Kant na construção de Homens Livres

Partilhe este Artigo:

Immanuel Kant (1724-1804)
Immanuel Kant (1724-1804)

Immanuel Kant (1724-1804) melhorou as ideias de Rousseau (1712-1778) na linha do pensamento iluminista, traduzindo o pensamento daquele nos termos conhecidos hoje na Maçonaria:

  • Busca do equilíbrio entre corpo, mente, emoção e espiritualidade ficaram esclarecidas e desvinculadas de intermediação por terceiros; o Maçom trabalha só num templo vivo, que é ele mesmo;
  • A educação pessoal passa a ser focada no aprendiz, no aluno e não no professor, no clérigo ou numa instituição; o aprendiz trabalha em si mesmo; todo Maçom é um eterno aprendiz no que diz respeito aos seus assuntos;
  • Limita que a razão não é capaz de reconhecer realidades que não provocam a experiência sensível como: Deus, imortalidade da alma, o infinito do Universo, liberdade, questões metafísicas e consciência moral; daí o cultivo da espiritualidade ser parte da educação obtida na Maçonaria, que não é religião; a espiritualidade é parte indissolúvel do processo de educação natural sem se configurar em religião; na Maçonaria, escolher uma religião é responsabilidade individual;
  • Diferencia os princípios racionais da razão especulativa; razão da apresentação, pelos maçons, de múltiplas facetas de uma mesma verdade nas suas considerações e especulações; deixa-se para o ouvinte formular o seu próprio juízo;
  • Aproxima a razão prática com a vida prática e moral; isto é o que recebe maior ênfase no desenvolvimento maçónico para preparar o homem para a acção social e de onde o Maçom deriva ganhos em todos os aspectos, inclusive financeiros;
  • Desenvolve raciocínios a respeito de se cumprir o dever pelo dever e não em troca de favores ou benefícios; a espiritualidade e a obediência civil instruída pela filosofia maçónica não é baseada em prémio e castigo, céu e inferno; cumpre-se o dever pelo dever e não com vistas a um ganho de qualquer tipo; a obediência dá-se porque o Maçom deseja ser bom e não em resultado de benesse ou tribulação;
  • Incentiva o homem a agir pelo dever e combater a boa luta interior entre a lei universal e as inclinações individuais, lançando os pressupostos da liberdade da vontade;
  • Preconiza a aprendizagem do controle do desejo não com vista a um suposto prémio, mas pela disciplina para atingir o governo de si mesmo e a capacidade de se autodeterminar; de modo que cada um forme em si mesmo o seu próprio carácter moral;
  • Que mesmo sob forças de coerção, a finalidade principal é propiciar o afloramento do sujeito moral de modo a unir educação e liberdade; na Maçonaria a liberdade é resultado de treino, condicionamento do equilíbrio entre liberdade e responsabilidade;
  • Define que nenhuma verdade vem de fora do indivíduo, mas é construída pelo cidadão em si mesmo, com alicerce naquilo que ele foi e é; é o indivíduo quem permite que a verdade penetre na sua mente e coração por acção da razão treinada e instruída;
  • Estabelece que liberdade de credo seja o ponto base para a boa educação; isto enriquece o debate dos assuntos tratados, visto sob a óptica de outras interpretações religiosas e derruba a razão de tanta separação indevida em nome de verdades que às vezes divergem apenas por mera interpretação semântica ou posições de pontos e vírgulas;
  • Cria critérios de liberdade e tolerância religiosa; é a razão de na Maçonaria sentarem sob um mesmo tecto pessoas que noutras condições seriam capazes de se agredirem ao ponto de se matarem;
  • Afirma que a pessoa moralmente livre é um fim em si mesmo e não para alguma coisa, para ninguém, nem mesmo para Deus; isto de forma alguma limita o poder divino, antes, o enaltece, pois o Criador criou a criatura com o espírito da liberdade, com livre arbítrio; é especificação intencional e característica da criatura ditada pelo Criador; O projecto do homem inclui a autodeterminação, tudo passa pelo filtro do ego, pelo livre arbítrio, e neste mecanismo nem o Grande Arquitecto do Universo interfere; a criatura foi criada livre; e liberdade responsável é uma das principais divisas utilizada pela Maçonaria.

Por influência do iluminismo, Kant cunhou o verbete alemão “Aufklärung”, em português “esclarecimento”, onde ele afirma que o homem é culpado da sua própria menoridade em termos educacionais, quando esta deficiência não for falta de entendimento, mas falta de coragem ou indolência.

