Maçonaria – as novas prioridades

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Estrela Flamejante, maçonaria

“The warriors are gentler than lambs and fiercer than lions, wedding the mildness of the monk with the valour of the knight, so that it is difficult to decide which to call them: men to adorn the Temple of Solomon with weapons instead of gems, with shields instead of crowns of gold, with saddles and bridles instead of candelabra: eager for victory — not fame; for battle not for pomp; who abhor wasteful speech, unnecessary action, unmeasured laughter, gossip and chatter, as they despise all vain things: who, in spite of their being many, live in one house according to one rule, with one soul and one heart”.

St. Bernard of Clairvaux

A questão a que somos, aqui, chamados a responder, é muito importante e a resposta é urgente: iremos nós, Maçons, continuar a viver divisões ou iremos trabalhar, de mãos dadas com todos aqueles que, no Mundo, defendem ideais idênticos aos nossos, para defender os Direitos do Homem e o Primado do Direito? Iremos nós atraiçoar as gerações futuras permitindo que, devido às fragilidades que nos dividem, a civilização que herdamos se desintegre e o Planeta se torne inabitável?

A Maçonaria é unir, não é separar. É solidariedade, não é hostilidade. É cooperação, não é competição. A concorrência gera vencedores e vencidos. A cooperação gera invencíveis. Perante os desafios de hoje, só a cooperação entre os Maçons e as Pessoas e Entidades que defendem objectivos compatíveis com os nossos garante a invencibilidade na luta, que de novo se avizinha, pelos Direitos do Homem, pela Democracia, pela Razão e pela Liberdade.

Vivemos, ainda, governos de leis e não de homens. Mas, para que isto continue a ser assim, é necessário que nasça, entre nós, um novo espírito. O nosso eu interior tem que se tornar disponível para receber uma nova orientação porque precisamos, urgentemente, de uma nova via que nos leve para além da escuridão que tem estado a abater-se sobre nós. Precisamos de uma nova Visão. Como dizia Salomão, há quase 3 mil anos, “onde não há visão, o povo perece”. A Humanidade, a nossa Sociedade, está mergulhada no silêncio e na obscuridade provocada pela manipulação dos nossos subconscientes, feita por forças que utilizam técnicas muito sofisticadas de propaganda baseadas em estudos psicológicos e que utilizam os meios electrónicos de comunicação de massas para nos condicionarem.

Os nossos antepassados Maçons lutaram todas as suas vidas, e a alguns a própria vida foi retirada, para defenderem o primado da razão. E conseguiram legar-nos um mundo imperfeito mas o mais perfeito em que a raça humana alguma vez viveu. Mas os cidadãos estão a perder a capacidade de utilizarem a razão para fazerem as suas escolhas. O debate das ideias está anestesiado. É por isso que nós, Maçons, somos colectivamente essenciais para a sobrevivência dos valores estruturais que formataram o século XX e que, com dificuldade, se mantêm no início deste séc. XXI. Estamos em uma encruzilhada crítica. Os desafios são universais. A resposta só pode ser universal. Não há, por isso, espaço para divisões. A Maçonaria deve estruturar-se numa cooperação estreita com todas as Organizações que visem idênticos objectivos ou não terá futuro. E, se a Maçonaria não tiver futuro, a Liberdade, a Democracia, a Tolerância, a Solidariedade, o Progresso em que todos possam participar, também não o terão.

Procurarei, agora, explicar porquê.

A Maçonaria é um espaço de Solidariedade na construção do Templo e no seu aperfeiçoamento permanente.

Há, a meu ver, três dimensões do Templo:

