A Maçonaria especulativa, instituída formalmente em 1717, emergiu num período de efervescência intelectual marcado pelo Iluminismo, movimento que defendia a razão, a liberdade e o progresso moral da humanidade. Entre os grandes pensadores dessa época, Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão (nativo do Reino da Prússia), destacou-se por sua formulação do dever moral universal, da paz perpétua e da doutrina do idealismo transcendental, conceitos que guardam notáveis paralelos com a filosofia maçónica. Kant propôs que a moralidade deveria basear-se em princípios racionais e universais, tal como ensina a Maçonaria ao incentivar os seus membros a agirem conforme valores éticos inquestionáveis, respeitando a dignidade humana e promovendo o bem comum.
Além disso, a visão kantiana de uma sociedade estruturada pela razão e pelo direito, culminando na paz entre as nações, reflecte-se no ideal maçónico da fraternidade universal. Para ambos, a construção de uma ordem social justa e harmónica exige a superação da ignorância e do egoísmo em prol da busca pela verdade e pelo aperfeiçoamento humano. Assim, a Maçonaria, ao absorver as ideias iluministas, tornou-se um espaço de reflexão e prática dos princípios kantianos, consolidando-se como uma instituição comprometida com o progresso moral e intelectual da humanidade.
Analisando cada um destes pontos do pensamento kantiano:
1. O dever moral universal — O dever moral é a ética baseada no conceito de dever e racionalidade, conhecida como ética deontológica. Para ele, a moralidade não deveria depender de circunstâncias ou consequências, mas sim de princípios universais derivados da razão.
Ele formulou o Imperativo Categórico, que é a base do seu conceito de dever moral universal. Algumas das suas formulações mais conhecidas são:
– “Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que se torne uma lei universal” (Ou seja, antes de agir, pergunte-se: Se todos agissem assim, o mundo seria moralmente aceitável?);
– “Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre como um fim, e nunca apenas como um meio” (Isso significa respeitar a dignidade humana e não instrumentalizar os outros para objectivos próprios).
Assim, o dever moral é universal porque é fundamentado na razão pura, válida para todos os seres racionais, independentemente de cultura, religião ou circunstâncias.
2. A paz perpétua — No seu ensaio À Paz Perpétua (Zum Ewigen Frieden, 1795), Kant propõe um modelo racional para acabar com as guerras e estabelecer uma paz duradoura entre as nações. Os seus principais princípios incluem:
- Repúblicas com constituições baseadas na liberdade e na separação de poderes, pois ele acreditava que governos despóticos eram mais propensos à guerra;
- Direito internacional baseado numa federação de Estados livres, uma ideia precursora da Liga das Nações e da ONU;
- Respeito ao direito cosmopolita e hospitalidade entre os povos, promovendo cooperação e não conquista.
Para Kant, a guerra era irracional e contrária à moralidade, e somente um sistema internacional baseado na razão e no direito poderia garantir uma paz verdadeira e duradoura.
3. O idealismo transcendental — O idealismo transcendental é a base da epistemologia kantiana e aparece principalmente na sua obra Crítica da Razão Pura (1781). Kant argumenta que:
- O homem não conhece a realidade como ela é em si mesma (noumenon), mas apenas como ela se lhe aparece (fenómeno);
- O conhecimento do mundo é mediado por estruturas a priori da mente, como tempo, espaço e categorias do entendimento (causalidade, substância, etc.).
Ou seja, o mundo percebido é uma construção da mente a partir das informações dos sentidos. Isso não significa que o mundo exterior não exista, mas sim que nunca é possível acessá-lo directamente sem a mediação da estrutura cognitiva pessoal.
Desta forma, Kant uniu racionalidade, moralidade e política numa visão iluminista fundamentada na razão, buscando uma ordem universal tanto no conhecimento quanto na ética e nas relações entre as nações.