É devida a Horácio, e neste mesmo contexto utilizada por Kant, a expressão latina “sapere aude”, ou “ouse saber”, que determina ao homem munir-se de coragem para saber, estudar, conhecer.

A Maçonaria provoca o Maçom a largar a sua acomodação de menoridade e a que desenvolva a coragem de se responsabilizar pela vida e pela sua história, conduzindo a sua existência para a maioridade. Insiste-se em que abandone a culpa que o escraviza e o submete ao sistema de coisas. Isto é incutido já na iniciação do primeiro grau, quando não pode prescindir da condução de um terceiro nos seus passos, de cuja dependência dos irmãos se vai libertando cada vez mais na escalada dos graus.

É intenção que o homem saia da sua condição de culpado pela menoridade e vá à luta, que saia da sua acomodação e comece a pensar por si mesmo, utilizando-se plenamente da sua capacidade racional. As provocações contra a alienação do pensamento e da heteronomia, deixar-se conduzir por outro, pretendem livrar o homem e conduzir para a educação natural. Fomenta-se que passe a assumir o risco das suas decisões e coragem para superar o medo que inibe os processos criativos.

Para obter a coragem de se determinar livre, o Maçom se utiliza dos irmãos, do apoio que deles emana como grupo. O individuo interage com o grupo, agindo cada um reciprocamente sobre o outro. Esta interacção pode levar a acção positiva pelo condicionamento pela educação, mas não é determinante porque depende muito da força de vontade de cada um em se determinar, de superar o ego, de derrubar as quase intransponíveis muralhas do livre arbítrio.

Para obter a liberdade apenas coragem não é suficiente. Há necessidade de comprometimento pessoal, a auto-educação, de o Maçom se esculpir para fora da rocha disforme e rústica, daí aflora a possibilidade de transformação interna, da transformação do homem integral. Ao superar a minoridade da heteronomia, o medo da liberdade, e assumir a responsabilidade de si mesmo, desperta o homem natural definido por Rousseau; morre o homem escravizado e nasce o homem livre. Todas as iniciações da Maçonaria são exercícios de aprender a morrer para aprender a viver bem. Mostra-se o quanto é efémera a vida, daí resultar em motivação para viver bem a vida, de ser bom porque assim a razão o determina e não porque possa sofrer algum castigo ou receber determinado prémio.

Ao ser humano que faz uso da sua capacidade racional é dada a oportunidade de se construir a si mesmo, de se esculpir de dentro da pedra em todos os sentidos. Trabalhar o todo de si mesmo bem acima dos instintos e produzir cada característica individual da sua própria existência. Esta é a educação natural definida por Rousseau e Kant na construção de homens livres e donos de si, que na Maçonaria são pedras vivas e independentes, construtores com os seus próprios corpos do edifício da sociedade. E este trabalho justifica o facto do Maçom nunca iniciar uma tarefa antes de render honra ao Grande Arquitecto do Universo.

Charles Evaldo Boller

Bibliografia

  • ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, História da Educação e da Pedagogia, Geral e Brasil, ISBN 85-16-05020-3, terceira edição, Editora Moderna Ltda., 384 páginas, São Paulo, 2006;
  • ROHDEN, Humberto, Educação do Homem Integral, primeira edição, Martin Claret, 140 páginas, São Paulo, 2007;
  • ROUSSEAU, Jean- Jacques, Emílio ou Da Educação, R. T. Bertrand Brasil, 1995.

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

2 thoughts on “Kant na construção de Homens Livres”

  1. EBERT LEONARDO DOS SANTOS

    Na perspectiva delineada pelos princípios de Rousseau e Kant, assim como na interpretação aplicada à Maçonaria, o aprendiz é um indivíduo que se compromete com a construção e desenvolvimento de si mesmo. Ele é alguém que está disposto a explorar seu potencial interno, reconhecendo-se como uma pedra bruta que, por meio da educação e da disciplina pessoal, será esculpida e refinada em direção à sua melhor versão. A busca não é meramente intelectual, mas envolve o equilíbrio entre corpo, mente, emoção e espiritualidade, um processo integral de autotransformação.

    Para alcançar plena atividade na Ordem, o aprendiz deve estar disposto a:

    1. Trabalhar sobre si mesmo: Assim como o pensamento kantiano defende a autonomia e a autodeterminação, o maçom aprendiz deve entender que a responsabilidade pelo seu progresso espiritual e moral não depende de terceiros. Ele trabalha em seu próprio “templo vivo”, que é o seu ser, sem intermediários. O desenvolvimento moral, físico, intelectual e espiritual é uma obra pessoal, contínua e disciplinada.