  1. O Templo Interno, que existe dentro de cada um de nós. Construir o Templo, nesta dimensão, significa construirmo-nos a nós próprios, segundo os Ensinamentos. Aperfeiçoamos a nossa essência na Solidariedade, na Tolerância, no Silêncio e, acima de tudo, NOS ACTOS. Ninguém nos segue por longo tempo pelo que dizemos. Seguem-nos por aquilo que fazemos. O nosso caminho individual para a perfeição irradia Luz para as outras duas dimensões do Templo: o Templo da Solidariedade Maçónica e o Templo da Intervenção nos Rumos da Sociedade.
  2. A segunda dimensão é a da Solidariedade Maçónica. Os alicerces do Templo assentam na via da perfeição individual, na pedra, mais ou menos perfeita, em que nos consigamos transformar, por um trabalho de lapidação, permanente e paciente. Complementarmente, a Solidariedade Interna Maçónica constitui o cimento que suporta todo o edifício. Quando fiz a minha iniciação, foi-me dito que um dos princípios-base de relacionamento entre Irmãos é o seguinte: “Quando um Irmão pede ajuda, primeiro ajuda-se e só depois, se necessário, se farão perguntas”. Podemos não precisar de ajuda uma vida inteira. Mas, sabermos que temos milhões de Irmãos prontos a ajudar-nos permite-nos passar as encruzilhadas e as ciladas da vida profana com tranquilidade. Esta Solidariedade constitui o cimento que nos une.
  3. A terceira dimensão é a da construção do Templo Universal. Isto é, a intervenção da Ordem no aperfeiçoamento da Sociedade. Muito temos feito, desde a aprovação da Carta dos Direitos do Homem na ONU aos acordos de Camp David. Esta área, apesar dos importantes contributos dados, é uma área complicada, porque aparentemente geradora de conflitos dado que, da organização da Sociedade temos, em geral, opiniões e opções que podem dividir-nos. É esta a área a que chamo externa. É evidente que o nosso exemplo individual no mundo profano molda a Sociedade que nos está mais próxima. Mas não consegue moldar a Sociedade como um todo, apenas pelo somatório dos que por nós são directamente influenciados. Ora, os princípios da Liberdade, da Tolerância e da Solidariedade são comuns a todas as Maçonarias e a muitas outras Organizações. Por isso, esses princípios unem-nos, porque neles acreditamos. Por isso mesmo, como a Ordem não tem essa função, os nossos valores têm que ser transmitidos, em plena liberdade, por cada um de nós, para dentro das Organizações, da Administração Publica e Privada, para que se incorporem também por essa via, nos rumos da Sociedade em geral. Não se constituindo como suporte de Partidos mas pairando acima deles, como Consciência Organizada e Activa.

Esta terceira dimensão é urgente e, por isso, me debruçarei fundamentalmente sobre ela.

Foi sempre missão inalienável da Maçonaria influenciar a Sociedade para que ela seguisse os rumos da Liberdade e da plenitude da realização do indivíduo. O período de ouro que tivemos a felicidade de viver e que devemos a muitos Maçons notáveis que nos precederam, está em grave risco. Identifico, como principais desafios, os seguintes:

  1. O individualismo excessivo que caracteriza os dias de hoje.
  2. Os fundamentalismos religiosos e os seus derivados, os terrorismos religiosos.
  3. O abuso de poder dos Governos nas Democracias, para o qual a justificação aparece como a necessidade de defender os cidadãos face ao Terrorismo, mas que pode vir a revelar-se tão mau para as Sociedades Livres como aquele.
  4. O desaparecimento das ideologias (e a consequente convergência para estruturas equivalentes a Partidos Únicos).
  5. A construção, em sentido unívoco, da opinião e o adormecimento consequente das consciências.
  6. A Globalização Competitiva com a ideologia dominante da eficiência e da competitividade.
  7. O esgotamento dos recursos naturais que sustentam a vida humana no Planeta.

Apesar de 7 ser um número perfeito não esgotei os factores que tendem a destruir a Liberdade. Como empresa humana, este escrito não é perfeito. Mas debrucemo-nos sobre estes factores principais.

Vivemos numa época de perplexidade. Queixamo-nos sistematicamente da desagregação das famílias, da insegurança nas ruas e nas casas, do desrespeito pelas instituições, pelas pessoas, da falta à verdade de governos e de governados, dos escândalos envolvendo os mais altos dignitários das nações, uns baseados em verdade, outros inventados e manipulados pelos media, que destroem homens e as suas famílias, por mais honrados que sejam, para abrir caminho a outros ávidos de poder e sem escrúpulos.

A opinião pública ri-se quando se fala de valores fundamentais como honestidade, verticalidade, caridade, dimensão de estado, da simples noção de servir os países, o mundo ou os semelhantes. Ri-se por não considerar já possível haver verdade nessas intenções ou desinteresse na sua prática.

