A influência da Cavalaria
Do 15º ao 18º Grau do chamado Rito Escocês Antigo e Aceite, (nem tão antigo e não tão aceito, como dizem alguns irmãos), temos o que se pode chamar de graus cavalheirescos, já que boa parte da sua inspiração pode ser buscada nas tradições da cavalaria medieval. Os próprios títulos distintivos destes graus denunciam essa influência. No grau 15 temos o Cavaleiro do Oriente ou da Espada, no 16º, O Príncipe de Jerusalém, no 17º Cavaleiro do Oriente e do Ocidente, e no 18º o Soberano Príncipe da Rosa-Cruz. Embora a liturgia praticada nestes graus evoquem alegorias relativas ao Templo de Jerusalém, particularmente o Segundo Templo, o de Zorobabel, a fonte de inspiração dos rituais ali praticados são claramente inspirados em motivos cavalheirescos [1].
Esta inspiração não é sem razão, já que estes graus encerram o chamado sistema escocês, incluído na Ordem por influência da chamada Maçonaria escocesa, praticada pelos partidários do rei Charles II, da família escocesa dos Stuarts, família essa que no século XVIII foi protagonista de uma violenta disputa contra o Parlamento inglês. Para entendê-los bem é preciso uma incursão, ainda que rápida e perfunctória, pelas regras dessa importante instituição medieval, que profundas marcas deixou na imaginação do povo, como bem nos mostra o magistral romance de Miguel de Cervantes, o Don Quixote [2].
Nas Constituições de Anderson não há nenhuma referência à Cavalaria como legatária de tradições à Maçonaria. Ao contrário, Anderson parece acreditar que foi a Maçonaria que influenciou a Cavalaria e não contrário. Isto explica-se pelo facto de que a Maçonaria de Anderson é aquela oriunda das Old Charges, praticante dos ritos herdados dos pedreiros livres, enxertada por tradições gnósticas e herméticas. Na época das Constituições, pelo que se deduz do preâmbulo do autor, a Maçonaria inglesa praticava somente o que conhecemos hoje como Loja Simbólica, e apenas nos graus de Aprendiz e Companheiro, sendo este último o que conhecemos hoje como Grau de Mestre.
Mestre, nas Lojas Simbólicas dos maçons operativos era apenas o Venerável. Foi mais tarde, com a disseminação da chamada Maçonaria Escocesa, que os graus superiores foram desenvolvidos, desdobrando-se dela a Lenda de Hiram e incluindo os motivos cavalheirescos, inspirados em tradições templárias. Desta configuração nasceu o corpo litúrgico que mais tarde seria chamado de REAA (Rito Escocês Antigo e Aceito).
Síntese histórica
A Cavalaria foi a instituição medieval que mais marcas deixou no imaginário popular. Cavaleiro era sinónimo de nobreza e respeito. Ser cavaleiro era o ideal de todo jovem medieval e a sua aura como herói popular foi uma decorrência normal do simbolismo que se atribuía ao homem armado, vestido com a sua armadura, montado no seu cavalo, percorrendo a terra em busca de aventuras.
Embora todos os exércitos das nações da antiguidade mantivessem largos contingentes de soldados a cavalo, foi somente na Idade Média que esse tipo de força armada ganhou foros de verdadeira instituição. Roma, por exemplo possuía uma forte cavalaria, mas as suas famosas legiões eram constituídas principalmente por soldados de infantaria. Já a maioria das hordas bárbaras que destruíram o Império Romano eram compostas principalmente de guerreiros à cavalo. Soldados a pé não conseguiam detê-los. Assim, pouco a pouco, justamente em razão das invasões bárbaras, os reinos do Ocidente foram desenvolvendo o costume de formar exércitos de homens a cavalo. Por volta do século VI da era cristã, com a formação do reino franco, a tradição cavalheiresca instalou-se definitivamente na Europa. Durante a dinastia Carolíngia ela firmou-se como instituição cultural e atingiu o auge da sua mística durante as Cruzadas [3].
O Regime feudal concorreu para firmar a mística que se desenvolveu em torno da Cavalaria. O cavaleiro era pintado como homem forte, corajoso, leal a um suserano, de espírito profundamente religioso, não raras vezes, virtuoso e extremamente romântico, pois que geralmente se confessava ardentemente apaixonado por uma dama, a quem garantia eterno amor e lealdade, embora o seu amor geralmente fosse platónico.