    2. Desenvolver coragem e responsabilidade: Inspirado pelo conceito de “sapere aude” (ouse saber), o aprendiz deve se afastar da menoridade intelectual e moral. Ele precisa ter a coragem de questionar, aprender, agir por si mesmo, e não se deixar levar pela acomodação ou pela dependência de autoridades externas. Assumir a responsabilidade por suas escolhas e ações é um dos maiores desafios, pois a verdadeira liberdade vem do exercício responsável do livre-arbítrio.

    3. Entender os limites da razão: Kant limitou a razão especulativa ao afirmar que questões metafísicas, como Deus ou a imortalidade da alma, não são plenamente acessíveis à razão pura. Na Maçonaria, o aprendiz deve entender que a espiritualidade é parte indissociável do seu caminho, mas não pode ser confundida com religião. A busca espiritual é individual e se dá no reconhecimento de seus próprios limites e na aceitação de sua liberdade de crença.

    4. Cumprir o dever pelo dever: Uma lição central kantiana é a do dever pelo dever, sem expectativas de recompensa. O aprendiz maçom é ensinado a agir moralmente porque é o correto a se fazer, não por um desejo de reconhecimento ou por medo de punição. Este princípio de autodeterminação moral é essencial para a formação de um homem que, ao agir de maneira ética, contribui para a harmonia social e pessoal.

    5. Superar o ego e se autodeterminar: O caminho do maçom envolve a luta constante entre suas inclinações naturais e a lei moral universal. A educação maçônica incentiva o controle dos desejos não por recompensa externa, mas pela disciplina necessária para o domínio de si mesmo. O objetivo é que cada um molde seu caráter, tornando-se uma pessoa moralmente livre e consciente de sua responsabilidade no mundo.

    Quanto à visão do maçom sobre o profano, aquele que ainda não foi iniciado na Ordem, ele o vê como alguém que ainda não iniciou o processo de iluminação e autoconhecimento. O profano, nesse contexto, não é visto de forma depreciativa, mas como alguém que está fora do templo interno que o maçom constrói dentro de si. A missão do maçom, então, é trilhar seu caminho sem julgamentos, oferecendo-se como exemplo de crescimento e transformação, sempre respeitando o livre-arbítrio do outro.

    A visão maçônica não exige que o profano se transforme, mas encoraja a reflexão e a busca pelo saber. O respeito pela liberdade alheia é fundamental, e a Maçonaria preconiza a convivência harmônica entre pessoas de diferentes crenças, pontos de vista e experiências, unidas pela busca da verdade e da melhoria pessoal e social.

    Mesmo sendo profano, ao ler o texto, vejo a Maçonaria como uma organização que preza profundamente pelo autodesenvolvimento e pela busca de uma vida moral e equilibrada. A ideia de que o aprendiz deve se moldar a si mesmo e que o caminho para isso exige disciplina e coragem ressoa como algo universalmente aplicável. Isso não parece ser apenas um ensinamento restrito a quem faz parte da Ordem, mas sim um princípio de vida que qualquer pessoa, seja maçom ou não, pode adotar: o de buscar constantemente ser uma versão melhor de si mesmo.

    O conceito de que cada um é responsável pelo seu progresso espiritual e moral também traz uma visão poderosa sobre a liberdade. A ideia de agir pelo dever, sem esperar recompensas externas, reflete uma filosofia que vai contra o que vemos no mundo moderno, onde muitas vezes as ações são motivadas por reconhecimento ou ganhos. Esse valor parece fortalecer o indivíduo, tornando-o mais consciente de suas escolhas e menos influenciado pelas pressões externas.

    Por outro lado, o texto também me faz refletir sobre como a Maçonaria é percebida por aqueles que estão de fora. Há uma sensação de que os ensinamentos são profundos, mas envoltos em uma camada de mistério. Isso, para muitos, pode gerar curiosidade, mas também certo distanciamento. No entanto, a proposta de harmonia entre diferentes crenças e perspectivas é algo extremamente necessário em um mundo cada vez mais polarizado.

    Em suma, ainda que eu seja um profano e não tenha vivência direta com esses ensinamentos, o que é descrito no texto parece ser um caminho de autoconhecimento e disciplina moral que tem o potencial de transformar o indivíduo de maneira significativa. A Maçonaria, vista sob essa ótica, parece ser uma ferramenta de crescimento que valoriza a liberdade, o respeito pelo próximo e o aprimoramento contínuo.