A noção de construção de um futuro comum, valor maçónico fundamental da construção do templo universal, parece ter-se desintegrado. Quanto mais observámos o mundo profano mais perplexos ficamos com a evolução da espécie humana. Quanto mais nos lamentamos maior nos parece a nossa própria insuficiência para mudar o mundo para melhor. Porque estamos nesta tremenda fase de tão elevada riqueza material e de tanta carência espiritual? E não é, afinal, essa carência que aqui nos une?

A razão fundamental advém do facto de a última década do séc. xx e a entrada no séc. xxi se caracterizarem pelo triunfo do individualismo. É este individualismo que está a levar a sociedade para um caminho que temos que moldar segundo os princípios maçónicos do aperfeiçoamento.

Hoje, o que quer que desejemos, o mercado fornece. A nossa vida é marcada por algo que nos está subjacente e que a publicidade permanentemente nos deixa antever: “tenha tudo sempre de acordo com o seu desejo”. Em consequência, a sociedade ocidental está hoje fragmentada em milhões de indivíduos.

O sentido de grupo ou de comunidade perdeu-se. Não pensamos em “nós” mas em “mim”, o eu soberano. O interesse do grupo, do país, do estado ou do planeta estão literalmente marginalizados na nossa postura profana.

Dada a imensa quantidade de opções disponíveis, a vida transformou-se em um supermercado. Cada um de nós escolhe, com individualismo absoluto, a solução que pensa nos fará mais feliz. Se não gostamos do nosso casamento, divorciamo-nos. Se não gostamos da forma como sentimos os nossos humores, tomamos drogas. Se não gostamos do nosso aspecto, fazemos uma operação plástica.

É verdade que a sociedade em que vivemos é muito mais aperfeiçoada que as sociedades anteriores. A primazia do indivíduo, do consumidor, princípio sacro da economia de mercado, trouxe maior liberdade às pessoas. O elitismo e o paternalismo esbateram-se, aumentando as oportunidades a todos os que não pertenciam à tradicional classe dominante. Uma maior diversidade tornou a sociedade mais livre.

Mas, a soberania individual está a conduzir à erosão das estruturas tradicionais da sociedade, com a consequente perda de estabilidade na vida das pessoas, criando confusão e incerteza.

Maior individualismo significa que as pessoas põem cada vez mais os seus interesses pessoais acima dos interesses da sociedade como um todo, destruindo a prática do civismo, a noção do interesse comum e os valores morais. A gratificação individual que resulta de cada um de nós poder ter tudo o que quer, quando quer e da forma que quer, mina a autoridade e a responsabilidade de cada um perante os seus semelhantes, conduzindo ao declínio da sociedade quase perfeita com que sonhamos ao fazermos o elogio à tolerância e à liberdade dos homens. A liberdade e a tolerância transformadas em puro individualismo destroem a fraternidade e a solidariedade, fundamentos necessários da quadrilogia liberdade, tolerância, fraternidade e solidariedade. Quando um dos pilares falha, a sociedade pode ruir. A nossa acção no mundo profano exige a defesa intransigente da convivência dos quatro pilares.

Com a força do marketing a seduzi-la com slogans como “se você quiser, será seu”, a geração nascida no pós-guerra interiorizou o direito a ter tudo, tal como queria, qualquer que fosse o seu capricho individual.

Com a globalização em curso e o impressionante aumento da concorrência entre empresas, a fanática devoção aos soberanos desejos do consumidor é considerada a missão de qualquer empresa. Os indivíduos estão a transformar-se em deuses e querem ser tratados como tal. A tão proclamada diferenciação de produtos não é mais que a afirmação do narcisismo das pequenas diferenças.

Hoje instalada, a democracia liberal, como referia Fukuyama em 1992, no seu livro “The end of history and the last man” atingiu o seu último propósito, deixando-a sem nenhum outro patamar a atingir senão o de se espalhar a todos os cantos da terra (globalização).

O problema fundamental é que o individualismo triunfante não é um patamar no caminho para algo melhor: o individualismo é um destino final.

Mas andar para trás significaria voltar a um mundo autoritário, menos perfeito, onde as liberdades e garantias dos cidadãos consagradas na Carta dos Direitos do Homem serão postas em causa.

A Maçonaria tem, portanto, um papel fundamental nos dias que correm. Há que reforçar o equilíbrio necessário dos quatro pilares: tolerância, liberdade, fraternidade e solidariedade.