O cavaleiro constitui a base da hierarquia feudal, a sua reserva moral e ética, o herói a quem o necessitado, o fraco, o oprimido podia pedir ajuda. Numa época em que a Justiça não estava organizada como instituição e não tinha forças para vingar os agravos que se cometiam contra os mais fracos, era ao braço de um cavaleiro que os socorria para vingar esses agravos. Pelos menos esta era a sua função na mística sociedade medieval e era isso que dele se esperava, como bem nos dá mostra o famoso Don Quixote, de Cervantes.
“− Nunca donde estou me levantarei, valoroso cavaleiro, enquanto vossa cortesia me não conceder um dom que vos peço, o qual redundará em vosso louvor e proveito do género humano.”
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O vendeiro, que viu o hóspede aos seus pés e ouviu semelhantes razões, estava enleado a olhar para ele, sem atinar no que fizesse ou lhe respondesse, e teimava ele que se levantasse. Mas não houve convencê-lo enquanto não lhe disse que outorgava o que pedia.
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−Não esperava eu menos da sua magnificência, senhor meu – respondeu Don Quixote-, e assim vos digo que à mercê do que vos hei pedido, e que vossa liberalidade me afiança, é que amanhã mesmo me hajais de armar cavaleiro. Esta noite, na capela deste vosso castelo, velarei as armas, e amanhã, como digo, se cumprirá o que tanto desejo, para poder, como se deve, ir por todas as quatro partes do mundo buscar aventuras em proveito dos necessitados, como incumbe à Cavalaria e aos cavaleiros andantes, qual eu sou, por inclinação de minha índole.”
A partir do século VIII os exércitos dos reinos europeus começaram a usar mais a Cavalaria como arma de guerra. Os exércitos eram formados por cavaleiros armados pelos respectivos senhores feudais, que a este juravam lealdade, e este ao rei. Ser cavaleiro não era um privilégio que podia ser conferido a qualquer pessoa, pois o custo dos equipamentos e montarias era muito alto, só suportável por pessoas de alguma posse. Daí generalizou-se pela Europa o costume de reis e grandes senhores feudais distribuírem partes das suas terras aos seus vassalos com a condição de que estes viessem em seu socorro em caso de guerra. Esta foi, por exemplo, a política dos reis francos ao dividir o seu império em marcas, condados, ducados, baronias, etc. distribuindo esses feudos entre os seus cavaleiros mais leais, dando origem aos condes, marqueses, barões e outros potentados, que viriam a se constituir na nobreza feudal.
Como o cavaleiro não tinha nem tempo nem disposição para o trabalho, já que a sua ocupação era sempre a guerra, as aventuras, os torneios militares, somente os bem nascidos podiam exercer essa função. Com o tempo, o título passou a ser um direito hereditário, que passava de pai para filho. Cada senhor feudal sagrava os seus cavaleiros e recebia um dote de terras; estes por sua vez também fazia os seus cavaleiros e iam criando os seus vassalos. Desta forma o território europeu foi se atomizando de tal forma, que a vida urbana praticamente desapareceu na Europa a partir do século VII, concentrando-se apenas em algumas pequenas cidades, às quais os senhores feudais dispensavam protecção em troca de impostos.
As Cruzadas
Esta situação iria mudar com a ocorrência das Cruzadas. No final do século X, uma empobrecida e desorganizada sociedade europeia via com muita preocupação o avanço do poder muçulmano, que ocupava fatias de território cada vez maiores em terras que antes pertenceram ao Império Romano, e avançavam agora, já em terras europeias. A península Ibérica e consideráveis partes do Norte da África eram agora governadas pelos mouros. A religião muçulmana ameaçava suplantar o Cristianismo e a florescente civilização islâmica atraia a cobiça e o interesse intelectual do Ocidente, que nela via uma alternativa para a sua pobreza e ignorância.
Geralmente se costuma invocar a conquista de Jerusalém pelos muçulmanos como motivo para que o Ocidente tenha se armado e marchado para o Oriente para libertar a cidade santa do Cristianismo. Este pelo menos foi o motivo invocado pelo Papa Urbano II, em 1095, para convocar o povo da Europa cristã para uma cruzada conta os “infiéis” muçulmanos, que segundo ele e os seus arautos, tinham fechado Jerusalém para o Ocidente e estavam submetendo os cristãos que viviam na Terra Santa, ou que para lá se deslocavam para praticar a sua fé, a um verdadeiro genocídio.