    1. EBERT LEONARDO DOS SANTOS

      A Sabedoria e a Toleima: Reflexões Bíblicas e Kantianas sobre a Conduta Política

      Ao longo da história, a sabedoria sempre foi uma virtude almejada, especialmente quando aplicada à liderança e à política. A Bíblia, uma das fontes mais antigas e respeitadas de ensinamentos éticos, oferece princípios fundamentais para a conduta sábia. Em Provérbios 15:1, por exemplo, lemos: “Uma resposta branda faz recuar o furor, mas a palavra que causa dor faz subir o furor” (Bíblia Sagrada, Provérbios 15:1). Este versículo destaca a importância de uma comunicação ponderada e pacífica, especialmente para líderes que desejam promover a harmonia e o entendimento. O tema propõe uma reflexão filosófica e teológica interessante, combinando as perspectivas bíblicas com a ética de Immanuel Kant para analisar a conduta política. Tanto a Bíblia quanto Kant oferecem visões distintas sobre o que significa agir de maneira sábia ou tola, e como esses conceitos podem ser aplicados ao comportamento político.

      Entretanto, não é suficiente apenas evitar a ira; é necessário promover o conhecimento e a verdade. Provérbios 15:2 complementa ao afirmar que “A língua dos sábios faz bem o conhecimento, mas a boca dos estúpidos borbulha com tolice” (Bíblia Sagrada, Provérbios 15:2). Esse contraste entre o sábio e o tolo aplica-se diretamente às ações de políticos. Um líder sábio usa suas palavras para iluminar e promover a compreensão, enquanto o tolo se perde em discursos vazios, cheios de promessas sem substância. O filósofo Immanuel Kant, em sua obra sobre ética e política, sustenta essa distinção ao afirmar que o verdadeiro estadista é aquele que age conforme princípios morais universais, sempre buscando o bem comum. Já o político tolo é guiado por interesses egoístas e ambições pessoais (Kant, 2002).

      Kant propôs o “imperativo categórico”, ou seja, um princípio segundo o qual devemos agir de forma que nossas ações possam ser universalizadas como normas morais (Kant, 1785). Para Kant, um líder sábio e justo deve sempre considerar as implicações morais de suas decisões, respeitando a dignidade de todas as pessoas. O político tolo, por outro lado, age apenas para manipular as massas e alcançar poder, desprezando a ética. Esse comportamento encontra paralelo na advertência bíblica de Provérbios 15:4: “A calma da língua é árvore de vida, mas a deturpação nela é quebrantamento de espírito” (Bíblia Sagrada, Provérbios 15:4). Assim, o político sábio promove a vida e a justiça, enquanto a corrupção e a mentira destroem o espírito da nação.

      A Bíblia ainda nos lembra em Provérbios 15:3 que “Os olhos de Jeová estão em todo lugar vigiando os maus e os bons” (Bíblia Sagrada, Provérbios 15:3). Esse princípio da vigilância divina nos faz lembrar que, independentemente do poder que detêm, os líderes não podem escapar da justiça moral. Kant compartilha dessa perspectiva moralista ao afirmar que, mesmo que a justiça plena não seja visível no presente, devemos agir como se ela fosse possível, pois isso guia nossas ações em direção à virtude (Kant, 2002). O político sábio age com a consciência de que suas ações são julgadas não apenas pelos contemporâneos, mas também por uma lei moral eterna.

      Tanto a Bíblia quanto Kant nos ensinam que a verdadeira liderança política deve ser fundamentada na sabedoria, na justiça e na moralidade. Aqueles que escolhem o caminho do egoísmo, da manipulação e da corrupção podem conquistar poder temporário, mas, como a Bíblia nos alerta, suas palavras distorcidas os levarão à ruína e ao “quebrantamento de espírito” (Bíblia Sagrada, Provérbios 15:4). Em contraste, o líder sábio, que age com paciência, dissemina o conhecimento e a verdade, será como uma “árvore de vida”, proporcionando segurança e justiça a seus liderados.

      Nos tempos modernos, esses ensinamentos continuam a ser extremamente relevantes. Em um cenário político onde a corrupção e a desinformação parecem prevalecer, a necessidade de líderes sábios, que atuem com integridade e respeito, nunca foi tão urgente. Enquanto Kant nos orienta a agir com ética e respeito incondicional pela dignidade humana, a Bíblia nos lembra que a verdadeira sabedoria constrói, enquanto a tolice e a corrupção destroem. Que os líderes de hoje, ao se depararem com a escolha entre sabedoria e tolice, se lembrem das lições milenares, tanto da filosofia quanto das Escrituras.

