A Máquina de fazer Igualdade, ou como que para uma epistemologia da Fraternidade

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igualdade, fraternidade

Apesar de ter uma clara dimensão cívica e, por isso, política e de vida em comunidade, a Fraternidade é dos conceitos mais amplos, abrangentes e difusos que podemos tentar definir. Quem questionar um Dicionário da Língua Portuguesa, fica longe de compreender o indizível que cultural e civilizacionalmente se encontra nessa palavra.

A Fraternidade é um omnipresente que, ao mesmo tempo, é um grande ausente. Desde a Antiguidade, especialmente com a revolução helenista que cria e populariza as formas religiosas de natureza iniciática, que a ideia de Irmão nasce e se consolida como a materialização dos laços que unem os confrades. Irmão é aquele que renasce através de um ritual que, vivenciado por uma comunidade que o entende através de uma hermenêutica comum, se sente parte da solução de futuro e de cosmos que a comunidade de iguais perfilha.

Esta ideia de nova família, em que os liames são o espiritual e o simbólico, e não o sanguíneo, ganhou claramente adeptos e foi a forma vitoriosa de organização dos monoteísmos de pendor universalista, o Cristianismo e o Islão. A maioria de nós não percebe o que de construção de família espiritual se encontra, quais fósseis-diretores da nossa estrutura de mentalidades, sempre que dizemos «padre», «abade», «frade» ou «madre». Muitas comunidades cristãs, tal como islâmicas, recuperaram hoje o uso da palavra Irmão para todo o qualquer membro, que estava em grande medida remetida para o universo dos que professavam votos dedicando a sua vida à vivência exclusiva da religião.

A representação que temos dos elementos que mais associamos ao Iluminismo traz-nos uma ideia de Fraternidade em processo de laicização, de afastamento ao estritamente religioso, na tríade de valores, Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Contudo, como muitos autores já desmistificaram, sendo um dos mais acessíveis em língua portuguesa José Castellani (A Maçonaria e sua Política Secreta. Santos: Traço Editora. 1981.), a influência da Maçonaria na Revolução Francesa e a própria origem deste lema devem ser colocados no seu devido lugar, fugindo-se às ideias popularizadas. Não só a Maçonaria apenas adotará esse lema já em meados do século XIX, como o original lema da Revolução Francesa nada tinha de “fraterno”: “Liberté, Égalité ou la Mort”.

A entrada da Fraternidade é tardia e já pós-iluminista. Talvez por isso, entre outros fatores, ela seja como que a irmã mais nova, ainda em busca de um lugar ou, talvez, de uma identidade. A propósito da apresentação da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, Tolentino Mendonça, no dia 3 de outubro (data da publicação da encíclica) na Revista E (revista do Expresso), afirmava: “E da tríade Liberdade, Igualdade, Fraternidade, as nossas sociedades integraram as duas primeiras, mas deixaram de fora a Fraternidade” (“Todos Irmãos”, Revista E, Ed. 2501, 3/outubro/2020, p. 98.).

Seguindo Tolentino, facilmente conseguimos, no campo da História das Ideias Políticas, vislumbrar um caminho de efetivação dos ideais de Liberdade e de Igualdade nos corpos legais do chamado Mundo Ocidental. Contudo, a Fraternidade, tantas vezes repetida, carece ainda de instrumentos que a tornem residente de direito dos códigos legislativos e jurídicos mais particulares. Difícil de definir, a Fraternidade não encontra na linguagem exata das leis o espaço para a sua dimensão eminentemente existencial. Apesar de laicizada, a Fraternidade continua a ser poética o que, aliás, não é necessariamente um demérito, mas um problema de assertividade.

Como bem nos recorda Edgar Morin no seu recente breve tratado sobre a Fraternidade (La Fraternité, porquoi?. Paris: Actes Sud, 2019.), a Liberdade e a Igualdade não são duas naturezas que se harmonizem de forma natural: a Liberdade, por si só, é criadora de desigualdade, ao passo que o domínio da Igualdade potencia o cercear da Liberdade. A Fraternidade é o elemento que une e equilibra esses dois outros princípios que se podem digladiar. Para Morin, a Fraternidade, como motor da conciliação entre Liberdade e Igualdade, “doit venir de nous”.