O Iluminismo e a Maçonaria
A Maçonaria especulativa foi fortemente influenciada pelo Iluminismo e as suas premissas filosóficas. O pensamento kantiano, como parte desse movimento intelectual, tem várias conexões com a visão maçónica, especialmente no que se refere ao dever moral, à paz universal e ao conhecimento humano. Seguem alguns pontos dessas relações em detalhe:
1. O dever moral universal e a ética maçónica — A Maçonaria é uma fraternidade baseada em princípios éticos universais, promovendo a busca pela verdade, a liberdade e o aperfeiçoamento do indivíduo. A ética kantiana do Imperativo Categórico guarda grande semelhança com a moral maçónica:
- O conceito de agir conforme princípios universais ressoa com os ensinamentos maçónicos de trabalhar para o bem da humanidade, respeitando a dignidade e a liberdade de cada indivíduo;
- O preceito “Tratar os outros como um fim, e não apenas como um meio” pode ser visto no espírito fraternal da Maçonaria, onde os Irmãos se ajudam mutuamente sem interesses egoístas;
- A ênfase no dever e no autodomínio na conduta moral reflecte a filosofia maçónica de constante aperfeiçoamento pessoal para se tornar um “homem de bem”.
Assim, a Maçonaria e Kant compartilham a visão de que a moralidade deve ser universal, fundamentada na razão e na dignidade humana.
2. A paz perpétua e a fraternidade universal — Kant defendia que uma ordem internacional baseada em princípios republicanos e no respeito aos direitos dos povos garantiria a paz entre as nações. Este pensamento está alinhado com os ideais maçónicos de fraternidade universal e cooperação pacífica:
- A Maçonaria se vê como uma sociedade sem fronteiras, onde os homens, independentemente de nacionalidade, raça ou religião, são Irmãos;
- Em diversos momentos históricos, a Maçonaria defendeu ideias liberais e democráticas, contribuindo para a formação de governos constitucionais e para o fortalecimento do Estado de Direito, o que ecoa a visão kantiana de que repúblicas bem organizadas favorecem a paz;
- A noção de uma federação de Estados livres, proposta por Kant, se assemelha ao ideal maçónico de uma irmandade mundial baseada na razão e na justiça.
Desta forma, tanto a filosofia kantiana quanto a Maçonaria buscam construir uma ordem social pautada pela razão, pela liberdade e pela fraternidade, evitando a violência e promovendo a concórdia.
3. O idealismo transcendental e a busca pelo conhecimento — O pensamento de Kant sobre o conhecimento e a realidade também encontra paralelos na Maçonaria:
- A distinção entre fenómeno e noumenon (ou seja, entre o mundo como aparece e o mundo como realmente é) pode ser comparada à jornada iniciática do Maçom. O Aprendiz vê o mundo de forma limitada, mas, à medida que avança nos graus, amplia a sua percepção e compreensão da realidade;
- A Maçonaria incentiva o estudo e o uso da razão para buscar a verdade, assim como Kant propunha uma investigação racional sobre os limites e capacidades do entendimento humano;
- O ideal de “sair da caverna da ignorância” para alcançar uma compreensão mais elevada do universo, presente nos ensinamentos maçónicos, reflecte a visão kantiana de que o conhecimento verdadeiro requer um esforço activo do intelecto.
Desta forma, pode-se dizer que a filosofia kantiana e a Maçonaria compartilham uma mesma matriz iluminista, fundamentada na razão, na liberdade e na moralidade universal. Ambos defendem a busca pelo aperfeiçoamento moral e intelectual do ser humano, o respeito à dignidade e à autonomia dos indivíduos, a fraternidade como base para a construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa, e a promoção da paz e da ordem por meio de princípios racionais e éticos.
Ao absorver as ideias iluministas, a Maçonaria também incorporou muitas das reflexões kantianas, ainda que indirectamente, fortalecendo a sua missão de construir uma sociedade mais justa e esclarecida.
