Nada melhor que conversarmos a sós; por vários motivos – podemos destacar alguns – ninguém nos censura e, o que é melhor, sempre temos razão. E quando analisamos as nossas falhas, não precisamos de as justificar.
Passamos do sucesso ao fracasso, da conquista à derrota, sem grandes traumas.
O que seria de nós se alguém pudesse ler, decifrar ou até mesmo adivinhar os nossos monólogos. Atrevo-me, neste momento, a dividir com os irmãos um desses momentos. Não tenho a pretensão de apresentar verdades absolutas, nem tampouco ditar exemplos. São apenas resmungues de um velho e teimoso Aprendiz.
Olha, lá se vão mais de 17 anos, mas lembro-me como fosse se hoje. Quando fui iniciado, uma sensação esquisita, aquele casarão fechado, um cheiro não habitual, toda aquela estranha cerimónia, muitas das quais eram brincadeiras, que até achei esquisitas, mas entendi como sérias.
Fiz tudo que mandaram, e se mandassem pular no fogo com os olhos vendados teria pulado. Imaginava eu: se aquelas pessoas que ali estavam tinham passado por isso, por que eu não passaria? Mas dizer quais eram meus reais sentimentos com a instituição, acho difícil. Era uma grande confusão de coisas estranhas. É claro que eu achava uma coisa boa, pois alguns amigos já pertenciam a ela.
A marca mais impressionante da iniciação foi quando me tiraram a venda, e vi alguns conhecidos e um grande número de estranhos em volta de mim.
Ministraram instrução que não entendi nada, e durante as festividades posteriores continuei “perdidão”.
Passei a frequentar as reuniões e me disseram que todos eram iguais, fraternos e livres para pensar. Ouvi calado, mas uns eram diferentes: além dos aventais, olhavam de cima e diziam, solenes: – só com muito estudo você chegará aonde cheguei.
Pareciam guardar todo conhecimento na barriga ou no peito de tão estufados que andavam. Quando usavam da palavra, ditavam verdades e criticavam quem ousasse pensar diferente. Pensei: – não somos iguais e nem livres para pensar, pois o irmão sábio já criticou quem pensou diferente.
Bem, mas restava a fraternidade. Até o dia em que interesses particulares, pessoais, colocaram os ditos irmãos em campos opostos. As agressões directas e indirectas, fofocas e intrigas povoaram o que era para ser uma reunião de estudos maçónicos. Continuaram se chamando de Irmão, mas, honestamente, ninguém podia acreditar na sinceridade desse tratamento.
Foram poucos meses e quase fui embora, o desencanto foi muito grande.
Passei a procurar nos livros maçónicos e, o que é pior, os ditos escritores maçons também procuravam denegrir o conhecimento do outro.
Por muito tempo fui à loja de teimoso. As reuniões eram enfadonhas. Discursos infindáveis. Elogios gratuitos e descabidos, não sentia sinceridade nas coisas proferidas.
Uma nova iniciação na loja enchera-me de esperanças: chegariam novatos como eu e, então, eu teria a quem ser igual, pois até então eu não me sentia igual a ninguém.
Foi uma grande festa. Obviamente, fiquei no meu canto mais humilde da loja, mas isso não importava, eu haveria de receber bem os novatos.
A cerimónia de entrada das autoridades foi a maior prova de que não somos iguais: afora os paramentos, estas pessoas ditas “autoridades”, que a meu ver deveriam ser iguais e irmãos, olhavam com desdém para os demais. Mesmo antes da solenidade os figurões da loja já desfilavam num estranho ritual de bajulação às “autoridades” que pareciam dirigir-lhes olhares de desprezo. Nesse dia pouco falei com os novos Aprendizes. Fui para minha casa realmente triste. E desde então não consigo ter simpatia por essa bela ave tão linda chamada pavão.
O que é triste, pois o desfile dessa ave se repete a cada iniciação, uns mais, outros menos. Até chego a pensar que é implicância minha. Nunca mais pude assistir indiferente esse desfile de arrogância com um misto de ignorância e prepotência. Onde deixaram a igualdade e a humildade?
Para o miserável de espírito ser humilde é o único jeito, mas, para os ditos esclarecidos, estudiosos, pregadores dessa virtude, seria uma obrigação. Em algum lugar está escrito “nunca vi sábio arrogante”.
Fiquei mais deprimido, gostava de ler rituais, via neles muito de bom para mim. Nessa época passei a ser irmão, mas também amigo de um daqueles que nunca passaram, na loja, do cargo de diácono. Já passado no tempo, muito humilde e de poucas falas, não era dado a fazer discursos e nem a pregar verdades. Sempre trabalhava nas actividades mais discretas e humildes da loja. E um dia, estávamos pintando as pedras às margens da rua que dava acesso ao templo e conversávamos sobre o que acontecia na loja. Ao manifestar meus desencantos, ele fitou-me nos olhos e foi directo “as pessoas compõe a loja, não são a loja. Esta está no seu coração. Você jamais será um Maçom feliz se procurar nos outros a perfeição da Maçonaria. Ela está no seu peito, nos seus sentimentos”. Fiquei meio sem saber o que dizer… e continuamos pintando as pedras.