Mas na verdade, embora a motivação da Igreja pudesse ser realmente o zelo pelos lugares santos, o que entusiasmou mesmo os belicosos cavaleiros europeus foi a perspectiva de um farto butim de guerra, que certamente eles iriam obter com a conquista e o saque das terras muçulmanas. As Cruzadas foram um movimento militar, mas as consequências sociais e económicas que elas trouxeram para a Europa superaram em muito os resultados militares. Data das Cruzadas a transformação da Cavalaria, de mera instituição militar para verdadeiras organizações político-doutrinárias, com profundas implicações na vida social e política da sociedade medieval. Nascem da interacção entre a cultura militar e a religiosa, as famosas Ordens de Cavalaria que tanta influência iriam exercer nos séculos seguintes. Templários, Hospitalários e Teutónicos, principalmente.
Cavalaria, instituição iniciática
Desde o seu início como organismo militar e instituto cultural a Cavalaria foi impregnada de elementos místicos e iniciáticos, muito a gosto da sociedade medieval. Esta característica deve-se principalmente ao espírito profundamente religioso do povo e à doutrina pregada pela Igreja, que via na prática ascética o principal caminho para o Reino dos Céus.
Assim, a Cavalaria logo assumiu uma característica de organização iniciática, com os seus rituais próprios e o seu código de valores. Uma longa preparação tinha que ser cumprida por um jovem antes de ser armado cavaleiro. Começava como pajem, servindo o seu cavaleiro nas tarefas mais humildes, depois escudeiro, auxiliando o Senhor em tarefas militares, e por fim, depois de mostrar o seu valor e a sua destreza nas artes militares, e comprovados o seu zelo e a sua fé, eram-lhe concedido o título de cavaleiro, depois de um ritual de iniciação que não ficava muito a dever às Ordens monásticas da época.
O ritual de armação tinha a sua ritualística própria. O jovem cavaleiro passava a noite em oração, velando as suas armas. Depois, acompanhado do padrinho, que geralmente era o senhor feudal a quem servira como escudeiro, ele era levado perante um padre e na presença deles jurava fidelidade ao seu senhor, à Santa Madre Igreja, e prometia ser fiel servidor da fé cristã, e perseverar na prática da virtude, servindo aos mais fracos e protegendo os desvalidos.
Grande parte da cerimónia tinha carácter religioso e com o passar do tempo, passou a incorporar um vigoroso simbolismo. O novel cavaleiro recebia uma túnica branca de linho, simbolizando a sua pureza. Uma cruz vermelha era costurada nela como símbolo do sangue que o cavaleiro teria que derramar em defesa da fé em Cristo. Este simbolismo passou a ser observado depois das Cruzadas.
A maior parte dos ideais da Cavalaria foi inspirada nas doutrinas da Igreja medieval. Pureza, castidade, piedade, justiça para com os fracos e oprimidos, galanteria em presença de uma dama, lealdade para com o suserano e a Igreja eram as virtudes exigidas dos cavaleiros medievais. A aura de heroísmo e misticismo que os envolveu foi um produto dos bardos, poetas e cantores itinerantes, que viviam de cidade em cidade, cantando e distribuindo nas feiras as suas baladas heróicas.
O discurso de Ramsay
Alguns historiadores , já no século XIX, chamaram a atenção para a estreita relação que existia entre a Cavalaria, enquanto instituto cultural e a Maçonaria, como clube de cavalheiros, formato no qual ela emergiu no início do século XVIII. Era uma relação que constituía numa identidade de tradições, usos, costumes e compartilhamento de uma rica simbologia, inspirada principalmente na prática da Alquimia e nas doutrinas professadas por seitas religiosas alternativas, algumas delas condenadas pela Igreja.
Embora a relação entre a Maçonaria e as Ordens de Cavalaria que foram fundadas na Terra Santa pelos Cruzados só começasse a ser aventada depois do famoso discurso do Cavaleiro André Michel de Ramsay, é de se lembrar que a Genette, como era chamada a Cavalaria no tempo de Carlos Magno foi fundada por um seu antecessor, Carlos Martel, e este, como sabemos, já era considerado patrono dos Maçons operativos, pela protecção que despendeu no período carolíngio, a esses antigos irmãos pedreiros [4].
Isto mostra que mesmo antes das Cruzadas já havia elos de ligação entre a Maçonaria e a Cavalaria. Estes elos foram reforçados pelas Cruzadas, que como se sabe, mais que um movimento militar, foi uma verdadeira marcha dos povos do Ocidente em direcção ao Oriente. No imenso contingente de pessoas (mais de um milhão, segundo alguns autores), que se deslocaram para Jerusalém acompanhando o exército da primeira cruzada, pouco mais de quarenta mil eram combatentes. Os demais eram pedreiros, carpinteiros, metalúrgicos, profissionais de todo tipo de profissão e arte, que esperavam encontrar no novo mundo que iriam conquistar um mercado de trabalho mais interessante do que aquele que tinham nos seus países de origem.
