Loja-Mãe: Ensaio sobre a tolerância e a integração

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À Minha Loja-mãe

Joseph Rudyard Kipling (1865 – 1936)

Tradução de Edgard da Costa Freitas Neto

“[…]

Lá fora: Sargento! Senhor! Sentido! Salaam!
Lá dentro: “Irmão!” e nisso nada havia de mal
Nos encontramos no nível e partimos no esquadro
Lá era o Segundo Diácono de minha Loja-Mãe

Havia Bola Nath, Contador
E Saul, judeu de Aden
E Din Mohammed, desenhista
Do escritório de cartografia.
Havia Babu Chuckerbutty
E Amir Singh, o Sikh
E o Castro, da alfaiataria
Católico Romano!

[…]

Não havia algo como “infiel”
Senão, talvez, nós mesmos

Mês a mês, após o labor
Quando sentávamos para fumar
(e não fazíamos ágapes
para não excluir de nenhum irmão a fé)
Falávamos de um para o outro
Sobre Religião e o mais.
E cada homem falando
Do Deus que conhecia melhor

Avançava assim o converseiro
E nenhum irmão se exaltava
Até que a manhã, alumiando o terreiro
Os papagaios acordava
Bem como os malditos Cucos.
E voltávamos para a casa, para a cama
Com Maomé, Deus e Shiva
Passeando em nossas lembranças

[…]

Gostaria de vê-los novamente

Meus irmãos negros e mulatos
O agradável aroma dos cigarros
E o isqueiro de mão em mão
O caseiro da Loja já roncando
No chão da despensa.
Como Mestre regular
Em minha Loja-Mãe, uma vez mais”

A noção de Loja-mãe é bastante complexa em Maçonaria. A ideia, em sentido estrito, nasce ligada à transmissão iniciática, seja a primeira das Lojas na Maçonaria, seja qualquer outra que iniciar, numa geografia ou numa cultura, uma linhagem de Lojas e de iniciações. É de validade de transmissão iniciática que falamos quando nos referimos a Loja-mãe.

Com Kipling, a noção ganha um sentido existencialista, que só a poética consegue desenhar tão bem. A Loja-mãe reconfigura-se, com o poeta, em lugar materno, em seio acolhedor. A minha Loja-mãe, ou de qualquer um, é aquela que nos acolheu, a família iniciática que nos viu nascer para a Maçonaria.

Tal como numa família, em que não escolhemos progenitores, também a Loja-mãe é o ponto de nascimento, onde até se poderá conhecer uma ou outra pessoa, mas não se escolhem os membros, eles já lá estavam. Com o correr da vida maçónica, podemos mudar de Loja, procurando conforto, mas aquela em que nascemos maçons, é-nos dada sem que nos perguntem se gostamos do membro A ou B. Mais, sem conhecermos os seus membros, somos “convidados” a reconhecê-los como Irmãos.

A Fraternidade, construída na Loja-mãe, como na família biológica, é o mais perfeito laboratório de tolerância que conheço. E o texto do Prémio Nobel leva-nos a um exemplo muito expressivo: na sua Loja-Mãe há judeus, muçulmanos, shiks e católicos. Fala-se de Maomé, de Deus, e de Shiva. Há Irmãos negros e mulatos, como o poeta afirma, mas pelas religiões indicadas vemos ainda brancos e indianos. Não se fazem ágapes porque há Irmãos com interditos alimentares, vegetarianos. E tudo sem medo da diferença.

Neste lindo poema, mais que poética, temos um instrumento didático de reflexão sobre o que deve ser uma Loja. Perante a Loja-mãe de Kipling, como são monótonas e confortáveis as nossas Lojas! Como não representam a sociedade, tendo-se afastado dela.

Mas mais que monótonas, como não são desafiantes nem nos obrigam a chamar de Irmão quem é diferente. Regra geral, as Lojas tendem a uniformizar-se. A grande máquina de fazer fraternidade que é o ritual, esvazia-se de sentido se formos, à priori, todos semelhantes, todos crentes, ou descrentes, no mesmo, se todos formos da mesma profissão, ou se tivermos o mesmo olhar sobre o mundo.

O confronto e a diferença desaparecem como mecânica de crescimento. Ficamos solidamente nas visões apriorísticas, deixando de saber como se “cavam as masmorras ao preconceito” e à intolerância.

Aí, longe da Loja-Mãe de Kipling, somos, eventualmente, um grupo de amigos, um clube social. Mas não somos Maçonaria.

Paulo Mendes Pinto

(Publicado originalmente no perfil no Facebook da Quatuor Coronati Correspondence Circle)

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