A Maçonaria não é uma religião, como todos os Irmãos sabem. Ela é, antes, de tudo uma associação corporativa, cujos interesses estão mais ligados à política e à filosofia do que à religião, propriamente dita. Não obstante, a moderna Maçonaria pode ser contada entre os ramos que a árvore da Reforma religiosa de Lutero produziu. Nenhum historiador Maçom, que efectivamente conheça a história da Ordem, negará que os “pais” do movimento maçónico, que em fins do século XVII e por todo o século XVIII transformaram a Arte Real numa verdadeira instituição mundial, tinham, nas suas mentes, objectivos claramente políticos e que as suas actuações buscavam muito mais intervir na vida social e política dos povos do que nas suas crenças religiosas, propriamente ditas.
Os motivos religiosos, que entraram nos ritos maçónicos, tiveram apenas o objectivo de informar uma necessária liturgia. Assim como a tradição arquitectónica dos construtores medievais serviu de inspiração básica, sobre a qual o movimento se desenvolveu.
A Maçonaria moderna, na verdade, era uma nova cavalaria, que à maneira dos antigos Templários, seria uma defensora da nova fé que crescia entre os intelectuais da época, ou seja, uma fé nos destinos do homem sobre a terra, fundamentado no mérito pessoal e na sua capacidade de aglutinar interesses pessoais para a construção de uma sociedade melhor.
Esta disposição transparece nos ensaios de Adam Smith, grande filósofo iluminista, pai da chamada economia de mercado. E pode ser pinçada no mais famoso discurso maçónico do século XVIII, feito pelo criador do Rito Escocês, o cavalheiro André Michel de Ramsay.
Smith, como se sabe, produziu as mais influentes teses sobre o funcionamento das chamadas sociedades comerciais e dos problemas associados com a divisão do trabalho, a criação do valor de mercado, o poder da moeda e do câmbio, à distribuição da renda, à acumulação de capital, a vantagens comparativas entre as produções de um e outros país, explicitando, na sua opinião, as razões pelas quais as nações prosperam e se tornam potências económicas.
A noção mais importante (e polémica) da sua obra é a ideia de que uma “mão invisível” guia os povos na condução da sua economia, fazendo com que o capital e o trabalho, as duas forças que criam riqueza, se juntem para a produzir. Esta “mão invisível” obedece à uma lei natural chamada oferta e procura e o seu motor é o natural egoísmo presente em todo ser humano.
Os maçons que tiverem algum preparo na história do pensamento económico não terão dificuldades para identificar nesses pressupostos uma clara influência do pensamento maçónico, no sentido de que, mesmo na condução do processo económico é preciso a existência de uma “egrégora”, ou seja, uma comunhão de pensamentos e atitudes, exercidos pelas pessoas mais preparadas dentro de uma nação, para que esse processo conduza a um desenvolvimento orgânico e saudável, que beneficie ao conjunto da nação. É neste sentido que Smith faz a apologia do egoísmo natural do ser humano, dizendo que a liberdade de produzir era a mais santa das liberdades, pois o homem, ao dar vazão ao seu egoísmo e ao seu espírito de acumulação, estava na verdade, produzindo a riqueza da nação. Caberia ao Estado organizado e bem administrado canalizar essa energia para o bem estar geral evitando que a riqueza se concentrasse nas mãos de poucos agentes. Estava assim, criado o pensamento liberal, que ainda hoje informa as ideias de muitos economistas.
É uma significativa coincidência que a obra de Adam Smith tenha sido publicada exactamente no mesmo ano da Declaração de Independência dos Estados Unidos e fosse adoptada como Bíblia económica pelos fundadores do Império americano.
Este, também era o pensamento da esmagadora maioria dos capitalistas ingleses, que naquele justo momento, dominavam o mundo económico. É não é por acaso, igualmente, que uma expressiva maioria dos líderes que fizeram a Revolução Americana também fossem maçons. Esta ideia transparece claramente no preâmbulo da Declaração de Independência das Colónias Americanas: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.”
