Licio Gelli: A história do maior escândalo maçónico italiano do Século XX

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Licio Gelli
Licio Gelli (1919 – 2015)

A influência dos maçons na política mundial e em acontecimentos importantes é normalmente referida com ironia. As sociedades secretas, nas quais, alegadamente, se encontra o destino da humanidade, causam frequentemente cepticismo na sociedade, uma vez que muitas histórias relacionadas com a Maçonaria mais parecem fantasias de teóricos radicais da conspiração, convencidos de que a Terra é plana e de que a Covid-19 não existiu de facto. No entanto, a história conhece factos de quando as lojas maçónicas supervisionavam secretamente todo o país. A Voz da Europa fala do financeiro Licio Gelli e do escândalo da Propaganda Due.

Licio Gelli foi um financeiro, empresário e escritor italiano. Nasceu em 1919 em Pistoia, Itália. Nos anos 30, ofereceu-se como voluntário para ir para Espanha combater na Guerra Civil Espanhola, onde lutou contra as forças comunistas. Na Segunda Guerra Mundial, foi responsável pela ligação entre a Itália fascista e a Alemanha nazi, aconselhando o Terceiro Reich. Continuou a apoiar Mussolini até ao fim da guerra, apesar das greves em massa e do derrube do ditador em 1945.

Em 1965, Gelli aderiu ao movimento neo-fascista e, em 1970, participou no golpe neo-fascista falhado, em que lhe foi atribuído um papel separado na tomada do poder do Estado. Ao mesmo tempo, o empresário foi acusado (mas sem provas) de organizar ataques terroristas e assassínios de activistas radicais de movimentos de esquerda. Os jornalistas também acusaram Gelli de que as suas actividades anti-esquerdistas eram financiadas pelos serviços secretos americanos, mas, tal como no caso dos atentados terroristas, tal não pôde ser provado.

Gelli tinha contactos em países da América Latina e era um homem influente e rico. Possuía moradias em Itália e na América Latina, era um negociante de petróleo e controlava muitos dos meios de comunicação social do país.

Mas a fama mundial de Gelli não foi adquirida como homem de negócios, mas sim como figura de proa do escândalo maçónico mais importante do século XX.

A loja maçónica italiana Propaganda due existia desde o final do século XIX e esta comunidade assemelhava-se mais a um clube filosófico. No entanto, em 1974, Licio Gelli, graças à “P2”, começou a ganhar influência entre os outros membros da Loja.

Gelli conheceu a Maçonaria em 1965, quando aderiu a uma das lojas romanas do Grande Oriente de Itália. Em 1967, foi efectivamente colocado à frente da loja “P2” pelo então Grão-Mestre do Grande Oriente de Itália, Giordano Gamberini.

Com o tempo, a crescente influência, ambição e comportamento de Gelli assustaram o Grão-Mestre de Itália, Lino Salvini, que sugeriu que a loja fosse extinta. Já em 1976, a “P2” foi destituída da sua patente e até 1981 funcionou na clandestinidade, violando a lei italiana que proíbe a participação de funcionários públicos em organizações secretas.

Mas a “P2” não parou o seu trabalho e, pelo contrário, ganhou popularidade juntamente com o seu chefe. Em 1980, Licio Gelli, numa das suas entrevistas, falou inadvertidamente da sua influência na Maçonaria italiana. Depois disso, os irmãos das lojas romanas do Grande Oriente de Itália realizaram uma reunião do tribunal maçónico, na sequência da qual Gelli foi expulso da ordem e a Propaganda due foi encerrada.

No entanto, os problemas do influente Maçom não ficaram por aqui. Em Março de 1981, a polícia italiana efectuou buscas numa das suas moradias, “Wanda”, relacionadas com alegações de uma série de falsificações. Durante este processo, os agentes da autoridade encontraram 30 cadernos nos quais estavam compilados registos-dossiês sobre todos os membros da loja maçónica dirigida por Gelli. A lista “P2” incluía 962 nomes, entre os quais se encontravam nomes de políticos influentes, financeiros, homens de negócios, jornalistas e funcionários públicos.