Passaram-se os anos, fui seguindo, buscando a liberdade, igualdade e fraternidade dentro de mim. Aquelas palavras, ditas de modo simples, devem ter sido o motivo pelo qual ainda estou aqui.
Fiz toda a caminhada objectiva da Maçonaria, mas não consegui deixar para traz a figura do Aprendiz recém chegado, sem saber muito bem o que acontece.
Hoje, sentado lá no meu canto dito INSS, tenho saudades e vontade de sentar-me ao lado dos Aprendizes. Nós não sabemos avaliar o quanto de sonhos e esperanças eles trazem. O quanto de bem ou de mal lhes podemos fazer com as nossas atitudes.
Não foram as palavras certas no momento certo, eu seria um Maçom adormecido e não teria o salutar convívio que fui descobrindo aos poucos entre a grande maioria dos irmãos.
Não podemos esquecer: o Aprendiz tem muito mais de profano do que de Maçom nos seus sentimentos.
Muito mais que o saber arrogante, temos que ter a paciência e tolerância humilde. O saber não está em quantos livros conseguimos 1er, tampouco quão belos discursos possamos fazer ou ainda o quanto somos “autoridades” ou quantos enfeites têm o nosso avental. O saber mais importante é o quanto sabemos dividir o pouco que sabemos, o quanto conseguimos a cada passo, a cada instante sermos iguais, livres e fraternos. A cada novo Aprendiz eu gostaria de repetir as palavras daquele irmão humilde e sem projecção de importância, hoje já no oriente eterno, mas que deixou pelo menos num Maçom a marca da sua sabedoria. Felizes de nós se pudermos, no silêncio, cultivar o que ele me ensinou.
Meu irmão, eu continuo com o ardor e a vontade de Aprendiz, do recém chegado. Ainda olho e procuro luzes para me guiar, tenho as mãos e o coração abertos para aprender. Sei que não cheguei à perfeição, mas não desisto de procurá-la. Obrigado, irmão Aprendiz, pelo tanto que você nos ensina a cada dia.
Por fim, a lembrança de que a Maçonaria não transforma. A Maçonaria aperfeiçoa a coisa boa, ela não cria nem transforma. A rocha bruta pode vir a ser uma rocha regular e perfeitamente adaptada, mas a comum argila jamais será uma rocha.
Ary Luiz Dalazen (in memorian)
| Ary Luiz Dalazen era Obreiro da ARBLS Estrela do Planalto n° 14, ao Or. de Curitiba, jurisdicionada ao Grande Oriente de Santa Catarina. Passou para o Oriente Eterno no dia 28 de Novembro de 2001, deixando inúmeras lições e uma exemplar vida maçónica. |

- Ser livre e de bons costumes: ênfase nos princípios éticos e morais maçónicos
- Ninguém é Maçom, somos reconhecidos como tal
- As sete lágrimas de um velho Maçom
- O Mito ou Alegoria da Caverna
- O que é uma Loja Maçónica?


Belo texto irmão Diego, realmente reflito sobre isso todos os dias, parece que a maioria dos irmãos não querem tirar a “venda” e sair de seu “teatro de gentilezas”.
Quanto a prancha inicial, digo que a frase deste irmão o qual está no oriente eterno, cito “as pessoas compõe a loja, não são a loja. Esta está no seu coração. Você jamais será um Maçom feliz se procurar nos outros a perfeição da Maçonaria. Ela está no seu peito, nos seus sentimentos”
Foi o que me fez continuar ! continue, persevere, faça sua parte e retire a “venda”.
Quanto o iniciado na Ordem se sente aprimorado ao olhar pra trás em sua jornada? Realmente está melhor moralmente de quando entrou? Se a resposta for Sim, pode afirmar categoricamente que foi a Ordem a responsável por isso? Se os homens bons são tornados melhores no seio da maçonaria e estes mesmos homens devem difundir as Virtudes no mundo profano, por que a sociedade parece mergulhar cada vez mais no caos dos vícios e da imoralidade? Nos últimos séculos a humanidade teve mais guerras e atrocidades do que o restante de toda sua história. Os ensinamentos aprendidos nas Lojas não estão sendo colocados em prática fora da porta dos Templos afinal? Ou as Lojas com sua Fraternidade são apenas mais uma bolha com atores que se confundem com os espectadores de um teatro de gentilezas e retóricas? Observemos o mundo. A Verdade salta os olhos, mas para isso a “venda” tem que ser retirada…