A Maçonaria, tal como hoje a conhecemos e com as poucas alterações que foi sofrendo ao longo do tempo, é a mesma que nasceu da constituição da Grande Loja de Londres, em 1717, pela reunião das quatro lojas que a fundaram. Desse acto fundador da Maçonaria Moderna, também designada de especulativa, relevam três características fundamentais que a definem: a variedade de profissões a que pertencem os seus membros, a tolerância religiosa e política entre si e em relação aos outros e, finalmente, a adopção de um ritual e de um conjunto de normas estatutárias, derivadas das antigas corporações de ofícios da Idade Média.
Estas três características, se por um lado, legitimam a nova Maçonaria como a continuadora daquelas instituições medievais, porque encontramos nelas, formas, expressões e comportamentos que se revêm nas lojas maçónicas, por outro lado, elas não podem ser entendidas como uma mera evolução da primeira. Primeiro, porque as lojas fundadoras da Grande Loja de Londres não eram antes operativas, ou qualquer outro tipo de confrarias ou corporações e os seus membros e os seus membros não tinham essa proveniência; segundo, porque essas corporações tinham a singularidade de congregar indivíduos da mesma profissão ou de profissões afins, enquanto as lojas maçónicas se caracterizam, precisamente, pela sua interprofissionalidade; terceiro, porque as primitivas associações medievais adoptavam um santo protector, ou orago, à volta do qual se desenvolvia uma liturgia própria, ao contrário das lojas maçónicas, onde essa questão é ultrapassada pela designação de Grande Arquitecto do Universo, sem definição objectiva, para que cada um reveja nele, ou a partir dele, o fundamento das suas convicções religiosas e o possa aceitar como seu.
É claro que estas preocupações se explicam melhor, se enquadrarmos a fundação da Grande Loja de Londres, na Inglaterra de princípios do século XVIII. Alguém lhe chamou o século da tolerância porque sucedeu a um outro que foi o seu contrário-um longo período, longamente castigado pelos conflitos religiosos, com vítimas que se contavam às centenas de milhar e com os consequentes reflexos no tecido social e na estrutura do poder político, instabilizado no interior e, por isso, fragilizado para enfrentar os concorrentes europeus, também eles a passar por dificuldades semelhantes.
Para uma Inglaterra que havia assumido uma rebelião radical contra Roma e contra a autoridade papal, era compreensível o aparecimento de certos focos do grande conflito religioso que continuava em toda a Europa, enquanto se não definisse a estrutura de uma nova religião, que fosse suficientemente autónoma e distante das questões pelas quais se rebelara. Mas a Igreja católica tinha enveredado pela via mais radical e definia as novas regras nas conclusões do Concílio de Trento. Era a separação das aguas que o protestantismo agradecia como legitimação da sua dissidência. A via protestante do cristianismo europeu tinha agora um caminho mais fácil a percorrer.
Ao longo do século XVII e com o fim do consulado de Cromwell, a Inglaterra possuía uma igreja própria, a anglicana, autónoma em relação a Roma, mas faltava-lhe uma organização de elite que tivesse uma função reguladora da sociedade, da moral e dos costumes, mas que não deixasse de promover um certo dinamismo social e económico, de que o país tanto precisava; que fosse uma espécie de superestrutura que, tanto protegesse as instituições nacionais como também lhes conferisse uma acentuada competitividade, numa Europa onde o Antigo Regime já ia dando muitos sinais de cansaço, sem deixar vislumbrar os contornos da nova ordem. Estabilizadas as instituições inglesas, havia agora que propiciar-lhes um terreno fértil para se desenvolverem, promover as melhores condições para a congregação de uma massa crítica, intelectual, científica, religiosa e política, que atravessasse horizontalmente as classes e permitisse um debate de ideias, livre e alargado.
É este o contexto em que aparece a Maçonaria Moderna, vinda do interior de um sistema político e religioso que defenderá sempre, enquanto cria as mais diversas dinâmicas de crescimento, na sociedade, na economia e nas organizações. A Inglaterra, como toda a Europa, tinha uma longa experiência de instituições corporativas que congregavam a maioria das actividades artísticas e comerciais, tinham rituais próprios e selectivos de entrada de novos membros e uma prática operativa só conhecida dos seus iniciados. É essa prática secreta que a Maçonaria Moderna importa e a coloca ao serviço e ao alcance de indivíduos pertencentes a várias classes, fazendo dessa nova organização uma Ordem de consciência e de valores. Se a Maçonaria Moderna tivesse saído do interior dessas organizações, podíamos conhecer as fases e as formas dessa evolução, as contestações internas e as dificuldades próprias de cada processo evolutivo. Mas não, as confrarias, as irmandades, as corporações de artes e ofícios, não se deram conta do nascimento da Grande Loja de Londres e o percurso de ambas decorreu afastado e sem pontos de cruzamento.