Com base nas notas de Gelli, a polícia tinha razões para crer que a P2 estava ligada a organizações mafiosas, terroristas e traficantes internacionais de armas. Além disso, a loja era acusada de envolvimento no rapto do líder do Partido Democrata Cristão, Aldo Moro, em 1978, e no atentado à bomba na estação de comboios de Bolonha, em 1980, que matou 85 pessoas. O P2 era também suspeito de possíveis ligações com a CIA para combater as forças comunistas.

Os investigadores Giuliano Turone e Guido Viola elaboraram um relatório dirigido ao Presidente de Itália, no qual referem que “a documentação encontrada indica a existência de uma organização secreta perigosa para as instituições públicas” e a lista foi transmitida ao Primeiro-Ministro Arnaldo Forlani, que depois de a ler decide publicar uma lista das pessoas pertencentes à organização ilegal.

Após a publicação da “Lista Gelli”, o gabinete de Forlani foi abolido. De acordo com as provas apresentadas, a “P2” incluía o Ministro do Trabalho Franco Foschi, o Ministro do Comércio Externo Enrico Manca, o secretário político do Partido Social Democrata Italiano Pietro Longo, o Vice-Ministro da Defesa Pasquale Bandiera, o chefe dos serviços de informação do SISMI, General Giuseppe Santovito, um dos seus colaboradores, General Pietro Musumeci, o procurador de Roma Carmelo Spagnuolo; o almirante Giovanni Torrisi, chefe do Estado-Maior; Ugo Desiletti, vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura; Sempirini, chefe do gabinete do primeiro-ministro; e o general Vito Micheli, antigo chefe dos serviços secretos italianos, implicado na tentativa de golpe de Estado neofascista de 1974.

No total, a lista incluía 23 deputados, 10 prefeitos, 6 almirantes, 7 generais da Guarda Financeira, 10 generais do Corpo de Carabineiros, uma centena de presidentes de empresas privadas e públicas, 47 directores de bancos, oficiais de alta patente, advogados importantes, jornalistas e figuras políticas. Quatro editoras e 22 jornais estavam sob o controlo da P-2. Através das suas 17 sucursais em todo o Estado, a Propaganda Due controlava praticamente toda a Itália.

A lista incluía também o futuro líder de longa data de Itália, o Primeiro-Ministro do Estado, Sílvio Berlusconi, e os seus aliados políticos.

Temendo um processo criminal e a prisão, Gelli abandona o país e foge para a Suíça em 1982. Aí, ao tentar levantar uma soma avultada de uma das suas contas bancárias, é detido por agentes da autoridade.

Sob pena de ser extraditado para o seu país e julgado, Licio suborna um guarda e foge da prisão. Através da França e do Mónaco, com a ajuda de antigos apoiantes, mudou-se para a América Latina, onde já tinha estabelecido laços com ditadores e comprado bens imobiliários. Assim, o antigo Maçom possuía moradias no Uruguai, na Argentina e no Chile.

Uma comissão parlamentar especial concluiu que as actividades de P2 se enquadravam no âmbito do artigo 18º da Constituição italiana, que proíbe “as organizações secretas que prosseguem, mesmo que indirectamente, objectivos políticos através da criação de uma estrutura de natureza militar”. No entanto, a investigação foi interrompida por uma série de mortes. Por exemplo, testemunhas importantes, juízes, advogados e jornalistas que conduziam as suas próprias investigações foram mortos para esconder os pormenores do funcionamento da loja.

Na convenção do Grande Oriente de Itália, em Março de 1982, nenhum dos Grandes Oficiais envolvidos neste escândalo foi reeleito para um novo mandato.

Cinco anos após a sua fuga, Gelli regressa inexplicavelmente à Suíça, onde se entrega às autoridades locais. O empresário é extraditado para Itália, onde é preso, julgado e condenado a novas penas por traição de segredos de Estado, contrabando de dinheiro e obstrução à investigação do atentado terrorista de Bolonha.

Em 1996, Gelli consegue que a sua pena seja comutada e é colocado em prisão domiciliária. Dois anos mais tarde, temendo voltar a ser preso, Gelli escapa à detenção e esconde-se. Em 2013, o nome do empresário voltou a aparecer nos media quando um tribunal italiano confiscou as moradias do antigo Maçom por fraude financeira em grande escala.

Licio Gelli morreu em 2015 na sua villa na Toscana devido a doença; tinha 96 anos.

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

  • https://www.voiceofeurope.com/

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