De acordo com Ramsay, a Maçonaria teria sido instituída na Terra Santa, com o objectivo específico de unir os cristãos de todo o mundo. Seria uma espécie de nação espiritual, única pelos laços da virtude e da ciência, cujos membros se reconheceriam por meios de sinais e palavras de passe. Ele não fala dos Templários ou dos Hospitalários como membros desta confraria de obreiros da Arte Real, mas sugere que esta Confraria teria sido fundada nos moldes de uma Ordem religiosa, com participação de membros templários e cavaleiros do Hospital de São João. De ambas as instituições os maçons teriam herdado tradições. Dos templários uma boa parte da doutrina e elementos rituais; dos hospitalários a tradição de benemerência e humanitarismo que acompanha a prática maçónica [5].
Eis assim, formada a mística que seria dada à Maçonaria enquanto herdeira das tradições dos cavaleiros medievais. Esta ilação é bem apropriada, porquanto, de muitas formas, a moderna Maçonaria é amiúde comparada a um clube de cavalheiros que nos seus objectivos se propõe a lutar pelas mesmas causas que antes moviam os cavaleiros medievais nas suas escolhas. A mistificação e a mitificação, em ambas são notórias e fazem parte da aura de misticismo e romantismo que foram coladas às duas instituições. Como Maçom isto não nos parece ser um problema. Ao contrário, o mito e a mística são úteis quando deles se emulam as virtudes que neles se querem figurar. Mas é perigoso quando deles se extraem pressupostos para fundamentar crenças. Por que então, aquilo que era alimento para o espírito e deleite para a nossa fome de maravilhoso, passa ser uma arma perigosa que pode mutilar e matar milhões de inocentes. É delicioso, por exemplo ler as aventuras de Rolando de Roncevaux e os Doze Pares da França, as façanhas dos Cavaleiros da Távola Redonda, as românticas sagas dos cavaleiros do Graal, as Canções do Cid de Espanha e outras lendas medievais. Da mesma forma são as lendas maçónicas e a riqueza arquetípica que se hospeda nos seus símbolos, ritos e alegorias. Sabemos que há muita história e verdadeira glória por trás das românticas aventuras dos heróis que fazem a saga dos cavaleiros errantes nos parecer tão saborosa. Da mesma forma, ler um bom autor Maçom, que saiba transmitir, com boa técnica e arte literária os ensinamentos contidos nas alegorias maçónicas, é uma viagem proveitosa e produtiva.
Mas sabemos também que há muito de fantasia em tudo isso. Todavia, como em todas as grandes aventuras do espírito, só quem as vivenciar realmente saberá aquilatar o que de bom e mal há nessas experiências.
Com a Maçonaria é também o que sucede. Ela pode ser uma postura ou uma impostura. Como postura ela pode resultar numa escola de aperfeiçoamento de carácter muito eficiente. Mas se nela entrarmos apenas para satisfazer a nossa vaidade social ou a nossa curiosidade intelectual, então simplesmente estaremos participando de uma impostura.
Como disse certa vez um poeta, não é a canção que faz o cantor, mas sim, o cantor que faz a canção.
Notas
[1] As lendas trabalhadas nos graus 14 a 17 se referem especificamente à organização que Zorobabel, por permissão do Rei persa Ciro, e depois Dario I e Dario II ( famoso Assuero da Bíblia), deram aos judeus para que eles reconstruíssem Jerusalém. Vejam-se a este respeito as crónicas de Esdras. Todavia, toda a inspiração litúrgica e ritual é cavalheiresca.
[2] Esta magistral obra do grande escritor espanhol, embora seja satirize os romances de cavalaria, na época uma espécie de cordel literário de grande repercussão, ela traça um retrato bem fiel da mística, da influência e da verdadeira comunicação social que representava a cultura dos grandes heróis da cavalaria na época medieval e nos primeiros anos da idade moderna.
[3] Carlos Magno, o principal soberano da dinastia Carolíngia estipulou inclusive regras escritas para o exercício da Cavalaria. As chamadas Ordenações Carolíngias continham principalmente disposições relativas à Gennete, como era conhecida a instituição da Cavalaria.
[4] Jean Palou – A Maçonaria Simbólica e Iniciática, Ed. Pensamento, 1986.
[5] Idem, op citado.

- A acácia na lenda de Hiram Abiff
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