Não há liberdade sem tolerância. Mas a liberdade e a tolerância auto-destruir-se-ão se não estiverem fortemente suportadas em fraternidade e solidariedade, os dois conceitos incompatíveis com o individualismo excessivo.

O caminho é, respeitando a liberdade individual e praticando-a, implementarmos o civismo e sentido de colectividade, de humanidade. É o nós acima do eu.

Como segundo desafio, os fundamentalismos religiosos. O aparecimento, na cena internacional, do fundamentalismo islâmico, criou 3 perigos que há que debelar. O primeiro, o de que aquele terrorismo pudesse sair vitorioso. Nesse caso regressaríamos à Idade Média. O Estado e a Igreja seriam uma só entidade. Em segundo lugar, o risco do aparecimento de outros fundamentalismos religiosos de resposta. O resultado desse aparecimento e do seu eventual sucesso conduzir-nos-ia exactamente à mesma situação que a afirmação do fundamentalismo islâmico. O terceiro, o risco, que tem vindo a materializar-se, de Governos ou Chefes de Governo do Ocidente, sob o pretexto de protegerem a população contra o terrorismo religioso, arrogarem-se o direito e a pratica de não cumprirem as Constituições dos seus países, o direito internacional, o direito de privacidade dos cidadãos e caíssem na tentação adicional de controlarem o poder judicial. O resultado desta evolução, quando os poderes de fiscalização dos actos dos executivos ficassem por eles dominados e quando os direitos e garantias dos cidadãos deixassem de ser respeitados, poderia não nos conduzir à Idade Média, mas já não estaríamos em Democracia.

O desaparecimento das ideologias, por seu turno, conduz-nos perigosamente para a tentação não democrática. De facto, têm ocorrido mudanças sem precedentes no ambiente em que as ideias vivem e se difundem ou estiolam e morrem. Refiro-me, concretamente, ao mercado das ideias na área pública. Hoje, na maioria dos Países livres, não é possível descobrir diferenças nas práticas dos Partidos quando se tornam governo. A única coisa que distingue os Partidos não é defenderem ideologias diferentes ou conceitos diferentes de gerir as Sociedades mas o facto de as pessoas que os formam serem diferentes. Isto conduz ao uniformismo e à sensação, enraizada nos cidadãos, de que a participação no debate democrático das ideias não vale a pena. Daí, também, os níveis assustadores da abstenção.

Por seu lado, a globalização competitiva, assente em dois vectores fundamentais, a eficiência e a competitividade, ocupou, com estes seus valores supremos, o lugar deixado vago pelas ideologias. Eficiência e competitividade são vistos como os valores máximos para o sucesso de uma Sociedade. Individualismo, eficiência e competitividade, deixados à solta, produzirão muito ricos e muito pobres. A Solidariedade, princípio básico para a estabilidade de qualquer Sociedade, não está presente.

Além do mais, eficiência e competitividade e, portanto, crescimento económico a todo o custo são incompatíveis com um Planeta viável. É extraordinária a capacidade do Homem para ignorar aquilo que é, empiricamente, elementar: o nosso Planeta é finito. O que é finito esgota-se se o ritmo de crescimento não permitir a renovação dos recursos e, particularmente, dos recursos que sustentam a vida. Por isso, os valores supremos que substituíram as ideologias não levam a Humanidade por um caminho seguro. Além do mais, o nosso Planeta é um organismo vivo, que se defenderá do Homem se o Homem não se defender de si próprio. Um vírus, letal para uma parte substancial da Humanidade, ou uma guerra de dimensão mundial podem estar no horizonte. Os Maçons não querem isto. Mas não querendo, terão que lutar pela alternativa. Juntos com todos as entidades que pretendam o mesmo.

É uma perplexidade verificar que a opinião pública está anestesiada, adormecida, confusa, perante perigos desta dimensão. A verdade é que o poderosíssimo meio de informação unívoca que é a televisão, que nos senta nos sofás como vegetais e nos introduz no cérebro todas as mensagens que quer que registemos no subconsciente, adormeceu as consciências. Hoje, só quem tem acesso à televisão é que penetra na população. Hoje, quem quer ganhar eleições tem que comprar períodos televisivos. Para os comprar precisa de muito dinheiro. Para o conseguir recorre a entidades que lhes condicionam a acção, uma vez eleitos, tornando-os guardas avançados dos seus interesses. Trinta segundos de televisão, transmitindo verdades ou falsidades, têm muito mais força que qualquer argumento verdadeiro, que qualquer ideia com mérito. Informando ou desinformando a televisão formata os subconscientes.