Não foram, portanto, essas instituições da antiga Maçonaria operativa que se desenvolveram no sentido da Maçonaria especulativa. Delas, a Maçonaria Moderna só aproveitou a forma simbólica e ritualista que a legitimou. Se assim não fosse, poderíamos supor que a Maçonaria especulativa bem poderia ter surgido num outro qualquer país da Europa, como em França, em Itália, em Espanha ou em Portugal. A Maçonaria moderna, da forma como a conhecemos desde 1717, não podia ter resultado do desenvolvimento das confrarias ou das corporações de ofícios, como as conhecemos em Portugal. As suas histórias são importantes, sem dúvida, sábias nas formas como definiram e aperfeiçoaram determinadas actividades ou artes, ricas nos elementos ritualísticos, simbólicos e iniciáticos que desenvolveram. Neste aspecto, a Maçonaria moderna pode reivindicar para si uma herança que lhe pertence por inteiro, mas se repararmos na vida destas instituições, no tempo em que elas coexistem, apresentam percursos paralelos sem nunca se terem cruzado, é descontínua. Das corporações de artes e ofícios, há uma herança imaterial que a Maçonaria moderna recebe e adapta ao racionalismo do século XVIII, mas a herança material e humana, transfere-se para a diversidade das novas instituições nascidas da Revolução Industrial, as Academias e as novas Universidades, as Ordens profissionais e, mais tarde, os Sindicatos.
A história portuguesa assinala a existência de inúmeras corporações, confrarias e irmandades, com uma extraordinária capacidade de intervenção na sociedade e na economia. Essas instituições tiveram, algumas desde os primórdios da nacionalidade, uma acção determinante na própria formação do estado e da nação portuguesas, sem que se tenham deixado contaminar com as prerrogativas do poder político ou do poder religioso e é pena que ainda escasseiem as monografias sobre elas que, cremos, bem podiam confirmar esta asserção. Casos como o da Casa dos Vinte e Quatro, o das Ordens Religiosas e Militares, o do movimento das Misericórdias e o da Irmandade de São Lucas, são alguns desses casos, mas há outros, e muitos, que continuam a aguardar quem os estude devidamente.
Francisco Carromeu, M∴ M∴ – R∴ L∴ Madrugada, nº 508, G∴ O∴ L∴

- O significado da cerimónia de elevação – Parte I
- Da teoria à prática: o que fazer, como Maçons?
- No espírito da Maçonaria e de Deus
- Os quatro elementos
- O espelho e o crânio


Realmente, não existe uma lacuna histórica entre os dois significados da maçonaria antiga e moderna, isto é, operativa e especulativa. Não podemos falar em “evolução” no sentido que entendemos. Como afirma o ir.’. no texto houve, sim, uma transmutação dos significados operativos para os atuais simbólicos, e, a partir daí, é explorado o conceito filosófico e especulativo da Maçonaria moderna. T.’.F.’.A.
Um excelente apanhado da historiografia oficial da Maçonaria, do ponto de vista da GLUI.
Falta-lhe, contudo, um olhar para a situação política da época, em que turbulentas condições de sucessão ao trono inglês, determinaram a decisão de criar uma instituição que enquadrasse a atividade dos maçons e controlasse a proliferação das lojas dentro de parâmetros aceitáveis pela Coroa inglesa.
O apoio dos maçons (escoceses em sua maioria) às pretensões da Casa de Stuart – herdeiros legítimos do trono inglês foi determinante para a criação da Grande Loja de Londres, depois da usurpação do trono pela dinastia Hanoveriana.
A gota d’água foi uma conspiração dos jacobitas com a coroa sueca em 1714 para depor o usurpador hanoveriano.
O Pastor Desagulliers foi muito eficiente ao definir a nova instituição, resumido no Artigo Primeiro das Constituições de 1723, onde conseguiu alienar os jacobitas (ou os católicos em geral) , sem melindrar os protestantes no que se refere à crença.
Os ingleses são muito bons quando se trata de assumir o controle da narrativa.
Qual a diferença entre maçonaria regular e a operativa.
A Maçonaria Operativa eram guildas de mestres pedreiros estruturadas em lojas locais que ofereciam sua habilidade na construção de obras em pedra, em um tempo em que a madeira era o material usual. Tinham costumes peculiares, entre eles a manutenção dos segredos construtivos através de um código de conduta muito rígido e um mecanismo de aceitação de novos membros que assegurava aquele segredo. Tinham sinais e senhas próprios que lhes permitiam reconhecer outro pedreiro ou se fazer reconhecer como pedreiro qualificado em seus deslocamentos. Eram respeitados e gozavam de privilégios de livre movimentação e isenção de taxas medievais.
A Maçonaria regular é uma instituição mais recente que adotou aqueles costumes dos pedreiros operativos. Foi inventada pelos escoceses para apoiar os reis da Casa de Stuart ou Stewart quando o Rei James VI assumiu o trono inglês, reinando sobre a Inglaterra e Escócia.
Em 1717, os ingleses deram um golpe de estado na Maçonaria da época, fundaram uma Grande Loja que assumiu o poder sobre a maçonaria e impôs algumas regras que as novas lojas deveriam seguir, para que fossem consideradas “regulares”.
Quando a Maçonaria chegou à França, ela sofreu uma mutação e surgiu a Maçonaria Liberal, que aceita o ingresso de mulheres na Ordem, o que provocou grande reação da Maçonaria Inglesa que passou a chamar a maçonaria não-inglesa de Maçonaria Irregular.
Isso não quer dizer, absolutamente, que a única maçonaria é o modelo inglês. É apenas uma questão de hegemonia autoritária.