É neste ponto, lançado nesta reflexão pelo centenar filósofo francês, que a questão central da nossa reflexão se coloca: como tornar a Fraternidade possível objeto de conhecimento para que ela possa ser transposta para metodologias que a reproduzam e a efetivem socialmente? Morin, naturalmente, segue uma interpretação de natureza espiritual que coloca o motor e o desejo de Fraternidade no interior de cada um, como o resultado de uma gnose, de um esoterismo processual: “deve vir de nós”, afirma o filósofo.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, teve o mérito de abraçar a procura de uma definição verdadeiramente pedagógica e, por isso, demonstrativa e reprodutora de doutrina. Uma leitura do breve texto ajuda-nos a ampliar a reflexão, dando-nos um laboratório de procura de sentidos na forma como se optou pela redação do seu Artigo 1ª:

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

Este que é um dos dois únicos artigos que constituem obrigação neste texto declarativo, mostra-nos a dificuldade em apresentar, fora da espiritualidade, a Fraternidade. Por um lado, não se obriga, de facto, “devem agir”; por outro, o que Morin afirma “dever vir de nós”, é apesentado aqui como uma realidade que é inerente a quem seja “dotado de razão e de consciência”.

Razão e consciência são, assim, as dimensões de humanidade que nos definem como possibilidade de Fraternidade. Pensamento, regramento e noção de si são as premissas dessa alquimia que nos transforma em Homo Fraternus, deixando no ar a impossibilidade de se conceber a Fraternidade como inata.

Esta é, inevitavelmente, a nota final numa busca de um campo de conhecimento que nos permita criar ferramentas de construção de Fraternidade. A capacidade de ser fraterno é inata à nossa espécie, ou é adquirida culturalmente? A referida «razão», assim como a «consciência», referidas no citado Art. 1ª do texto de 1948, estão aprioristicamente em nós, ou é um ato social que as constrói, como mecânica da possibilidade de vida em sociedade, ou as faz “vir de nós”, qual arqueologia das ideias ao jeito da busca socrática do conhecimento?

Numa aproximação rousseliana, a Fraternidade é uma capacidade que temos num estado “puro”, que perdemos com a sociedade, resultado como que de uma corrupção de algo que nos era inato? E, se inato, a Fraternidade é intrínseca a cada indivíduo, ou é de um substrato mais no campo de um Inconsciente Coletivo e, desta forma, será junguiana a interpretação mais correta? Ou, longe de qualquer destas interpretações, a Fraternidade é o máximo aprimoramento das regras que nos permitem sobreviver e tolerarmo-nos em sociedade, cumprindo uma linha nietzscheziana?

Postos perante esta complexidade de caminho, e tendo como foco a possibilidade de uma epistemologia que nos balize formas para uma prática, a questão dirige-se agora para o universo maçónico: que Fraternidade é possível construir, multiplicar e tornar transformadora?

A resposta encontra-se num regresso às fontes primeiras da própria noção de Irmandade. Maçonicamente, mas com aplicação válida a todas as tradições ritualísticas, a Fraternidade é como que recriada em todo o momento em que se vivencia o ritual lado a lado, nessa natureza em que o comum nos permite participar, entendendo, e o que nos é único nos dá a capacidade de liberdade, de entendimento irrepetível. No limite, o rito, na sua repetição, é uma “Máquina de fazer Igualdade” que dilui as diferenças do Mundo Profano: hermenêuticamente, ficamos muitíssimo mais próximos, não apenas ao fazer gestos iguais, que nos ligam a todos os iguais, mas ao definir entendimentos que o ritual consigna e tornam cada um mais forte.

E é-se mais forte, no ritual fica-se mais forte, porque em liberdade nos unimos e nos individualizamos dentro de uma noção de sacralidade. E esta “Máquina de fazer Fraternidade” que é o ritual, é reforçada porque ele se alimenta semanticamente do símbolo, não apenas dogmatizado numa definição que todos assimilemos como única, mas numa liberdade de cada um ler esse momento com o seu entendimento, na sua racionalidade. A epistemologia da Fraternidade, com as ferramentas maçónicas, encontra-se na irrepetibilidade da hermenêutica que a vivência do rito e do símbolo permitem em cada individuo. Essa Fraternidade é encontrada e alimentada no rito e no símbolo, e, portanto, vem de nós e é para nós, necessitando de um método para que esse ato de surgir ocorra, recriando, por exemplo, a imagética do trabalhar a pedra, desgastando a pedra bruta, informe, numa forma perfeita que, no limite já se encontrava no interior – mas por lá estar, não significava que tivesse eclodido se não tivesse tido lugar o trabalho do mestre com o seu cinzel.

Paulo Mendes Pinto

(Publicado originalmente no perfil no Facebook da Quatuor Coronati Correspondence Circle)

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