Giovanni Angius, MI-33º REAA – ARLS Orvalho do Hérmon nº 21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo — Brasil

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Gostaria de começar por felicitar o I. Giovanni Angius, MI-33º REAA pelo tema que meritoriamente abordou, face à reconhecida complexidade da filosofia kantiana, bem como pela clareza com que nos bridou na presente dissertação, com a excelência da análise comparativa formulada.
Desejo, no entanto, dar alguns contributos relacionados com o tema da ética maçónica, mas numa ótica mais lata, contribuindo, penso eu, para um aprofundamento deste tema.
A ética é uma área central da filosofia que investiga os princípios que guiam a ação humana determinando o que é moralmente correto ou incorreto.
As principais abordagens que dominam a ética filosófica, oferecendo cada uma delas uma perspectiva distinta sobre o que constitui uma ação moralmente boa, são três:
1. A ética deontológica ou ética do dever sustenta que a moralidade das ações é determinada por regras ou deveres. As ações são moralmente corretas se cumprem um Dever ou seguem uma regra moral, independentemente das consequências;
2. A ética das consequências ou “consequencialista” defende que a moralidade das ações é determinada pelas suas consequências. As ações são moralmente corretas se forem aquelas que produzem as melhores consequências possíveis. A sua teoria mais expressiva é o utilitarismo;
3. A ética das virtudes ou ética aristotélica foca-se no carácter e nas virtudes do agente moral, em vez das regras ou consequências específicas. As ações moralmente corretas são as que são realizadas por uma pessoa virtuosa, manifestando excelência moral.
Em minha opinião, a ética maçónica, tomando por base o REAA, possui uma subtileza que a torna inigualavelmente rica, pois representa uma síntese notável das três correntes filosóficas indicadas, o que lhe permite, por exemplo, superar as três críticas mais comuns à moral Kantiana: não resolver conflitos entre deveres, desculpar a negligência bem-intencionada e ignorar o papel das emoções na moralidade.
Mas sejamos mais precisos. À semelhança da ética deontológica a ética maçónica também se baseia, em princípios éticos universais, ou seja, em imperativos categóricos.
Basta recordar que, durante a cerimónia de iniciação, o VM transmite, ao candidato o seguinte: “Nunca faças aos outros o que não gostarias que te fizessem” (Versão negativa), e “Faz aos outros todo o bem que gostarias que eles te fizessem” (Versão positiva), acrescentando, “Não esqueças nunca estes sublimes preceitos da moral”.
Estamos perante a Regra de Ouro, um princípio ético e moral universal de reciprocidade, presente em quase todas as religiões e filosofias e de fácil compreensão, dependendo a sua aplicabilidade de uma habituação, que é a de sistematicamente nos colocarmos “no lugar do outro”. Esta máxima, apesar de não resolver todos os problemas, aplica-se em tantos contextos específicos, que grandes gestores de empresas a consideram uma regra excecional. Por exemplo, Jim Blanchard, que, em 1998, foi CEO da Synovus Financial Corporation, uma holding de 38 bancos, disse que “Se tivéssemos uma só regra nesta empresa seria a Regra de Ouro”. Se conseguíssemos colocá-la em prática não seriam necessárias quaisquer outras regras”. (MAXWELL, John C., Ética 101, SmarTBook, 2003)
Mas mais, esta regra implica agir “de tal maneira que tratemos a humanidade, sempre como um fim e nunca apenas como um meio” , (citando o I. Giovanni Angius).
Mas a ética maçónica é também uma ética das virtudes. A este respeito gostaria de acrescentar que a Maçonaria, no domínio da ética, combina a ética deontológica, em que Kant surge como um dos seus grandes defensores, com a ética das virtudes, linha filosófica representada por Aristóteles, precursor desta abordagem e desta disciplina.
Basta relembrarmos da cerimónia de iniciação do 1º Grau do REAA, onde o VM diz a dado passo ao iniciando: “Unimo-nos em fraternidade para trabalhar em conjunto e sem descanso para o nosso aperfeiçoamento, ao serviço do nosso semelhante. Procuramos habituar o nosso coração a entregar-se apenas a objetivos nobres e o nosso espírito a conceber ideais de valor e de virtude”.