Ao situarmos a obra de Smith no ambiente cultural da época, não podemos deixar de cotejá-lo com o discurso do Cavalheiro André Michel de Ramsay, feito em 1738, por ocasião da fundação do Grande Oriente da França:
“Os homens não se distinguem essencialmente pelas diferentes línguas que falam, as roupas que usam, os países que ocupam, ou as dignidades com que são investidos. O MUNDO TODO NÃO PASSA DE UMA REPÚBLICA ONDE CADA NAÇÃO É UMA FAMÍLIA E CADA INDIVÍDUO UM FILHO. É para fazer reviver e espalhar estas máximas essenciais, emprestadas da natureza do homem que a nossa Sociedade foi inicialmente estabelecida. Queremos reunir todos os homens de espírito esclarecido, maneiras gentis e humor agradável, não só pelo amor às belas artes, mas ainda mais pelos grandes princípios de virtude, ciência e religião, onde os interesses da Fraternidade se tornam aqueles de toda a raça humana, onde todas as nações podem recorrer a conhecimentos sólidos, e onde os habitantes de todos os reinos possam aprender a valorizar um ao outro, sem abrir mão da sua pátria.(…)
Um discurso francamente iluminista, feito quase meio século antes da publicação da Riqueza das Nações. Nesta ideia está inserta a arquitectura que a Maçonaria trabalha. Esta arquitectura se fundamenta na crença de que o substrato fundamental de uma nação, seja em que núcleo for – económico, social, intelectual, religioso – é formado por indivíduos que adoptam um certo padrão de crenças, e por causa delas, um certo padrão de comportamento, que inclui uma ética sem adjectivos, uma visão esclarecida, e por isso mesmo, tolerante, da religião, e uma ciência com consciência, dirigida para o progresso constante e o bem estar de todos os povos.
Daí a necessidade de reunir “os homens de espírito esclarecido, maneiras gentis e humor agradável”, para com eles compor uma nova “cavalaria” toda espiritual, onde todas as nações podem recorrer a conhecimentos sólidos, e onde os habitantes de todos os reinos possam aprender a valorizar um ao outro, sem abrir mão da sua pátria.
A base do pensamento de Smith está centrada exactamente no mesmo núcleo definido por Ramsay para a Maçonaria. Pois para o pai do liberalismo económico, a riqueza das nações são construídas por indivíduos que professam exactamente essa filosofia que combina a tolerância religiosa, a liberdade de escolha e o amor pela ciência e pela beleza estética, que um dos rituais dos graus filosóficos do Rito Escocês define equivocamente como Luxo (sic).
E não foi por acaso que a filosofia de Smith prosperou exactamente na nação que mais integrou esse espírito, ou seja, os Estados Unidos da América, nação fundada por maçons, sob a égide do espírito maçónico, que na época encantava os “homens de espírito esclarecido” e atraia todos os indivíduos que tinham verdadeira noção de cidadania.
A propósito, e para apontar mais uma significativa coincidência, a Declaração de Independência dos Estados Unidos, redigida por Thomas Jefferson, teve por base a Declaração de Direitos dos povos da Virgínia, escrita por George Mason, um Irmão da Virgínia.
A vida das pessoas, como a vida dos povos, como dizia Balzac, muitas vezes, têm coincidências que a lógica não consegue explicar. E a História, como bem ensina Jules Michelet, nunca é cozida no vazio. Há sempre um caldo que a fermenta. Assim, quem quiser, de facto, entender a Maçonaria, enquanto filosofia propositiva, deve ler, ou reler, Adam Smith. E na sua esteira relembrar os princípios do Iluminismo filosófico.
Às vezes faz bem uma volta às nossas origens. Talvez nada seja mais útil e importante nestes dias que estamos vivendo.

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