Quase tudo o que os cidadãos absorvem nas muitas horas que passam em frente às televisões é pago para ser transmitido. E não podemos dar a nossa opinião, entrar na discussão. As ideias dominantes não são necessariamente as que têm mérito mas apenas as que passam na televisão. Não temos, assim, que nos admirar com os índices de violência na nossa Sociedade nem com o triunfo da mentira. Mas não é isso que os Maçons querem. É exactamente pelo contrário que lutam. Nós temos a convicção que os cidadãos livres se conseguem governar de uma forma sensata, recorrendo ao debate com base na melhor informação disponível e não ao poder puro e simples. É aquele debate, hoje condicionado pelo poder puro e simples, que nos conduz a assumir a forma de uma inteligência geral, uma moralidade sólida e o respeito pelas leis.

As Sociedades organizam-se de forma cada vez mais complexa. A democracia constitui uma conquista da Maçonaria e traduz, nos seus princípios, os nossos valores. Do mesmo modo que a Carta Universal dos Direitos do Homem é um documento produzido pela Maçonaria também os acordos de Camp David foram possíveis porque a chefiar os dois lados, antes em conflito irredutível, estavam dois Maçons.

Diz-se muito, hoje, que a Maçonaria, com a consolidação das democracias, deixou de fazer sentido, que está órfã de um projecto. Muito se enganam os que dizem isso. A Maçonaria foi decisiva na implementação das democracias, da igualdade entre os Homens, do respeito pela Liberdade, pela Tolerância, que não seja frouxa, e da Solidariedade. Digo Tolerância que não seja frouxa porque a Tolerância acaba no momento em que pretendam derrubar a nossa liberdade. Este é um princípio que é fundamental manter presente hoje.

Diz-se, então, que conquistada a Democracia e o respeito pelos Direitos Humanos a Maçonaria deixou de ter objectivo. Repito: muito se engana quem o diz. É que a Democracia e Direitos Humanos, por um lado, estão em grave risco e, por outro, têm um pressuposto fundamental: o direito à vida. E o Direito à Vida nunca esteve em risco como hoje está. Conquistamos a Democracia, a Liberdade, o respeito pelos Direitos Humanos mas vamos ter que continuar a lutar por eles. Conseguimos um importante desenvolvimento tecnológico, libertamos povos oprimidos, mas hoje estamos confrontados com um risco terrível, que só pode ser controlado e vencido se a Maçonaria sobre ele actuar com toda a sua força. O risco é o do desaparecimento das condições de vida sobre o Planeta Terra, devido a uma sobre exploração dos seus recursos, não apenas dos recursos que constituem as matérias-primas da produção mas, fundamentalmente, dos recursos que suportam a vida, como, por exemplo, a água, o ar, ou o ozono. O Homem caminha a passos largos para a sua própria autodestruição.

De que valeriam a Democracia e os Direitos Humanos se não houvesse água potável, ar para respirar ou se o Sol de benéfico passasse a destruir a vida? De que serviriam as nossas conquistas se permitíssemos que a Humanidade se autodestruísse? Infelizmente é nesse sentido que o Homem caminha. A Globalização Competitiva em curso, tem criado condições de vida melhores para milhões de pessoas, que sempre viveram no limiar da pobreza extrema. Mas os valores dominantes desta Globalização, valores que substituíram as ideologias, são a eficiência e a competitividade. Esses valores pressupõem ser possível um crescimento contínuo num Planeta que é finito. Esse crescimento contínuo é impossível. Só a Maçonaria tem a estrutura de valores que permite impedir o desastre. Só a Maçonaria tem a estrutura de valores que permitirá que satisfaçamos as nossas necessidades de hoje garantindo que as gerações futuras possam, também, com qualidade e dignidade, garantir a satisfação das suas próprias necessidades no futuro. Nunca, como hoje, a Maçonaria teve um projecto de tal envergadura e complexidade: o de salvar o Homem de si próprio. Desígnio no qual temos que concentrar todas as nossas forças. O nosso trabalho é essencial ao futuro da Humanidade. Antes fomos decisivos na garantia da dignidade dos indivíduos e da Sociedade. Fomos decisivos no aperfeiçoamento da forma como os seres humanos se relacionavam. Hoje, o nosso projecto é bem mais decisivo. É o de garantir as condições de vida da Humanidade, a manutenção da espécie e a Liberdade.