E mais adiante, refere expressamente: “O segundo dever é combater as paixões que desonram o Ser Humano, praticar as virtudes que tendem a tornar-nos mais perfeitos e socorrer os II.”.
Em relação à Ética das consequências (utilitarismo), embora não se encontre uma citação tão específica, como as anteriores, a Maçonaria não valida ações em que um maçom, apesar de ter uma boa intenção, é tão descuidado que origina consequências desastrosas para terceiros, dado que ela faz claros apelos à nossa retidão, sentido de justiça e verdade, nos nossos comportamentos com os outros. E como muito bem refere o nosso inestimável I. M.M. António Jorge, no nº 6 da sua excelente Prancha, recentemente publicada, intitulada “O Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA: Um Caminho de Transformação”: “O Rito Escocês Antigo e Aceite, no seu conjunto, ensina que os indivíduos devem ser responsáveis pelas suas ações, viver de acordo com os seus princípios e buscar o aperfeiçoamento pessoal. Quando os indivíduos se responsabilizam, a sociedade torna-se mais ética”.
É óbvio que, o facto de um indivíduo ser responsável pelas suas ações, implica necessariamente ser responsável pelas respetivas consequências, por isso podemos afirmar que a maçonaria não desculpa, de modo algum, a negligência bem-intencionada.
Quanto à última objeção à ética kantiana, a de ignorar o papel das emoções na moralidade direi apenas que a maçonaria ao estimular o desenvolvimento da nossa inteligência emocional, permite que cada maçom identifique, compreenda e gira as suas próprias emoções, bem como as das pessoas ao seu redor, para alcançar resultados positivos em diversas áreas da vida.
Termino, renovando os meus agradecimentos aos II. que me proporcionaram esta reflexão, permitindo-me olhar um pouco mais além.
Depois de Platão e sua Doutrina Metafísica, elaborada cientificamente por Aristóteles em sua definição em si de alma humana, temos quase nada de novo na Filosofia.
Talvez, a inovação Kantiana foi traduzir a Filosofia como algo racional para os nossos tempos: República (Platão) com modelos de divisão de poder e sua pacificidade pra elaborar uma sociedade melhor (Aristóteles na sua fase moderna chamada “Sociologia”).
É sabido hoje que a Filosofia guia a humanidade mas os primeiros líderes deixaram um legado imortal e os outros poucos acrescentam – a não ser em ideias espassas e em vocabulário que ajudam a entender os contextos da época, o que, historicamente, é muito válido.
Excelente artigo de um tio da terra, capixaba.
Parabéns pelo excelente trabalho que mostra a semelhança do pensamento maçônico e de Kant. Obrigado!
M.M. PROF. FRANCISCO DE PAULA, SEC. DE RITUALÍSTICA, KANT PREGA E VIVE A PERFEIÇÃO ENTRE NÓS IRMÃOS, LEMBRANDO DO GREGOS, E DO MOMENTO POLÍTICO QUE VIVEMOS E COMO A ESPÚRIA ENTRE EM NOSSOS MEIOS NO BRASIL, POIS CONVIVO NUMA CIDADE ONDE UMA LOJA, PROÍBE DE OUTRA LOJA, CONVERSAR, SOMOS IGUAIS, PRECISAMOS FAZER COM QUE OS METAIS, SEJAM PARA TODOS, E ESTAMOS RETROCEDENDO EM TERMOS DE BRASIL, ONDE ESTÁ “NOSSA ORDEM E PROGRESSO”, “INDEPENDÊNCIA OU MORTE”, LUCRO LUCRO LUCRO, E DEIXAMOS DE FAZER O BEM NÃO SEI A QUEM, O ILUMISMO ESTÁ PRESENTE EM NOSSOS ATOS, EM NOSSA VIDA, ARTIGO MUITO BOM, PARABÉNS PERFEITO. TFA
O Iluminismo realmente estava efervescente em 1717, mas Kant nem tinha nascido nesse ano.