      Esses princípios bíblicos e filosóficos reafirmam a soberania de Deus acima de todas as coisas. No entanto, é notável a desobediência generalizada a esses ensinamentos, especialmente no comportamento de muitos líderes que se afastam da moralidade cristã. Esse afastamento da conduta de Cristo, que é o exemplo máximo de obediência a Deus, reflete uma desconexão espiritual e moral que contribui para a deterioração da sociedade. Cristo, em suas palavras e ações, ensinou a paciência, a sabedoria e o respeito pela dignidade humana. Quando líderes e políticos desconsideram esses valores, eles não apenas desonram as Escrituras, mas também se distanciam da justiça divina.

      Na Bíblia, a sabedoria e a tolice (ou toleima) são temas recorrentes, especialmente nos livros de Provérbios e Eclesiastes. A sabedoria, segundo a Bíblia, é associada ao temor de Deus e à obediência aos Seus mandamentos (Provérbios 1:7). A sabedoria é vista como um dom divino, sendo essencial para uma liderança justa e eficaz. A pessoa sábia, no contexto político, é aquela que age com prudência, justiça e compaixão, buscando o bem comum.

      Por outro lado, a toleima é caracterizada pela falta de discernimento, desprezo pela justiça e arrogância. Em Provérbios 29:2, lemos: “Quando os justos governam, o povo se alegra; mas quando o ímpio domina, o povo geme.” Aqui, há uma clara condenação da liderança insensata e corrupta, que resulta em sofrimento coletivo.

      O rei Salomão é muitas vezes citado como um exemplo de sabedoria política, especialmente por seu pedido a Deus para receber sabedoria a fim de governar o povo de Israel (1 Reis 3:9). Sua capacidade de julgar com justiça, como demonstrado no famoso caso das duas mulheres reivindicando a mesma criança, é considerada uma marca de liderança sábia. No entanto, seus erros posteriores, como a construção de altares para deuses estrangeiros, revelam que mesmo uma liderança outrora sábia pode cair na toleima por desvio dos princípios morais e espirituais.

      Immanuel Kant, em sua filosofia moral, centra-se no conceito de dever e na razão prática. Para Kant, a sabedoria política não se baseia em habilidades estratégicas ou pragmáticas, mas na adesão a princípios éticos universais, expressos pelo imperativo categórico. Este princípio sustenta que devemos agir de maneira que nossas ações possam ser universalizadas, ou seja, que possam ser transformadas em leis válidas para todos.

      No contexto político, isso implica que as decisões de um governante ou de uma liderança devem respeitar a dignidade humana e os direitos fundamentais de todas as pessoas, independentemente de considerações utilitárias. A sabedoria kantiana, portanto, repousa na racionalidade moral e na busca pela justiça. Um político sábio, segundo Kant, é aquele que age com base na moralidade, não em interesses pessoais ou contingente.

      Kant, em sua obra À Paz Perpétua, argumenta que a sabedoria política verdadeira requer o estabelecimento de leis e instituições que promovam a paz duradoura. Para ele, a guerra e o conflito são resultados de lideranças movidas pela toleima, ou seja, pela falta de um compromisso ético profundo. A sabedoria, nesse sentido, é a capacidade de criar um sistema político que promova a liberdade, a igualdade e a paz.

      Convergências e Diferenças:

      Embora a Bíblia e Kant apresentem abordagens diferentes, ambas condenam a liderança que se baseia na injustiça e na falta de moralidade. A sabedoria bíblica está intimamente ligada à submissão a Deus e ao bem-estar da comunidade, enquanto Kant enfatiza a moralidade racional como base para ações justas e universais. A toleima, tanto na perspectiva bíblica quanto kantiana, é o oposto da sabedoria: a falta de princípios, seja por desconsiderar a vontade divina (na Bíblia) ou por ignorar a razão moral (em Kant).

      Na política moderna, essas reflexões oferecem uma crítica à liderança que age com base em interesses próprios, corrupção ou falta de compromisso ético. Governantes sábios, seja na ótica bíblica ou kantiana, são aqueles que priorizam a justiça, a dignidade humana e o bem comum. Por outro lado, lideranças tolas são aquelas que, movidas por egoísmo ou poder, falham em manter um compromisso com a moralidade e a justiça.

      Essa combinação de sabedoria bíblica e kantiana pode servir como um guia para pensar na ética política contemporânea, onde os desafios de governança, justiça e responsabilidade são mais urgentes do que nunca.

      Escrito por : Ebert Leonardo dos Santos

      Referências

      A Bíblia Sagrada: Provérbios 15:1-4.

      Kant, I. (1785). Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70.

      Kant, I. (2002). À Paz Perpétua: Um Projeto Filosófico. São Paulo: Editora Martin Claret.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top