativa do Maçom fazê-lo consciente e sabiamente, enquanto o profano o faz inconsciente e alienadamente.
Aprender o recto uso da Palavra e disciplinar-se nele mesmo: heis aqui a tarefa fundamental de que se incumbe o Maçom. Com esta disciplina faz a sua actividade construtiva e em harmonia com os planos do GADU, isto é, com os Princípios Universais da Verdade.
Existe pois, uma palavra sagrada, diferente de todas as palavras profanas que são os nossos erros, pensamentos negativos e juízos formados sobre a aparência exterior das coisas. A palavra sagrada é o Verbo, isto é, o que de mais elevado e de acordo com a Realidade podemos pensar ou imaginar, uma manifestação da Luz que do interior nos ilumina e cuja natureza é idêntica a essa Luz. É o nosso ideal e o nosso conceito do que há de mais Justo, Bom, Formoso, Grande,
Nobre e Verdadeiro. Adaptando as nossas palavras a este Verbo, pronunciamos a “Palavra sagrada” e decretamos o seu estabelecimento. Pois, como foi dito: “Assim mesmo decretarás alguma coisa, e esta será estabelecida em ti”, e sobre teus caminhos resplandecerá a Luz” (Jó, 22-28).
Significado da palavra
A Palavra Sagrada, dada pelo Venerável Mestre que toma assento no Oriente, simboliza a Palavra Sagrada dada individualmente a cada um de nós pelo Espírito da Verdade que igualmente se posta ou mora no Oriente ou origem do nosso ser. Também representa a instrução que é dada ou deveria ser dada em Loja (ou lugar aonde se manifesta o Logos ou Palavra) e que sempre deve partir do Oriente para ser efectiva, isto é, do que cada um pode imaginar individualmente de mais nobre e elevado. Deve ser Luz inspiradora e vida, como é a luz do sol que surge do Oriente material, iluminando e vivificando o nosso planeta.
À semelhança da Palavra Sagrada do Aprendiz, que se pronuncia ao ouvido, letra por letra, assim deve ser dada a instrução Maçónica. Dá-se a cada um o primeiro rudimento, a primeira letra da Verdade para que meditando e estudando sobre o seu significado, chegue pelo seu próprio esforço a conhecer e formular a segunda, que lhe fará digno de receber útil e proveitosamente a terceira. Desta maneira tem sido e sempre foi comunicada a Doutrina Iniciática em todos os tempos, sendo o próprio simbolismo maçónico a primeira letra da mística Palavra Sagrada da Verdade.
O significado particular da Palavra Sagrada do Aprendiz é: “Nele há Força”. Isto quer dizer que o Aprendiz reconhece por meio da palavra sagrada, ou seja, do Verbo Divino nele próprio, que a força verdadeira não se encontra no exterior, no mundo dos efeitos, mas interiormente, na Realidade que constitui o Princípio Imanente e Transcendente de tudo o que existe.
Esta transformação completa do ponto de vista da consciência – que distingue o iniciado do profano – não pode ser senão, o coroamento e a consequência da sua iniciação. É preciso, pois, entrar interiormente na percepção da Realidade, para reconhecer que a força está nela, e não nas coisas aparentes que vemos, estabelecendo-nos firmemente neste reconhecimento fundamental, como coluna do simbólico Templo que erigimos, e baseando sobre este reconhecimento íntimo e secreto, todas as nossas acções.
A análise da Palavra, nas três letras hebraicas de que se compõe, dá-nos um guia para compreender o sentido profundo que tomam as três letras na sua combinação.
A primeira letra refere-se, como é evidente, ao corpo físico e ao mundo objectivo que constitui a morada ou habitação do homem. Estudando a primeira letra, o homem aprende a conhecer a realidade exterior e o mundo dos efeitos, e meditando sobre a íntima essência deste, chegará a perceber a realidade interior que se esconde atrás desta aparência, representada pela segunda letra que deve ser individualmente encontrada ou descoberta.
Esta representa a consciência ou mundo interior que cada um de nós acha em si mesmo, o Mundo Mental, no qual se expressa individualmente o Ser, produzindo assim a causa de todo o feito visível. O descobrimento ou percepção individual desta segunda letra põe o iniciado em atitude para comunicação ou recebimento da terceira.
O significado desta última deve ser relacionado com aquilo que já temos visto quando falamos do simbólico instrumento, do qual a própria letra representa admiravelmente a sua forma. Refere-se às possibilidades do Mundo Divino ou Transcendente que se encontram no homem em estado latente, e que podem manifestar-se como um raio, ou como o brilho de uma espada, ante o olho da nossa consciência, que constitui o ponto central ou eixo do nosso próprio mundo interior “a luz que ilumina a morada do homem”.
Restituição dos metais
A cerimónia iniciática dá-se por concluída no mesmo ponto em que teve ser início: tendo-se feito assentar o recém iniciado no lugar que lhe corresponde, isto é, no primeiro posto ao Oriente da Coluna do Norte, para que possa continuar dali no simbólico caminho que, em sentido inverso à direcção das suas viagens, lhe fará realizar na Loja, o seu progresso maçónico. Após a proclamação e o reconhecimento de todos os seus irmãos, restituem-se-lhe os metais, cuidadosamente guardados, dos quais tinha sido despojado ao entrar na câmara de reflexões.
É claro que esta restituição tem também um significado simbólico: depois de ter aprendido a pensar por si mesmo, com o esforço alegórico das três viagens, depois de ter visto a luz e recebido a Palavra da Verdade, pode reconhecer novamente as possessões intelectuais e materiais de que antes teve de despojar-se para poder empreender o Caminho da Verdade.
Agora tem o dever de fazer das mesmas aquele sábio uso para qual se lhe restitui a sua posse, pois, tudo indistintamente tem-nos sido dado e sempre será dado para seu uso. Não existe posse de nenhum tipo que possamos reter para sempre. Nem as nossas próprias criações intelectuais, nem tão pouco os átomos de que se compõe o nosso corpo, que estão sujeitos a uma incessante mudança. Devemos pois, converter-nos em canais sábios e úteis de tudo o que passa pelas nossas mãos, transmitindo-o como o temos recebido, em benefício dos demais. Isto ensinar-nos-á o primeiro uso que deverá fazer o recém iniciado, dos metais que lhe foram devolvidos, dando a sua primeira contribuição à Solidariedade Maçónica.
Maxell Egens

- O avental e o seu significado
- O significado da cerimónia de elevação (I)
- Tronco da Solidariedade, Tronco da Beneficência, Tronco da Viúva
- Os Mistérios da letra YOD
- Iniciação e vida maçónica


Excelente site com conteúdo que irão acrescentar muito no meu aprendizado.
O início de todas as coisas poderam ser melhor do quê o fim.
Obrigado pela atenção , a tu amigo Antonio Jorge!
Eterno aprendiz:. Camargo Pires.