Posto tudo isto, temos que identificar as Entidades e Organizações cuja resposta, em termos dos valores que defendem, é coincidente com a nossa, quer relativamente aos objectivos a atingir, quer aos meios para os atingir. Dito de outra forma: estamos comprometidos com respostas idênticas face aos perigos que a Sociedade, no início do séc. XXI, enfrenta? Se comungam das nossas preocupações e dos nossos valores teremos, urgentemente, que as chamar a connosco unir esforços.

Eis as questões fundamentais a responder:

  • Estamos de acordo que o Estado de Direito deve ser mantido?
  • Estamos de acordo que os Direitos do Homem devem ser preservados?
  • Estamos de acordo sobre a superioridade da Democracia e a necessidade fundamental da sua defesa?
  • Estamos de acordo que o interesse colectivo deve prevalecer sobre os interesses egoístas do individualismo exacerbado?
  • Estamos de acordo que não podemos permitir que as consciências continuem a ser manipuladas por anúncios ou por programas de televisão, comprados por políticos ou conglomerados, condicionando aqueles aos interesses destes, e destituindo o mundo do pensamento livre e do primado da razão?
  • Estamos de acordo que não se pode permitir a proliferação dos fundamentalismos religiosos, venham eles de onde vierem, nem a não separação entre o poder legislativo e o poder religioso?
  • Estamos de acordo que não se pode permitir o não cumprimento, pelos eleitos, das Constituições ou dos Direitos do Homem, com base no argumento de que esses abusos e privações de liberdade se justificam pela necessidade de nos protegerem dos perigos do terrorismo?
  • Estamos de acordo que não podemos permitir que a homogeneização da opinião, através dos meios televisivos e da rádio, suprimam o debate de ideias e conduzam, na prática, a uma situação de ausência de participação democrática dos cidadãos sobre o futuro comum?
  • Estamos de acordo que o poder judicial não pode ser dominado pelo poder legislativo/executivo pois isso traria, como consequência, a supressão das garantias de um Estado de Direito?
  • Estamos de acordo que o nosso futuro e o das próximas gerações não podem ser postos em causa pela ideologia do crescimento económico contínuo? Pelo menos enquanto a evolução tecnológica ainda não o permita, no pleno respeito pela capacidade e tempo de que o Planeta necessita para renovar os recursos essenciais à vida?

Se a resposta a todas estas perguntas (e a muitas outras equivalentes ou delas dedutíveis) é SIM, então estamos todos de acordo e a plataforma para uma Cooperação Estreita de todas as entidades que defendem estes valores está lançada. Mas, se, além disso, a resposta a todas elas é que, para além de não aceitarmos aquelas tendências, nos empenharemos e lutaremos para garantir a Liberdade e a Vida, dando as respostas universais para estes desafios universais, então a Maçonaria tem o encargo de desempenhar o seu papel Histórico na defesa e na aglutinação de vontades de todos aqueles cujos objectivos coincidam com os nossos. De facto, a Organização Política parece não conseguir garantir, neste início de século, os valores que nos unem e que constituem a essência da nossa Organização.

Terminando é bom reter algumas verdades:

  1. A concorrência faz vencidos e vencedores. A cooperação faz invencíveis.
  2. Não podemos desperdiçar os corações que querem o mesmo que nós, sob pena de não sermos força suficiente para assegurar a Liberdade e o Desenvolvimento Sustentável.
  3. Estar de costas voltadas com quem quer o mesmo que nós não é apropriado àquilo que a História, hoje, nos exige.

António S.

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2 thoughts on “Maçonaria – as novas prioridades”

  1. Alcino Amado

    O que a maçonaria pode fazer perante a agressão da Ucrânia pela Rússia, em termos de Geopolítica /estratégia do mundo actual,? O que vale a ordem de segurança internacional de não agressão, e seus resultados ?

  2. FRANCISCO CEZAR

    O Artigo está excelente e provocativo, apesar de alguns senões. O acordo de Camp David, por exemplo, foi uma farsa e não funcionou a favor dos árabes, sendo manipulado pelos EUA e Israel. O que dificulta sua publicitação é ser assinado de uma forma quase anônima. Quem é o autor?

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